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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Xenofobia consentida

A propósito do Urso de Ouro atribuído na Bienal de Berlim à curta-metragem Balada de um batráquio da realizadora portuguesa Leonor Teles, dei por mim a refletir sobre a xenofobia orientada para a etnia cigana e da forma como esta é tratada com naturalidade na nossa sociedade, numa estranha diferenciação com a xenofobia (num contexto mais generalizado) e/ou o racismo.

Tirando os parolos que esgrimem opiniões impulsivas em caixas de comentários, é hoje totalmente inaceitável proferir opiniões racistas ou xenófobas, mesmo que, no dia a dia, surjam as célebres frases com a conjunção pelo meio: «Eu não sou racista/xenófoba, mas… ». Todavia, a xenofobia orientada para a etnia cigana é quase como socialmente aceitável e está de tal forma entranhada, que temos a nossa língua pejada de expressões de índole depreciativa onde a etnia cigana é usada como modelo comparativo negativo:

 

— Pareces um cigano; comportas-te como um cigano; mercadoria cigana; negoceias como um cigano; isso parece dos ciganos; és tão honesto como um cigano.

 

Juntando a isto, ainda temos os famosos sapos de louça que os comerciantes usam de forma objectiva como dissuasor da entrada de pessoas de etnia cigana nos seus estabelecimentos, perante o assentimento ou indiferença dos restantes clientes. E este acumular de comportamentos discriminatórios faz-me perceber que vivemos numa sociedade, num país que na realidade não é o que gosta de apregoar: tolerante, que aceita de igual modo todas as pessoas independentemente da sua raça, etnia, pigmentação da pele, orientação sexual, género.

Censurar, criticar, condenar determinado ato ou conduta nunca poderá ser algo dirigido a um grupo, a uma raça (seja isso realmente o que for), a uma etnia, a um género. Quem transgride (sendo a definição de transgressão também algo dúbia em certos aspetos) é uno e deve ser tratado como tal e nunca inserido num contexto grupal. Mas fazemo-lo constantemente mesmo sem grande perceção de o estarmos a fazer, mesmo quando exigimos para nós um tratamento diferenciado, mesmo quando queremos ser considerados seres humanos únicos, não um número, um +1 num qualquer grupo.

Não é por um comportamento estar enraizado, não é por um comportamento não ser constantemente censurado (seja pelos nossos pares, pelos educadores, pelos professores, pela comunicação social), que o comportamento passa automaticamente a estar correto, a ser aceitável. Ter comportamentos discriminatórios não está correto, não é aceitável.

Falar sobre isto, ver os nossos erros refletidos num documentário (por exemplo), perceber qual o âmago da nossa atitude xenófoba, da descriminação arreigada, pode ser a génese de uma mudança relacional, de algo maior. Mesmo que não gostemos de nos ver nesta fotografia, temos de olhar para ela. É a única forma de reconhecer o erro e encetar uma transformação.

 

Leonor-teles-Berlim-Berlinale.jpg

 

2 comentários

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    Sónia Pereira 25.02.2016 12:44

    Bom dia, Miguel.
    Compreendo o que refere e essa mesma situação acaba por ser usada como definição de toda a etnia cigana. Acho que, mesmo referindo que existem pessoas ciganas que vivem integradas e de forma considerada «normal», não é possível fechar os olhos para uma parte da população cigana que vive da forma como referiu. Talvez não possamos exigir mudanças, se não houver mudanças da nossa parte também. Penso que muitas vezes as pessoas vivem de determinada maneira, fazem as coisas de determinada maneira por desconhecerem ou verem os benefícios de outras opções de vida. Para o estado, talvez a via mais fácil seja a atribuição de subsídios, mas tenho a certeza que outro tipo de intervenções e ajudas seriam mais eficazes. A educação e integração são aspectos chave para motivar uma mudança, mas o acabar do preconceito, da generalização também o são.
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