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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Personagens e seus lugares como fantasmas em casas assombradas

Ao revisitar um lugar da nossa vida, talvez anos depois da nossa última visita, fragmentos da nossa presença antiga reverberam pelo tempo. Evocamos sem esfoço sensações, emoções sentidas naquele local há anos, em nós materializam-se odores, sabores, como se o tempo não fosse tempo e ali, à nossa frente, se tivesse aberto uma porta física para o passado. Sentimos o odor de um cozinhado, o cheiro de uma planta, de uma flor, que parece só ali existir e um cheiro faz-nos viajar, ora aos trambolhões, numa estrada esburacada de ansiedade, ora ao som de um hino nostálgico que nos faz sorrir.

Através deste portal mágico, a evocação de uma conversa, das pessoas que nela estavam envolvidas e do cenário onde esta se desenrolou, com todos os detalhes cénicos, tudo isto aterra com estrondo ali à nossa frente.

Os espaços nunca são só espaços e mesmo quando são espaços novos, nunca visitados antes por mim, têm em si a tatuagem de todas as presenças antigas, os ecos da sua história, como um organismo vivo que se alimenta de tempo. Do tempo de cada pessoa, animal, planta e árvore que por ali nasceu, cresceu e morreu.

Mas e o que acontece quando a evocação não é real? Quando aquilo que se materializa ali à nossa frente não existe, nunca existiu em mais lado nenhum a não ser na nossa cabeça e num documento word gravado num disco rígido de um computador?

Num passeio de fim de semana, regressei a um local onde já não ia há anos, mas que revisito com frequência, não fisicamente, mas através de palavras escritas, de uma história inventada que se desenrola naquele lugar real.

Centenas de pessoas enchiam o espaço, num evento automobilístico, mas para cada lado que olhava, apenas as via, às minhas personagens. Fantasmas que faziam desaparecer tudo o resto.

Os dois homens sentados nos degraus exteriores do museu a lerem uma carta, de dedos trémulos, pela emoção daquilo que liam e pela presença um do outro. Só os dois, na escadaria larga, diluindo todas as presenças do agora numa névoa.

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Museu do Caramulo

E entre conversas cruzadas dos visitantes, roncos exibicionistas de ferraris, a voz do speaker do evento a invadir tudo através dos altifalantes, ainda assim as conseguia ouvir, às minhas personagens.

Salvador a traduzir para inglês um carta para o outro, ali a seu lado, a entender. E entre palavras que não eram as dele, pois aquela carta não era de nenhum dos dois, a sua cadência, a sua entoação vertia para Alexander tudo o que lhe ia na alma, o medo, a ansiedade, o estrondo da paixão, a emoção da novidade de alguém o desejar, de o proteger.

Quando me dirigi para a zona das partidas da corrida automobilística, onde cada carro com arranques espalhafatosos tentava fazer mais barulho do que o anterior, porque barulho era excitação, era exaltação, era uma plateia ao rubro, vi o hotel à minha frente, no outro lado da estrada, na sua graça de edifício antigo.

Pressenti a presença das minhas personagens atrás das cortinas de uma das janelas, presenças eufóricas pela descoberta do amor. E os seus murmúrios lânguidos, os seus beijos sôfregos, os seus suspiros excitados abafavam os grunhidos toscos dos motores, na antecipação do arranque e subida da rampa.

Quando depois apareceu o avião para fazer acrobacias aéreas, voos em parafuso, voos invertidos, voos a baixa altitude, a sua passagem a riscar o céu azul, senti-me colapsar pelo medo da «minha» Alexandra.

Quando ela viu os aviões de combate em aproximação ao edifício devoluto, o antigo sanatório na serra, local onde ela julgava que o irmão estava escondido, o desespero dominou-a. Sentia-se desesperada e impotente: ela, uma adolescente, seria incapaz de travar o que aquelas máquinas de guerra tinham vindo ali fazer: destruir, reduzir a escombros um edifício e os que lá estivessem dentro.  

O avião de acrobacias sobrevoava o museu, o hotel, a serra, a baixa altitude e em mim, no meu peito, ribombavam os batimentos cardíacos aflitos da minha personagem. Os medos dela, as suas desilusões, foram, por momentos, os meus também. Em mim, tal como a ela, nada resta. Uma vida em escombros, uma vida onde se empilham corpos e perdas.

E ali estava eu num espaço que me fez evocar momentos, emoções, sentimentos, palavras de pessoas que não existem. E como é que é possível que algo que não é, se faça pressentir de forma tão forte, tão intensa?! Como é que algo que nunca aconteceu pode rasgar espaço e tempo, pode estrebuchar na memória, pode fazer doer?

Passaram anos, um livro guardado numa gaveta, numa cloud, como um génio numa lâmpada, mas as suas personagens vivem, como fantasmas numa casa assombrada, numa repetição contínua de uma história, numa luta para se escaparem de uma dimensão que é a delas, mas que aos seus olhos e aos meus, não lhes chega.

Quanto a mim, aquela que as criou, talvez precise de um exorcismo destas personagens, de lhes fechar o portal, de as deixar morrer na dimensão a que pertencem.

Esquecê-las e avançar.    

Despojos de guerra - subtrações e adições

Há uns 25 anos, entrava numa sala de cinema numa qualquer tarde de uma dia de semana, no Monumental Saldanha, sozinha, para ver um filme. Estudava cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema e, embora o cinema me fascinasse, o que realmente me tinha levado àquela escolha académica peculiar, fora a escrita. Alguma coisa que justificasse a ânsia, a necessidade, mas também a alegria de escrever.

Estava naquele dia, naquela sala de cinema, porque o meu professor de argumento aconselhara aos seus alunos um livro de screenwriting e aquele filme, o que me levara ali, tinha o argumento desse mesmo autor e argumentista.

Lera e relera o livro Story de Robert McKee e agora estava ali uma oportunidade de ver se o genial autor Robert era também um argumentista em condições. Embora, atenção, a capacidade de ensinar não tenha de estar em perfeita ligação cósmica com a capacidade de executar e o contrário também se aplica. Nem todo o executante será um bom professor na sua área.

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Story, Robert McKee (1997)

O filme “Wag the Dog – Manobras na Casa Branca”, era um filme que tinha como premissa inicial, um presidente, uma presidência de uma país, que cria uma guerra fictícia para desviar a atenção dos eleitores de um escândalo sexual, perto das eleições, um momento de extrema importância política. Temos uma guerra em estúdio, um herói de guerra, uma música de guerra, tudo a que um povo tem direito.

Trailer de Wag the Dog - Manobras na Casa Branca (1997)

O filme, com um elenco de luxo, ainda sob o ponto de vista atual, tinha quatro espetadores naquela sessão da tarde e daquele dia fica o insólito destes quatro (eu incluída) terem tentado sair da sala depois do filme ter acabado para logo descobrirmos que a porta da sala estava trancada. Nada de pânico, só gargalhadas, porque depois daquele filme, daquela história, do absurdo que todos os quatro pressentíamos que realmente não o era, mais nada restava senão rir. Seria possível descobrir o cinismo das nações, dos governos, num filme? Seria possível que o riso fosse de nervoso, um certo desconforto instalado, mais do que hilaridade espontânea?

Pois claro que era possível. A caminho dos meus vinte anos eu sabia que o mundo era bem mais do que aquilo que eu conseguia ver, mas acho que foram precisos mais de vinte anos em cima para perceber que, apesar de tudo, o que via e pressentia ainda se revestia de imensa importância.

Numa Europa em guerra, não faltam especialistas a observarem cruamente o conflito. Os EUA estão numa senda de cercar a Rússia, arranjando aliados fronteiriços, erigindo nestes novos locais posições privilegiadas, que deixarão ao Rússia numa posição desfavorecida. Uma pressão, que levou Putin a uma estratégia de proteção através do ataque. Ou… Putin é apenas um expansionista, um imperialista que pretende expandir os seus domínios e não se deixar dominar pelos imperialistas ocidentais. E a partir daqui soma-se mais uma dúzia de variações, algumas mirabolantes, outras com alguma coerência.

Linhas, linhas e mais linhas escritas. Horas de televisão, com argumentos de lado a lado. E se tudo, de um ponto de vista estratégico, como se jogássemos à batalha naval, faz todo o sentido, na prática é apenas obsceno. E, lamento, todas estas pessoas que falam de estratégia, peritos, militares, também o são. Obscenos!

E as pessoas? Os civis? Como diabo não entram as pessoas nas equações, nas análises, nos balanços analíticos daqueles que decidem e daqueles que analisam?

As pessoas entram nesta equação como números, em subtrações frias. Hoje, ontem e em todos os conflitos de que há memória. Mortos, feridos, refugiados, deslocados, migrantes, esfomeados, viúvos, órfãos, desempregados, desesperados.

Motivada por esta despersonalização dos conflitos, pela realidade das guerras “lá longe”, mas que pressenti que poderiam ser “cá perto”, por perceber que na realidade o lá longe e o cá perto não fazia qualquer diferença, porque as vítimas da crueldade da guerra eram sempre as mesmas, pessoas, o ser humano banal na sua luta diária banal, comecei a escrever o que demoraria mais de uma década a acabar – um livro sobre uma guerra em território nacional. Pelo meio, Susan Sontag, no seu Olhando o sofrimento dos outros faz-me perceber que, por mais que me esforce, não perceberei, jamais, o que as pessoas, aqueles que estão no meio de um conflito, sofrem, sentem. Perceber a minha ignorância, dá-me humildade. E a humildade anda de mãos dadas com a empatia.

 

“Um número e assim era a vida humana por aqueles dias. Um mero número numa equação que usava mais subtrações do que adições. Pensar que cada uma daquelas pessoas ali sentada a comer, cada uma daquelas pessoas lá fora, desde o recém-nascido aos idosos, homens e mulheres, civis e militares, rebeldes e não rebeldes, todos eles, sem exceção, nada mais eram  do que números. E numa fração de segundo poderiam transfigurar-se de um Um, num Zero, sendo que o transtorno causado por essa mudança não era para ali chamado. As equações não contemplavam sentimentos, os números não tinham nome nem passado e, claro, os Zeros nem futuro tinham.»

Vou para não ficar, Sónia Pereira

Vou para não ficar (excerto IX)

Movia-se como se temesse que a floresta estivesse minada e cada passo pudesse ser o último. Encostei-me a uma árvore, senti o arranhar do tronco irregular no meu braço esquerdo e fitei-o, monitorizando cada movimento, o seu toque inconsciente com a mão direita, de dez em dez segundos, no corpo da metralhadora pendurada no ombro direito, o olhar circundante que tudo queria abarcar, que pousava dois ou três segundos em cada recanto. A uns cinquenta metros, esse mesmo olhar perscrutador deu comigo e fê-lo deter-se, agarrar na arma com rapidez e apontar-ma por entre árvores. Não me mexi. Ele não começou de imediato a caminhar. Ficou parado, de arma em riste, a espreitar-me por entre a vegetação, recomeçando a andar lentamente depois de constatar a minha inação. Quando estava a meia dúzia de metros de mim, parou e ali ficou, a apontar-me a metralhadora sem nada dizer. Não são precisas palavras na violência. Bastam as ações.

Lembrar-se-ia de mim? Sei que mudei, que sou um pálido, distorcido reflexo do que era há uns meses. Mas talvez algo de mim tenha permanecido na sua memória.

Embora o tenha reconhecido ao longe, a imagem grotesca que guardava dele era um contraste absurdo com a realidade. Ele era apenas um miúdo. Por entre a sujidade daquele rosto de feições retesadas pela adrenalina, vislumbravam-se as borbulhas típicas de um rosto ainda púbere. Mais novo, mais baixo, menos entroncado do que me lembrava. Também ele era um pálido, distorcido reflexo da imagem guardada na minha cabeça. Mas embora o aspeto fosse distante da recordação, a expressão era a mesma. A personalidade projetava-se em cada detalhe da fisionomia do rosto. A testa franzida, os maxilares tencionados, o queixo levantado num desafio, traduziam a clara necessidade de se sentir valorizado, um ego ferido, uma gritante necessidade de amor. Senti mesmo, por breves instantes, vontade de o abraçar.

[...]

Quando as suas conexões cerebrais estabeleceram uma ligação entre aquela pessoa que estava à sua frente e um rosto do passado, proferiu: «Puta que pariu. Não acredito no que estou a ver.» Desatou a rir, fazendo a metralhadora movimentar-se ao sabor do estremecimento físico causado pelo riso. Para ele, eu era como um palhaço mal ataviado numa festa infantil. Ria-se da minha presença inusitada, a quilómetros de casa, da minha barriga, fruto do brilhante desempenho do seu coleguinha, do meu semblante cansado, envelhecido e ria-se das memórias aparentemente agradáveis do nosso primeiro encontro.

Fechei os olhos. O riso, o timbre da sua voz… 

Apenas ansiava por um pouco de música e esse anseio, naquele momento, quase ao nível desesperado do querer comida quando se está esfaimado, querer roupa quando se está dominado pelo frio, despertou em mim um rol de emoções tencionadas em sons e imagens.

A primeira vez que ouvi uma música que me levou às lágrimas, o cantor que adorava em criança e que agora considero oficialmente piroso, mas que secretamente ouço de vez em quando, o primeiro concerto da minha banda preferida, o burburinho na sala de espetáculos e os primeiros sons que instantaneamente calaram a plateia, a música a entrar-me ouvidos adentro pelos auriculares enquanto, no meu quarto, olho para o exterior, para o sol forte do meio do verão, que me faz fechar os olhos e lacrimejar, a tua música a dominar a casa nos dias de férias, fazendo os vidros vibrarem, as paredes estremecerem, a minha dança com Ângelo ao som da música que saía daquele rádio velho, os versos em rima na voz enternecedora de Mozart.

Abri os meus olhos.

O cantar dos pássaros, o som da água a correr riachos abaixo, o vento a redemoinhar nas chapas torcidas das casas destruídas, o chocalhar dos guizos do gado, não chegavam. Aquele riso de escárnio, o bater acelerado do meu coração cansado, não bastavam.

Pensava nisso, nessa minha quase vampírica ânsia musical — uma ânsia pela única experiência verdadeiramente transcendente e divina que conhecia — quando lhe parti a maioria dos ossos do rosto. A minha metamorfose, sempre tão rápida e inesperada, apanha todas as minhas vítimas desprevenidas. Este meu agigantamento, um David decidido a confrontar o seu Golias, faz-me agir em segundos, num impulso sem qualquer ensaio ou pensamento prévio. Deixei cair por terra o que trazia nas mãos, peguei num pedregulho que repousava no chão, junto ao tronco da árvore à qual me encostava e saltei para cima dele. Ele caiu para trás. Montada sobre o seu tronco, agredi-o consecutivamente.

Já não estava ali. A minha mente estava noutro sítio qualquer. Flutuava junto à aldeia histórica, voava por cima do rebanho de ovelhas, sentia o peso do calor nas pálpebras quando observava o horizonte desprovido da evidência de qualquer presença humana. O som trouxe-me de volta. Ouvi aquele estalar inconfundível, o partir de uma massa dura mas porosa e também aquele som não tinha nada de musical e odiei-o ainda mais por me dar aquilo e não música. A minha tão ansiada música. Ele não gritou, não berrou e ocorreu‑me que talvez me estivesse a compreender.

Vou para não ficar (excerto VIII)

Um rol de emoções, ecos do passado, murmúrios do futuro em quatro mãos que se tocavam, em dois olhares que se fitavam mutuamente. Numa sincronia perfeita que poderia ser atestada se o momento tivesse sido gravado e pudesse ser revisto, uma e outra vez, fotograma a fotograma, segundo a segundo, os dois levantaram-se ao mesmo tempo, num movimento brusco, irremediavelmente sugados um pelo outro. Duas células a unirem-se num procedimento natural. Beijaram-se, agarraram-se com violência. Treparam à mesa, ignorando pratos, talheres e a panela. Duas respirações alteradas que rugiam em uníssono uniam-se numa conversa urgente. Um talher caiu no chão da cozinha tilintando, uma das cadeiras tombou para trás com estrondo. Salvador despiu a camisola azul de Alexander. Beijou-lhe o queixo, o pescoço, o peito, um e outro mamilo. Ajoelhados em cima da mesa, de olhos fechados, numa abstração de espaço e tempo, Alexander sentia o toque da boca de Salvador em cada parte do seu corpo e sobressaltava-se a cada novo pousar de lábios. Pousou-lhe as mãos na cabeça, embrenhando-as no cabelo escuro cortado curto. Ele beijou-lhe o umbigo. Sentiu a ponta da língua a introduzir-se na cavidade e as lágrimas simplesmente assomaram-lhe aos olhos. Corriam em torrente pelas faces, pingando para o torso, escorrendo peito abaixo. Abriu os olhos. A evidência, aquilo que se procura uma vida inteira, o motor acelerador da existência, estava ali. À mão de semear.
 

Vou para não ficar (excerto VII)

14 de outubro
 
A água escorreu gargalo fora do garrafão de plástico, fluindo pelo alcatrão, indo ensopar-se na terra exposta, onde o lancil do passeio e calçada portuguesa tinham sido arrancados. Não há dia que não pense naqueles olhos que me fitaram por meia dúzia de segundos, do outro lado da estrada, antes do corpo, impulsionado por uma bala perdida que trespassou as costas, ter caído para a frente, de bruços. Era apenas uma criança. Aquele olhar castanho carregado de esperança e determinação, tudo coisas já perdidas para mim, palavras com um significado abstrato, arde dentro de mim e pela primeira vez desejei morrer só para poder esquecer, porque sei que por mais anos que viva, aquela será a primeira e última imagem que verei ao acordar e deitar. Uma criança de bruços, rosto colado ao chão, com as mãos a tocarem ao de leve num garrafão que se esvazia e eu, na minha passividade provocada pelo choque, observo do outro lado da estrada, gravo de forma definitiva, inapagável, cada detalhe, cada som, cada cheiro daqueles minutos para todo o sempre dentro de mim. 

Quando esquecer e morrer são os sonhos que impulsionam uma vida, algo de muito errado se passa neste mundo. 
 

Vou para não ficar (excerto VI)

Tomaram banho de água quente juntos, numa banheira cheia, quase a transbordar. Apesar de apenas terem dormido um par de horas, um mútuo desassossego interno impedia-os de caírem numa dormência proporcionada pela água cálida e pelo cansaço. Tocavam-se, deixavam-se estar envolvidos pelos braços um do outro. Por vezes beijavam-se devagar, de olhos fechados, sentindo no mais íntimo e recôndito lugar dentro dos seus seres a gravação daquele toque, daquele sentir, o calor do outro, o cheiro do outro. Estavam viciados na intimidade nunca antes experimentada.     

Com a água já tépida, quase fria, decidiram sair da banheira, salpicando o chão da casa de banho. Envolveram-se na mesma toalha, confrontados por instantes pela perscrutação do espelho da divisão, que refletia dois homens, como dois adolescentes, numa dança hipnótica. Estiraram-se ainda húmidos sobre uma das camas estreitas.

O dia começava a nascer e do exterior, através das cortinas finas, chegava uma claridade branca, baça. O silvo das sirenes dos bombeiros, a sirene do quartel mais próximo que clamava por ajuda, o som de um avião de pequeno porte, possivelmente um canadair que, com a chegada da aurora, viera ajudar no combate ao fogo, todos esses, ora fugazes ou persistentes sons passaram despercebidos entre os beijos e murmúrios daquele quarto, onde cada pedaço de pele foi tocado, cheirado, provado. Novos detalhes do corpo de cada um foram descobertos. Duas pequenas depressões perfeitas no fundo das costas, antes das nádegas, que Salvador tateou uma e outra vez, memorizando cada centímetro, o aroma do pescoço de Alexander, os músculos dos braços, firmes, sem serem excessivos ou ameaçadores, a ténue covinha que se formava no centro do seu queixo, os pés de dedos perfeitos, delicados, a pele, o aroma da sua pele morena, o aroma das axilas, cada um desses detalhes deixava Salvador ébrio.

Se Salvador usava todos os sentidos do seu corpo, Alexander fechou os olhos, sentindo o outro na ponta dos seus dedos, nas palmas das suas mãos, na sua boca. A depressão no centro das costas, formando uma via perfeita do pescoço às nádegas, as omoplatas salientes, o pescoço esguio, que cheirava a amêndoas, que fazia lembrar manhãs de inverno dentro da cama a ver chover lá fora, as cristas ilíacas protuberantes, o peito, o estômago liso, a boca de lábios finos, as orelhas pequenas, o arco do nariz, as pálpebras dos olhos. Alexander beijou-lhe as pálpebras dos olhos, as sobrancelhas, a testa alta.    

Quando fizeram amor pela primeira vez, depois de esgotarem a prospeção do corpo um do outro, domados por um sentimento que já não era de urgência mas de plenitude — uma declaração de amor depois de meses de paixão avassaladora que se transformara lentamente numa afeição que fazia sorrir só de se pensar nela — mesmo que desajeitados, atropelados pelas vontades rápidas dos próprios corpos, foi a confirmação de que estava certo, de que aquilo que eles eram, mesmo que contrariando vontades alheias, era o correto. Mais nada, nunca antes, nunca até àquele momento, tinha sido tão absolutamente perfeito. «Estás dentro de mim» — sussurrou Alexander ao ouvido de Salvador, — «estás dentro de mim».

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

 

 

 

Vou para não ficar (excerto V)

Em pé, em cima das muralhas, descalço-me com todo a cuidado. Sinto o toque áspero das pedras na sola dos meus pés sujos. Tiro todos os farrapos que trago vestidos. Com um impulso desajeitado, atiro-os ao vento e aqueles panos gastos e descoloridos parecem pássaros gigantes desengonçados a tentar o voo pela primeira vez. O sol descreve um semicírculo descendente mesmo diante dos meus olhos. A minha sombra faz-me lembrar um corcunda invertido. Uma protuberância arredondada a marcar uma figura de extremidades esguias, quase esquecidas pela sombra. Inspiro fundo e sinto o pulsar deste sítio. Pedras postas sobre pedras há centenas de anos, partes de um puzzle há muito desfeito e de aparente irresolução, árvores que se agarram à terra cada dia com um pouco mais de força, o sibilar de um réptil por entre a vegetação, o vale num declínio perfeito. Um bando de pássaros cruza o céu numa coreografia síncrona. 

Por momentos, o impulso de erguer os calcanhares, fletir as pernas, abrir os braços dominou-me e o mantra do teu nome foi substituído por outro. «Salta. Salta. Salta.» Imaginei-me a sobrevoar o vale, o rebanho de ovelhas entre o arvoredo, subir num voo que rasgava o ar quente, me envolvia, contornar o rochedo em forma de cabeça de velho, o pequeno cemitério e deixar-me estar a boiar, dormente, nesta tarde quente, sentindo os avanços do sol no céu sem nuvens.
Estou completamente nua nas muralhas de uma aldeia histórica. Essa evidência, que irrompeu na minha mente como um pensamento sem importância, refreou-me os impulsos de voo. Caminharei para a loucura, mas sei que ainda lá não cheguei, caso contrário esta perceção de nudez nada provocaria em mim. Nem perceção seria.

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

Vou para não ficar (excerto IV)

Lembro-me perfeitamente dela. Enquanto corro atabalhoadamente por entre as árvores, mal vejo onde ponho os pés. Nos locais onde a erva ainda está molhada devido ao orvalho noturno, o solo parece manteiga e nem consigo perceber como, das duas vezes em que escorrego, acabo por me equilibrar e não cair. 

 

Ouço a minha respiração rápida, um grunhido descompassado que facilmente se destaca do ambiente praticamente estático da floresta. Corro e não sei se é devido ao som da minha própria respiração, aquele som que terrivelmente se assemelha ao arfar de uma fera acossada que foge do seu predador, começo a sentir medo. Até àquela altura, talvez devido à adrenalina, o desconforto do medo ainda não me tinha tocado. O medo, para além de desconfortável, desconcentra. A minha cabeça enche-se de imagens e corro por correr, conduzido por uma qualquer capacidade inconsciente, automática, pois não vejo o caminho, não tomo decisões.

 

Lanço um olhar para trás, sem parar de correr. Aquela figura de contornos claros em fundo castanho esverdeado desperta em mim, por segundos, uma pontada de erotismo. Não paro de correr e volto a olhar para a frente. Tronco caído, desvio-me. Umas quantas pinhas espalhadas, dou um salto. Durante esta prova de perícia, entre movimentos instintivos, ocorre-me o quão estranho é este aperto de peito que sinto. Medo embrulhado num fino papel de luxúria.

 

Lembro-me dela como se tivesse sido ontem. Ela não foi a única, mas, talvez por ter sido a primeira, ficou-me na mente. Recordo cada detalhe daquele dia. Um intenso odor a pólvora que se impregnara em mim, um zumbido constante de gritos e lamúrias, os guinchos agudos da mãe dela, a euforia, aquela doce sensação de invencibilidade, de se ser um pequeno e poderoso deus, o olhar de desafio do irmão, as minhas mãos enterradas na massa de cabelo dela, as coxas peganhentas e quentes… Não o recordo como uma memória pessoal, mas como se recordasse detalhes de uma vida alheia. Não que estes rasgos de psicologia barata me inocentem do que fiz. Eu sei o que fiz. Mesmo que agora, em retrospetiva, me pareçam atos de um louco, fui eu. Eu, que ia para a faculdade. Eu, que jogava futebol aos sábados à tarde. Eu, que ia acampar com os amigos nos festivais de música de verão. Eu, que adorava os almoços de domingo em família. Eu, o mesmo eu que agora corre, o mesmo eu daquela tarde que agora recordo em imagens gráficas. Eu.

 

Ouço um estrondo percorrer as árvores e ainda os pássaros não se puseram todos em debandada devido ao impacto sonoro, já aquele barulho tem uma repercussão dolorosa na minha coxa esquerda. Um tronco podre deitado no chão torna-se o acorde final desta minha fuga. Tropeço e caio de barriga para baixo. O cheiro da terra húmida faz-me fechar os olhos, pensar novamente nela. Ouço o ruído de folhagem e sei que cada feto afastado, cada caruma pisada, anuncia a sua chegada iminente. Sei que sou mais forte do que ela. Mesmo com uma bala numa perna. Ela está armada, mas mesmo assim poderia tentar subjugá-la. Sinto-a a poucos metros de mim, mas não movo um músculo. Não sei porquê. Limito-me a pensar nela. Cabelo castanho, medo nos olhos, cheiro a sabão, corpo quente.

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

Vou para não ficar (excerto III)

Eu não sou eu. Quer dizer, eu sou eu, mas é como se este eu estivesse enfiado dentro de uma caixa terrivelmente apertada e danificada. Uma urna metálica amolgada. Esta caixa oprime, magoa e faz-me perder intermitentemente a consciência. O corpo já não é corpo, é caixa. Um homem na caixa. E só anseio libertar-me desta prisão.

 

Vê-la, ouvi-la, revolta-me. Não me consigo controlar. Sei ainda que a revolta é o caminho para a minha libertação. 

 

Ou… talvez não. Ocorre-me, quando a floresta fica iluminada durante segundos pelos faróis de um carro em movimento, que sempre me senti assim. Revoltado. E nem por isso fui um homem livre durante a minha curta vida. Quando ela, agora sentada aqui ao meu lado, absorta em pensamentos insondáveis, me agrediu, como uma onda gigante que me engolia vinda do nada, pela primeira vez senti o ténue cheiro da liberdade. Mas o corpo, esse, está num cárcere insuportável. Nunca antes senti nada assim. Como se em vez de um, eu fosse dois, como se lentamente me dividisse ao meio. Um que se sente preso e está capaz de fazer de tudo para se libertar e outro que nunca se sentiu tão livre até este momento.  

 
Não sei o que lhe passa pela cabeça. Carrega comigo, sempre calada. Transporta-me. Em mim, existe uma semente que germina. Queria pedir-lhe desculpa. Queria lamentar cada segundo que compartilhámos juntos. Queria pedir perdão por cada gesto, palavra e até pensamento, mas o que me sai da boca são apenas impropérios, mais do mesmo. Talvez eu seja isto, alguém primitivamente mau. E nesta contagem decrescente, não há tempo para reconstruir um novo edifício levantado sobre alicerces deficientes. Mais vale implodi-lo. 


Implode-o!

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)
 

Vou para não ficar (excerto II)

As mãos de Salvador, amornadas pelo sono, apertaram as de Alexander para o serenar. Não precisavam de falar. Aquele gesto simples, duas mãos que cingiam outras duas, fez desvanecer o cenário noturno de agressão e medo que povoara a cabeça do sargento e apenas a sensação morna de ser amparado subsistia. Aproximaram-se, sentindo a respiração um do outro. E num impulso simultâneo, beijaram-se. Primeiro devagar, num leve roçar de lábios, como se a escuridão pudesse dissimular a ação. Depois de forma sôfrega, urgente. Tatearam o rosto um do outro, sem que os lábios se distanciassem. Nariz, sobrancelhas, orelhas, olhos fechados. Tocaram o corpo um do outro. Pescoço, costas, peito, braços. Se o beijo que os unia era impaciente, a rasar a violência, a forma como se tocavam era suave, amedrontada pelo desconhecido, num contraste rítmico com o beijar acelerado. Pontas dos dedos que perscrutavam pequenos pedaços do corpo do outro.

Sentados na cama, de olhos fechados, dominados pelo ribombar cardíaco que os ensurdecia, que os agitava ao extremo da dor física, a vida, o querer alguma coisa, poder-se-ia resumir apenas àquilo. Lábios nos lábios, língua dentro da boca do outro, dedos a acariciarem um pescoço, a memorizarem a fisionomia de um nariz, um toque na nuca que faz estremecer, uma palma da mão pousada no peito que arranca um gemido ténue entre beijos, um suspiro causado por uma mão que afaga um rosto.

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