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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Revenged love ─ da China, com amor

Não haverá fenómeno de entretenimento tão apoteótico, em 2025, como a série BL chinesa Revenged Love.

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Para os amantes deste género audiovisual, a sigla BL não será uma novidade; para aqueles que aterraram neste universo paralelo, BL significa Boys Love. Estou assim a falar de séries ou filmes com uma temática ou com personagens gays, sendo esta uma temática bastante explorada na produção audiovisual em alguns países asiáticos, onde a Tailândia aparece como a rainha nas produções BL e GL (Girls Love). O conteúdo LGBT é tão importante na indústria audiovisual tailandesa, que chegamos a ter atores a formarem pares fixos em várias séries, como se o amor transpirasse para a vida real e se mantivesse para além das telas. Há toda uma máquina montada que leva os atores a fazerem trabalho promocional das séries BL de formas tão diferenciadas e extremas que, aos nossos olhos ocidentais, são pura propaganda manipuladora das emoções (do público e dos próprios atores). Se um par fixo é separado, há choradeira, baba e ranho garantidos no universo dos fãs.

Embora a Tailândia seja rainha, outros países asiáticos também produzem conteúdos BL. Japão, Coreia do Sul, Taiwan são outros assíduos no género em questão, embora com características muito distintas na forma como escrevem, interpretam e realizam o mesmo género de produto.

Mas e a China? Onde para o maior gigante asiático?

Com o governo chinês a colocar restrições várias à promoção (ou simples divulgação) de conteúdos LGBTQIA+, as produções do país tiveram de contornar de forma criativa as limitações impostas, passando, inicialmente, por produções que não são óbvias no seu intento, mas são claras para quem as vê. Os bromances são séries com personagens masculinas, onde os relacionamentos ficam-se pela amizade (no plano do óbvio), mas vão além disso no plano do implícito (The Untamed é um perfeito exemplo disso. Passados mais de 5 anos do seu lançamento, ainda é uma série de culto e referência).

Também a transmissão de séries e filmes, mesmo que rodados em território chinês, pode ser feita por canais de streaming sedeados em outros países, sendo assim possível uma série BL produzida e rodada na China, estar disponível em diversas plataformas asiáticas (e não só), acessível para os fãs chineses através de VPN (sendo que a maioria dos fãs destes conteúdos são mesmo chineses).

Embora todas estas proibições pareçam apenas jogos infantis, estas restrições são reais, chegando ao ponto de terem sido feitas prisões efetivas recentes de várias escritoras de danmei (literatura erótica homossexual chinesa). Para além destas medidas mais extremas, no caso dos conteúdos audiovisuais, há ainda casos em que atores viram as suas carreiras prejudicadas por um certo afastamento tácito de meios de comunicação e da própria indústria, depois de terem desempenhado papéis homossexuais, uma espécie de soft ban.

A China já produziu conteúdos do género, mas quando, há alguns anos, uma dessas produções ganhou uma inesperada popularidade (Addicted), a transmissão da série acabou suspensa, criando um precedente para as produções futuras. O carimbo do medo da suspensão de uma série a meio da sua transmissão ficou gravado na mente dos espetadores e os possíveis conteúdos BL chineses carregavam de antemão esse estigma.

No entanto, 2025 tornou-se o ano em que a China regressou à cena BL com estrondo, transformando o medo de restrições e suspensões em arma de arremesso comercial. Revenged Love, uma série baseada no romance Counter Attack, da escritora chinesa Chai Ji dan (a mesma autora do livro e guião da série Addicted), chegou discretamente à cena BL, transformando-se, no entanto, muito rapidamente num êxito sem precedentes. A espera por novos episódios semanais foi criando uma espécie de adição nos fãs e a forma diferenciada como foram gerindo a promoção (através de simples clipes de vídeo dos bastidores das filmagens) foi ampliando ainda mais o estado de ansiedade em que uma comunidade inteira se viu mergulhada. Um aviso de adiamento do lançamento de novos episódios, mais ou menos a meio da transmissão da série, deu logo direito a diversas teorias da conspiração e, simultaneamente, a um estado de aflição coletiva descontrolada. O medo da potencial proibição em vista já não era fator de afastamento de espetadores, era antes manobra de manipulação de audiências.

Mas o que tornou a série Revenged Love tão terrivelmente atrativa e famosa? É certo que esta aura de proibição que ronda as produções BL chinesas acaba por contribuir para essa fama, mas não a justifica totalmente, embora seja absolutamente verdade que a origem da produção tenha um efeito diferenciado nos seus espetadores.

As séries BL tailandesas são mais ousadas e é expetável que o sejam. Numa produção chinesa, um beijo ou o contacto físico entre dois atores homens tem um pendor especial, como se o espetador tivesse um acesso exclusivo a algo único, raro. Revenged love não é um bromance, nada é apenas implícito, está tudo lá, mas não nos é dado de forma gratuita ou fútil. E essa sensação de se estar a aceder a algo único, um verdadeiro fruto proibido, é acentuada pela falta de uma promoção formal da série por parte dos atores. Não há entrevistas promocionais conjuntas (como é frequentemente feito na Tailândia, Coreia do Sul ou Japão), há, pelo contrário, a sensação de que aquelas pessoas não podem ser vistas juntas, que qualquer contacto entre elas porá em risco a sua carreira, abrindo-se assim um espaço (alucinadamente diferenciado) para as fãs chinesas fazerem todo o trabalho de promoção. E aqui estamos a falar de gigantescos outdoors, ecrãs gigantes, bandeiras, espalhados pelo país, que promovem a série onde ela, supostamente, não pode ser transmitida. Do ponto de vista ocidental, é como estar a observar um admirável mundo novo onde as coisas não seguem uma lógica que nos é familiar. É ver atores desconhecidos a serem catapultados para a fama no seu país por causa de uma série que, supostamente, ninguém pode ver.

Este efeito bola de neve, ainda assim, não pode justificar tudo. E não justifica. A adaptação da série do romance de Chai Ji Dan conseguiu, mesmo partindo de um pressuposto algo estrambólico (um homem decide vingar-se da ex-namorada, que o deixara por ele ser pobre, muito poupado e algo desleixado, roubando-lhe o seu atual namorado), chegar a um guião bem escrito, com uma ou outra incongruência, mas, ainda assim, bastante atrativo.

Mas talvez a maior força da série resida no fantástico trabalho de casting e na realização da jovem realizadora Gong Yu Shi. O trabalho de realização é cuidado, pormenorizado, como se Gong Yu Shi percebesse perfeitamente o que o público quer (uma mistura entre boa interpretação, um cuidadoso trabalho estético a nível de imagem, um humor histriónico, que consegue ser bem trabalhado, mesmo quando cai no exagero).

A escolha dos quatro atores principais será também uma das grandes razões do exército de fãs que seguem a série. A ligação entre Zi Yu e Tian Xu Ning e entre Zhan Xuan e Liu Xuan Cheng criou uma firme base para que, mesmo em momentos mais estranhos ou menos sólidos (a nível de escrita), a série se aguentasse. Zi Yu, apesar de parecer um puto galhofeiro, aguentou-se surpreendentemente bem em cenas mais tensas, onde conseguiu trabalhar as camadas emocionais de forma brilhante (a cena com a mãe é do mais absurdamente belo que vi nos últimos tempos). Tian Xu Ning consegue ter um total domínio das expressões faciais, do olhar, e é interessante ver o contraste entre a sua persona real e a personagem da série (a cena na prisão, quando está a comer, sem palavra alguma, só a levar a comida à boca, é de uma brutalidade tal... )

A nível de perceção dos espetadores, essa ligação cúmplice entre os vários atores (que se pressentia nas suas personagens) foi-se consolidando através das cenas de bastidores que foram sendo publicadas. As BTS (behind the scenes) são como uma série paralela, onde os atores são personagens de si próprios, onde as suas vidas, o que pode e não pode ser dito e feito, é usado como arma promocional, transformando esta série num fenómeno coletivo mundial. É como um reality show onde a amizade entre aquelas pessoas se consolida à frente dos nossos olhos, de uma forma que, racionalmente, percebo ser, mesmo que diferenciada, algo manipuladora.

Revenged Love não é a única produção BL chinesa de 2025 (está ainda em exibição Abo Desire e Kill to Love), mas acho que será a que melhor soube manipular a sua audiência, beneficiando de boas interpretações, uma aceitável adaptação de argumento, uma realização cuidadosa, uma banda sonora no ponto e, acima de tudo, um fantástico entrosamento entre os 4 atores principais que, sabiamente, é explorado para promoção da série.

No final, o que é proibido, o que não pode ser, criou uma horda de zombies sedentos de amor BL chinês.

Onde se pode ver: Youtube, Viki e GagaOOLala (sob subscrição).

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Revenged Love, episódio 17.

Da Coreia com amor

A vida real está mais próxima de ser um filme do Manoel de Oliveira do que de um qualquer K-drama.

E talvez por vivermos num loop, mesmo que acelerado, de rotina e mediania, se instale uma necessidade (incontrolável, patológica) de escape.

Quando era adolescente, esse escape dava-se com a novela da noite, onde havia drama, romance, conflito, confusões e muita agitação. Os livros também serviam para isso, mas com a novela era tudo levado aos extremos da suspensão da realidade, era tudo muito, uma apoteose de excessos. Uma mesma história que se fazia render por meses e nos apanhava frente à televisão, obedientes, todas as noites.

Mas as décadas de 80 e 90 já lá vão e, como dizia o poeta, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Hoje em dia, há menos paciência para se esperar religiosamente por um episódio diário de uma novela, à hora marcada, e muito menos vontade de ser agarrado por uma mesma história, partida e retorcida de todas as maneiras e feitios, durante meses a fio.

Nos tempos modernos da rotina, da réplica apurada, da repetição das mesmíssimas coisas, o escape perfeito, na forma de entretenimento, chegou com os K-dramas, séries televisivas sul coreanas, com uma estrutura em tudo semelhante à das telenovelas, com direito a todos os elementos hiperbólicos próprios das ficções televisivas: sofre-se muito, ama-se muito, sobrevive-se espantosamente a ferimentos supostamente fatais (saraivadas de tiros, facadas várias), tem-se direito a todos os comic relief da praxe, a todas as tensões familiares com reviravoltas inauditas (o Sa-Eon afinal é filho do avô, irmão do suposto pai e tio do irmão), a vilões que navegam entre serem desprezíveis e terem, ainda assim, traços de humanidade, com passados traumáticos que trazem uma maior complexidade à sua vilania.

Os K-dramas, em apenas 12 a 16 episódios, levam-nos por uma montanha russa de conforto esquisito. E é esquisito porque por lá, para além de todos os elementos identificáveis dos enredos televisivos clássicos, temos ainda outros elementos completamente fora da caixa, culturalmente falando. E alguns deles são adoravelmente esquisitos.

Dissecando este Adoravelmente esquisitos, temos um rol de elementos gráficos e sonoros que se apropriam das séries: apontamentos sonoros, típicos da comédia televisiva mais empastelada, como se estivéssemos a ver os Malucos do Riso; entradas gráficas no meio da imagem, animação misturada com imagem real, grafismos de BD, etc., imagem em câmara lenta nos momentos chave, cabelos sacudidos por ventanias que não deviam lá estar. Do que já vi, posso assegurar que todos os K-dramas têm ainda as quase quedas (em escadas, escadarias e sítios perigosamente altos) que são evitadas por uma mão, um braço amigo, que deixa as personagens em posições equilibristas absurdas.

Kdrama.jpeg

Business Proposal - Netflix

Há ainda a clássica sessão de bebedeira, em que a personagem, em situação vulnerável, chiba-se adoravelmente de todas as suas inseguranças e aspirações. E o que aquele pessoal bebe. É muito álcool ingerido, deixando-nos a nós, portugueses, campões do mundo de consumo de vinho, como uns meninos a olhar para aquelas sessões diárias de consumo alcoólico de fazer tombar mesmo as personagens fofinhas e bem comportadas.

Outro elemento de contraste é a forma como a tensão romântica é tratada. Não haverá ninguém no mundo que demore tanto a meter uma personagem a beijar outra. Parece existir um elemento de quase pudor na forma como as relações românticas são tratadas. E este elemento de não concretização romântica esticado até ao absurdo é, no entanto, aquilo que torna estas séries coreanas tão diferenciadas de tudo o resto que é feito nos mesmos moldes. Temos a interação das personagens, a aproximação física, o instalar do romance, mas o beijo é como o raio de um orgasmo, transportando a ficção coreana para uma espécie de idade da inocência, onde um encostar de lábios causa uma explosão apoteótica nos espetadores (o que não é de admirar. Por norma, numa série de 12 episódios, o cândido beijo chega por volta do oitavo episódio).

Interessante ainda é, no meio de uma estrutura narrativa muito hétero normativa, onde o homem desempenha o papel de cavalheiro que auxilia a personagem feminina, abrindo-lhe portas, evitando que seja atropelada e afins, termos elementos que desafiam os mais rígidos estereótipos de género: mulheres duronas, que chefiam empresas e são brutas e implacáveis, e homens que choram. E o que se chora nos K-dramas. O que há de falta em beijos e cenas de teor mais sensual/sexual, há-o de sobra em choro. As lágrimas rolam faces abaixo de homens e mulheres, as expressões de desorientação e desamparo não têm género e na dor é tudo igual.

Kang tae.jpeg

O ator Kim Soo- hyun em It's Ok not to be Ok, Netflix.

No que aos homens diz respeito, há ainda o apuramento de uma imagem que, por cá, não está diretamente ligada à imagem clássica do estereótipo masculino: os homens raramente têm barba (talvez algum vilão a tenha), os rostos de porcelana fazem inveja a qualquer mulher que tenha os seus cremezitos comprados em dia, feições esteticamente apuradas a puxar para uma quase androgenia, narizes e bocas perfeitos, altos, esguios, mas musculados. Homens irritantemente bonitos, com uma beleza que desafia os conceitos estéticos ocidentais. As mulheres também são esbeltas, claro está, mas isso, nós, ocidentais, já estamos habituados.

Ahn Hyo.jpg

O ator Ahn Hyo-seop

E dentro destas fantasias romântico dramáticas que são os K-dramas ─ homens bonitos a chorarem baba e ranho, beijos adiados até o espetador sentir uma tensão que é já de cariz sexual (mesmo que a concretização seja beijos muito técnicos e puros) ─ , o amor vive na sua única faceta possível, nesta atualidade que nos resta:

Irreal, hiperbólico, como o escape perfeito para a repetição dos dias.   

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