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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Despojos de guerra - subtrações e adições

Há uns 25 anos, entrava numa sala de cinema numa qualquer tarde de uma dia de semana, no Monumental Saldanha, sozinha, para ver um filme. Estudava cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema e, embora o cinema me fascinasse, o que realmente me tinha levado àquela escolha académica peculiar, fora a escrita. Alguma coisa que justificasse a ânsia, a necessidade, mas também a alegria de escrever.

Estava naquele dia, naquela sala de cinema, porque o meu professor de argumento aconselhara aos seus alunos um livro de screenwriting e aquele filme, o que me levara ali, tinha o argumento desse mesmo autor e argumentista.

Lera e relera o livro Story de Robert McKee e agora estava ali uma oportunidade de ver se o genial autor Robert era também um argumentista em condições. Embora, atenção, a capacidade de ensinar não tenha de estar em perfeita ligação cósmica com a capacidade de executar e o contrário também se aplica. Nem todo o executante será um bom professor na sua área.

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Story, Robert McKee (1997)

O filme “Wag the Dog – Manobras na Casa Branca”, era um filme que tinha como premissa inicial, um presidente, uma presidência de uma país, que cria uma guerra fictícia para desviar a atenção dos eleitores de um escândalo sexual, perto das eleições, um momento de extrema importância política. Temos uma guerra em estúdio, um herói de guerra, uma música de guerra, tudo a que um povo tem direito.

Trailer de Wag the Dog - Manobras na Casa Branca (1997)

O filme, com um elenco de luxo, ainda sob o ponto de vista atual, tinha quatro espetadores naquela sessão da tarde e daquele dia fica o insólito destes quatro (eu incluída) terem tentado sair da sala depois do filme ter acabado para logo descobrirmos que a porta da sala estava trancada. Nada de pânico, só gargalhadas, porque depois daquele filme, daquela história, do absurdo que todos os quatro pressentíamos que realmente não o era, mais nada restava senão rir. Seria possível descobrir o cinismo das nações, dos governos, num filme? Seria possível que o riso fosse de nervoso, um certo desconforto instalado, mais do que hilaridade espontânea?

Pois claro que era possível. A caminho dos meus vinte anos eu sabia que o mundo era bem mais do que aquilo que eu conseguia ver, mas acho que foram precisos mais de vinte anos em cima para perceber que, apesar de tudo, o que via e pressentia ainda se revestia de imensa importância.

Numa Europa em guerra, não faltam especialistas a observarem cruamente o conflito. Os EUA estão numa senda de cercar a Rússia, arranjando aliados fronteiriços, erigindo nestes novos locais posições privilegiadas, que deixarão ao Rússia numa posição desfavorecida. Uma pressão, que levou Putin a uma estratégia de proteção através do ataque. Ou… Putin é apenas um expansionista, um imperialista que pretende expandir os seus domínios e não se deixar dominar pelos imperialistas ocidentais. E a partir daqui soma-se mais uma dúzia de variações, algumas mirabolantes, outras com alguma coerência.

Linhas, linhas e mais linhas escritas. Horas de televisão, com argumentos de lado a lado. E se tudo, de um ponto de vista estratégico, como se jogássemos à batalha naval, faz todo o sentido, na prática é apenas obsceno. E, lamento, todas estas pessoas que falam de estratégia, peritos, militares, também o são. Obscenos!

E as pessoas? Os civis? Como diabo não entram as pessoas nas equações, nas análises, nos balanços analíticos daqueles que decidem e daqueles que analisam?

As pessoas entram nesta equação como números, em subtrações frias. Hoje, ontem e em todos os conflitos de que há memória. Mortos, feridos, refugiados, deslocados, migrantes, esfomeados, viúvos, órfãos, desempregados, desesperados.

Motivada por esta despersonalização dos conflitos, pela realidade das guerras “lá longe”, mas que pressenti que poderiam ser “cá perto”, por perceber que na realidade o lá longe e o cá perto não fazia qualquer diferença, porque as vítimas da crueldade da guerra eram sempre as mesmas, pessoas, o ser humano banal na sua luta diária banal, comecei a escrever o que demoraria mais de uma década a acabar – um livro sobre uma guerra em território nacional. Pelo meio, Susan Sontag, no seu Olhando o sofrimento dos outros faz-me perceber que, por mais que me esforce, não perceberei, jamais, o que as pessoas, aqueles que estão no meio de um conflito, sofrem, sentem. Perceber a minha ignorância, dá-me humildade. E a humildade anda de mãos dadas com a empatia.

 

“Um número e assim era a vida humana por aqueles dias. Um mero número numa equação que usava mais subtrações do que adições. Pensar que cada uma daquelas pessoas ali sentada a comer, cada uma daquelas pessoas lá fora, desde o recém-nascido aos idosos, homens e mulheres, civis e militares, rebeldes e não rebeldes, todos eles, sem exceção, nada mais eram  do que números. E numa fração de segundo poderiam transfigurar-se de um Um, num Zero, sendo que o transtorno causado por essa mudança não era para ali chamado. As equações não contemplavam sentimentos, os números não tinham nome nem passado e, claro, os Zeros nem futuro tinham.»

Vou para não ficar, Sónia Pereira

Bater, espancar, chicotear, matar.

"Era darem-lhe uma malha, chicoteá-lo, depois estrafegá-lo, regá-lo com gasolina e pegar-lhe fogo."


As palavras foram da D. Maria, mulher de 91 anos. Frágil, pouco mais de um metro e meio de um corpo delgado e em curva descendente, apoiada nas suas canadianas de estimação, mas sempre de língua afiada e respostas aguçadas que lhe fogem da boca como balas numa rajada de metralhadora.


As palavras raivosas, desta vez, tinham sido motivada pelas imagens da guerra na televisão da sala de espera. Crianças mortas, casas destruídas, caos semeado, o medo a ampliá-lo e os meios de comunicação a sorver caos e medo numa ânsia vampírica, esfomeada, sem escrúpulos.

No centro da fúria homicida da Dona Maria estava Putin, o arqui-inimigo, o anti-cristo.


Ao ouvir as suas palavras - mata-se o vilão e acaba-se a guerra - pensei em como a violência vive dentro de cada um de nós.


Durante o dia, este e os últimos quinze, não passou um par de horas que alguém não tenha sugerido limpar o sebo ao Putin. Mas também não passou nenhum a mais para além desse referido tempo, em que essa sugestão de homicídio não tenha vindo acompanhada de detalhes requintados de malvadez.


Matar não chega. Acabar com a suposta fonte do mal não basta.
Queremos sangue, queremos dor, queremos lágrimas de arrependimento, queremos ver a morte estampada no rosto antes da mesma se instalar, queremos a redução do outro a um nada. Menos do que isso...

Não chega.

A guerra, em última análise, é talvez a mais verdadeira expressão do que é ser-se humano. A ideia de que a violência, a capacidade de matar, é anti natural, uma espécie de degeneração da verdadeira essência humana, não podia estar mais longe da verdade.


Tentamos pacificar-nos, fazer crescer a empatia, semear e fazer germinar a benevolência, olhar o outro como nos olhamos a nós... Mas é um esforço. Séculos de esforço. Num primeiro impulso, quando a revolta irrompe e cresce luxuriante, o que nos vem à cabeça num primeiro instante, o impulso sem filtro, o instinto primário, é a violência. Somos isto.


Bater, espancar, chicotear, matar.

A arte frustrada dos pequenos fascistas

 

Grandes desgraças históricas teriam sido evitadas se o mundo da arte não fosse tão elitista e seletivo.

Hitler sonhava ser pintor, considerava-se, acima de tudo um artista. A pintura era o seu refúgio, o seu sonho de vida. Se o menino não tivesse sido recusado duas vezes na academia de belas artes de Viena, talvez agora a história do século XX fosse radicalmente diferente.
Veríamos uns quadros medíocres do menino nuns quantos museus, talvez o menino com o tempo até se aprimorasse (já vi pinturas piores) e o holocausto, a guerra, seriam coisas remetidas à ficção, porque um artista feliz reprime ou transforma o facínora que por lá também habita. Todo o lado sombrio seria transportado para pinceladas melancólicas numa tela, o descontentamento diluído em tinta.

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Adolf Hitler, 1912

E, verdade seja dita, aquele estilo, aquele cabelinho lambido para o lado e o bigode (não posso categorizar porque só me surgem comparações de estilismo pubiano), estão melhor para um artista do que para um ditador.

Maldito júri da academia, malditos elitistas armados em bons...

Depois, temos o nosso pequeno exemplo nacional. O sonho do Dr. Sapo de Loiça era ser romancista. Uns quantos livros editados, sem nunca conseguir chegar à pujança de vendas do Dan Brown lusitano (nem pouco mais ou menos).

Não fossemos nós leitores tão esquisitos (até nem somos, papamos quase tudo), não fossem as editoras tão elitista, remetendo o Dr. Sapo de Loiça para edições de segunda categoria, e também nós escreveríamos uma história diferente nos anais da história do ano 2021 português.

Caros eruditos que têm o poder de decisão nas mãos, lembrem-se: mais vale um artista de meia tigela (com tantos que os há, mais um menos um), do que um aspirante a ditador.

Deixai os meninos serem escritores, pintores, escultores, pianistas, compositores, bailarinos, realizadores. A mediocridade artística será de somenos importância quando comparada com o estilhaçar de uma sociedade, a morte da empatia, a frustração transformada em fúria.

 

Coisa de brincar

Um homem matou a sua companheira à facada, quando esta tentava terminar a relação de ambos. Matou-a à frente do próprio filho menor.

Uma notícia destas remete-me ao silêncio, à reflexão e parece incompatível com o estrondo de palavras obscenas que pululavam na caixa de comentários da notícia.

Já várias vezes me repreendi pelo mau hábito de ler os comentários das notícias. É um hábito mau para a saúde mental, embora necessário para tomar o pulso à mentalidade daqueles que, mesmo sem nos apercebermos, nos rodeiam. Embora as ofensas sejam ampliadas por contas falsas e bots, as pessoas que gostam de as pronunciar existem, são as ditas pessoas de bem desta sociedade.

Naqueles comentários, vociferava-se que as mulheres de «beiças» pintadas eram isto e aquilo e deviam era pintar as «beiças» pela violência doméstica, deviam era exigir a prisão perpétua, a morte aos assassinos, deviam era defender e não criticar o adorado líder que luta por valores tão essenciais para a sociedade, ao invés de se andarem a pavonear de «beiças» pintadas por coisa nenhuma. Comentário sim, comentário não, era isto, como se aquela mulher tivesse sido assassinada por um batalhão de mulheres de lábios pintados de vermelho e não às mãos do homem que supostamente a amava.

O que aquelas pessoas não percebem é, no entanto, de uma elementaridade atroz. Enquanto mulher, não me interessa que um homem passe dez ou vinte anos numa cadeia ou que seja condenado à morte pelo assassinato de uma mulher. Olhando para os exemplos de países onde as penas são mais pesadas, isso não parece desacelerar em nada a taxa de criminalidade. Se uma maior pena não demove o criminoso, então esta discussão é simplesmente inútil.

Enquanto mulher, o que eu quero é que os homens parem de nos matar. Castigar um assassino, matá-lo, não trará de volta as mulheres que lhe morreram às mãos.

E o que fará esta epidemia da violência contra as mulheres parar? Esta violência está assente em que alicerces, qual a mentalidade que a alimenta, que a fomenta?

A «coisificação» da mulher, tratar a mulher como um objeto que se agarra ou descarta, se agride e joga fora a bel-prazer, uma mulher subserviente, sem vontade própria, propriedade do marido/companheiro, essa mentalidade ainda dominante é o alimento da violência doméstica.

Quando um político, alguém com visibilidade suficiente para ter impacto nas massas que o seguem, se refere a uma mulher como «coisa de brincar», porque os seus lábios ostentam um batom vermelho, isso demonstra os valores que esse mesmo político defende. De nada vale apregoar a pena de morte para os assassinos de mulheres, a castração para os violadores, se por detrás desses pregões esse mesmo político dissemina valores que fomentam a «coisificação» da mulher, dissemina o machismo, a misoginia.

E quem o ouve, quem o segue cegamente, não se coíbe de apregoar esses mesmos valores degenerados - apelidar lábios de beiças, a já habitual retórica de chamar de puta a qualquer mulher que se emancipe, que seja uma figura com voz ativa, que não tenha medo de falar e pensar por si, tantas palavras envenenadas de ódio às mulheres

Não me interessa a morte de um assassino ou o seu apodrecimento numa prisão. Interessa-me o fim das mortes, o fim da violência, o fim de uma mentalidade tóxica e mortífera para as mulheres.

Menos do que isso, não chega!

Tribunal da Relação do Porto e as viagens no tempo gratuitas

Quando há uns tempos, fiz uma investigação bibliográfica aprofundada para a minha tese de mestrado sobre os manuais de conduta para as mulheres (1900-1950) e deparei-me, como seria de esperar, com um sem fim de livros da época de cariz extremamente machista, contra a emancipação feminina, conservadores, embrulhados na infalível proteção religiosa, exultantes na sua fúria da defesa da «moral e bons costumes». A imagem da mulher, que exigia ser preservada a ferro e fogo, era a da mulher submissa, esposa dócil, dona de casa, um exemplo de virtudes e de subjugação, um ser que não ouve, não questiona, só obedece. Linhas e linhas disto, deste discurso repetido até à exaustão por certas personalidades da época que, vendo os avanços emancipatórios no exterior, temiam que tal coisa assolasse a bela pátria lusitana.


No entanto, a minha habituação a este discurso é de o ver escrito em livros antigos, com o acordo ortográfico de 1911, numa linguagem que me remetia ao passado. Um discurso ligado a páginas amarelecidas, livros de capa dura, palavras encerradas há décadas em estantes de bibliotecas. Tudo aquilo eram reminiscências de tempos idos que não tinham como nem porquê voltar.


Quando, este fim de semana, me deparo com um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, do juiz desembargador Neto de Moura, relativo a um caso de violência doméstica, todas aquelas palavras, frase por frase, tal e qual como se estivesse a olhar para um livro com cem anos, estavam lá escarrapachadas: a violência desculpada pelo adultério, a gravidade do adultério feminino, a ofensa à honra do homem, as constantes referências à bíblia, tudo aquilo era uma viagem ao passado, uma viagem no tempo de forma gratuita.


Julgava eu que a distopia era opção literária, afinal também é recurso judicial. Admirável mundo novo com cheiro insuportável a mofo…

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Excerto do acordão de 11/10/2017, do Tribunal da Relação do Porto, escrito pelo Juiz Desembargador Neto de Moura e assinado também pela Juiza Maria Luísa Abrantes. O acordão pode ser consultado na sua totalidade aqui

De salientar que é possível encontrar argumentação semelhante usada pelo Juiz Neto de Moura noutros acordãos redigidos por ele.

Campos semeados de cartazes eleitorais

Aqui na minha rua, os últimos meses foram de obras: limpeza e pinturas de muros de proteção e pintura da sinalização no asfalto. Depois de meses (anos) em que tal obra já merecia (urgia) ser feita, pensei para mim que as eleições sempre serviam para alguma coisa. Para bem da terra, era bom era haver eleições de ano a ano, mais não fosse para que estas pequenas coisas não fossem guardadas para serem feitas dois meses antes das eleições. Era garantido que as obras andavam sempre a bom ritmo.


Mas depois lembrei-me dos cartazes. Não!! Não aguentaria tal suplício anual. É coisa normal haver cartazes eleitorais semeados por todo o lado em alturas de eleições, mas este ano, na minha santa terrinha, isto atingiu níveis endémicos. O raio dos cartazes parece que se reproduzem durante a noite, criam metáteses em locais improváveis. Se um dos partidos parece contido, apostando numa quantidade de cartazes aproximada à das eleições anteriores, outros dois partidos estão «on fire». De tanto ver as caras dos candidatos a fitarem-me a cada esquina, em cada rua, em cada beco, temo ter pesadelos com eles durante a noite. Como alívio desta tormenta visual (claramente excessiva e perturbadora da paisagem), chegam as alcunhas engraçadas que o meu filho arranjou para cada um daqueles rostos sorridentes e profissionais que nos perseguem diariamente no percurso para a escola (cara de fraldinha, cara de bebé, por exemplo).


É que se ao menos por aqui houvesse uns cartazes cómicos, estranhos, com frases deslocadas, ainda dava para uma pessoa se divertir, mas nada. Pelas minhas bandas ficaram-se pelas fotografias insípidas do costume e pelas frases feitas sem nada de memorável.


Resta-me largar umas gargalhadas com alguns dos exemplos que apanhei pela net de cartazes autárquicos deste nosso Portugal. É que há de tudo: falta de noção, erros ortográficos, piadas com os nomes das localidades que saem completamente ao lado e coisas de tão estranhas, chegam a roçar o assustador.

 

Piadas com um inexplicável teor fálico/sexual:

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Erros ortográficos grosseiros:

 

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Jogos de palavras parvos:

 

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Cartazes em que o nome da terra ou do candidato (advertida ou inadvertidamente) atrapalha:

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E aqueles cartazes em que passa a sensação que o pessoal devia estar a fumar umas cenas estranhas quando achou que aquilo seria uma boa ideia. São os chamados cartazes WTF. 

 

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Dois dos muitos cartazes do «podes chamar-me Salomé». 

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???

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Um político que não deixa cair o estereótipo de político em saco roto. Começa a quebrar as promessas de campanha logo na campanha eleitoral. Assim dá gosto ver.

 

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Não é um cartaz, mas é uma ação de campanha. Fiquei entre o riso e o choro. :)

 

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Faço minhas as palavras do Olimpo. Tanto cartaz?! Chiça, porra que é demais.

Mind the gap

Foi uma longa ausência, eu sei. Uma ausência imposta e, simultaneamente, autoinfligida. Se por um lado os meus deveres maternais me deixaram pouco tempo para a blogosfera, por outro lado a questão da relevância disto, deste espaço, também me pressionou à reflexão, ao afastamento.

 

Durante estes meses de verão nos quais raramente por aqui passei estive um mês com um reduzidíssimo acesso à internet. Férias na praia sem redes sociais, sem notícias online, sem email, sem tudo aquilo que hoje em dia se tornou indispensável para qualquer ser humano «normal». Nos primeiros dias dou por mim a pegar incessantemente no telemóvel, como uma drogadita em abstinência, a deslizar o dedo e a sentir um baque por perceber que aqueles eram movimentos inúteis. A imensidão cibernética estava-me vedada. Mas na mala esperavam os passatempos antiquados, mas que teriam de servir: uma generosa pilha de livros.

 

De entre outros, li dois livros de Svetlana Alexievich — Vozes de Chernobyl e A guerra não tem rosto de mulher (escreverei amanhã um outro texto sobre estas duas obras da autora bielorussa). Se hoje falei deles neste texto de regresso, não foi por pretender dissecar o conteúdo dos mesmos, mas pelo impacto destas leituras a seco. Com o mar a murmurejar em pano de fundo, com a areia entre os dedos dos pés ou deitada na cama à noite, nunca uma leitura me pareceu tão pura, tão clarividente como as leituras destas férias. O afastamento do caos informativo, dos casos diários que geram revolta e logo caiem no esquecimento, das opiniões diversas contraditórias, os dramas políticos nacionais e internacionais, deixou em mim um tremendo espaço vazio que permitiu fluir a leitura com uma profundidade nunca antes conseguida.

 

Lia os testemunhos de mulheres que combateram na segunda guerra mundial, as atrocidades contadas na primeira pessoa, o entusiasmo em poder ajudar a nação, emoção que não raras vezes redundava em morte ou dano permanente, e esta experiencia não foi apenas uma leitura, foi uma conversa com pessoas de um passado coletivo, uma conversa de uma lucidez atroz, mas poderosa, bela. Parava, olhava o mar, e tudo à minha volta confluía para aquelas palavras encerradas no livro, um movimento cósmico, universal, em direção à clarividência daquelas linhas, daqueles testemunhos.

 

Quando regressei à civilização, quando a internet surgiu como o copo de vinho cheio frente ao bêbedo em ressaca, dei por mim a questionar-me, a dissertar sobre a experiência de abstinência informativa: a informação é preciosa. Nunca me ouvirão fazer uma apologia da ignorância (embora haja uma quase inerente felicidade a ela associada). No entanto, será que haverá um ponto em que aquilo que consumimos deixa de ser informativo e passa a ser apenas mais do mesmo, redundância constante, um encher de chouriços que em nada contribuiu para o esclarecimento, mas antes entorpece, anestesia pela repetição, torna-nos trôpegos perante a realidade?

 

O meu filho via um qualquer programa infantil na televisão e veio contar-me que os dodôs, já extintos, engoliam pedras (na goela) para ajudar à digestão. Daí nasceu este paralelismo básico, uma metáfora elementar, mas ainda assim válida: teremos nós de engolir tamanha quantidade de pedras para conseguirmos «comer», pelo meio, alguma informação de jeito? E não estará tal quantidade de pedregulhos a pesar-nos em demasia, a atrofiar a forma como passamos a fruir a informação, novas leituras, o mundo que nos rodeia num geral?

 

Talvez uns passos atrás, um ligeiro afastamento nos permita ver esta nossa realidade de agora com maior nitidez, inserida num todo e não excluída e vendida como única, pertinente, exclusiva.

 

Amanhã regressarei com Svetlana. Estes dois livros merecem mais do que uma pequena referência fugaz num post de regresso à blogosfera.

Presságios do inferno na terra

Apesar de ser ainda manhã, a claridade da luz do sol filtrada por nuvens altas de fumo projeta sombras oblíquas fazendo crer que o crepúsculo chegou, que a luz do dia terminará em breve. A ambiência alaranjada, os trovões que soam ao longe, os fiapos de cinza que voam no ar como uma neve estival como que formam a descrição inicial de um romance de horror, uma história fantástica descrita pelos hábeis dedos de Allan Poe. A luz, as sombras deste dia, são como um prenúncio do mal que há de vir, porque a idade, as dezenas de verões vividos nesta terra, ensinaram-me que esta luz, esta claridade, é irremediavelmente um presságio, um inferno em aproximação. Não há vento forte acompanhado de calor que não degenere, não há verão que não cheire a queimado.

 

Este terror que este fim de semana chegou a todos os cantos do país, que extravasou fronteiras, que gerou comoção sem igual, é na realidade um pão nosso de cada verão para quem vive em localidades densamente florestadas. Isto que vos assusta, esta aparente novidade da morte pelas chamas, é para mim, tristemente, um sinónimo de verão. As lembranças deste medo, deste cheiro a fumo, das folhas carbonizadas de eucalipto a bailarem no ar, tudo isto me acompanha desde a infância. Recordo, ainda catraia, sair para o quintal num dia muito quente. O céu estava tão carregado de fumo, que o sol podia ser olhado de frente, sob o filtro negro e lá estava aquele disco alaranjado, como uma lua cor de laranja em plena canícula. Ao longe via-se a linha de fogo comer as árvores pela serra acima. Recordo ainda um dia em que a sirene dos bombeiros gemeu, em lamento, durante toda uma tarde. 16 bombeiros tinham perdido a vida a combater um fogo numa localidade próxima e aquele lamento sonoro foi como o choro coletivo. Aquele som das sirenes continua a gemer dentro de mim, a cada dia quente, a cada rajada de vento estival, a cada pequeno indício de fumo que me chegue ao nariz e aquele dia de há três décadas permanece vivo, viaja até à atualidade a cada novo incêndio.

 

Nada disto é novo, nada disto é culpa exclusiva de uns ou de outros, nada disto é sequer de fácil resolução. Somos dos países do sul da Europa com menor densidade florestal e, em contraste, com maior área ardida e ignições de incêndios. A questão prende-se com várias razões e só uma solução drástica poderá mudar que o verão seja sinónimo de cheiro a queimado. No entanto, mesmo a mais drástica das soluções só trará efeitos práticos visíveis a longo prazo. O meu lado realista diz-me que este inferno na terra, que me acompanha desde a infância, será coisa a que terei de me habituar e que me acompanhará até morrer e talvez com um crescendo de gravidade, dado as alterações climáticas potenciarem esta fúria do fogo.

 

Temos uma área florestal quase totalmente na mão de privados, muito parcelada, propriedade de  diversas pessoas diferentes. Recordo que os meus bisavós e avós consideravam que comprar pinhais (que por esta altura são eucaliptais) era uma forma de aplicar dinheiro e de mostrar ter-se posses. Uma herança por estas bandas inclui sempre uma bela quantidade de área florestal dividida em retalhos por zonas diferentes. Para quem herda este tipo de terrenos, é muitas vezes difícil sequer encontrar as extremas do seu próprio pinhal e os dividendos que dali pode tirar são tão escassos que não pagam sequer a limpeza do terreno. Depois, temos o forte lobby da celulose que, ao longo dos anos, transformou a diversidade florestal numa quase monocultura do eucalipto, árvore fósforo, espécie não autóctone. Por estes lados, junto ao rio, aparece também em abundância a acácia-austrália, árvore de bela floração, que pinta as margens de amarelo, mas também ela não autóctone, invasora. Em suma, não havendo qualquer ordenamento florestal, estando a floresta muito parcelada e em mãos privadas, apostando-se na monocultura e não se olhando à prevenção através da cultura de árvores «corta-fogo», e não havendo limpeza de mato, nem mesmo nas cercanias das habitações, o que temos junto às nossas casas é um barril de pólvora. Como li ontem numa rede social, viver junto a uma floresta é como ir dormir a sesta num paiol onde os trabalhadores fumam uns cigarritos e atiram as beatas para o chão.  Um verão sem catástrofe florestal é pura sorte, não é normalidade. Normal, normal, tendo em conta as características da nossa floresta, é isto. Se a este paiol se juntar as ações da natureza (trovoadas, ventos fortes), a mão criminosa e o desleixo, a explosão é inevitável, recorrente, tornando-se normalidade.

 

Quando entro em zonas densamente florestadas, quando passeio pelo meu concelho e a estrada é ladeada por eucaliptais a perder de vista, esta comunhão com a natureza deveria carregar consigo uma sensação de liberdade, mas é precisamente o inverso. A vivência nesta terra mudou significados, transmutou sentimentos básicos e a comunhão com a natureza, o cheiro das árvores, o vislumbre da mata a perder de vista, é opressiva, faz germinar o pânico, potencia o medo. E este sentido enviesado das coisas é, mais do que tudo o resto, profundamente triste.

Filmagens Quixotescas

A propósito da rodagem do filme «Quem matou D. Quixote» de Terry Gilliam no Convento de Cristo em Tomar e dos supostos danos causados durante as filmagens, ocorreu-me uma história que circulava quando, há uns valentes anos, trabalhava na área do cinema.

 

É certo e sabido que as aspirações de um realizador nem sempre se coadunam com o espaço «real» escolhido para a rodagem, daí muitas vezes ser preferível usar-se um cenário em estúdio a comprometer-se um espaço arquitetónico existente. Esta seleção dos espaços é uma dança a três: um realizador com imagens bem definidas na cabeça e que nem sempre mede as implicações da aplicação prática do seu projeto, a equipa de produção que sabe bem o aparato que uma rodagem envolve e todas as consequências (legais, por exemplo) de quebrar um contrato de cedência de espaço por danos causados e, por último, a instituição, empresa, particular, que cedeu o espaço sem ter, na maioria das vezes, bem consciência daquilo que está envolvido numa filmagem. Recordo, dos meus tempos cinematográficos, de haver uma completa estupefação por parte de quem alugava ou cedia espaços para filmagem, quando uma equipa lá aterrava carregada de material. Na cabeça de algumas pessoas, a filmagem envolveria uma ou duas pessoas com umas câmaras debaixo do braço e uns quantos atores. Quando o material começava a sair das carrinhas e camiões era ver os queixos caídos e os pensamentos a inundarem aquelas cabeças: «vão-me esfrangalhar o espaço com esta cangalhada toda.» Na realidade, é quase impossível tamanha quantidade de material e pessoas não implicar algum tipo de dano. Por muito cuidado que haja, é sempre «normal» alguma coisa partir, o chão ficar riscado, a pintura ressentida, algum vidro partido.

 

Mas de regresso à tal história, quando se falava em filmar em monumentos históricos, vinha sempre à baila uma história engraçada que nunca consegui aferir se era verdadeira ou apenas um daqueles mitos da profissão. Contava-se que um dos grandes realizadores da nossa praça (já falecido, mas um ícone cinematográfico) estava num palácio onde iria fazer uma filmagem, a explicar ao diretor de fotografia como queria filmar uma determinada cena. Na sala onde estava, explicava o movimento de câmara pretendido, enquanto ia andando para trás, imitando o movimento de um travelling (movimento de câmara sobre carris), até chegar a uma das paredes da divisão: a câmara vem, vem, esta parede é para sair, continuas a filmar, continuas.

 

Na altura, ríamos da tarefa que aquela equipa de produção tivera para explicar ao afamado realizador que «aquela parede» não podia sair. Na cabeça dele, a imagem perfeita não conhecia barreiras arquitetónicas, não poderia ser parada por uma parede. No mundo real, uma parede de um palácio centenário não poderia ser metida a baixo.

 

De regresso à notícia, a produtora portuguesa envolvida na rodagem do filme de Gilliam reconhece que a filmagem causou pequenos danos, que foram contabilizados. Algumas árvores foram cortadas com a devida autorização (supostamente não eram árvores autóctones e podiam ser retiradas e depois substituídas), algumas telhas foram partidas, algumas pedras foram danificadas e uma fogueira de grandes proporções foi feita com a presença dos bombeiros e devidamente autorizada em contrato.

 

Não duvido que, dentro do que foi contratado e daquilo que é o «normal» desenvolvimento de uma filmagem, a rodagem em questão tenha corrido dentro dos conformes. A questão aqui é outra: até que ponto é legitimo dar-se autorização (o organismo competente para tal) para uma filmagem desta grandeza dentro de um monumento património universal da Unesco?

 

Houve ingenuidade do organismo responsável que não compreendeu os reais meios envolvidos? Não houve ingenuidade, mas apenas displicência motivada pelo valor remuneratório generoso envolvido?

 

Um monumento destes não pode ser substituído se danos graves lhe forem infligidos e talvez a cautela devesse ser a filosofia a seguir no que à autorizações de filmagens e eventos neste tipo de espaços diz respeito. Havendo dinheiro, qualquer monumento poderá ser parcialmente replicado em estúdio. Já o original, se for gravemente danificado, só uma viagem no tempo o poderá reparar dentro das conformidades da época.

 

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Convento de Cristo em Tomar. imagem retirada daqui.

Feminismos

Já há uns tempos que queria escrever um texto sobre o feminismo, embora já várias vezes tenha-me focado no tema, direta ou indiretamente, noutros posts. Decidi que seria hoje devido a um texto que li ontem.

 

Pegando na definição da palavra feminismo — Movimento ideológico que preconiza a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem (dicionário Priberam) — parece-me lógico que qualquer pessoa na nossa sociedade ocidental, seja homem ou mulher, se possa considerar feminista. Aquilo que está em causa é a igualdade de direitos entre homens e mulheres, direitos e deveres semelhantes em todas as áreas. No entanto, o termo feminismo parece ter ganhado (talvez mesmo desde o início da sua aplicação) uma conotação pejorativa, ligada a um certo extremismo de palavras e ações, o que em nada favorece aquilo que deveria ser a verdadeira luta feminista.

 

Ora bem, ontem lia um texto de um amigo que alertava para um outro texto numa plataforma de divulgação feminista (capazes.pt). Esta plataforma é conhecida pela divulgação de informação de carácter feminista, mas lá pelo meio, volta e não volta, aparecem uns textos que, ao invés de promoverem aquilo que o feminismo realmente é, optam pela via dos extremos, a via da superiorização feminina. É de salientar que esta proclamação da superioridade feminina não se encaixa no conceito de feminismo. Para essa superiorização nasceu uma nova palavra há uns anos — femismo — que entra em oposição ao machismo (superiorização masculina).

 

Assim, no texto de Suellen Menezes «Feminismo é outra palavra para justiça», a autora refere a necessidade de suspensão, através da via democrática, do poder de voto do homem branco, sendo essa a única maneira de trazer, em poucos anos, a tão ansiada igualdade de géneros. Numa visão distópica, a autora encontra na proibição, numa conceção algo fascista, eugénica, a forma de chegar a um equilíbrio social entre homens e mulheres.

 

O voto dos homens brancos reforça o sistema que confere todos os privilégios aos homens brancos. Quem se surpreende que isso aconteça? E quem considera isso “justo”?

A suspensão temporária do poder do voto dos homens brancos é a única chance de produzir uma real alteração no mundo no espaço de apenas uma geração.

Excerto do texto «feminismo é outra palavra para justiça» de Suellen Menezes, retirado do site capazes.pt.

 

Não referindo sequer a grave falha argumentativa (se são os homens brancos que «mandam nisto tudo», como raio conseguiriam as mulheres impor de forma democrática um sistema eleitoral que os excluísse?!), o texto, tido e proclamado como feminista, é em tudo perigoso para o próprio movimento feminista. Não é isto que eu quero, enquanto feminista, que achem que eu defendo. Nunca uma sociedade igualitária poderia nascer de a desigualdade social de se expressar opiniões (através do voto, por exemplo), nunca a equidade poderá brotar do rebaixamento, da submissão de um género a outro. Se, pela frente, ainda estarão anos de batalha por uma sociedade justa para ambos os sexos, que essa batalha seja sempre feita com dignidade, em moldes racionais, democráticos e que nunca nos passe pela cabeça fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós.

 

Como em todos os movimentos ideológicos existem excessos, extremismos que prejudicam o conceito base ideológico (não faltam exemplos, mesmo cá em Portugal, de manifestações extremistas que apenas serviram para ridicularizar o movimento e o conceito de feminismo).

 

Neste caso, dentro do próprio movimento, as próprias mulheres têm de se distanciar deste tipo de fundamentalismos, de uma certa misandria manifestada por algumas mulheres, excluir o que não dignifica, mas ridiculariza, mostrar que há uma clara diferença entre feminismo e femismo.

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