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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Mais um gajo!

Fazia um scroll desinteressado no telemóvel numa rede social, quando me apareceu a notícia da divulgação do prémio Saramago 2022, entre polícia na universidade, Ronaldo, Qatar e a guerra na Ucrânia.

Abro a notícia do prémio literário e a primeira coisa que me saiu, alto e a bom som, sem filtro prévio, foi:

─ Mais um gajo!

Mas apontar o óbvio, mesmo usando dados que suportem esse óbvio, só traz dissabores. Não faltarão os guardiões da meritocracia, da justiça da qualidade, do valor do vencedor. Se ganhou, é porque era o melhor, dirão alguns.

Mas hoje acordei teimosa, por isso, aqui vai. Peguemos nos principais prémios literários portugueses e de língua portuguesa. Refiro-os como principais pois são os que terão um maior prémio monetário e são também os que trarão aos vencedores uma maior notoriedade.

Temos o Prémio Leya, com um valor de 50 mil euros, instituído desde 2008. Durante o período de 2008 a 2022 (sendo que em alguns anos o prémio, por decisão do júri, não foi entregue), ganharam o galardão 7 homens e 2 mulheres - 2 mulheres num total de 9 vencedores.

De notar que a própria composição do júri é também, a nível de género, bastante díspar. Começaram em 2008 com 6 homens e 1 mulher (7 membros) e hoje em dia estão com 5 homens e 2 mulheres.

Avancemos para o Prémio Saramago, que é um prémio bienal, atribuído desde 1999, com o valor de 40 mil euros. Dos 12 vencedores até à data, apenas 2 mulheres ganharam o prémio desde 1999. Ver o nome do vencedor de 2022, o escritor brasileiro Rafael Gallo, nem espanto causa. Surpreendente é ler os comentários à notícia do vencedor. A celeuma pelo anúncio não estava ligada ao facto de ser mais um homem a vencer o galardão, mas sim ser um escritor brasileiro.

Deste prémio, saliento ainda a composição dos membros do júri nesta última edição - 8 membros, sendo 5 deles homens. Esses 5 homens eram todos eles antigos vencedores do prémio em questão.

Para completar aqui este apanhado de prémios, refiro o prémio Oceanos, prémio que começou por se chamar Prémio Portugal Telecom e que é um prémio para autores de Língua Portuguesa, atribuído neste momento no Brasil, com o valor total de 250 mil reais (a distribuir entre os 3 primeiros lugares). Entre 2003 e 2021, dos 19 vencedores (primeiro lugar), apenas 3 mulheres conseguiram ganhar este prémio.

Remato com o Prémio Camões, prémio atribuído desde 1989, pelos governos de Portugal e Brasil, com o valor atual de 100 mil euros, pelo conjunto e importância da obra dos autores vencedores. Em 34 vencedores, temos 7 mulheres.

Extravasando as fronteiras da língua portuguesa e dos prémios para autores em língua portuguesa, deixo apenas os dados dos vencedores do Prémio Nobel da Literatura: 119 vencedores, 17 mulheres.

Ora, com esta pequena e singela análise não pretendo aferir que os vencedores de todos estes prémios durante todos estes anos não serão escritores capazes. Longe de mim sugerir tal coisa. Muitos deles são habitués das minhas estantes, muitos deles são presença constante nas notícias que leio, nos feeds das minhas redes sociais. Mas, tê-los a todos como presenças habituais nos meus mundos ficcionais, deixa-me um travo amargo na boca. Eu, mulher, consumo muita literatura escrita por homens. Eu, mulher, levo o meu tempo a ver o mundo pelos olhos de um homem, de muitos homens. Eu, mulher, consumo histórias sobre mulheres, escritas por homens.

─ Ah, mas são eles os melhores. Se ganharam, devem ser os melhores de todos os candidatos.

─ Serão?

Temos prémios literários decididos quase exclusivamente por homens e ganhos por homens. Temos publicações nas maiores editoras movidas por esses prémios, carreiras que se agigantam à conta desses prémios e o que sobra é uma visão unilateral do mundo, uma visão masculina do mundo. E o mais engraçado disto tudo, o mais estúpido disto tudo é que a maioria dos leitores, a maior percentagem daqueles que lê de um a mais livros por ano, é feminina.

No meu mestrado de Escrita Criativa na Faculdade de Letras em Coimbra, 80% dos alunos do meu curso são mulheres. Daqueles que querem escrever, daqueles que querem melhorar capacidades, procurar uma identidade literária e poli-la, 80% são mulheres. Mas mulheres também elas já afogadas em muita literatura masculina, possivelmente já moldadas por muitos anos a ver o mundo através de óculos masculinos.

E não deixo sugestões para uma mudança neste paradigma. Vislumbro apenas fragmentos da engrenagem por detrás desta gigante máquina que é o mundo editorial e mesmo assim consigo concluir que sou demasiado velha para acreditar em mudanças.

Foi assim, é assim e continuará assim.

 

Young Royals – contagem decrescente para a T2

As aparências iludem. Os rótulos enganam. Chegando-se ao momento da confrontação, há que se ter hombridade e se admitir que o que nos levou a um lugar especial não foi uma motivação pertinente, mas a busca de um entretenimento fácil.

Mas ainda assim chegamos lá, mesmo que por atalhos esconsos.

Há um ano atrás, num sábado, estava entediada. Chovia, não tinha nenhum programa especial marcado, estava em casa sem nada para fazer (podia ter lido um livro, mas o tempo lá fora chorava por algo mais básico e reconfortante) e meti-me a coscuvilhar opções na Netflix. Apareceu-me, entre outras coisas, uma série sueca chamada Young Royals. Pela descrição, parecia-me uma daquelas séries teens, tipo Elite, mas deixei-me convencer por duas razões: era uma série sueca e sinto-me cativada (de uma forma entre o inexplicável e o absurdo) pela Suécia e era uma série com uma temática gay e sinto-me cativada (de uma forma entre o inexplicável e o absurdo) por toda a iconografia gay desde que era adolescente (coisa que foi há muitos, muitos, muitos anos atrás).

Eram seis episódios e… vi-os todos nesse mesmo sábado. E, nesse dia, nesse malfadado dia, deu-se um fenómeno sobrenatural que ainda perdura. Nunca na vida tinha revisto uma série (já tinha revisto filmes, mas escassas vezes e é raro reler livros – há muitos filmes e séries para ver e muitos livros para ler, para se perder tempo com revisitas). Mas, desde esse nubloso dia, já revi a série Young Royals umas quantas vezes.

Porquê?

A escrita para mim é coisa de grande importância. Já estudei cinema, com o intuito de aprofundar a disciplina de escrita de argumento, estudo escrita criativa neste momento, tentando manter um arnês e uma trela, em jeito de subjugação, numa área querida mas que não consigo ainda dominar ou levar descontraidamente a passear.

Por vezes, quando «consumimos» produtos audiovisuais, deixamo-los pelo meio, não prosseguimos, achamos entediante ou repetitivo e não conseguimos perceber a razão. Normalmente uma das razões disso acontecer passa pela escrita deficiente desses produtos. Quando nos deixamos apanhar por algo, quando rejubilamos, nem percebemos a mestria daqueles que, com muita habilidade e talento (e através da escrita), montaram aquilo que nos levou ao céu.  

Esta série está, acima de tudo (mas não só), muito bem escrita. O argumento é de Lisa Ambjörn e das irmãs Forsman e espanta-me a capacidade de, no que parece um curto espaço disponível (6 episódios) tanto acontecer, sem nunca cair no previsível, no cliché, no forçado e, acima de tudo, no inverosímil. É uma montanha russa, mas, ao contrário das montanhas russas, em que tudo nos passa pelos olhos a correr, sem permitir tempo para ver, pensar, absorver, esta montanha russa tem muita atenção aos detalhes. E são esses detalhes que, numa fabulosa soma, transformam este produto audiovisual numa obra de arte.

Assim, a escrita é espantosa. E o resto?

O diabo do resto também. Uma realização excecional, com uma cinematografia em que os movimentos de câmara, os jogos de cores, escolha de certos planos aproximados parecem componentes de uma orquestra em absurda sintonia em busca da exaltação. A sonografia também me pareceu excelente, com uma gestão de silêncios e som e uma escolha da banda sonora sempre pertinentes (não é irritante quando encharcam filmes e séries com uma banda sonora clássica básica, a puxar a lágrima, mas que, ao invés de fazer chorar, dá vontade de espancar alguém?).

E depois, o elenco. Os atores. Aqui entra um dos fatores que, inicialmente, mais me cativou, por uma razão inesperada. Temos um grupo de jovens diferentes uns dos outros, com aparências diversas, como em qualquer escola e… inesperadamente (pelos padrões da indústria audiovisual) borbulhentos.

Se imagino Edvin Ryding, o ator principal, numa série americana? Imagino, dado que ele é um talentoso ator. Mas, carregadinho de base na cara. Aquele rosto, tal como aparece na série, seria rejeitado fora da industria audiovisual europeia. Demasiado acne, demasiada imperfeição.

A opção de ter os atores tal como são, com acne, com cicatrizes, cultiva uma maior identificação com os espetadores, pois no público estarão adolescentes e estarão outros, tal como eu, que já não o são, mas já o fomos. É mostrar o ser humano nas suas facetas diversas, mas ainda assim, mostrando a beleza dessas mesmas facetas.

Tirando a questão do aspeto natural dos atores, todos eles são excelentes e digo-o sem exagero. Edvin, apesar de ter uns 19 anos, é já ator desde pequeno. Omar, embora estreante, não se percebe ponta de inexperiência. Depois temos Mälte. Se temos vontade de agredir o ator que é o vilão (?) da série, parte dessa vontade nasce da capacidade irrepreensível de um ator desempenhar esse papel.    

Assim, no dia em que saiu o trailer da segunda temporada da série, que estreia a 1 de Novembro, digo-vos apenas que:

Parece uma série para jovens adultos, mas…

Não é só uma série para jovens adultos!

 

Uma soma de bem fazer em várias áreas, que culminou num «produto» de qualidade.

É um dos produtos televisivos mais bem conseguidos que tive a oportunidade de ver nos últimos tempos.

 

 

Trailer 2ª temporada Young Royals

Trailer 1ª temporada Young Royals

Personagens e seus lugares como fantasmas em casas assombradas

Ao revisitar um lugar da nossa vida, talvez anos depois da nossa última visita, fragmentos da nossa presença antiga reverberam pelo tempo. Evocamos sem esfoço sensações, emoções sentidas naquele local há anos, em nós materializam-se odores, sabores, como se o tempo não fosse tempo e ali, à nossa frente, se tivesse aberto uma porta física para o passado. Sentimos o odor de um cozinhado, o cheiro de uma planta, de uma flor, que parece só ali existir e um cheiro faz-nos viajar, ora aos trambolhões, numa estrada esburacada de ansiedade, ora ao som de um hino nostálgico que nos faz sorrir.

Através deste portal mágico, a evocação de uma conversa, das pessoas que nela estavam envolvidas e do cenário onde esta se desenrolou, com todos os detalhes cénicos, tudo isto aterra com estrondo ali à nossa frente.

Os espaços nunca são só espaços e mesmo quando são espaços novos, nunca visitados antes por mim, têm em si a tatuagem de todas as presenças antigas, os ecos da sua história, como um organismo vivo que se alimenta de tempo. Do tempo de cada pessoa, animal, planta e árvore que por ali nasceu, cresceu e morreu.

Mas e o que acontece quando a evocação não é real? Quando aquilo que se materializa ali à nossa frente não existe, nunca existiu em mais lado nenhum a não ser na nossa cabeça e num documento word gravado num disco rígido de um computador?

Num passeio de fim de semana, regressei a um local onde já não ia há anos, mas que revisito com frequência, não fisicamente, mas através de palavras escritas, de uma história inventada que se desenrola naquele lugar real.

Centenas de pessoas enchiam o espaço, num evento automobilístico, mas para cada lado que olhava, apenas as via, às minhas personagens. Fantasmas que faziam desaparecer tudo o resto.

Os dois homens sentados nos degraus exteriores do museu a lerem uma carta, de dedos trémulos, pela emoção daquilo que liam e pela presença um do outro. Só os dois, na escadaria larga, diluindo todas as presenças do agora numa névoa.

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Museu do Caramulo

E entre conversas cruzadas dos visitantes, roncos exibicionistas de ferraris, a voz do speaker do evento a invadir tudo através dos altifalantes, ainda assim as conseguia ouvir, às minhas personagens.

Salvador a traduzir para inglês um carta para o outro, ali a seu lado, a entender. E entre palavras que não eram as dele, pois aquela carta não era de nenhum dos dois, a sua cadência, a sua entoação vertia para Alexander tudo o que lhe ia na alma, o medo, a ansiedade, o estrondo da paixão, a emoção da novidade de alguém o desejar, de o proteger.

Quando me dirigi para a zona das partidas da corrida automobilística, onde cada carro com arranques espalhafatosos tentava fazer mais barulho do que o anterior, porque barulho era excitação, era exaltação, era uma plateia ao rubro, vi o hotel à minha frente, no outro lado da estrada, na sua graça de edifício antigo.

Pressenti a presença das minhas personagens atrás das cortinas de uma das janelas, presenças eufóricas pela descoberta do amor. E os seus murmúrios lânguidos, os seus beijos sôfregos, os seus suspiros excitados abafavam os grunhidos toscos dos motores, na antecipação do arranque e subida da rampa.

Quando depois apareceu o avião para fazer acrobacias aéreas, voos em parafuso, voos invertidos, voos a baixa altitude, a sua passagem a riscar o céu azul, senti-me colapsar pelo medo da «minha» Alexandra.

Quando ela viu os aviões de combate em aproximação ao edifício devoluto, o antigo sanatório na serra, local onde ela julgava que o irmão estava escondido, o desespero dominou-a. Sentia-se desesperada e impotente: ela, uma adolescente, seria incapaz de travar o que aquelas máquinas de guerra tinham vindo ali fazer: destruir, reduzir a escombros um edifício e os que lá estivessem dentro.  

O avião de acrobacias sobrevoava o museu, o hotel, a serra, a baixa altitude e em mim, no meu peito, ribombavam os batimentos cardíacos aflitos da minha personagem. Os medos dela, as suas desilusões, foram, por momentos, os meus também. Em mim, tal como a ela, nada resta. Uma vida em escombros, uma vida onde se empilham corpos e perdas.

E ali estava eu num espaço que me fez evocar momentos, emoções, sentimentos, palavras de pessoas que não existem. E como é que é possível que algo que não é, se faça pressentir de forma tão forte, tão intensa?! Como é que algo que nunca aconteceu pode rasgar espaço e tempo, pode estrebuchar na memória, pode fazer doer?

Passaram anos, um livro guardado numa gaveta, numa cloud, como um génio numa lâmpada, mas as suas personagens vivem, como fantasmas numa casa assombrada, numa repetição contínua de uma história, numa luta para se escaparem de uma dimensão que é a delas, mas que aos seus olhos e aos meus, não lhes chega.

Quanto a mim, aquela que as criou, talvez precise de um exorcismo destas personagens, de lhes fechar o portal, de as deixar morrer na dimensão a que pertencem.

Esquecê-las e avançar.    

Amar pelos dois

Não conheci o meu avô paterno, mas conheci desde cedo o seu legado, a herança do abandono, do desamor, da tristeza instalada no peito de uma mulher com um filho bastardo nos braços.

D. Sancho I levou erradamente o cognome de O Povoador. Erradamente porque, a bem da verdade, não terá havido maior povoador do que o meu avô paterno. Um D. Juan da aldeia, que fez filhos a torto e a direito, efeitos secundários indesejáveis das suas aventuras sem responsabilidades acrescidas, até se ter «metido» com uma menor e ter acabado casado. Fora desse laço sagrado do casamento, deixou umas quantas mulheres desenganadas, de vidas já de si medíocres reduzidas a um nada, depois daquele presente envenenado com o qual as presenteou. Depois disso, um vazio.

A minha avó era já uma mulher adulta quando engravidou deste homem e, segundo ela, namorou com ele seis anos e eram muitas as juras de amor.

Depois do abandono, da humilhação familiar de ter no ventre um filho «sem pai», ainda assim ela persistiu no seu amor por aquele ser humano. Persistiu no amor e nas desculpas. Não terá existido homem nenhum no mundo tão intrinsecamente machista como a minha avó. Segundo ela, o meu avô era um pobre desgraçado tentado pela perfídia sedutora das mulheres. Todas as outras «se meteram debaixo dele» e ele, um pobre coitado incapaz de resistir a tão maliciosas tentações. Toda uma classe de homens reduzida a um estereótipo pouco abonatório - um ser incapaz de controlar os apetites caprichosos do corpo, vítima da luxúria feminina, um ser pré-histórico no que diz respeito à empatia, capacidade afetiva e intelecto.

A minha avó não teve mais nenhuma presença masculina na sua longa vida (para além da do filho). Nos seus pertences guardava religiosamente a fotografia daquele homem que lhe dera um filho, mas que nunca lhe dispensara um tostão ou o que fosse para o ajudar a criar. Os anos passaram, ele morreu (relativamente jovem) e o culto dela por ele não esmoreceu. Talvez a morte dele tenha mesmo ampliado essa idolatria. E o afeto dela chocava de frente com o desprezo em semelhante proporção que o meu pai sentia por aquele mesmo homem.

Anos passados, também ela morreu. Ela e o seu amor injustificado pelo meu avô.

Depois de anos sem perceber este amor unilateral da minha avó, sem perceber aquele amor incondicional que - qualquer cego poderia ver - não tinha razão de ser, décadas depois de conhecer a sua história, anos depois da sua morte, finalmente percebi.

Olhando-me ao espelho, vendo o filme de terceira categoria da minha própria vida, compreendo-a perfeitamente.

A verdade é que passamos a nossa vida num exercício de fé. Fé em nós próprios, nas nossas capacidades, na nossa resiliência, na nossa ambição e persistência. E fé nos outros, em não nos deixarem cair, em nos amarem, em não desistirem de nós.

É esta fé que nos leva ao dia seguinte e não propriamente a concretização do objeto primário da nossa fé, aquilo a que chamam de forma singela de sonho.

Talvez nada mais restasse no horizonte da minha avó que não fosse amar a imagem idealizada daquele homem. Era isso ou enfrentar a realidade: ele era um canalha que se aproveitara dela, de outras e seguira caminho sem remorsos, ignorando um filho, muitos filhos, ignorando os sentimentos de uma mulher, várias mulheres, em situações de vida precárias, difíceis, empobrecidas e, depois da sua passagem ciclónica, ostracizadas pela sociedade, família, por terem acabado naquela situação - grávidas, mães solteiras, abandonadas, os seus filhos perfeitos, também eles, abandonados.

Do desprezo que cheguei a sentir por aquele amor que ela nutria por um ser humano de tantas e tamanhas atitudes desprezíveis, da abominação, da afronta, de todas as justificações dela dos comportamentos dele, agora entendo.

A nossa felicidade, a bruma mágica que envolve a nossa existência, não precisa de ser real, de ter os contornos do mundo físico, do espaço/tempo, do aqui e agora. Basta apenas que se revista de uma envolvente verosimilhança aos nossos olhos, já meios míopes de tanto fitar continuamente tamanha dolorosa realidade.

Se for preciso acreditar em capacidades inexistentes, em projetos utópicos, em vidas paralelas, em deuses benevolentes, em ficções hollywoodescas, em amar pelos dois... que assim seja!

O real está no mundo pessoal imaginado de cada um de nós.

 

 

 

Despojos de guerra - subtrações e adições

Há uns 25 anos, entrava numa sala de cinema numa qualquer tarde de uma dia de semana, no Monumental Saldanha, sozinha, para ver um filme. Estudava cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema e, embora o cinema me fascinasse, o que realmente me tinha levado àquela escolha académica peculiar, fora a escrita. Alguma coisa que justificasse a ânsia, a necessidade, mas também a alegria de escrever.

Estava naquele dia, naquela sala de cinema, porque o meu professor de argumento aconselhara aos seus alunos um livro de screenwriting e aquele filme, o que me levara ali, tinha o argumento desse mesmo autor e argumentista.

Lera e relera o livro Story de Robert McKee e agora estava ali uma oportunidade de ver se o genial autor Robert era também um argumentista em condições. Embora, atenção, a capacidade de ensinar não tenha de estar em perfeita ligação cósmica com a capacidade de executar e o contrário também se aplica. Nem todo o executante será um bom professor na sua área.

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Story, Robert McKee (1997)

O filme “Wag the Dog – Manobras na Casa Branca”, era um filme que tinha como premissa inicial, um presidente, uma presidência de uma país, que cria uma guerra fictícia para desviar a atenção dos eleitores de um escândalo sexual, perto das eleições, um momento de extrema importância política. Temos uma guerra em estúdio, um herói de guerra, uma música de guerra, tudo a que um povo tem direito.

Trailer de Wag the Dog - Manobras na Casa Branca (1997)

O filme, com um elenco de luxo, ainda sob o ponto de vista atual, tinha quatro espetadores naquela sessão da tarde e daquele dia fica o insólito destes quatro (eu incluída) terem tentado sair da sala depois do filme ter acabado para logo descobrirmos que a porta da sala estava trancada. Nada de pânico, só gargalhadas, porque depois daquele filme, daquela história, do absurdo que todos os quatro pressentíamos que realmente não o era, mais nada restava senão rir. Seria possível descobrir o cinismo das nações, dos governos, num filme? Seria possível que o riso fosse de nervoso, um certo desconforto instalado, mais do que hilaridade espontânea?

Pois claro que era possível. A caminho dos meus vinte anos eu sabia que o mundo era bem mais do que aquilo que eu conseguia ver, mas acho que foram precisos mais de vinte anos em cima para perceber que, apesar de tudo, o que via e pressentia ainda se revestia de imensa importância.

Numa Europa em guerra, não faltam especialistas a observarem cruamente o conflito. Os EUA estão numa senda de cercar a Rússia, arranjando aliados fronteiriços, erigindo nestes novos locais posições privilegiadas, que deixarão ao Rússia numa posição desfavorecida. Uma pressão, que levou Putin a uma estratégia de proteção através do ataque. Ou… Putin é apenas um expansionista, um imperialista que pretende expandir os seus domínios e não se deixar dominar pelos imperialistas ocidentais. E a partir daqui soma-se mais uma dúzia de variações, algumas mirabolantes, outras com alguma coerência.

Linhas, linhas e mais linhas escritas. Horas de televisão, com argumentos de lado a lado. E se tudo, de um ponto de vista estratégico, como se jogássemos à batalha naval, faz todo o sentido, na prática é apenas obsceno. E, lamento, todas estas pessoas que falam de estratégia, peritos, militares, também o são. Obscenos!

E as pessoas? Os civis? Como diabo não entram as pessoas nas equações, nas análises, nos balanços analíticos daqueles que decidem e daqueles que analisam?

As pessoas entram nesta equação como números, em subtrações frias. Hoje, ontem e em todos os conflitos de que há memória. Mortos, feridos, refugiados, deslocados, migrantes, esfomeados, viúvos, órfãos, desempregados, desesperados.

Motivada por esta despersonalização dos conflitos, pela realidade das guerras “lá longe”, mas que pressenti que poderiam ser “cá perto”, por perceber que na realidade o lá longe e o cá perto não fazia qualquer diferença, porque as vítimas da crueldade da guerra eram sempre as mesmas, pessoas, o ser humano banal na sua luta diária banal, comecei a escrever o que demoraria mais de uma década a acabar – um livro sobre uma guerra em território nacional. Pelo meio, Susan Sontag, no seu Olhando o sofrimento dos outros faz-me perceber que, por mais que me esforce, não perceberei, jamais, o que as pessoas, aqueles que estão no meio de um conflito, sofrem, sentem. Perceber a minha ignorância, dá-me humildade. E a humildade anda de mãos dadas com a empatia.

 

“Um número e assim era a vida humana por aqueles dias. Um mero número numa equação que usava mais subtrações do que adições. Pensar que cada uma daquelas pessoas ali sentada a comer, cada uma daquelas pessoas lá fora, desde o recém-nascido aos idosos, homens e mulheres, civis e militares, rebeldes e não rebeldes, todos eles, sem exceção, nada mais eram  do que números. E numa fração de segundo poderiam transfigurar-se de um Um, num Zero, sendo que o transtorno causado por essa mudança não era para ali chamado. As equações não contemplavam sentimentos, os números não tinham nome nem passado e, claro, os Zeros nem futuro tinham.»

Vou para não ficar, Sónia Pereira

Vou para não ficar (excerto IX)

Movia-se como se temesse que a floresta estivesse minada e cada passo pudesse ser o último. Encostei-me a uma árvore, senti o arranhar do tronco irregular no meu braço esquerdo e fitei-o, monitorizando cada movimento, o seu toque inconsciente com a mão direita, de dez em dez segundos, no corpo da metralhadora pendurada no ombro direito, o olhar circundante que tudo queria abarcar, que pousava dois ou três segundos em cada recanto. A uns cinquenta metros, esse mesmo olhar perscrutador deu comigo e fê-lo deter-se, agarrar na arma com rapidez e apontar-ma por entre árvores. Não me mexi. Ele não começou de imediato a caminhar. Ficou parado, de arma em riste, a espreitar-me por entre a vegetação, recomeçando a andar lentamente depois de constatar a minha inação. Quando estava a meia dúzia de metros de mim, parou e ali ficou, a apontar-me a metralhadora sem nada dizer. Não são precisas palavras na violência. Bastam as ações.

Lembrar-se-ia de mim? Sei que mudei, que sou um pálido, distorcido reflexo do que era há uns meses. Mas talvez algo de mim tenha permanecido na sua memória.

Embora o tenha reconhecido ao longe, a imagem grotesca que guardava dele era um contraste absurdo com a realidade. Ele era apenas um miúdo. Por entre a sujidade daquele rosto de feições retesadas pela adrenalina, vislumbravam-se as borbulhas típicas de um rosto ainda púbere. Mais novo, mais baixo, menos entroncado do que me lembrava. Também ele era um pálido, distorcido reflexo da imagem guardada na minha cabeça. Mas embora o aspeto fosse distante da recordação, a expressão era a mesma. A personalidade projetava-se em cada detalhe da fisionomia do rosto. A testa franzida, os maxilares tencionados, o queixo levantado num desafio, traduziam a clara necessidade de se sentir valorizado, um ego ferido, uma gritante necessidade de amor. Senti mesmo, por breves instantes, vontade de o abraçar.

[...]

Quando as suas conexões cerebrais estabeleceram uma ligação entre aquela pessoa que estava à sua frente e um rosto do passado, proferiu: «Puta que pariu. Não acredito no que estou a ver.» Desatou a rir, fazendo a metralhadora movimentar-se ao sabor do estremecimento físico causado pelo riso. Para ele, eu era como um palhaço mal ataviado numa festa infantil. Ria-se da minha presença inusitada, a quilómetros de casa, da minha barriga, fruto do brilhante desempenho do seu coleguinha, do meu semblante cansado, envelhecido e ria-se das memórias aparentemente agradáveis do nosso primeiro encontro.

Fechei os olhos. O riso, o timbre da sua voz… 

Apenas ansiava por um pouco de música e esse anseio, naquele momento, quase ao nível desesperado do querer comida quando se está esfaimado, querer roupa quando se está dominado pelo frio, despertou em mim um rol de emoções tencionadas em sons e imagens.

A primeira vez que ouvi uma música que me levou às lágrimas, o cantor que adorava em criança e que agora considero oficialmente piroso, mas que secretamente ouço de vez em quando, o primeiro concerto da minha banda preferida, o burburinho na sala de espetáculos e os primeiros sons que instantaneamente calaram a plateia, a música a entrar-me ouvidos adentro pelos auriculares enquanto, no meu quarto, olho para o exterior, para o sol forte do meio do verão, que me faz fechar os olhos e lacrimejar, a tua música a dominar a casa nos dias de férias, fazendo os vidros vibrarem, as paredes estremecerem, a minha dança com Ângelo ao som da música que saía daquele rádio velho, os versos em rima na voz enternecedora de Mozart.

Abri os meus olhos.

O cantar dos pássaros, o som da água a correr riachos abaixo, o vento a redemoinhar nas chapas torcidas das casas destruídas, o chocalhar dos guizos do gado, não chegavam. Aquele riso de escárnio, o bater acelerado do meu coração cansado, não bastavam.

Pensava nisso, nessa minha quase vampírica ânsia musical — uma ânsia pela única experiência verdadeiramente transcendente e divina que conhecia — quando lhe parti a maioria dos ossos do rosto. A minha metamorfose, sempre tão rápida e inesperada, apanha todas as minhas vítimas desprevenidas. Este meu agigantamento, um David decidido a confrontar o seu Golias, faz-me agir em segundos, num impulso sem qualquer ensaio ou pensamento prévio. Deixei cair por terra o que trazia nas mãos, peguei num pedregulho que repousava no chão, junto ao tronco da árvore à qual me encostava e saltei para cima dele. Ele caiu para trás. Montada sobre o seu tronco, agredi-o consecutivamente.

Já não estava ali. A minha mente estava noutro sítio qualquer. Flutuava junto à aldeia histórica, voava por cima do rebanho de ovelhas, sentia o peso do calor nas pálpebras quando observava o horizonte desprovido da evidência de qualquer presença humana. O som trouxe-me de volta. Ouvi aquele estalar inconfundível, o partir de uma massa dura mas porosa e também aquele som não tinha nada de musical e odiei-o ainda mais por me dar aquilo e não música. A minha tão ansiada música. Ele não gritou, não berrou e ocorreu‑me que talvez me estivesse a compreender.

Duzentos metros — excerto III

Na última vez em que coloquei aqui um excerto dos meus escritos de ficção, dei conta de que perdi um dos meus subscritores. A carga homoerótica deve ter ferido algumas susceptibilidades, embora não perceba bem porquê. Quanto a isso, não peço desculpa porque seria errado desculpar-me de uma coisa de que gosto e que não tem qualquer malícia. Hoje, para desenjoar, deixo um excerto de um outro escrito, completamente assexuado (não vá o diabo tecê-las).

 

 

Perdi o controlo do carro à saída de uma curva acentuada. Continuava a chover, embora o Outono ainda não tivesse oficialmente chegado. Era daquela chuva miudinha que me obrigara a ligar os limpa-para-brisas, mas que, não sendo intensa, os fazia derrapar contra o vidro da frente com um arrastar irritante. Ainda estava escuro, apesar da aproximação da manhã e o céu carregado de nuvens ocultava a presença de uma lua cheia. O rádio estava ligado numa estação que debitava, non stop, música eletrónica como prolongamento às horas que passáramos a dançar naquela madrugada. Quando se sai de uma discoteca, de um bar, depois de horas de injeção de álcool e de música de dança, é difícil fazer um corte abrupto e encarar o silêncio da noite e a nossa própria voz embriagada. O corpo continua a agitar-se apesar do cansaço, a pedir música até cair na cama e adormecer. Recordo que a rádio estava a passar um remix da música Four to the floor dos Starsailors, uma música já antiga. Ele cantou fora de tempo parte das letras do refrão, quase aos berros, de forma efusiva, saltando e gesticulando no banco, fazendo-me rir. A recordação perpetuou-se porque percebi que já tinha ouvido aquela música naquela mesma noite num dos bares onde tínhamos entrado, mas num diferente remix. Não faço ideia em qual dos locais foi, recordo apenas a música, as luzes, os corpos a dançarem, os copos cheios a balançarem num exercício tentado de equilíbrio para não se entornarem, batizando sapatos e chão com cerveja nacional.

 

Quando saí da curva, a derrapagem dos pneus fez-me perceber a inevitabilidade e não tive medo. Apesar de intuir o que advinha, concentrei os meus esforços no volante, na tentativa de controlo da viatura. No entanto, num erro de principiante, travei a fundo, causando um efeito perverso no carro. Perdeu a aderência, começou a rodopiar, capotou. Ao meu lado, ele olhou-me surpreendido. O Renato de sempre. O meu Renato. O meu querido, o meu adorado irmão Renato.

 

Lembro-me de ouvir a sua voz, de lhe ver os lábios mexer numa última mensagem, mas não recordo o que disse. Uma nova cambalhota, um novo capotamento e um embate frontal contra um poste de eletricidade de betão maciço, substituído duas semanas antes, de uma robustez inegável. De cabeça para baixo, vi o poste aproximar-se, como se o movimento fosse uma coreografia lenta, estudada. Tirei as mãos do volante. Fechei os olhos. Foi um estrondo horrível, um som que não parecia som, mas matéria a ser sugada por um gigantesco buraco negro, um trecho sinfónico do fim do mundo, de uma violência que me achocalhou como um brinquedo velho na mão de uma criança furiosa. Ouvi um grito abafado do meu irmão. Um grito que não foi um grito. Um suspiro que não foi um suspiro. Um estertor de morte.

Vou para não ficar (excerto VIII)

Um rol de emoções, ecos do passado, murmúrios do futuro em quatro mãos que se tocavam, em dois olhares que se fitavam mutuamente. Numa sincronia perfeita que poderia ser atestada se o momento tivesse sido gravado e pudesse ser revisto, uma e outra vez, fotograma a fotograma, segundo a segundo, os dois levantaram-se ao mesmo tempo, num movimento brusco, irremediavelmente sugados um pelo outro. Duas células a unirem-se num procedimento natural. Beijaram-se, agarraram-se com violência. Treparam à mesa, ignorando pratos, talheres e a panela. Duas respirações alteradas que rugiam em uníssono uniam-se numa conversa urgente. Um talher caiu no chão da cozinha tilintando, uma das cadeiras tombou para trás com estrondo. Salvador despiu a camisola azul de Alexander. Beijou-lhe o queixo, o pescoço, o peito, um e outro mamilo. Ajoelhados em cima da mesa, de olhos fechados, numa abstração de espaço e tempo, Alexander sentia o toque da boca de Salvador em cada parte do seu corpo e sobressaltava-se a cada novo pousar de lábios. Pousou-lhe as mãos na cabeça, embrenhando-as no cabelo escuro cortado curto. Ele beijou-lhe o umbigo. Sentiu a ponta da língua a introduzir-se na cavidade e as lágrimas simplesmente assomaram-lhe aos olhos. Corriam em torrente pelas faces, pingando para o torso, escorrendo peito abaixo. Abriu os olhos. A evidência, aquilo que se procura uma vida inteira, o motor acelerador da existência, estava ali. À mão de semear.
 

Vou para não ficar (excerto VII)

14 de outubro
 
A água escorreu gargalo fora do garrafão de plástico, fluindo pelo alcatrão, indo ensopar-se na terra exposta, onde o lancil do passeio e calçada portuguesa tinham sido arrancados. Não há dia que não pense naqueles olhos que me fitaram por meia dúzia de segundos, do outro lado da estrada, antes do corpo, impulsionado por uma bala perdida que trespassou as costas, ter caído para a frente, de bruços. Era apenas uma criança. Aquele olhar castanho carregado de esperança e determinação, tudo coisas já perdidas para mim, palavras com um significado abstrato, arde dentro de mim e pela primeira vez desejei morrer só para poder esquecer, porque sei que por mais anos que viva, aquela será a primeira e última imagem que verei ao acordar e deitar. Uma criança de bruços, rosto colado ao chão, com as mãos a tocarem ao de leve num garrafão que se esvazia e eu, na minha passividade provocada pelo choque, observo do outro lado da estrada, gravo de forma definitiva, inapagável, cada detalhe, cada som, cada cheiro daqueles minutos para todo o sempre dentro de mim. 

Quando esquecer e morrer são os sonhos que impulsionam uma vida, algo de muito errado se passa neste mundo. 
 

Vou para não ficar (excerto VI)

Tomaram banho de água quente juntos, numa banheira cheia, quase a transbordar. Apesar de apenas terem dormido um par de horas, um mútuo desassossego interno impedia-os de caírem numa dormência proporcionada pela água cálida e pelo cansaço. Tocavam-se, deixavam-se estar envolvidos pelos braços um do outro. Por vezes beijavam-se devagar, de olhos fechados, sentindo no mais íntimo e recôndito lugar dentro dos seus seres a gravação daquele toque, daquele sentir, o calor do outro, o cheiro do outro. Estavam viciados na intimidade nunca antes experimentada.     

Com a água já tépida, quase fria, decidiram sair da banheira, salpicando o chão da casa de banho. Envolveram-se na mesma toalha, confrontados por instantes pela perscrutação do espelho da divisão, que refletia dois homens, como dois adolescentes, numa dança hipnótica. Estiraram-se ainda húmidos sobre uma das camas estreitas.

O dia começava a nascer e do exterior, através das cortinas finas, chegava uma claridade branca, baça. O silvo das sirenes dos bombeiros, a sirene do quartel mais próximo que clamava por ajuda, o som de um avião de pequeno porte, possivelmente um canadair que, com a chegada da aurora, viera ajudar no combate ao fogo, todos esses, ora fugazes ou persistentes sons passaram despercebidos entre os beijos e murmúrios daquele quarto, onde cada pedaço de pele foi tocado, cheirado, provado. Novos detalhes do corpo de cada um foram descobertos. Duas pequenas depressões perfeitas no fundo das costas, antes das nádegas, que Salvador tateou uma e outra vez, memorizando cada centímetro, o aroma do pescoço de Alexander, os músculos dos braços, firmes, sem serem excessivos ou ameaçadores, a ténue covinha que se formava no centro do seu queixo, os pés de dedos perfeitos, delicados, a pele, o aroma da sua pele morena, o aroma das axilas, cada um desses detalhes deixava Salvador ébrio.

Se Salvador usava todos os sentidos do seu corpo, Alexander fechou os olhos, sentindo o outro na ponta dos seus dedos, nas palmas das suas mãos, na sua boca. A depressão no centro das costas, formando uma via perfeita do pescoço às nádegas, as omoplatas salientes, o pescoço esguio, que cheirava a amêndoas, que fazia lembrar manhãs de inverno dentro da cama a ver chover lá fora, as cristas ilíacas protuberantes, o peito, o estômago liso, a boca de lábios finos, as orelhas pequenas, o arco do nariz, as pálpebras dos olhos. Alexander beijou-lhe as pálpebras dos olhos, as sobrancelhas, a testa alta.    

Quando fizeram amor pela primeira vez, depois de esgotarem a prospeção do corpo um do outro, domados por um sentimento que já não era de urgência mas de plenitude — uma declaração de amor depois de meses de paixão avassaladora que se transformara lentamente numa afeição que fazia sorrir só de se pensar nela — mesmo que desajeitados, atropelados pelas vontades rápidas dos próprios corpos, foi a confirmação de que estava certo, de que aquilo que eles eram, mesmo que contrariando vontades alheias, era o correto. Mais nada, nunca antes, nunca até àquele momento, tinha sido tão absolutamente perfeito. «Estás dentro de mim» — sussurrou Alexander ao ouvido de Salvador, — «estás dentro de mim».

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

 

 

 

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