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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Amar pelos dois

Não conheci o meu avô paterno, mas conheci desde cedo o seu legado, a herança do abandono, do desamor, da tristeza instalada no peito de uma mulher com um filho bastardo nos braços.

D. Sancho I levou erradamente o cognome de O Povoador. Erradamente porque, a bem da verdade, não terá havido maior povoador do que o meu avô paterno. Um D. Juan da aldeia, que fez filhos a torto e a direito, efeitos secundários indesejáveis das suas aventuras sem responsabilidades acrescidas, até se ter «metido» com uma menor e ter acabado casado. Fora desse laço sagrado do casamento, deixou umas quantas mulheres desenganadas, de vidas já de si medíocres reduzidas a um nada, depois daquele presente envenenado com o qual as presenteou. Depois disso, um vazio.

A minha avó era já uma mulher adulta quando engravidou deste homem e, segundo ela, namorou com ele seis anos e eram muitas as juras de amor.

Depois do abandono, da humilhação familiar de ter no ventre um filho «sem pai», ainda assim ela persistiu no seu amor por aquele ser humano. Persistiu no amor e nas desculpas. Não terá existido homem nenhum no mundo tão intrinsecamente machista como a minha avó. Segundo ela, o meu avô era um pobre desgraçado tentado pela perfídia sedutora das mulheres. Todas as outras «se meteram debaixo dele» e ele, um pobre coitado incapaz de resistir a tão maliciosas tentações. Toda uma classe de homens reduzida a um estereótipo pouco abonatório - um ser incapaz de controlar os apetites caprichosos do corpo, vítima da luxúria feminina, um ser pré-histórico no que diz respeito à empatia, capacidade afetiva e intelecto.

A minha avó não teve mais nenhuma presença masculina na sua longa vida (para além da do filho). Nos seus pertences guardava religiosamente a fotografia daquele homem que lhe dera um filho, mas que nunca lhe dispensara um tostão ou o que fosse para o ajudar a criar. Os anos passaram, ele morreu (relativamente jovem) e o culto dela por ele não esmoreceu. Talvez a morte dele tenha mesmo ampliado essa idolatria. E o afeto dela chocava de frente com o desprezo em semelhante proporção que o meu pai sentia por aquele mesmo homem.

Anos passados, também ela morreu. Ela e o seu amor injustificado pelo meu avô.

Depois de anos sem perceber este amor unilateral da minha avó, sem perceber aquele amor incondicional que - qualquer cego poderia ver - não tinha razão de ser, décadas depois de conhecer a sua história, anos depois da sua morte, finalmente percebi.

Olhando-me ao espelho, vendo o filme de terceira categoria da minha própria vida, compreendo-a perfeitamente.

A verdade é que passamos a nossa vida num exercício de fé. Fé em nós próprios, nas nossas capacidades, na nossa resiliência, na nossa ambição e persistência. E fé nos outros, em não nos deixarem cair, em nos amarem, em não desistirem de nós.

É esta fé que nos leva ao dia seguinte e não propriamente a concretização do objeto primário da nossa fé, aquilo a que chamam de forma singela de sonho.

Talvez nada mais restasse no horizonte da minha avó que não fosse amar a imagem idealizada daquele homem. Era isso ou enfrentar a realidade: ele era um canalha que se aproveitara dela, de outras e seguira caminho sem remorsos, ignorando um filho, muitos filhos, ignorando os sentimentos de uma mulher, várias mulheres, em situações de vida precárias, difíceis, empobrecidas e, depois da sua passagem ciclónica, ostracizadas pela sociedade, família, por terem acabado naquela situação - grávidas, mães solteiras, abandonadas, os seus filhos perfeitos, também eles, abandonados.

Do desprezo que cheguei a sentir por aquele amor que ela nutria por um ser humano de tantas e tamanhas atitudes desprezíveis, da abominação, da afronta, de todas as justificações dela dos comportamentos dele, agora entendo.

A nossa felicidade, a bruma mágica que envolve a nossa existência, não precisa de ser real, de ter os contornos do mundo físico, do espaço/tempo, do aqui e agora. Basta apenas que se revista de uma envolvente verosimilhança aos nossos olhos, já meios míopes de tanto fitar continuamente tamanha dolorosa realidade.

Se for preciso acreditar em capacidades inexistentes, em projetos utópicos, em vidas paralelas, em deuses benevolentes, em ficções hollywoodescas, em amar pelos dois... que assim seja!

O real está no mundo pessoal imaginado de cada um de nós.

 

 

 

Despojos de guerra - subtrações e adições

Há uns 25 anos, entrava numa sala de cinema numa qualquer tarde de uma dia de semana, no Monumental Saldanha, sozinha, para ver um filme. Estudava cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema e, embora o cinema me fascinasse, o que realmente me tinha levado àquela escolha académica peculiar, fora a escrita. Alguma coisa que justificasse a ânsia, a necessidade, mas também a alegria de escrever.

Estava naquele dia, naquela sala de cinema, porque o meu professor de argumento aconselhara aos seus alunos um livro de screenwriting e aquele filme, o que me levara ali, tinha o argumento desse mesmo autor e argumentista.

Lera e relera o livro Story de Robert McKee e agora estava ali uma oportunidade de ver se o genial autor Robert era também um argumentista em condições. Embora, atenção, a capacidade de ensinar não tenha de estar em perfeita ligação cósmica com a capacidade de executar e o contrário também se aplica. Nem todo o executante será um bom professor na sua área.

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Story, Robert McKee (1997)

O filme “Wag the Dog – Manobras na Casa Branca”, era um filme que tinha como premissa inicial, um presidente, uma presidência de uma país, que cria uma guerra fictícia para desviar a atenção dos eleitores de um escândalo sexual, perto das eleições, um momento de extrema importância política. Temos uma guerra em estúdio, um herói de guerra, uma música de guerra, tudo a que um povo tem direito.

Trailer de Wag the Dog - Manobras na Casa Branca (1997)

O filme, com um elenco de luxo, ainda sob o ponto de vista atual, tinha quatro espetadores naquela sessão da tarde e daquele dia fica o insólito destes quatro (eu incluída) terem tentado sair da sala depois do filme ter acabado para logo descobrirmos que a porta da sala estava trancada. Nada de pânico, só gargalhadas, porque depois daquele filme, daquela história, do absurdo que todos os quatro pressentíamos que realmente não o era, mais nada restava senão rir. Seria possível descobrir o cinismo das nações, dos governos, num filme? Seria possível que o riso fosse de nervoso, um certo desconforto instalado, mais do que hilaridade espontânea?

Pois claro que era possível. A caminho dos meus vinte anos eu sabia que o mundo era bem mais do que aquilo que eu conseguia ver, mas acho que foram precisos mais de vinte anos em cima para perceber que, apesar de tudo, o que via e pressentia ainda se revestia de imensa importância.

Numa Europa em guerra, não faltam especialistas a observarem cruamente o conflito. Os EUA estão numa senda de cercar a Rússia, arranjando aliados fronteiriços, erigindo nestes novos locais posições privilegiadas, que deixarão ao Rússia numa posição desfavorecida. Uma pressão, que levou Putin a uma estratégia de proteção através do ataque. Ou… Putin é apenas um expansionista, um imperialista que pretende expandir os seus domínios e não se deixar dominar pelos imperialistas ocidentais. E a partir daqui soma-se mais uma dúzia de variações, algumas mirabolantes, outras com alguma coerência.

Linhas, linhas e mais linhas escritas. Horas de televisão, com argumentos de lado a lado. E se tudo, de um ponto de vista estratégico, como se jogássemos à batalha naval, faz todo o sentido, na prática é apenas obsceno. E, lamento, todas estas pessoas que falam de estratégia, peritos, militares, também o são. Obscenos!

E as pessoas? Os civis? Como diabo não entram as pessoas nas equações, nas análises, nos balanços analíticos daqueles que decidem e daqueles que analisam?

As pessoas entram nesta equação como números, em subtrações frias. Hoje, ontem e em todos os conflitos de que há memória. Mortos, feridos, refugiados, deslocados, migrantes, esfomeados, viúvos, órfãos, desempregados, desesperados.

Motivada por esta despersonalização dos conflitos, pela realidade das guerras “lá longe”, mas que pressenti que poderiam ser “cá perto”, por perceber que na realidade o lá longe e o cá perto não fazia qualquer diferença, porque as vítimas da crueldade da guerra eram sempre as mesmas, pessoas, o ser humano banal na sua luta diária banal, comecei a escrever o que demoraria mais de uma década a acabar – um livro sobre uma guerra em território nacional. Pelo meio, Susan Sontag, no seu Olhando o sofrimento dos outros faz-me perceber que, por mais que me esforce, não perceberei, jamais, o que as pessoas, aqueles que estão no meio de um conflito, sofrem, sentem. Perceber a minha ignorância, dá-me humildade. E a humildade anda de mãos dadas com a empatia.

 

“Um número e assim era a vida humana por aqueles dias. Um mero número numa equação que usava mais subtrações do que adições. Pensar que cada uma daquelas pessoas ali sentada a comer, cada uma daquelas pessoas lá fora, desde o recém-nascido aos idosos, homens e mulheres, civis e militares, rebeldes e não rebeldes, todos eles, sem exceção, nada mais eram  do que números. E numa fração de segundo poderiam transfigurar-se de um Um, num Zero, sendo que o transtorno causado por essa mudança não era para ali chamado. As equações não contemplavam sentimentos, os números não tinham nome nem passado e, claro, os Zeros nem futuro tinham.»

Vou para não ficar, Sónia Pereira

Vou para não ficar (excerto IX)

Movia-se como se temesse que a floresta estivesse minada e cada passo pudesse ser o último. Encostei-me a uma árvore, senti o arranhar do tronco irregular no meu braço esquerdo e fitei-o, monitorizando cada movimento, o seu toque inconsciente com a mão direita, de dez em dez segundos, no corpo da metralhadora pendurada no ombro direito, o olhar circundante que tudo queria abarcar, que pousava dois ou três segundos em cada recanto. A uns cinquenta metros, esse mesmo olhar perscrutador deu comigo e fê-lo deter-se, agarrar na arma com rapidez e apontar-ma por entre árvores. Não me mexi. Ele não começou de imediato a caminhar. Ficou parado, de arma em riste, a espreitar-me por entre a vegetação, recomeçando a andar lentamente depois de constatar a minha inação. Quando estava a meia dúzia de metros de mim, parou e ali ficou, a apontar-me a metralhadora sem nada dizer. Não são precisas palavras na violência. Bastam as ações.

Lembrar-se-ia de mim? Sei que mudei, que sou um pálido, distorcido reflexo do que era há uns meses. Mas talvez algo de mim tenha permanecido na sua memória.

Embora o tenha reconhecido ao longe, a imagem grotesca que guardava dele era um contraste absurdo com a realidade. Ele era apenas um miúdo. Por entre a sujidade daquele rosto de feições retesadas pela adrenalina, vislumbravam-se as borbulhas típicas de um rosto ainda púbere. Mais novo, mais baixo, menos entroncado do que me lembrava. Também ele era um pálido, distorcido reflexo da imagem guardada na minha cabeça. Mas embora o aspeto fosse distante da recordação, a expressão era a mesma. A personalidade projetava-se em cada detalhe da fisionomia do rosto. A testa franzida, os maxilares tencionados, o queixo levantado num desafio, traduziam a clara necessidade de se sentir valorizado, um ego ferido, uma gritante necessidade de amor. Senti mesmo, por breves instantes, vontade de o abraçar.

[...]

Quando as suas conexões cerebrais estabeleceram uma ligação entre aquela pessoa que estava à sua frente e um rosto do passado, proferiu: «Puta que pariu. Não acredito no que estou a ver.» Desatou a rir, fazendo a metralhadora movimentar-se ao sabor do estremecimento físico causado pelo riso. Para ele, eu era como um palhaço mal ataviado numa festa infantil. Ria-se da minha presença inusitada, a quilómetros de casa, da minha barriga, fruto do brilhante desempenho do seu coleguinha, do meu semblante cansado, envelhecido e ria-se das memórias aparentemente agradáveis do nosso primeiro encontro.

Fechei os olhos. O riso, o timbre da sua voz… 

Apenas ansiava por um pouco de música e esse anseio, naquele momento, quase ao nível desesperado do querer comida quando se está esfaimado, querer roupa quando se está dominado pelo frio, despertou em mim um rol de emoções tencionadas em sons e imagens.

A primeira vez que ouvi uma música que me levou às lágrimas, o cantor que adorava em criança e que agora considero oficialmente piroso, mas que secretamente ouço de vez em quando, o primeiro concerto da minha banda preferida, o burburinho na sala de espetáculos e os primeiros sons que instantaneamente calaram a plateia, a música a entrar-me ouvidos adentro pelos auriculares enquanto, no meu quarto, olho para o exterior, para o sol forte do meio do verão, que me faz fechar os olhos e lacrimejar, a tua música a dominar a casa nos dias de férias, fazendo os vidros vibrarem, as paredes estremecerem, a minha dança com Ângelo ao som da música que saía daquele rádio velho, os versos em rima na voz enternecedora de Mozart.

Abri os meus olhos.

O cantar dos pássaros, o som da água a correr riachos abaixo, o vento a redemoinhar nas chapas torcidas das casas destruídas, o chocalhar dos guizos do gado, não chegavam. Aquele riso de escárnio, o bater acelerado do meu coração cansado, não bastavam.

Pensava nisso, nessa minha quase vampírica ânsia musical — uma ânsia pela única experiência verdadeiramente transcendente e divina que conhecia — quando lhe parti a maioria dos ossos do rosto. A minha metamorfose, sempre tão rápida e inesperada, apanha todas as minhas vítimas desprevenidas. Este meu agigantamento, um David decidido a confrontar o seu Golias, faz-me agir em segundos, num impulso sem qualquer ensaio ou pensamento prévio. Deixei cair por terra o que trazia nas mãos, peguei num pedregulho que repousava no chão, junto ao tronco da árvore à qual me encostava e saltei para cima dele. Ele caiu para trás. Montada sobre o seu tronco, agredi-o consecutivamente.

Já não estava ali. A minha mente estava noutro sítio qualquer. Flutuava junto à aldeia histórica, voava por cima do rebanho de ovelhas, sentia o peso do calor nas pálpebras quando observava o horizonte desprovido da evidência de qualquer presença humana. O som trouxe-me de volta. Ouvi aquele estalar inconfundível, o partir de uma massa dura mas porosa e também aquele som não tinha nada de musical e odiei-o ainda mais por me dar aquilo e não música. A minha tão ansiada música. Ele não gritou, não berrou e ocorreu‑me que talvez me estivesse a compreender.

Duzentos metros — excerto III

Na última vez em que coloquei aqui um excerto dos meus escritos de ficção, dei conta de que perdi um dos meus subscritores. A carga homoerótica deve ter ferido algumas susceptibilidades, embora não perceba bem porquê. Quanto a isso, não peço desculpa porque seria errado desculpar-me de uma coisa de que gosto e que não tem qualquer malícia. Hoje, para desenjoar, deixo um excerto de um outro escrito, completamente assexuado (não vá o diabo tecê-las).

 

 

Perdi o controlo do carro à saída de uma curva acentuada. Continuava a chover, embora o Outono ainda não tivesse oficialmente chegado. Era daquela chuva miudinha que me obrigara a ligar os limpa-para-brisas, mas que, não sendo intensa, os fazia derrapar contra o vidro da frente com um arrastar irritante. Ainda estava escuro, apesar da aproximação da manhã e o céu carregado de nuvens ocultava a presença de uma lua cheia. O rádio estava ligado numa estação que debitava, non stop, música eletrónica como prolongamento às horas que passáramos a dançar naquela madrugada. Quando se sai de uma discoteca, de um bar, depois de horas de injeção de álcool e de música de dança, é difícil fazer um corte abrupto e encarar o silêncio da noite e a nossa própria voz embriagada. O corpo continua a agitar-se apesar do cansaço, a pedir música até cair na cama e adormecer. Recordo que a rádio estava a passar um remix da música Four to the floor dos Starsailors, uma música já antiga. Ele cantou fora de tempo parte das letras do refrão, quase aos berros, de forma efusiva, saltando e gesticulando no banco, fazendo-me rir. A recordação perpetuou-se porque percebi que já tinha ouvido aquela música naquela mesma noite num dos bares onde tínhamos entrado, mas num diferente remix. Não faço ideia em qual dos locais foi, recordo apenas a música, as luzes, os corpos a dançarem, os copos cheios a balançarem num exercício tentado de equilíbrio para não se entornarem, batizando sapatos e chão com cerveja nacional.

 

Quando saí da curva, a derrapagem dos pneus fez-me perceber a inevitabilidade e não tive medo. Apesar de intuir o que advinha, concentrei os meus esforços no volante, na tentativa de controlo da viatura. No entanto, num erro de principiante, travei a fundo, causando um efeito perverso no carro. Perdeu a aderência, começou a rodopiar, capotou. Ao meu lado, ele olhou-me surpreendido. O Renato de sempre. O meu Renato. O meu querido, o meu adorado irmão Renato.

 

Lembro-me de ouvir a sua voz, de lhe ver os lábios mexer numa última mensagem, mas não recordo o que disse. Uma nova cambalhota, um novo capotamento e um embate frontal contra um poste de eletricidade de betão maciço, substituído duas semanas antes, de uma robustez inegável. De cabeça para baixo, vi o poste aproximar-se, como se o movimento fosse uma coreografia lenta, estudada. Tirei as mãos do volante. Fechei os olhos. Foi um estrondo horrível, um som que não parecia som, mas matéria a ser sugada por um gigantesco buraco negro, um trecho sinfónico do fim do mundo, de uma violência que me achocalhou como um brinquedo velho na mão de uma criança furiosa. Ouvi um grito abafado do meu irmão. Um grito que não foi um grito. Um suspiro que não foi um suspiro. Um estertor de morte.

Vou para não ficar (excerto VIII)

Um rol de emoções, ecos do passado, murmúrios do futuro em quatro mãos que se tocavam, em dois olhares que se fitavam mutuamente. Numa sincronia perfeita que poderia ser atestada se o momento tivesse sido gravado e pudesse ser revisto, uma e outra vez, fotograma a fotograma, segundo a segundo, os dois levantaram-se ao mesmo tempo, num movimento brusco, irremediavelmente sugados um pelo outro. Duas células a unirem-se num procedimento natural. Beijaram-se, agarraram-se com violência. Treparam à mesa, ignorando pratos, talheres e a panela. Duas respirações alteradas que rugiam em uníssono uniam-se numa conversa urgente. Um talher caiu no chão da cozinha tilintando, uma das cadeiras tombou para trás com estrondo. Salvador despiu a camisola azul de Alexander. Beijou-lhe o queixo, o pescoço, o peito, um e outro mamilo. Ajoelhados em cima da mesa, de olhos fechados, numa abstração de espaço e tempo, Alexander sentia o toque da boca de Salvador em cada parte do seu corpo e sobressaltava-se a cada novo pousar de lábios. Pousou-lhe as mãos na cabeça, embrenhando-as no cabelo escuro cortado curto. Ele beijou-lhe o umbigo. Sentiu a ponta da língua a introduzir-se na cavidade e as lágrimas simplesmente assomaram-lhe aos olhos. Corriam em torrente pelas faces, pingando para o torso, escorrendo peito abaixo. Abriu os olhos. A evidência, aquilo que se procura uma vida inteira, o motor acelerador da existência, estava ali. À mão de semear.
 

Vou para não ficar (excerto VII)

14 de outubro
 
A água escorreu gargalo fora do garrafão de plástico, fluindo pelo alcatrão, indo ensopar-se na terra exposta, onde o lancil do passeio e calçada portuguesa tinham sido arrancados. Não há dia que não pense naqueles olhos que me fitaram por meia dúzia de segundos, do outro lado da estrada, antes do corpo, impulsionado por uma bala perdida que trespassou as costas, ter caído para a frente, de bruços. Era apenas uma criança. Aquele olhar castanho carregado de esperança e determinação, tudo coisas já perdidas para mim, palavras com um significado abstrato, arde dentro de mim e pela primeira vez desejei morrer só para poder esquecer, porque sei que por mais anos que viva, aquela será a primeira e última imagem que verei ao acordar e deitar. Uma criança de bruços, rosto colado ao chão, com as mãos a tocarem ao de leve num garrafão que se esvazia e eu, na minha passividade provocada pelo choque, observo do outro lado da estrada, gravo de forma definitiva, inapagável, cada detalhe, cada som, cada cheiro daqueles minutos para todo o sempre dentro de mim. 

Quando esquecer e morrer são os sonhos que impulsionam uma vida, algo de muito errado se passa neste mundo. 
 

Vou para não ficar (excerto VI)

Tomaram banho de água quente juntos, numa banheira cheia, quase a transbordar. Apesar de apenas terem dormido um par de horas, um mútuo desassossego interno impedia-os de caírem numa dormência proporcionada pela água cálida e pelo cansaço. Tocavam-se, deixavam-se estar envolvidos pelos braços um do outro. Por vezes beijavam-se devagar, de olhos fechados, sentindo no mais íntimo e recôndito lugar dentro dos seus seres a gravação daquele toque, daquele sentir, o calor do outro, o cheiro do outro. Estavam viciados na intimidade nunca antes experimentada.     

Com a água já tépida, quase fria, decidiram sair da banheira, salpicando o chão da casa de banho. Envolveram-se na mesma toalha, confrontados por instantes pela perscrutação do espelho da divisão, que refletia dois homens, como dois adolescentes, numa dança hipnótica. Estiraram-se ainda húmidos sobre uma das camas estreitas.

O dia começava a nascer e do exterior, através das cortinas finas, chegava uma claridade branca, baça. O silvo das sirenes dos bombeiros, a sirene do quartel mais próximo que clamava por ajuda, o som de um avião de pequeno porte, possivelmente um canadair que, com a chegada da aurora, viera ajudar no combate ao fogo, todos esses, ora fugazes ou persistentes sons passaram despercebidos entre os beijos e murmúrios daquele quarto, onde cada pedaço de pele foi tocado, cheirado, provado. Novos detalhes do corpo de cada um foram descobertos. Duas pequenas depressões perfeitas no fundo das costas, antes das nádegas, que Salvador tateou uma e outra vez, memorizando cada centímetro, o aroma do pescoço de Alexander, os músculos dos braços, firmes, sem serem excessivos ou ameaçadores, a ténue covinha que se formava no centro do seu queixo, os pés de dedos perfeitos, delicados, a pele, o aroma da sua pele morena, o aroma das axilas, cada um desses detalhes deixava Salvador ébrio.

Se Salvador usava todos os sentidos do seu corpo, Alexander fechou os olhos, sentindo o outro na ponta dos seus dedos, nas palmas das suas mãos, na sua boca. A depressão no centro das costas, formando uma via perfeita do pescoço às nádegas, as omoplatas salientes, o pescoço esguio, que cheirava a amêndoas, que fazia lembrar manhãs de inverno dentro da cama a ver chover lá fora, as cristas ilíacas protuberantes, o peito, o estômago liso, a boca de lábios finos, as orelhas pequenas, o arco do nariz, as pálpebras dos olhos. Alexander beijou-lhe as pálpebras dos olhos, as sobrancelhas, a testa alta.    

Quando fizeram amor pela primeira vez, depois de esgotarem a prospeção do corpo um do outro, domados por um sentimento que já não era de urgência mas de plenitude — uma declaração de amor depois de meses de paixão avassaladora que se transformara lentamente numa afeição que fazia sorrir só de se pensar nela — mesmo que desajeitados, atropelados pelas vontades rápidas dos próprios corpos, foi a confirmação de que estava certo, de que aquilo que eles eram, mesmo que contrariando vontades alheias, era o correto. Mais nada, nunca antes, nunca até àquele momento, tinha sido tão absolutamente perfeito. «Estás dentro de mim» — sussurrou Alexander ao ouvido de Salvador, — «estás dentro de mim».

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

 

 

 

Vou para não ficar (excerto V)

Em pé, em cima das muralhas, descalço-me com todo a cuidado. Sinto o toque áspero das pedras na sola dos meus pés sujos. Tiro todos os farrapos que trago vestidos. Com um impulso desajeitado, atiro-os ao vento e aqueles panos gastos e descoloridos parecem pássaros gigantes desengonçados a tentar o voo pela primeira vez. O sol descreve um semicírculo descendente mesmo diante dos meus olhos. A minha sombra faz-me lembrar um corcunda invertido. Uma protuberância arredondada a marcar uma figura de extremidades esguias, quase esquecidas pela sombra. Inspiro fundo e sinto o pulsar deste sítio. Pedras postas sobre pedras há centenas de anos, partes de um puzzle há muito desfeito e de aparente irresolução, árvores que se agarram à terra cada dia com um pouco mais de força, o sibilar de um réptil por entre a vegetação, o vale num declínio perfeito. Um bando de pássaros cruza o céu numa coreografia síncrona. 

Por momentos, o impulso de erguer os calcanhares, fletir as pernas, abrir os braços dominou-me e o mantra do teu nome foi substituído por outro. «Salta. Salta. Salta.» Imaginei-me a sobrevoar o vale, o rebanho de ovelhas entre o arvoredo, subir num voo que rasgava o ar quente, me envolvia, contornar o rochedo em forma de cabeça de velho, o pequeno cemitério e deixar-me estar a boiar, dormente, nesta tarde quente, sentindo os avanços do sol no céu sem nuvens.
Estou completamente nua nas muralhas de uma aldeia histórica. Essa evidência, que irrompeu na minha mente como um pensamento sem importância, refreou-me os impulsos de voo. Caminharei para a loucura, mas sei que ainda lá não cheguei, caso contrário esta perceção de nudez nada provocaria em mim. Nem perceção seria.

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

Duzentos metros — excerto II

A banheira estava cheia. As manobras para me colocarem lá dentro já iam a meio. Eu estava sentado na beira já com os pés no interior, imersos na água. Ao erguer-me para me transportar para dentro da banheira, a minha mãe deixou-me cair. Tombei abruptamente na água, desamparado. Fiquei de cabeça submergida e as minhas mãos procuravam algo onde me agarrar para conseguir soerguer-me e respirar. Foram apenas segundos, mas na minha cabeça o novelo daquela cena é desenrolado devagar e cada segundo é vivenciado como uma via sacra de aflição. Vejo a minha mãe através do espelho de água, contornos faciais diluídos, debruçada sobre a banheira, sinto a sua mão no meu peito, uma mão pousada que nada faz para me socorrer, antes parece selar aquele encontro acidental com o fundo, com a falta de oxigênio. As minhas mãos esgravatam o ar como aranhas encurraladas, mas quanto mais estrebucho maior a dificuldade em me equilibrar e emergir da água.

 

(em Duzentos metros, Sónia Pereira)

Duzentos metros — excerto I

As idas à missa dominical eram rituais obrigatórios para a minha mãe quando criança. O padre da aldeia, personagem colorida pelos relatos natalícios destas sendas do passado, seria um fulano patusco, um estereótipo usado e abusado pelos programas de humor onde a personagem Padre da Aldeia é utilizada. Numa dessas missas de domingo, o padre, no seu sermão, recorda uma das ovelhas do seu rebanho que «partira» durante aquela semana. O bom do Sr. Manuel que um dia acordou morto fazendo a viagem para os braços do Senhor. A referência ao facto de um morto acordar morto divertiu parte das ovelhas do rebanho, outras tantas, embora fixando o padre como uns autómatos, não o ouviam, perdidas em pensamentos próprios, havia ainda aquelas que ouviam e não entendiam e as últimas que viam naquelas palavras uma bela metáfora (um acordar para uma nova vida, para uma existência celeste, o paraíso para o qual tanto tinham trabalhado). A minha mãezinha, apesar de jovem, seria uma menina perspicaz e aquela história de um morto acordar morto incutiu-lhe tamanha vontade de rir que, sentada no segundo banco corrido a contar do altar, teve de empreender grandes esforços para se controlar e não desatar à gargalhada. As cotoveladas da minha avó e o sibilar de ameaças ajudaram para que não perdesse a compostura por completo. «Põe-te quieta senão apanhas quando chegarmos a casa. Respeitinho pela casa do Senhor. Respeitinho pelo Sr. Manuel.» E a minha mãe, entre dentes, sussurrou-lhe em jeito de resposta: «Qual Sr. Manuel? Aquele que acordou morto?»

Se aquele comportamento valeu à minha mãe alguma achega com o cinto do avô ou a colher de pau da avó quando regressaram a casa não o sei, ela nunca o disse. Sempre preferiu a hilaridade da situação do Sr. Manuel às consequências do seu comportamento galhofeiro na missa. 

Esta história de encher chouriços em noites de festa vem a propósito da minha própria situação. Não a meti aqui a troco de nada. A minha cabeça, ou o que quer que seja que move neste momento o meu discurso, o meu pensar, foi recolhê-la aos despojos do meu próprio passado porque tem uma afinidade desconcertante comigo. Também eu acordei morto. Sem metáforas religiosas nem discursos toscos de padres da aldeia. Morri e acordei. Morto.

 

(em Duzentos Metros, Sónia Pereira)

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