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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Despojos de guerra - subtrações e adições

Há uns 25 anos, entrava numa sala de cinema numa qualquer tarde de uma dia de semana, no Monumental Saldanha, sozinha, para ver um filme. Estudava cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema e, embora o cinema me fascinasse, o que realmente me tinha levado àquela escolha académica peculiar, fora a escrita. Alguma coisa que justificasse a ânsia, a necessidade, mas também a alegria de escrever.

Estava naquele dia, naquela sala de cinema, porque o meu professor de argumento aconselhara aos seus alunos um livro de screenwriting e aquele filme, o que me levara ali, tinha o argumento desse mesmo autor e argumentista.

Lera e relera o livro Story de Robert McKee e agora estava ali uma oportunidade de ver se o genial autor Robert era também um argumentista em condições. Embora, atenção, a capacidade de ensinar não tenha de estar em perfeita ligação cósmica com a capacidade de executar e o contrário também se aplica. Nem todo o executante será um bom professor na sua área.

IMG_20220320_181452.jpg

Story, Robert McKee (1997)

O filme “Wag the Dog – Manobras na Casa Branca”, era um filme que tinha como premissa inicial, um presidente, uma presidência de uma país, que cria uma guerra fictícia para desviar a atenção dos eleitores de um escândalo sexual, perto das eleições, um momento de extrema importância política. Temos uma guerra em estúdio, um herói de guerra, uma música de guerra, tudo a que um povo tem direito.

Trailer de Wag the Dog - Manobras na Casa Branca (1997)

O filme, com um elenco de luxo, ainda sob o ponto de vista atual, tinha quatro espetadores naquela sessão da tarde e daquele dia fica o insólito destes quatro (eu incluída) terem tentado sair da sala depois do filme ter acabado para logo descobrirmos que a porta da sala estava trancada. Nada de pânico, só gargalhadas, porque depois daquele filme, daquela história, do absurdo que todos os quatro pressentíamos que realmente não o era, mais nada restava senão rir. Seria possível descobrir o cinismo das nações, dos governos, num filme? Seria possível que o riso fosse de nervoso, um certo desconforto instalado, mais do que hilaridade espontânea?

Pois claro que era possível. A caminho dos meus vinte anos eu sabia que o mundo era bem mais do que aquilo que eu conseguia ver, mas acho que foram precisos mais de vinte anos em cima para perceber que, apesar de tudo, o que via e pressentia ainda se revestia de imensa importância.

Numa Europa em guerra, não faltam especialistas a observarem cruamente o conflito. Os EUA estão numa senda de cercar a Rússia, arranjando aliados fronteiriços, erigindo nestes novos locais posições privilegiadas, que deixarão ao Rússia numa posição desfavorecida. Uma pressão, que levou Putin a uma estratégia de proteção através do ataque. Ou… Putin é apenas um expansionista, um imperialista que pretende expandir os seus domínios e não se deixar dominar pelos imperialistas ocidentais. E a partir daqui soma-se mais uma dúzia de variações, algumas mirabolantes, outras com alguma coerência.

Linhas, linhas e mais linhas escritas. Horas de televisão, com argumentos de lado a lado. E se tudo, de um ponto de vista estratégico, como se jogássemos à batalha naval, faz todo o sentido, na prática é apenas obsceno. E, lamento, todas estas pessoas que falam de estratégia, peritos, militares, também o são. Obscenos!

E as pessoas? Os civis? Como diabo não entram as pessoas nas equações, nas análises, nos balanços analíticos daqueles que decidem e daqueles que analisam?

As pessoas entram nesta equação como números, em subtrações frias. Hoje, ontem e em todos os conflitos de que há memória. Mortos, feridos, refugiados, deslocados, migrantes, esfomeados, viúvos, órfãos, desempregados, desesperados.

Motivada por esta despersonalização dos conflitos, pela realidade das guerras “lá longe”, mas que pressenti que poderiam ser “cá perto”, por perceber que na realidade o lá longe e o cá perto não fazia qualquer diferença, porque as vítimas da crueldade da guerra eram sempre as mesmas, pessoas, o ser humano banal na sua luta diária banal, comecei a escrever o que demoraria mais de uma década a acabar – um livro sobre uma guerra em território nacional. Pelo meio, Susan Sontag, no seu Olhando o sofrimento dos outros faz-me perceber que, por mais que me esforce, não perceberei, jamais, o que as pessoas, aqueles que estão no meio de um conflito, sofrem, sentem. Perceber a minha ignorância, dá-me humildade. E a humildade anda de mãos dadas com a empatia.

 

“Um número e assim era a vida humana por aqueles dias. Um mero número numa equação que usava mais subtrações do que adições. Pensar que cada uma daquelas pessoas ali sentada a comer, cada uma daquelas pessoas lá fora, desde o recém-nascido aos idosos, homens e mulheres, civis e militares, rebeldes e não rebeldes, todos eles, sem exceção, nada mais eram  do que números. E numa fração de segundo poderiam transfigurar-se de um Um, num Zero, sendo que o transtorno causado por essa mudança não era para ali chamado. As equações não contemplavam sentimentos, os números não tinham nome nem passado e, claro, os Zeros nem futuro tinham.»

Vou para não ficar, Sónia Pereira

Dunkirk — OST by Hans Zimmer

Ando sempre fora de tempo, atrasada nos meus textos sobre as novidades, as tendências, seja na música, na literatura, nas opiniões, no cinema.


Falar do filme Dunkirk em outubro, quando o mesmo saiu em julho ou agosto, é daquelas coisas que não devem interessar nem ao menino jesus. Mas apetece-me. E é quanto basta para eu escrever um texto. Na realidade, este post nem é uma crítica ou avaliação ao filme. A vontade de falar de Dunkirk nasceu da audição da banda sonora, da autoria do compositor Hans Zimmer. Confesso-me uma apreciadora das bandas sonoras de Zimmer e ainda mais daquelas em que ele teve colaboração de Lisa Gerrard, uma das minhas vozes preferidas (não é o caso deste filme). Não raras vezes ouço as bandas sonoras sem sequer conhecer o filme para o qual foram compostas.


Embora o trabalho de Zimmer seja sempre, em certo ponto, uma composição sem falhas, que «casa» bem com a imagem, nem todas as composições poderão ser chamadas de memoráveis, passíveis de serem perpetuadas na memória de quem as ouve/vê. Existem, no entanto, algumas que, mesmo passando os anos, mas mais depressa me lembro da banda sonora de Zimmer do que da história, do filme em si.


Quando fui ver Dunkirk — coisa rara, porque ultimamente não sou grande frequentadora de salas de cinema — o que de imediato se tornou evidente era a presença imposta, incómoda, da banda sonora. E quando digo incómoda, não é de todo uma crítica. Quando um filme retrata acontecimentos extremos, de enorme tensão, aquilo que o realizador, o argumentista, o compositor quer não é sentir indiferença por parte do público, é incomodá-lo, arrastá-lo para o pântano emocional daquela história, fazê-lo passar as mesmas amarguras que aqueles personagens, aterrorizá-lo, meter-lhe medo, tirá-lo da sua rotina. No entanto, somos constantemente bombardeados por emoções no nosso dia a dia, de tal forma que quase nos tornamos indiferentes, cada vez mais difíceis de perturbar, tornando a tarefa dos criativos, criadores cada vez mais difícil.


A banda sonora, nos filmes, sempre serviu para reforçar o tom emocional pretendido, gerir as emoções da narrativa cinematográfica. Um clímax nunca será um clímax «a seco», sem som; uma perseguição, o medo do perseguido, nunca chegará a medo sem a ambiência criada pela banda sonora (mais não seja, na gestão dos silêncios).


O que surpreende nesta banda sonora é que ela não aparece aqui e ali. Ela está sempre (serão, no total, um par de minutos, os momentos do filme em que a banda sonora desaparece). É uma presença tão esmagadora que não é apenas uma banda sonora, é uma personagem em si. E num filme com vários personagens, várias histórias paralelas, onde nenhum personagem é destacado, afirmado como personagem principal, poderei declarar sem exagero que a personagem principal deste filme é, sem sombra de dúvida, a composição sonora de Zimmer. 


Não direi que sem esta banda sonora o filme nada era, mas sem esta banda sonora, nenhum espetador teria saída das salas de cinema em profunda agitação, em lágrimas, aterrorizado, estupidificado com as contradições humanas.


Ouvindo «The mole» ou «supermarine», surge um quase apelo suicida, um desespero que, apanhando o ouvindo desatento, o fará necessariamente chorar. É esta subjugação, este saber-se manipulado pela emoção, transportado para fora do Agora, ou antes, inundado no Agora por um rol de emoções/pesadelos que não pertencem ali, que tornam esta banda sonora tão especial. Claro que há um uso sonoro de certos elementos que favorecem este descontrolo emocional. Sejam sons semelhantes a metralhadoras, um tic-tac de um relógio, um pulsar de um batimento cardíaco, a precursão acelerada que nos leva a um sentimento de urgência, perigo constante, que transportam o ouvinte a um ambiente acossado, de guerra, no limite da resistência humana.


Nolan e Zimmer tiveram um casamento perfeito com Dunkirk, mas como a composição de Zimmer vive plenamente sem o filme, como a música chama por mim sem necessitar do auxílio das imagens que a inspiraram, terei de bater palmas de pé a Zimmer.

 

OST Dunkirk — The mole, Hans Zimmer

 

 OST Dunkirk — Supermarine, Hans Zimmer

 

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