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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

O mundo lá fora

Escrevo e escrevo-vos quase todos os dias. Não há nada de altruísta neste meu ato. Escrevo para me sentir menos só, como se falasse diretamente convosco sobre aquilo de que gosto, aquilo que me atormenta (mas apenas aquilo que é pronunciável. Os impronunciáveis não pertencem aqui. Não pertencem a lado nenhum). Transformo-me, aos vossos olhos, num ícone, num avatar que desfia palavras, num ser invisível, virtual, que existe apenas em forma de palavras e frases. Olhando para o meu avatar, poderão questionar-se se aquele meu grito (quadro de Munch) é um grito de desespero, de frustração ou antes um grito de libertação. Mas mesmo que vos apresente a minha fotografia, que daí poderão concluir? As minhas feições assimétricas, o meu nariz grande, os meus olhos míopes não vos revelarão os meus segredos. Com imaginação poderão tentar construir na vossa cabeça um personagem de ficção que na realidade não existe, mas a imaginação é isso, a massa consistente que tapa as fendas abertas de uma parede em ruínas.

 

No entanto, no mundo lá fora o erro repete-se. O corpo que sai de casa, cumprimenta este e aquele, percorre os corredores de supermercado, não será mais real do que o avatar virtual. As banalidades do dia-a-dia são incapazes de fazer descer a máscara, algumas conversas trocadas ao vivo terão menos substância do que os comentários de um qualquer blog. E, tanto umas como outras (as conversas virtuais e reais) são dirigidas não a mim, mas a um ser imaginado, um fantasma primo em terceiro grau da pessoa real. E de tudo isto, instala-se uma incompletude permanente. O virtual tenta encaixar no real para formar uma peça completa, mas, ainda assim, o puzzle continua incompleto, com buracos pelo meio.

 

Mas a vida deve ser isto (sem certezas): uma mente encerrada num corpo que ainda aprende (e fá-lo-á até morrer) a expressar os desígnios do seu prisioneiro, ainda aprende a comunicar com todos os outros encarcerados que o rodeiam.

 

Eu, por mim, continuarei a tentar.

 

foto sónia.jpgO-Grito-Edvard-Munch-Foto01.jpg

 

 

 

5 comentários

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    Sónia Pereira 05.01.2017 01:01

    Antes de mais, obrigada pelas tuas palavras. É importante quando valorizam o que faço, pois, mesmo quando brinco, enveredo por um espírito mais humorístico, faço-o com empenho, pensando naqueles que me poderão ler. Vou escrevendo sobre vários assuntos e hoje uma predisposição mais sombria levou-me a esta exposição dos meus "impronunciáveis". Mas é como dizes, há um certo perigo no existencialismo. Quando se começa a questionar, a escavar em redor daquilo que somos (enquanto pessoas unas e enquanto pessoas em sociedade), percebe-se que não sobra nada de interesse, de relevante e é impossível viver assim. O existencialismo tem de ser manuseado como substância perigosa, com toda a cautela. :)
    Espero voltar a ver-te por aqui e visitarei o teu cantinho ( que também só conheci hoje).
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    Torcato 05.01.2017 16:32

    Nós funcionamos por momentos, por fases. E essas predisposições que referiste condicionam as nossas atitudes. Há fracções de tempo em que a sombra é claramente mais atraente que qualquer tipo de luz. Isso é normal (e creio que essencial, até).
    Refiro isto para pegar novamente no existencialismo (adoro divagar sobre estes temas!). Pego-lhe com um daqueles fatos anti-radioactividade: melhor prevenir. Porque sim, quando vamos até ao extremo das perguntas o desfecho revela-se muito semelhante: "qual o sentido de tudo isto?". Em que a resposta mais pragmática e objectiva, diria eu, é... nenhum.
    Este é apenas um exemplo para a necessidade do fato de protecção. E uso-o porque (hoje) tenho a certeza que há sentido e motivos para a nossa existência. Há que tratar de fazer por ela (pela existência) todos os dias :)

    Regressarei com certeza! Beijinhos e boa semana.
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    Sónia Pereira 06.01.2017 00:37

    Gostava de sentir as tuas certezas no que diz respeito à existência de um sentido para a nossa vida. Sinto-me e sinto-nos como um grão de areia num universo sem fim. O único sentido que encontro é o sentido que não nos interessa - Fazemos parte de um processo natural, parte integrante da natureza, nascemos vivemos e morremos. Mas esta explicação fica aquém, banaliza-nos, faz-nos parecer pequenos, coloca-nos em pé de igualdade com todos os outros seres vivos.
    Assim, nunca chego a acreditar num qualquer sentido, consigo é fingir que esqueço essa falta de motivos para a existência ou tento integrar-me numa realidade que se esquive a essa problemática.
    Bem, acho que aqui me esqueci de colocar o tal fato de protecção. :)
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    Torcato 07.01.2017 01:18

    Completamente sem fato. Quer-me até parecer que foi nu.
    Um grão de areia num universo interminável, compreendo. Basta começarmos a pensar no nosso significado relativamente à escala temporal e a todo o espaço (ambos supostamente existentes). E nesse caso sim, somos uma espécie de insignificância próxima do nulo.
    Esse sentido que dizes que não nos interessa, creio ter que ser o mais interessante. Porque repara, no fundo reúne tudo o que é a nossa vida. Ou aquilo que conhecemos dela, pelo menos.
    Quero com isto dizer que, por mais que as fases ou momentos influenciem o lado da balança em que nos colocamos, pensar que não existe sentido ou motivos também tem que interessar. É a velha história das emoções negativas, que são igualmente precisas ao nosso amadurecimento.

    Portanto, como é tarde e provavelmente eu já nem estou a escrever coisa com coisa, julgo que há espaço para tudo. Mas quero acreditar que no meio desse espaço, a parte mais sombria deve ser sempre manuseada com a tal cautela. Mergulhar em perguntas e mais perguntas não nos trará as milagrosas respostas. Essas, conseguem-se com os dias que passam e com o que fazemos com eles. Quanto mais fizermos, quanto mais experimentarmos, quanto mais nos ocuparmos a ponto de nem sobrar tempo para existencialismos, acredito que as respostas surgem. Não são universais e também não trazem selo de veracidade garantida. Mas se nos fizerem sentido a nós, na nossa cabeça, de que é que precisamos mais?
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