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Quimeras e Utopias

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Duterte — Psycho killer qu'est-ce que c'est

Quando um país começa a cair numa espiral de decadência, quando o povo parece estar de tal forma resignado (mas interiormente revoltado) com a impotência dos governantes, há espaço para o surgimento de um herói.

 

Quase todos os países governados por uma força politica de cariz ditatorial tiveram a sua génese governativa no aparecimento do político herói. Alguém com soluções drásticas para problemas drásticos. Alguém que parece ter a solução para problemas que são endémicos, estruturais, com um simples toque de mágica. Todo o poder da solução encerrado na figura de um único homem. Simples, muito simples, exclamam.

 

Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, é o herói do momento na sua terra natal. Num país dominado pela corrupção e pela criminalidade ligada ao narcotráfico, Duterte chega aos seus eleitores com um discurso de soluções extremas — uma caça e extermínio de traficantes e consumidores de droga. O corte do mal pela raiz.

 

Duterte.jpg

 

Inicialmente, começou com um incitamento às forças policiais (com o toque implícito da falta de consequências no caso de atitudes extremas serem tomadas), agora esse incitamento à caça à bruxa passou para a população em geral, quando o presidente veio assumir que matou, pessoalmente, vários criminosos enquanto foi presidente da câmara de Davao e não via razões para as pessoas, no geral, não fazerem o mesmo. Admitiu ainda, recentemente, ter atirado um suspeito de um helicóptero em voo.

 

Desde que Duterte assumiu a presidência em meados do ano passado, milhares de pessoas com ligações ao narcotráfico foram já mortas, mas o número a que Duterte pretende chegar é o de 3 milhões. Comparando-se a Hitler (numa tirada que depois considerou infeliz pelo paralelo), disse que ficaria feliz por matar 3 milhões de toxicodependentes e traficantes de droga.

 

Duterte vai construindo assim uma aura de herói rebelde, respondendo com extrema violência às angústias dos cidadãos do seu país, provocando a imprensa com alegações que nem sempre serão verdadeiras, mas que lhe dão visibilidade (dentro e fora de portas), espalhando medidas que parecem estapafúrdias, mas que têm eco nos medos das pessoas (uma das últimas medidas que pretende aprovar é a alteração da idade de responsabilidade criminal. Esta passaria dos 15 anos para os 9 anos de idade.)

 

Olhando para a génese desta governação, percebo que o mal nasce sempre de uma extrema necessidade de bem. Há muito crime, as pessoas estão fartas, surge alguém que promete fazer desaparecer o crime, desaparecendo com os criminosos. E esta vontade de resolver os problemas, que parece tão singela, revela-se, no entanto, populista, impulsiva e sem noção das consequências sociais.

 

O sistema judicial é substituído pela justiça popular, há uma clara margem para o surgimento do crime de vingança sem punição, para o surgimento dos bufos, dos delatores. O órgão de justiça que deveria ser independente do estado, imparcial, passa assim a ser popular, movido pela passionalidade e não pela imparcialidade.

 

E se, visto de fora, percebe-se a forma como Duterte está a modelar os seus cidadãos e a sua sociedade, como vai construindo o seu posto de estrela justiceira, no seu país ele é visto como o anjo salvador da pátria. Muitas pessoas alegam que os efeitos das suas ações são já visíveis, que o país está a tornar-se mais seguro, que a criminalidade tende a desaparecer.

 

Lendo os comentários de várias notícias em órgãos noticiosos internacionais, não faltam frases de apoio ao presidente e até frases de inveja de cidadãos de países vizinhos. Um cidadão indonésio dizia: Queremos um Duterte no nosso país. Que sorte que vocês, Filipinos, têm.

 

E no final, até onde pode ir o mal, a violência, para justificar o bem? E quais são os limites das ações de um governo, mesmo quando apoiado totalmente pelo seu povo?

 

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