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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Do lixo para a boca

Uma derrocada numa lixeira nos arredores de Adis Abeba provocou pelo menos 50 mortos. Pessoas, entre elas várias crianças, que procuravam comida e outros bens no meio dos detritos alheados de outros, foram surpreendidas pelo deslizamento de toneladas de lixo, sucumbindo. E tudo é triste nesta notícia relegada para segundo plano numa sociedade mais interessada em novelas políticas (ver e barafustar, mas nunca agir) do que na realidade além da vedação do seu quintal.

 

É triste saber da morte de pessoas que apenas pretendiam alimentar-se, subsistir a mais um dia de uma vida difícil, é triste pensar que, em pleno século XXI milhares de pessoas têm de vasculhar no lixo para sobreviver, é triste pensar que o meu desperdício, o meu lixo, é o garante de vida de outrem. Há algo de tão absurdo nesta equação que a vida perde contornos de realidade. A dada altura do nosso percurso evolutivo confundimos algo de substancial para o nosso bem-estar enquanto espécie: confundimos a importância da quantidade, da nossa multiplicação e consequente dominação do planeta, com a nossa felicidade, com a sensação de plenitude enquanto ser vivo.

 

Somos o animal mais bem-sucedido de sempre. Sete mil milhões de nós habitam este planeta. Mas o nosso sucesso nada tem a ver com a nossa felicidade. Milhares de anos de evolução, milhares de anos de revoluções disto e daquilo não nos tornaram em seres mais felizes. Crescemos em número, mas não crescemos em satisfação. Uma parte substancial de nós vive no limbo da sobrevivência, outra parte vive em permanente rotina, anestesiada pela luta que tem de ser travada para cumprir as falsas necessidades criadas e a mais pequena das partes vive acima de tudo isso, nadando na piscina da sua ganância. Mas haverá felicidade, uma sensação de plenitude existencial dentro de nós: naqueles que vivem do lixo, naqueles que vivem apenas para fazer lixo e naqueles que exploram ambos?

 

A nossa evolução, a nossa capacidade intelectual, racional exclusiva deveria ser garante suficiente para que nenhum de nós, nenhum membro da tribo humana tivesse de se alimentar de lixo, de construir habitações precárias em lixeiras, de viver no meio da podridão, da putrefação. Infelizmente, não é.

 

 

4 comentários

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    Sónia Pereira 14.03.2017 12:12

    É uma evolução que se tem apoiado unicamente na multiplicação, na propagação da espécie em número. Sermos muito é uma espécie de garantia evolutiva. Infelizmente a quantidade não é sinónimo de qualidade de vida. Acho que nada disto espantaria Darwin, digo eu.
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    Narciso Santos 14.03.2017 12:20

    A mim espanta-me pois conseguimos ir à lua, conseguimos inventar tanta coisa e assobiamos para o lado quando vemos isto a acontecer. Aliás quase não é noticia... Vamos nos apercebendo de situações triste mais pelos "faces" e redes sociais do que pelos mídia. Parece que enterrar a cabeça na areia, vai fazer com que estes flagelos de pobreza extrema, guerras, epidemias, etc.. irão desaparecer por si só...
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    Sónia Pereira 14.03.2017 12:48

    Os meios de comunicação não têm qualquer interesse por aquilo que se passa nos continentes como África e Ásia. Não têm porque sabem que as notícias não tem impacto semelhante às notícias provenientes de um país ocidental. Para os consumidores de notícias, 50 mortos em Adis Abeba não é igual a 50 mortos em Paris. É a triste realidade. É quase como se para nós, ocidentais, a desgraça fosse intrínseca aos países africanos. Já ninguém dá muita importância. E quando não há impacto, também não há movimentações de qualquer espécie para se resolverem estas situações de pobreza extrema, de violência, etc.
    É como dizes, vamos à lua, inventamos nanotecnologia, todos os dias surgem novas invenções disto e daquilo, mas não somos capazes de garantir uma vida digna a todos os seres humanos (alimentação, saúde, habitação, segurança). Somos uma espécie estranha, lá isso somos.
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