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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Contra-natura é o amor gerar ódio

Estive a ver o episódio da SIC «E se fosse eu» que esta semana era sobre a homofobia.

 

No final, face a algumas recções/comentários, apenas me pergunto (uma questão que me faço desde há anos, porque a resposta teima em não aparecer) — como é que o amor, a atração entre dois seres humanos pode causar ódio, repulsa a alguém? Porque é que o amor dos outros desencadeia tais emoções em quem nada tem a ver com ele, com esse amor, essa atração?

 

Quando falam em contra-natura como justificação para emoções tão baixas e ignóbeis, digo que contra-natura é o amor gerar ódio, ofensas, injúrias, repulsa expressa.

 

 

 

 

Memórias de Adriano — Marguerite Yourcenar

Nem sempre a motivação que nos conduz a um livro é a mais nobre, a que gostamos de apresentar em conversa, mas algo de mais obscuro e de difícil explicação. Não foi a notoriedade de Marguerite Yourcenar, as suas reconhecidas capacidades literárias que me levaram até Memórias de Adriano.

 

Desde cedo tive uma certa apetência por literatura que explorasse diferentes formas de sexualidade, distintos relacionamentos interpessoais, literatura que fugisse ao cânone dominante das relações heterossexuais, do «man meet girl». Ainda adolescente, já esta motivação me fazia pegar em livros menos convencionais, me fazia pesquisar, procurar, correr a comprar.

 

Apesar da minha heterossexualidade, a temática homossexual sempre surtiu um determinado fascínio em mim e essa foi uma das razões de ter pegado neste livro para o ler. E ainda bem que o fiz, porque esta obra é bem mais do que isso, é bem mais do que a paixão do imperador Adriano pelo seu protegido Antínoo, é bem mais do que o dilaceramento de Adriano pela perda do seu amado, este livro é uma obra de arte.

 

Marguerite Yourcenar pesquisou durante anos para este livro e podemos encontrar, na edição da Ulisseia, alguns apontamentos que foram feitos pela autora ao longo dos anos no decorrer dos seus estudos sobre o Imperador Adriano e sobre o império romano. O que foi conseguido neste texto singular foi um olhar sobre uma época distante que pretende não estar maculado ou modelado pelo olhar contemporâneo (até onde isso é possível).

 

Muitos romances históricos pecam precisamente por colocar em personagens de outros tempos, outras épocas, costumes, maneiras de ser e pensar que não pertencem ali, naquele passado, transformando o romance histórico numa miscelânea de adereços de época com personagens, hábitos e costumes hodiernos.

 

Assim, este livro não detém em si apenas a emoção de uma história do passado, contém a possibilidade de vislumbrar uma época pelo olhar de um homem notável, como se Adriano, ele mesmo, tivesse deixado estas palavras escritas especialmente para nós, leitores do século XX em diante.

 

 

E confesso que a razão fica confundida perante o prodígio do amor, da estranha obsessão que faz esta mesma carne, que tão-pouco nos preocupa quando compõe o nosso próprio corpo, limitando-nos a lavá-la, alimentá-la e, se possível, a impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma individualidade diferente da nossa e porque representa certos lineamentos de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estão de acordo.

Pág. 20

 

Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação.

Pág. 109

 

O meu luto não era mais que uma forma de excesso, uma devassidão grosseira: eu continuava a ser aquele que aproveita, aquele que goza, aquele que experimenta: o bem-amado entregava-me a sua morte.

Pág. 188

 

 

Memórias de Adriano.png

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenas, Ulisseia

 

Vou para não ficar (excerto II)

As mãos de Salvador, amornadas pelo sono, apertaram as de Alexander para o serenar. Não precisavam de falar. Aquele gesto simples, duas mãos que cingiam outras duas, fez desvanecer o cenário noturno de agressão e medo que povoara a cabeça do sargento e apenas a sensação morna de ser amparado subsistia. Aproximaram-se, sentindo a respiração um do outro. E num impulso simultâneo, beijaram-se. Primeiro devagar, num leve roçar de lábios, como se a escuridão pudesse dissimular a ação. Depois de forma sôfrega, urgente. Tatearam o rosto um do outro, sem que os lábios se distanciassem. Nariz, sobrancelhas, orelhas, olhos fechados. Tocaram o corpo um do outro. Pescoço, costas, peito, braços. Se o beijo que os unia era impaciente, a rasar a violência, a forma como se tocavam era suave, amedrontada pelo desconhecido, num contraste rítmico com o beijar acelerado. Pontas dos dedos que perscrutavam pequenos pedaços do corpo do outro.

Sentados na cama, de olhos fechados, dominados pelo ribombar cardíaco que os ensurdecia, que os agitava ao extremo da dor física, a vida, o querer alguma coisa, poder-se-ia resumir apenas àquilo. Lábios nos lábios, língua dentro da boca do outro, dedos a acariciarem um pescoço, a memorizarem a fisionomia de um nariz, um toque na nuca que faz estremecer, uma palma da mão pousada no peito que arranca um gemido ténue entre beijos, um suspiro causado por uma mão que afaga um rosto.

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