Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Sobre o suicídio

Não deixa de ser irónica a forma como percecionamos a morte infligida pelo próprio, vulgo, o suicídio. Milhares de pessoas morrem diariamente em mortes atrozes e evitáveis — guerras, subnutrição, falhas graves em sistemas de saúde subdesenvolvidos, acidentes provocados por erro humano, homicídios promovidos pelas mais mesquinhas razões, mortes que fazem notícia, pelo menos as mais ocidentalizadas, mas que esquecemos em segundos. Mortes que são números sem rosto e que conseguimos integrar na nossa rotina com uma facilidade alarmante.

Mas se a vizinha do quinto andar, num dia de sol (quem diabo se suicida num dia de sol, perguntam alguns estupefactos) se abeira da janela e resolve saltar para o vazio, caindo esparramada no passeio de calçada portuguesa, a imagem do corpo morto, torcido numa posição estranha, tira o sono a quem a conhecia e mesmo àqueles que, ouvindo a história contada por um vizinho atormentado, mesmo sem conhecerem a falecida, sentem uma qualquer familiaridade com a sua história de vida e miséria pessoal.

A imagem da vizinha voadora permanecerá naquela mente durante anos e mesmo décadas depois, aquela imagem irromperá inesperadamente, despoletada por algum som, odor ou semelhança com um qualquer acontecimento presente. Todos nós temos uma vizinha voadora arquivada na nossa mente. Uma vizinha voadora que pode ser um vizinho enforcado, uma conhecida comedora de veneno dos ratos, o padeiro que resolveu dispara contra os próprios miolos ou o mecânico saltador de pontes.

 

(em Duzentos metros, Sónia Pereira)

Considerações sobre a edição do ponto de vista do autor frustrado

 

Para um qualquer aspirante a escritor, ou mais concretamente, aspirante a escritor/escrevinhador publicado (porque alguns, mesmo depois de publicados, dificilmente poderão ser considerados escritores e outros tantos, mesmo sem a publicação, não teremos pejo em considerá-los dessa forma), a senda pela publicação não é caminho fácil.

Com a democratização da palavra escrita, com o advento dos cursos de escrita criativa, livros tutoriais de escrita com fórmulas mais ou menos fidedignas sobre a escrita de ficção, o número de potenciais escritores disparou, inundando as editoras de manuscritos que exigem uma avaliação. Para aquele que envia uma obra para uma editora, o que se advinha, regra geral, são meses de silêncio. Salvo raras exceções (o caso de uma editora que estabelece um limite de noventa dias para a resposta, sendo a resposta negativa no caso de passado esse espaço temporal não se tiver obtido qualquer contacto), as diversas editoras, talvez assoberbadas pela quantidade de manuscritos que lhes chegam e também pelos próprios imperativos do negócio, simplesmente ignoram durante meses (anos) os contactos dos potenciais futuros escritores, deixando-os num limbo de dúvidas.

Como pessoa que espera, esse silêncio pode ser interpretado de várias formas — leram, não gostaram e não publicarão; não leram ainda, mas ainda o farão; receberam, não leram e não o farão devido a razões várias.

Não vou comparar a possibilidade de publicação com ganhar o euromilhões, mas as probabilidades não serão assim tão díspares. Temos os livros traduzidos de autores estrangeiros, que já deram mostras noutros mercados de serem financeiramente viáveis, temos os livros dos autores nacionais já consagrados, temos os livros dos autores que ganharam algum prémio literário, temos os livros de figuras públicas, nacionais e estrangeiros (jornalistas, actores, apresentadores, políticos, cantores, etc.) e, tirando estas publicações mais ou menos garantidas, sobrará pouco espaço de manobra para a inclusão da publicação de novos autores. Um novo autor é um tiro no escuro e, embora possa tecer algumas considerações sobre a necessidade de diversidade na oferta literária (de qualidade) e, numa visão mais geral, cultural, na realidade, uma editora não deixa de ser um negócio que se quer rentável. Uma casa editora não é a Santa Casa da Misericórdia.

Para os potenciais autores surge, após anos de tormento no encalço da publicação, o que lhes parece ser uma luz ao fundo do túnel. Nos últimos anos surgiram várias «editoras» que se predispõem a publicar a quase totalidade das obras que lhes são enviadas, passando por um pequeno crivo editorial (que penso, rejeitará apenas obras onde o uso da linguagem roce o grotesco e a gramática seja assassinada e torturada). Todas as restantes obras serão levadas ao prelo, em troca de uma soma monetária a ser paga pelo autor. Nessa soma estarão incluídos os trabalhos de revisão, design, paginação e o acesso ao sistema de distribuição provido pela editora em questão. É interessante perceber que o conceito da expressão «Proposta Editorial» acaba subvertido. No contacto com uma editora, quem faz a proposta editorial é o autor, ao enviar o seu manuscrito ou resumo de uma obra. Com estas editoras/gráficas encapotadas, o autor envia o manuscrito e a editora em questão apelida de Proposta Editorial o orçamento enviado para a publicação da obra.

Para mim, o único senão deste sistema, é ser chamado de edição. Folheando o Código de Direitos de Autor facilmente se conclui que qualquer contrato que tenha custos para o autor (custos com design, revisão, impressão, distribuição ou compra obrigatória de exemplares para venda pelo escritor) não é um verdadeiro contrato de edição. Os contratos editoriais são absolutamente gratuitos para o autor, estando este apenas obrigado a cumprir prazos, caso estes estejam estipulados em contrato.

Resumindo, estas empresas apareceram e, contrariamente ao que alguns previram, estabeleceram-se e algumas lucram enormemente com este esquema que não é completamente honesto para com os autores. Embora, apesar de desonesta, seja uma solução facilmente percecionada como extremamente atrativa. É compreensível que alguém que se sente continuamente rejeitado pelas editoras (sem saber as razões, que podem ir desde a completa inaptidão literária do autor, à inadequação com o catálogo da editora, sobrecarga editorial ou simplesmente a falta de vontade em apostar em algo novo) veja nestas casas «editoras» uma maneira de concretizar o que se afigura muitas vezes como principal mote de vida.

Muitas outras considerações poderiam ser feitas sobre o tema Edição e sobre a escrita em geral, mas talvez deixe apenas uma reflexão, em jeito de solução, para a forma como as editoras gerem os contactos de novos potenciais autores.

— Não será necessário ler a totalidade de algumas obras para perceber que o seu autor faz um mau uso da língua portuguesa. Perceber isso não deve demorar muito tempo por parte de uma equipa que faz a avaliação de novos projetos editoriais. Essas obras poderiam ser rapidamente descartadas pelas editoras, num rápido contacto com o autor. Não seria mal pensado informar esse autor das razões básicas que levaram a que fosse descartado. Embora compreenda que uma editora não poderá ser entendida como consultora editorial, que dá conselhos literários/linguísticos/gramaticais a quem a consulta, informar alguém que o seu uso da língua é medíocre poderá fazer com que a pessoa em questão se iniba de continuar a bombardear as editoras com as suas «obras»;

— As editoras deveriam usar de extrema sinceridade para com aqueles que as contactam ou pretendem contactar. Se não desejam editar obras de novos autores, se não querem editar determinado género literário, se irão demorar mais de determinado tempo a fazer uma avaliação, se é comum não facultarem qualquer resposta às propostas editoriais recebidas, todos estes factos poderiam ser facilmente referidos nos sites, páginas nas redes sociais das editoras em questão. Uma harmonização das práticas de contacto e interação com os potenciais escritores faria com que estes não se sentissem um estorvo, uns inúteis, uns falhados. Porque, posso garantir, sentir que se é um estorvo, uma inutilidade e que se é falhado não é lá grande coisa.

 

Sobre a escrita, funesta doença

O mundo literário há vinte e cinco anos atrás era, sob o escrutínio do meu olhar adolescente, restrito, tal como um clube de elite onde só os melhores podiam entrar. Escrever umas coisas e dizer que se queria ser escritora roçava, a meu ver, a blasfémia. Como poderia eu, uma fulaneca qualquer, aspirar a tal coisa? Como me atrevia a pensar que algum dia chegaria aos calcanhares dos autores que me tiravam o sono, que me proporcionavam horas de leitura, a minha salvação do martírio que era a minha adolescência?

A imagem que retinha da minha pessoa, do meu ser adolescente, condicionou escolhas fulcrais, levou-me por caminhos que fizeram de mim o que sou hoje, o que, sob determinados aspectos, não é lá grande coisa. Mas apesar das escolhas divergentes, que supostamente me levariam para caminhos distantes dos da escrita, a doença persistiu. É já uma enfermidade crónica, que ultimamente se tem vindo a agudizar, entranhando-se em todos os quadrantes da minha vida, castrando a possibilidade de me comportar como uma pessoa «normal», de ter uma vida «normal». E esta realidade descrita pela palavra NORMAL é algo que anseio, mas da qual, paradoxalmente, fujo. Sonho com um emprego (que já tive) das nove às seis, num escritório, uma família padronizada, viagens de férias, idas a restaurantes, jantares com amigos e conhecidos, conversas sobre a actualidade política, futebolística, televisiva. Todavia, é como se algo em mim estivesse irremediavelmente danificado.

A par destes anseios de normalidade, está esta obsessão que deturpa a maneira como vivo o dia-a-dia, semeando histórias na minha cabeça, impulsionando-me a leituras compulsivas, muitas vezes glutonas, a horas desperdiçadas em frente ao computador debitando alarvidades para páginas em branco. Paro e percebo que sou uma mãe incompleta, uma desempregada de meia tigela (pois não serão os meus esforços de busca de um novo trabalho bastante limitados?), uma filha decepcionante, uma esposa a meio-gás, um ser humano frustrado, porque não me consigo proteger daquilo que quero. E o que quero é transformar esta corrente de observações interiores, diferentes formas de vida que se desenrolam dentro de mim, desconfortos, palpitações, medos e risos, transformar esta vida paralela em palavras tecidas com a mestria de um hábil artesão, em arte. E como conseguir coadunar o que se quer com a incapacidade, com a incompetência?

A escrita é um processo solitário e de solidão, mesmo quando se está rodeado de gente. E quando falo de escrita, não me refiro apenas ao processo de alinhar palavras num caderno ou num documento Word no computador. Para mim, a escrita, na sua vertente efectiva, da construção de frases, do processo artesanal de tecer uma página de palavras, é apenas uma quota-parte do que considero ser a ESCRITA. No meu caso, grande parte do processo desenrola-se na minha cabeça durante dias, semanas, como se, embora fisicamente presente neste mundo físico, vivesse em mundos paralelos, pudesse vivenciar vidas alheias, tomadas de decisões que não são minhas, medos e pânicos que nada me dizem na vida real.

Também a observação do que me rodeia é essencial para o processo de escrita. Há mais de um ano vi, de relance, numa feira popular, uma pessoa, um homem. Certos detalhes que condicionavam (e, de certa forma, caracterizavam aos olhos do comum observador) aquela pessoa, aquele ser humano específico, ficaram a martelar-me na cabeça. Da observação, passei para a criação mental de uma vida alternativa para aquele ser imaginado, que do ser real apenas mantinha o aspecto físico e a intuição de uma vida. Demorei semanas, talvez até meses, até escrever alguma coisa sobre o que resultou daquela observação e das primeiras frases escritas já muito mudou no rumo que inicialmente pré-estabelecera para aquela história. Isto porque, pré-estabelecer é condicionar, é uma certa arrogância de acharmos que controlamos, que temos aquela história, aquelas personagens na mão. Mas, tal como nós não estagnamos num momento específico da nossa vida, continuamos a viver, observar, ler, escrever, também as personagens, as suas vidas, são mutáveis, surpreendendo-nos muitas vezes com atitudes caprichosas, acções inexplicáveis.

E quantas vezes, na fila de supermercado, falando com alguma pessoa conhecida que me interpelou, os meus pensamentos, ao invés de irem para o preço da castanha ou do meu filho que não pára quieto, que está tão crescido, vão para a descoberta de uma faceta desconhecida de uma personagem, para o vislumbre de uma possibilidade negligenciada até àquela altura. E, aquele momento, aquela troca de palavras, soa, quando a descrevo, a uma farsa, elevando a quase totalidade da minha vivência a esse mesmo estatuto.

Quanto ao processo efectivo de escrita, sentar-me frente ao computador e começar a dedilhar letras no teclado, é um misto de dois sentimentos oposto. Uma sensação ambivalente que esbarra na parede do medo do fracasso, da incompetência, balançando violentamente de encontro à parede oposta, a de uma certa languidez, de um prazer reservado só para mim, que me inunda de ondas de satisfação, como se poucas coisas na vida me dessem tanta alegria como aquele momento específico — o aparecimento de cada letra, cada palavra, cada frase, mesmo que posteriormente apagados ou rectificados.

Falar sobre aspectos tão íntimos, sobre a doença em forma de tormento interno, poderá sempre provocar um certo riso sarcástico em quem me lê, mas a fatalidade é a fatalidade e falar sobre ela sempre dá um certo alento ao desgraçado afectado, mesmo que a conversa inclua risadas à mistura.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub