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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Fica!

Fica!

Não vês como é bela a natureza? Temos as montanhas, os pássaros, os rios e os lobos. Fica.

Lembra-te como são bonitos os pores do sol, as luas cheias, os cheiros da primavera, as árvores de cores incendiárias no outono. Fica.

 

Mas temos também a guerra, a morte estúpida, o sofrimento que causa indiferença, o viver para trabalhar, esta caminhada cega para o vazio.

 

Não digas isso. Fica! Temos pessoas que te amam, pessoas bondosas que precisam do teu amor, do teu carinho. E este mundo não para de evoluir, o que é hoje deixa de o ser amanhã. Temos inteligência palpitante, mentes brilhantes, seres humanos com capacidades extraordinárias. Fica…

 

Ficar? Para quê? Para esta repetição dos dias, esta ladainha sem fim, este sorrir sem nunca chegar a ter vontade de gargalhar, esta incapacidade de ser como deve ser?!

 

Ficas? Temos a comida, temos o vinho. Tu gostas. Fechas os olhos e deixas-te afundar naquele prazer que começa na boca e viaja até cada célula do teu corpo.

 

Pelo vinho? Ficar só pelo vinho?

 

Temos ainda a música e a literatura. Por este dois, pela soma de todas as partes, por este ramo de pequenos momentos que compõem um todo importante, ficas?

 

Só mais um dia. Só mais um dia de cada vez.

 

 

 

 

 

Escritores e pasteleiros

Não há nada neste mundo que não possa ser explicado através de uma analogia culinária. Da política à ciência, da moda à literatura, a gastronomia terá dentro de si subtilezas suficientes para ser chamada como metáfora explicativa das maiores complexidades que se possam imaginar neste mundo.

 

Dito isto e como eu sou como aquele personagem do Herman, o José Severino — «eu é mais bolos» — vou meter no mesmo saco pasteleiro os bolos e a literatura.

 

São editados milhares de novos livros por ano em Portugal e de entre os novos escritores, alguns já de nome consolidado na praça literária nacional e aclamados não raras vezes pela crítica, denota-se em alguns deles uma situação um tudo ou nada irritante:

 

Temos um magnífico bolo de cake design com uma decoração intrincada que demorou horas a fazer. A pessoa até sente culpa de ir enfiar um garfo numa tal beleza, em desfazer à dentada algo que parece ter sido feito para ver e não para saborear. Quando uma fatia daquela peça de arte nos vem parar ao prato, logo na primeira garfada à boca a desilusão instala-se. O bolo, de uma beleza extrema, tem um sabor básico, seco de textura, não correspondendo à expectativa. Não há qualquer subtileza na feitura daquela massa. Sabe a açúcar e ovos, talvez pior que um bolo baratucho comprado no supermercado. Toda a atenção do artista ficou-se pelo aspeto visual descurando vergonhosamente o sabor.

 

Alguns escritores são assim. O manuseamento da língua é magnífico. Conseguem fazer dela o que quiserem e focam-se primariamente nessa brincadeira com a linguagem, muitas vezes usando a transgressão de normas (gramaticais, ortográficas) para inovarem, mas acabando com uma narrativa pobre, com um sabor básico, de uma única nota. Talvez o bolo precise de um pouco de baunilha para aromatizar, de manteiga para suavizar, de umas raspas de laranja para a fragrância se entranhar nos vários sentidos de quem prova, para que cada garfada seja uma viagem e não um frete que se presta ao artista.

 

Dentro dos novos escritores existe ainda uma diferente propensão artística. Provenientes de «editoras» que não têm um verdadeiro crivo editorial, mas que se prestam a publicar seja o que for a troco de uma determinada quantia (e isto não é propriamente uma crítica, é uma tendência editorial da nossa atualidade), aparecem nas livrarias, supermercados e livrarias online diversos livros daquele tipo de escritor que abusa seriamente no uso do açúcar. Se é bolo, deve ser doce, pensam, mas o sabor adocicado do bolo é tão excessivo que na boca fica apenas aquele sabor enjoativo que aniquila tudo o resto. Há quem goste. Há muito quem goste. Todavia, parece-me um uso primário e não estudado de um elemento que, embora essencial, não deve sobrepor-se aos restantes sabores do bolo. A nível visual, o design não tem o arrojo dos bolos com cake design, mas é no sabor que desgraça se instala. Não é um bolo seco, mas é um bolo que só uma garfada já provoca a náusea pela demasia do doce. Tudo passa a sensação do excesso açucarado desde a textura até aos grãos de açúcar que ficam a rilhar entre os dentes.

 

O uso estridente das emoções, sabendo que escrever sobre amor, sofrimento, desgraça da perda, paixões assolapadas, vai quase necessariamente atrair um interessante número de leitores, fez com que estas narrativas profusamente açucaradas proliferassem passando a ideia que não é necessário ter-se atenção às quantidades dos ingredientes que se colocam num bolo, bastando carregar-se nas porções de açúcar de forma a mascarar o desleixo, a falta de profissionalismo e de arte do pasteleiro.   

 

Claro está que há sempre aquele mestre pasteleiro que nos consegue surpreender conseguindo casar na perfeição o aspeto visual do bolo com um sabor com várias dimensões que conseguem exaltar-nos os sentidos e deixar-nos a matutar obsessivamente naquele momento em que levamos aquele pedaço de bolo à boca. Um sabor que perdura na boca e na memória passados dias daquela prova. Um pasteleiro com uma obra memorável.

Parada e quieta

Parada, quieta.

A notícia da manhã já não é a notícia da tarde.

A indignação de hoje já não será a indignação de amanhã.

A urgência da aurora será o esquecimento do ocaso.

 

A velocidade que levam, todos vós, com as vossas labutas, os vossos empreendimentos, as vossas ideias,

é tal que mal vos vejo passar. Uma fração de segundo e já cá não estão. Fica-me apenas o eco da vossa presença.

Mas vão uns e logo vêm outros. Agora, logo, ininterruptamente.

E eu…

Parada e quieta.

Quando vos ouço, quando vos consigo ouvir, dizem-me:

Deverias ler isto,

deverias ouvir aquilo,

Deverias ver aqueloutro.

Deverias falar com este e nem te atrevas a falar com aquele.

Deverias fazer isto,

evita fazer aquilo.

Ainda não foste ali?

Nunca vás acolá!

Compra isto.

Não vás à rua vestida com aquilo!

Não tens isto?

Mas é isso mesmo o que pensas?

Como te atreves?

 

O que raio tens na cabeça?

— Eu? Nada. Estou apenas para aqui

Parada e quieta.

 

 

Sónia Pereira

Paul Auster e o meu plágio inadvertido

Sete mil milhões de pessoas. Na busca das minhas singularidades, da minha unicidade, digo-me, como se me cantasse uma canção de embalar, uma lengalenga hipnótica para me acalmar, me justificar: somos sete mil milhões unidos pela nossa diversidade, uma massa una pelas nossas diferenças, um ninho gigante pulsante de mentes diferentes, pois ninguém pensa de maneira igual. Mas… e há sempre um advérbio maluco que vem estragar tudo, abafar o som da minha litania, mas sendo nós diferentes, talvez o não sejamos assim tanto. Somos, muitos de nós, fruto da mesma experiência educacional, cultural, social, económica. Lemos os mesmos livros, ouvimos a mesma música, vemos os mesmos filmes, estudamos a mesma matéria na escola. Só a nossa experiência pessoal de vida, a turbulência própria de cada vivência pode apimentar e salgar a nossa maneira de percepcionar o mundo, diferenciando-o dos demais.

 

Há dez anos comecei a escrevinhar uma história. Durante anos fui redesenhando inícios, escrevendo episódios soltos que se abrigavam sob uma ideia geral, sob uma história com um mote simples. Nos últimos três anos obriguei-me a escolher uma estrutura, obriguei-me a meter aqueles personagens na ordem, aquela narrativa nos eixos. Uma frase de uma professora numa aula provocou a escolha de estrutura narrativa, uma viagem levou-me a desenvolver de determinada forma um personagem, um anseio, um medo permanente levou-me a definir a ambiência da história, atrevimentos aparentemente espontâneos dos personagens definiram o caminho, a foz onde aquela história desaguaria. Quando acabei, depois de diversas revisões, de cortes, alterações, correcções de gralhas, de parágrafos inteiros que viram traçado o seu destino como lixo electrónico, de novos parágrafos que brotaram quase como se se escrevessem sozinhos, cheguei ao ponto de considerar o meu livro acabado. Todavia, um livro é coisa que parece nunca ter fim. De cada vez que se lhe mete os olhos em cima alguma gralha pulula provocatória à nossa frente, algum aspecto afronta-nos, acusando-nos de grande pobreza mental por lá ter sido escarrapachado, novas alterações surgem forçosamente.

 

Com todo este corte e costura literário, mesmo conhecendo as limitações das minhas competências literárias, mesmo duvidando do meu domínio exímio da língua portuguesa, o que escrevi afigurava-se como algo único, uma ideia que apenas eu poderia ter, uma teia que apenas eu poderia ter tecido, um verdadeiro admirável mundo novo.

 

Deste fulgor da criação à decepção vai um nada; desta exaltação, deste amor pelo filho que se concebeu com tanto esforço, um filho no qual se pensa compulsivamente, negligenciando os seus defeitos em detrimento das suas características que são um reflexo de nós próprios (daí a atracção), desta obsessão à evidência da repetição, da vulgaridade vão apenas segundos de desconforto, segundos de um vulcão interior em erupção que solta lava e arrasa tudo à passagem.

 

Comprei um livro de Auster. Uma vida não chega para se ler tudo o que se quer ler. Se ao menos parassem de escrever, se ao menos mais nenhum livro fosse escrito talvez me julgasse capaz de ler os essenciais literários, caso a duração da minha vida, visão e clareza mental mo permitissem. Auster já andava há uns tempos na lista dos próximos, mas outros tinham-lhe passado descaradamente à frente na fila. Este verão decidi fazer-lhe justiça e decidi começar por um livro que poderei classificar de memórias. Um autor é a sua obra e não a sua vida, a sua personalidade, a sua maneira de fazer as coisas, mas há um certo conforto na confirmação de que aquela pessoa, aquele ser humano que escreve, se faz presente na vida de milhares de pessoas através das suas palavras, é também um ser humano razoável, com fraquezas, medos, ambições e frustrações, um pouco um reflexo de nós próprios nas nossas qualidades e defeitos. Há sempre um choque na descoberta de que um determinado autor que nos deleitou, que nos acompanhou durante anos é na realidade um facínora, um troglodita sem princípios ou um arrivista ambicioso que não olha a meios para alcançar o topo da sua montanha. Embora, nestes casos, a obra não perca qualidades, a luz à qual a vemos, a observamos, esmorece, perde intensidade, levando as trevas ao que parecia tão luminoso.

 

Após esta primeira leitura de Auster, consultando os resumos de outros livros do mesmo autor para futuras aquisições bibliográficas, descubro lá no meio o foco das minhas angústias. Um livro que desconhecia, mas cujo mote, cujo ponto de partida narrativo era semelhante ao da minha história. A mesma ambiência distópica, o mesmo ponto de partida narrativo e, em parte, até a mesma escolha estrutural.

 

Como poderia eu ter plagiado uma ideia de Auster sem a conhecer e, esquecendo o plágio (que não o houve), como pude eu ter uma ideia irmã da de Auster, como a acendalha que explodiu numa história pôde ser tão semelhante à de Auster, um autor cuja obra me era desconhecida até à data?!

 

Em conclusão, não sou assim tão diferente de todos os outros sete mil milhões nem as minhas ideias são assim tão originais. A forma como apimento e salgo a minha história, essa, terá alguns traços apenas meus, mas mesmo essa forma de temperar a narrativa sofrerá grandes influências da minha vivência banal, das minhas leituras estereotipadas, tornando o produto da minha criatividade pouco ou nada criativo.

 

Agora, num depósito, num qualquer armazém de uma editora repousa o exemplar daquele livro de Auster que quero ler, mas simultaneamente tenho medo, adiando a sua compra, procrastinando o encontro com a evidência do meu plágio inadvertido.

Da incapacidade de análise

Sempre tive uma certa dificuldade em dissecar e analisar aquilo de que gosto. Embora lhe chame incapacidade, não o é realmente, pois se tiver de o fazer, faço-o com alguma razoabilidade, mas a contragosto. Seja analisar um livro, um filme, uma música, uma pintura, uma fotografia ou outra qualquer obra de arte, prefiro ficar-me pelo impacto que tais obras me causam a um nível mais orgânico (talvez mais básico), do que partir para uma análise criteriosa, que desmonte em fragmentos aquele todo que tanto me impressionou. Isto não quer dizer que a absorção de uma obra não me provoque um rol de análises interiores desbragadas, tempestuosas, mas é como se permitisse que esses pensamentos seguissem um rumo próprio, sem que lhes impusesse uma forma, uma estrutura, uma orientação obrigatória. Depois, há um certo medo de que a dissecação e posterior análise matem a magia, mostrando-me o grande truque por detrás daquela apoteose artística.

 

Quando estudava cinema, assisti a vários filmes, em salas de cinema ou na escola, na companhia dos meus colegas de turma. Alguns deles tinham a capacidade, durante o visionamento da película, de desmontar movimentos de câmara, opções de montagem, usos da luz, perceber erros de raccord e não se inibiam de falar disso. Nessas alturas, percebia com um certa frustração que estar ali era um erro. Eu não era como eles e pior, não queria ser. Acho que só me perdia em análises dessas se o filme fosse mesmo mau e mesmo assim não era uma coisa espontânea. Do que eu gostava era daquela magia do todo, da soma de todas as partes e não do observar cada parte como elemento de análise.

 

Com os livros passa-se o mesmo. Como pessoa que gosta de ler e escrever, por vezes imponho-me essa observação, esse deslindar do processo. Todavia, melhor do que a análise, melhor do que compreender o processo, é aquela emoção, aquela adrenalina, aquele furor da leitura, aquele rir, aquele chorar, aquela manipulação de que se é alvo e de que se gosta, se deixa, pois aquela manipulação é tudo. Aquela manipulação que nos faz ler cada palavra com voracidade, parar em introspeções que picam como agulhas, olhar em redor, ora com terror, ora com languidez, melancolia ou felicidade parva, terminando numa explosão de emoções que nos deixam desorientados, desnorteados e momentaneamente sem rumo.

Vou para não ficar (excerto II)

As mãos de Salvador, amornadas pelo sono, apertaram as de Alexander para o serenar. Não precisavam de falar. Aquele gesto simples, duas mãos que cingiam outras duas, fez desvanecer o cenário noturno de agressão e medo que povoara a cabeça do sargento e apenas a sensação morna de ser amparado subsistia. Aproximaram-se, sentindo a respiração um do outro. E num impulso simultâneo, beijaram-se. Primeiro devagar, num leve roçar de lábios, como se a escuridão pudesse dissimular a ação. Depois de forma sôfrega, urgente. Tatearam o rosto um do outro, sem que os lábios se distanciassem. Nariz, sobrancelhas, orelhas, olhos fechados. Tocaram o corpo um do outro. Pescoço, costas, peito, braços. Se o beijo que os unia era impaciente, a rasar a violência, a forma como se tocavam era suave, amedrontada pelo desconhecido, num contraste rítmico com o beijar acelerado. Pontas dos dedos que perscrutavam pequenos pedaços do corpo do outro.

Sentados na cama, de olhos fechados, dominados pelo ribombar cardíaco que os ensurdecia, que os agitava ao extremo da dor física, a vida, o querer alguma coisa, poder-se-ia resumir apenas àquilo. Lábios nos lábios, língua dentro da boca do outro, dedos a acariciarem um pescoço, a memorizarem a fisionomia de um nariz, um toque na nuca que faz estremecer, uma palma da mão pousada no peito que arranca um gemido ténue entre beijos, um suspiro causado por uma mão que afaga um rosto.

Vou para não ficar (excerto)

Alexander sentiu-se sumir por dentro. Estava ali, presente, e em todas as interpelações conseguiu articular respostas racionais, embora evasivas, mas o seu interior evaporava, exalando-se pelos poros, pelas expirações, pelos olhares vertiginosos que dedicava a cada canto e recanto dos espaços envolventes. Um homem que se diluía perante uma assistência desinteressada. Um homem que se transformava num recipiente oco. De metralhadora nas mãos, quando se preparava para a devolver ao depósito de armas, ouviu o som cavo, o eco grave do seu próprio corpo vazio. Podia, como um louco, descarregar a arma de forma aleatória naquelas pessoas que falavam, riam, relaxavam depois de um dia de trabalho. Provocar uma profusa matança, criar novos ecos, encher-se novamente, mostrar da forma mais dramática o significado da palavra morte àqueles que a usavam como artifício humorístico. Podia. Na imagem da arma, no toque da coronha e do cano entre mãos, conseguia antecipar a efervescência do momento, a vertigem sonora dos disparos. Podia. Todas as suas ações deslocadas seriam desculpa posterior daquele comportamento, mas também aviso prévio ignorado. Todavia, o seu corpo oco reagiu de forma automática como um sonâmbulo que sabe o caminho, conhece os detalhes arquitetónicos de uma casa às escuras. Entregou a arma no depósito.

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira

Conhece-te a ti mesmo.

Conhece-te a ti mesmo.

Mas ninguém quer realmente conhecer-se a fundo. Só se lá vai escarafunchar quando a pessoa se sente obrigada ou foi lá parar por engano, seguindo um inocente trilho de pequenas migalhas. Há um pressentimento latente na ignorância diária de que o que lá está escondido, no nosso íntimo, aquilo que se desconhece, não trará felicidade, só inquietações desnecessárias.

E assim é.

 

(em Duzentos metros)

Sobre o suicídio

Não deixa de ser irónica a forma como percecionamos a morte infligida pelo próprio, vulgo, o suicídio. Milhares de pessoas morrem diariamente em mortes atrozes e evitáveis — guerras, subnutrição, falhas graves em sistemas de saúde subdesenvolvidos, acidentes provocados por erro humano, homicídios promovidos pelas mais mesquinhas razões, mortes que fazem notícia, pelo menos as mais ocidentalizadas, mas que esquecemos em segundos. Mortes que são números sem rosto e que conseguimos integrar na nossa rotina com uma facilidade alarmante.

Mas se a vizinha do quinto andar, num dia de sol (quem diabo se suicida num dia de sol, perguntam alguns estupefactos) se abeira da janela e resolve saltar para o vazio, caindo esparramada no passeio de calçada portuguesa, a imagem do corpo morto, torcido numa posição estranha, tira o sono a quem a conhecia e mesmo àqueles que, ouvindo a história contada por um vizinho atormentado, mesmo sem conhecerem a falecida, sentem uma qualquer familiaridade com a sua história de vida e miséria pessoal.

A imagem da vizinha voadora permanecerá naquela mente durante anos e mesmo décadas depois, aquela imagem irromperá inesperadamente, despoletada por algum som, odor ou semelhança com um qualquer acontecimento presente. Todos nós temos uma vizinha voadora arquivada na nossa mente. Uma vizinha voadora que pode ser um vizinho enforcado, uma conhecida comedora de veneno dos ratos, o padeiro que resolveu dispara contra os próprios miolos ou o mecânico saltador de pontes.

 

(em Duzentos metros, Sónia Pereira)

Considerações sobre a edição do ponto de vista do autor frustrado

 

Para um qualquer aspirante a escritor, ou mais concretamente, aspirante a escritor/escrevinhador publicado (porque alguns, mesmo depois de publicados, dificilmente poderão ser considerados escritores e outros tantos, mesmo sem a publicação, não teremos pejo em considerá-los dessa forma), a senda pela publicação não é caminho fácil.

Com a democratização da palavra escrita, com o advento dos cursos de escrita criativa, livros tutoriais de escrita com fórmulas mais ou menos fidedignas sobre a escrita de ficção, o número de potenciais escritores disparou, inundando as editoras de manuscritos que exigem uma avaliação. Para aquele que envia uma obra para uma editora, o que se advinha, regra geral, são meses de silêncio. Salvo raras exceções (o caso de uma editora que estabelece um limite de noventa dias para a resposta, sendo a resposta negativa no caso de passado esse espaço temporal não se tiver obtido qualquer contacto), as diversas editoras, talvez assoberbadas pela quantidade de manuscritos que lhes chegam e também pelos próprios imperativos do negócio, simplesmente ignoram durante meses (anos) os contactos dos potenciais futuros escritores, deixando-os num limbo de dúvidas.

Como pessoa que espera, esse silêncio pode ser interpretado de várias formas — leram, não gostaram e não publicarão; não leram ainda, mas ainda o farão; receberam, não leram e não o farão devido a razões várias.

Não vou comparar a possibilidade de publicação com ganhar o euromilhões, mas as probabilidades não serão assim tão díspares. Temos os livros traduzidos de autores estrangeiros, que já deram mostras noutros mercados de serem financeiramente viáveis, temos os livros dos autores nacionais já consagrados, temos os livros dos autores que ganharam algum prémio literário, temos os livros de figuras públicas, nacionais e estrangeiros (jornalistas, actores, apresentadores, políticos, cantores, etc.) e, tirando estas publicações mais ou menos garantidas, sobrará pouco espaço de manobra para a inclusão da publicação de novos autores. Um novo autor é um tiro no escuro e, embora possa tecer algumas considerações sobre a necessidade de diversidade na oferta literária (de qualidade) e, numa visão mais geral, cultural, na realidade, uma editora não deixa de ser um negócio que se quer rentável. Uma casa editora não é a Santa Casa da Misericórdia.

Para os potenciais autores surge, após anos de tormento no encalço da publicação, o que lhes parece ser uma luz ao fundo do túnel. Nos últimos anos surgiram várias «editoras» que se predispõem a publicar a quase totalidade das obras que lhes são enviadas, passando por um pequeno crivo editorial (que penso, rejeitará apenas obras onde o uso da linguagem roce o grotesco e a gramática seja assassinada e torturada). Todas as restantes obras serão levadas ao prelo, em troca de uma soma monetária a ser paga pelo autor. Nessa soma estarão incluídos os trabalhos de revisão, design, paginação e o acesso ao sistema de distribuição provido pela editora em questão. É interessante perceber que o conceito da expressão «Proposta Editorial» acaba subvertido. No contacto com uma editora, quem faz a proposta editorial é o autor, ao enviar o seu manuscrito ou resumo de uma obra. Com estas editoras/gráficas encapotadas, o autor envia o manuscrito e a editora em questão apelida de Proposta Editorial o orçamento enviado para a publicação da obra.

Para mim, o único senão deste sistema, é ser chamado de edição. Folheando o Código de Direitos de Autor facilmente se conclui que qualquer contrato que tenha custos para o autor (custos com design, revisão, impressão, distribuição ou compra obrigatória de exemplares para venda pelo escritor) não é um verdadeiro contrato de edição. Os contratos editoriais são absolutamente gratuitos para o autor, estando este apenas obrigado a cumprir prazos, caso estes estejam estipulados em contrato.

Resumindo, estas empresas apareceram e, contrariamente ao que alguns previram, estabeleceram-se e algumas lucram enormemente com este esquema que não é completamente honesto para com os autores. Embora, apesar de desonesta, seja uma solução facilmente percecionada como extremamente atrativa. É compreensível que alguém que se sente continuamente rejeitado pelas editoras (sem saber as razões, que podem ir desde a completa inaptidão literária do autor, à inadequação com o catálogo da editora, sobrecarga editorial ou simplesmente a falta de vontade em apostar em algo novo) veja nestas casas «editoras» uma maneira de concretizar o que se afigura muitas vezes como principal mote de vida.

Muitas outras considerações poderiam ser feitas sobre o tema Edição e sobre a escrita em geral, mas talvez deixe apenas uma reflexão, em jeito de solução, para a forma como as editoras gerem os contactos de novos potenciais autores.

— Não será necessário ler a totalidade de algumas obras para perceber que o seu autor faz um mau uso da língua portuguesa. Perceber isso não deve demorar muito tempo por parte de uma equipa que faz a avaliação de novos projetos editoriais. Essas obras poderiam ser rapidamente descartadas pelas editoras, num rápido contacto com o autor. Não seria mal pensado informar esse autor das razões básicas que levaram a que fosse descartado. Embora compreenda que uma editora não poderá ser entendida como consultora editorial, que dá conselhos literários/linguísticos/gramaticais a quem a consulta, informar alguém que o seu uso da língua é medíocre poderá fazer com que a pessoa em questão se iniba de continuar a bombardear as editoras com as suas «obras»;

— As editoras deveriam usar de extrema sinceridade para com aqueles que as contactam ou pretendem contactar. Se não desejam editar obras de novos autores, se não querem editar determinado género literário, se irão demorar mais de determinado tempo a fazer uma avaliação, se é comum não facultarem qualquer resposta às propostas editoriais recebidas, todos estes factos poderiam ser facilmente referidos nos sites, páginas nas redes sociais das editoras em questão. Uma harmonização das práticas de contacto e interação com os potenciais escritores faria com que estes não se sentissem um estorvo, uns inúteis, uns falhados. Porque, posso garantir, sentir que se é um estorvo, uma inutilidade e que se é falhado não é lá grande coisa.