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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Young Royals – contagem decrescente para a T2

As aparências iludem. Os rótulos enganam. Chegando-se ao momento da confrontação, há que se ter hombridade e se admitir que o que nos levou a um lugar especial não foi uma motivação pertinente, mas a busca de um entretenimento fácil.

Mas ainda assim chegamos lá, mesmo que por atalhos esconsos.

Há um ano atrás, num sábado, estava entediada. Chovia, não tinha nenhum programa especial marcado, estava em casa sem nada para fazer (podia ter lido um livro, mas o tempo lá fora chorava por algo mais básico e reconfortante) e meti-me a coscuvilhar opções na Netflix. Apareceu-me, entre outras coisas, uma série sueca chamada Young Royals. Pela descrição, parecia-me uma daquelas séries teens, tipo Elite, mas deixei-me convencer por duas razões: era uma série sueca e sinto-me cativada (de uma forma entre o inexplicável e o absurdo) pela Suécia e era uma série com uma temática gay e sinto-me cativada (de uma forma entre o inexplicável e o absurdo) por toda a iconografia gay desde que era adolescente (coisa que foi há muitos, muitos, muitos anos atrás).

Eram seis episódios e… vi-os todos nesse mesmo sábado. E, nesse dia, nesse malfadado dia, deu-se um fenómeno sobrenatural que ainda perdura. Nunca na vida tinha revisto uma série (já tinha revisto filmes, mas escassas vezes e é raro reler livros – há muitos filmes e séries para ver e muitos livros para ler, para se perder tempo com revisitas). Mas, desde esse nubloso dia, já revi a série Young Royals umas quantas vezes.

Porquê?

A escrita para mim é coisa de grande importância. Já estudei cinema, com o intuito de aprofundar a disciplina de escrita de argumento, estudo escrita criativa neste momento, tentando manter um arnês e uma trela, em jeito de subjugação, numa área querida mas que não consigo ainda dominar ou levar descontraidamente a passear.

Por vezes, quando «consumimos» produtos audiovisuais, deixamo-los pelo meio, não prosseguimos, achamos entediante ou repetitivo e não conseguimos perceber a razão. Normalmente uma das razões disso acontecer passa pela escrita deficiente desses produtos. Quando nos deixamos apanhar por algo, quando rejubilamos, nem percebemos a mestria daqueles que, com muita habilidade e talento (e através da escrita), montaram aquilo que nos levou ao céu.  

Esta série está, acima de tudo (mas não só), muito bem escrita. O argumento é de Lisa Ambjörn e das irmãs Forsman e espanta-me a capacidade de, no que parece um curto espaço disponível (6 episódios) tanto acontecer, sem nunca cair no previsível, no cliché, no forçado e, acima de tudo, no inverosímil. É uma montanha russa, mas, ao contrário das montanhas russas, em que tudo nos passa pelos olhos a correr, sem permitir tempo para ver, pensar, absorver, esta montanha russa tem muita atenção aos detalhes. E são esses detalhes que, numa fabulosa soma, transformam este produto audiovisual numa obra de arte.

Assim, a escrita é espantosa. E o resto?

O diabo do resto também. Uma realização excecional, com uma cinematografia em que os movimentos de câmara, os jogos de cores, escolha de certos planos aproximados parecem componentes de uma orquestra em absurda sintonia em busca da exaltação. A sonografia também me pareceu excelente, com uma gestão de silêncios e som e uma escolha da banda sonora sempre pertinentes (não é irritante quando encharcam filmes e séries com uma banda sonora clássica básica, a puxar a lágrima, mas que, ao invés de fazer chorar, dá vontade de espancar alguém?).

E depois, o elenco. Os atores. Aqui entra um dos fatores que, inicialmente, mais me cativou, por uma razão inesperada. Temos um grupo de jovens diferentes uns dos outros, com aparências diversas, como em qualquer escola e… inesperadamente (pelos padrões da indústria audiovisual) borbulhentos.

Se imagino Edvin Ryding, o ator principal, numa série americana? Imagino, dado que ele é um talentoso ator. Mas, carregadinho de base na cara. Aquele rosto, tal como aparece na série, seria rejeitado fora da industria audiovisual europeia. Demasiado acne, demasiada imperfeição.

A opção de ter os atores tal como são, com acne, com cicatrizes, cultiva uma maior identificação com os espetadores, pois no público estarão adolescentes e estarão outros, tal como eu, que já não o são, mas já o fomos. É mostrar o ser humano nas suas facetas diversas, mas ainda assim, mostrando a beleza dessas mesmas facetas.

Tirando a questão do aspeto natural dos atores, todos eles são excelentes e digo-o sem exagero. Edvin, apesar de ter uns 19 anos, é já ator desde pequeno. Omar, embora estreante, não se percebe ponta de inexperiência. Depois temos Mälte. Se temos vontade de agredir o ator que é o vilão (?) da série, parte dessa vontade nasce da capacidade irrepreensível de um ator desempenhar esse papel.    

Assim, no dia em que saiu o trailer da segunda temporada da série, que estreia a 1 de Novembro, digo-vos apenas que:

Parece uma série para jovens adultos, mas…

Não é só uma série para jovens adultos!

 

Uma soma de bem fazer em várias áreas, que culminou num «produto» de qualidade.

É um dos produtos televisivos mais bem conseguidos que tive a oportunidade de ver nos últimos tempos.

 

 

Trailer 2ª temporada Young Royals

Trailer 1ª temporada Young Royals

Sigmund Krähe renascido

O mundo é um lugar imenso e simultaneamente uma pequena vilória provinciana. Sabemos o que certas celebridades do outro lado do mundo comem e bebem, de que gostam, de que falam, com quem fazem amor e a quem odeiam e sabemo-lo como qualquer bom coscuvilheiro da aldeia. Mas, num paradoxo com esta aparente proximidade (de um eu, tu e eles, transformados com facilidade num nós), é possível que alguém se esfume sem deixar rasto, que alguém que ontem era, hoje já não o seja. É possível que um Ele se mantenha um Ele, longe e teimosamente afastado de Nós.

Sigmund Krähe é um compositor alemão. Quando digo é, no presente do indicativo, estou a dar um grande salto de fé assumindo que ainda vive, que respira entre nós.

Até há um ano e tal atrás, seria possível encontrar no youtube centenas de composições suas, num canal em nome próprio, que não cheguei a conhecer. A maioria das composições são para órgão de tubos – dramáticas, obscuras, mas não demasiado rebuscadas. Algumas pecarão mesmo pela simplicidade, assemelhando-se a bandas sonoras de filmes de mistério e fantasia. Demasiado sintetizadas, num registo já ouvido? Talvez. Mas ainda assim com um travo épico que, pessoalmente, me fascina.

Nada de novo no mundo. Um artista a usar uma plataforma global para difundir a sua música. Um nome associado a centenas de registos musicais e nada mais.

Até há um ano. De um dia para o outro, Sigmund e a sua música desapareceram. O canal desapareceu do Youtube, apagado pelo autor ou pela plataforma. A partir daí começa a especulação: o que acontecera a Krähe e à sua música?

Como pode alguém ser e não ser? Ser apenas um nome, ser centenas de peças musicais, ser ouvido por milhares de pessoas, ser comentado, apreciado e também desdenhado e, num segundo, deixar de o ser? Deixar de ser para Nós, deixar de existir enquanto ser global, enquanto artista, desvanecer como um Houdini?

Uma das minhas professoras de mestrado, falando dos escritos dos alunos mantidos na «gaveta», diz-nos provocadoramente que aquilo que fazemos não é arte. E não fala da qualidade do que escrevemos, pois desconhece se a temos ou não ou sequer se tal coisa, a qualidade, é coisa quantificável.

Do que ela fala é da necessidade de haver uma comunidade que usufrui, que está envolvida na experiência, no ritual de fruição de uma peça de arte. Sem o outro não há arte.

Sigmund Krähe tinha o outro, o seu público, fazia arte, mas decidiu (decidiram por ele, morreu, enlouqueceu, aborreceu-se?) subtrair o estatuto de arte àquilo que fazia. Desaparecer com tudo. Sem o seu público, acabou-se a arte.

Acabou-se?     

Bem, muitos dos seus seguidores tinham guardado uma substancial parte das suas composições e, chocados com a descoberta do canal apagado, com o passar dos dias e nada acontecer (um regresso noutro canal, noutra plataforma, qualquer coisa), decidiram criar canais para fazer reupload das músicas que tinham guardado para usufruto pessoal.

Um ano passado, são vários os canais com a música de Krähe e ninguém a vir reclamar direitos autorais da mesma. A arte perde o direito à maternidade mal nasce, torna-se pública, anda de mãos em mãos, corpo perdido numa orgia.

Mas, será correto? Se a vontade de um autor é desaparecer, ele e a sua arte, será correto ressuscitá-la para o mundo contra a sua vontade?

Pergunto sem malícia, sem ter uma resposta em mente. Porque se escrevo sobre isto é porque ouvi as músicas lançadas ao mundo por outras mãos que não as do compositor. Mas há em mim o egoísmo de achar que aquilo que faço, que crio, embora precisando dos outros para SER, é maternalmente meu.

 

Sigmund Krähe  - Descent

 

Sigmund Krähe - Organ 67 - «Fall of an empire»

 

 

 

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