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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A minha menina

A minha menina estava a caminho dos dezanove anos. Nos cães velhos, tal como nos bebés, o avançar dos dias é celebrado em meses. Com orgulho, dizia a quem perguntava que a minha menina tinha dezoito anos e meio.

 

Não raras vezes a minha resposta orgulhosa era precedida de franzires de testa, de bocas que desenhavam esgares preocupados e da célebre frase: vá-se preparando.

 

Mas nada, nenhum aviso, nem a evidência da idade avançada, das maleitas próprias dos anos vividos me preparou. Não há preparação possível, atenuante existente,  para a perda da minha menina.

 

E num ápice sem explicação, fiquei sem a minha menina. Fiquei sem ela, mas dolorosamente ela está em todo lado, nas ausências evidentes, nas memórias dos espaços antes animados pela sua presença, a lembrança dos cheiros, dos ruídos.

 

O vislumbre do parque onde a levava a passear, do casaquinho impermeável que usava quando chovia, do espaço onde estava a sua cama e os seus pratos de comida e água, tudo dói de uma forma irracional.

 

No maior dos absurdos, esvazio o recipiente do aspirador e vejo os seus pelos entre os meus cabelos e outro lixo aspirado e penso que da próxima vez outro pelo já lá não estará e que estou a descartar, a meter fora uma parte da minha menina.

 

E tudo aquilo que por vezes irritava, cria agora um vazio, um buraco cheio de nada. Acordar às seis da manhã para lhe dar a saborosa ração húmida, porque o entusiasmo era tanto que a minha menina acordava "com as galinhas" só para comer - agora, mesmo sem ela, acordo na mesma e sinto a falta do ruído das suas patinhas pela casa, como um despertador para nos fazer saltar da cama.

Os ladrares constantes durante o jantar a suplicar um pedacinho das delícias que estavamos a comer e que ela também queria compartilhar - o silêncio antes ansiado é agora um ferro de ferir, um vazio que recorda a perda.

 

Uma data de possível início (ninguém a sabe, a minha menina foi recolhida da rua, era um bebé vadio antes de ser acolhida por uma associação) e a data do fim nada dizem, nada transmitem sobre a alegria de ter sido a mãe da minha menina, nem nada dizem da saudade que a sua ausência tatuou em mim. Uma tatuagem que, mesmo depois de feita, a cada dia descobre maneiras de fazer doer, encena novas formas de fazer chorar.

 

Uma coisa é no entanto certa: enquanto por cá andar, a minha menina andará comigo. 

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