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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Whats my drug of choice?

Em adolescente ouvia esta música e vibrava sem perceber o seu essencial sentido. A tormenta da voz chegava, mesmo sem o entendimento da tormenta da letra.

Alice in Chains - Junkhead (Dirt - 1992)

Estudei num meio artístico, de à vontade em experimentar coisas diferentes, mas a minha educação ou tão simplesmente a minha personalidade desajustada do meio onde estava inserida, tornara-me rígida, muito utópica na maneira de fruir as coisas. Lembro-me de dizer a um colega de faculdade que viver, amar, deveria ser experiência narcótica suficiente, que a vida tinha mecanismos para nos levar ao êxtase sem necessidade de adicionar qualquer substância extra. Esta lembrança faz-me sorrir e praguejar sozinha.

Assim, no meio de um louco, desgovernado e típico ambiente adolescente e pré-adulto, eu era uma exemplar exceção. Eu não bebia, não fumava e não fodia. Não frequentava as festas deles porque não há nada pior do que estar sóbrio no meio do delírio alcoólico ou narcótico. Honestamente, arrependo-me. Sempre fui de uma ingenuidade confrangedora.

Hoje, a caminho da meia idade, percebo que todos temos uma qualquer droga de eleição, por muito obscura e distorcida que ela possa ser. Mesmo quando a vemos com olhinhos inocentes e não a chamamos por droga e tal apelido nos afronta.

Nos tempos que correm, confinados em casa ou tentando seguir com uma rotina embrulhada em medos, onde ações básicas, de elementar necessidade, se tornam em manobras de risco dignas de um filme de ação, rimos dos memes da velhinha que pede vinho à janela num cartaz, rimos das piadas da quarentena, dos excessos cometidos para acalmar este desassossego e medo interior. Excesssos alimentares, excessos alcoólicos. O consumo de álcool tornou-se uma droga aceitável, o medicamento do apaziguamento do desconforto que ninguém criticará, tornou-se droga fashion e fotografável.

Não por estas características, mas pela minha mentalidade muito pouco transgressora, esta é a minha droga de escolha.

É como uma amarra que se solta, mas sem que nos tornemos completamente desamarrados, uma descompressão que se sente, sem que se deixe de estar sufocado. Claro está que beber será como o uso de qualquer outra droga. Os excessos levarão, inevitavelmente, a uma adição em que o prazer é substituido pela necessidade. 

Enquanto houver prazer, o mundo será, por um par de horas à noite, um sítio menos perigoso, haverá esperança, uma solução ao virar da esquina.

E entre gargalhadas, ideias malucas, mas surpreendentemente fantásticas, tomarão forma, ganharão vida e, com alguma sorte, haverá na sobriedade das restantes 22 horas, força suficiente para as colocar em prática. 

 

A distopia dos dias

Sozinha no escritório, a ouvir música, enquanto finalizo todos os procedimentos necessários para suspender por tempo indeterminado a actividade onde trabalho…

O mundo sitiado lá fora. Paredes de betão, portas de metal que não trazem o conforto de qualquer tipo de protecção. O mundo sitiado lá fora e cá dentro.

A música que ouço servira-me de mote a uma história distópica que escrevi há uns tempos. Como nunca antes, deixo a música fluir livremente, alta, quase aos berros, porque o espaço está vazio, as cadeiras da sala de espera estão vazias, a televisão (habitualmente tão adepta da Cristina) está desligada. O espaço geme pelas ausências.

A solidão e o medo que sinto neste momento são aterradores. Um medo motivado pela realidade atual, banhado em beleza pela música que já foi pano de fundo de medos literários.

Percebo o ridículo e rio-me sozinha entre papéis. Procurei sentir isto enquanto escrevia, enquanto lia: a exaltação emocional é fascinante. A fúria, o medo, a solidão, a raiva, o descontrolo, mas também a alegria, a paixão, a amizade, o amor e a obsessão. Procurei-os desde sempre. Chorava a ler, chorava a escrever. Ria e temia a ler, exaltava-me e tremia a escrever. Por momentos, aquelas realidades de papel que eu criara ou alguém o fizera para mim, acordavam dentro de mim uma sobrevivente, uma guerreira adormecida pela monotonia da rotina. A rotina que nem sempre era agradável, mas que qualquer ponto de fuga, mesmo que extremo e doloroso, servia para a ofuscar por momentos.

Mas aquela pessoa que se espreguiçava dentro de mim embrulhada em ficção não existe. Ou então existe, mas é apenas uma pequena viciada em risco controlado.

Quando a realidade se torna inverosímil, digna de uma novela distópica, o que sobra é apenas uma imensa e ridícula cobardia.

Só quero que isto acabe.