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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Mylène

Não me apetece escrever sobre quem partiu. Estão os blogs cheios de Requiescat in pace ou, numa alternativa mais grotesca, de insultos vários. Rumando contra a corrente, falarei dos que ainda por aqui estão, daqueles que de alguma forma contribuem para o filme da minha vida, dando-lhe som, imagens, um guião de fantasia.

 

Nunca fui grande consumidora de música pop. Em adolescente ouvia, noite e dia, hard-rock, heavy-metal ou então música clássica. Embora hoje seja mais eclética nas escolhas e haja espaço para novos géneros musicais, a música pop não tem grande expressão na minha seleção musical.

 

No entanto, há quase vinte anos que tenho um fraquinho musical por um artista pop. Francesa, mas nascida no Canadá, já vendeu milhões de discos nos países francófonos, consegue arrastar multidões aos seus concertos, tornou-se uma diva pop e ícone da comunidade LGBT. Os clips das suas músicas são como pequenos filmes (produzidos com um cuidado cinematográfico), os seus concertos são megalómanos com direito a um guarda-roupa exclusivo, bailarinos em coreografias laboriosas, e todo um aparatoso sistema de luzes, imagens e mise en scene.

 

Mylène Farmer, cantora e compositora, com uma voz frágil (um fio de voz) consegue, ainda assim, fazer maravilhas com tão pouco. O tempo passa e regresso-lhe aos braços sem reservas. Músicas que me fazem dançar pela casa, músicas que me fazem chorar como uma adolescente por um Bieber, músicas que elevam aquela mulher a um olimpo pessoal. E a atração musical é também uma atração pela pessoa, pelo mistério com que Mylène, tão bela, se envolve.

 

A Mylène, que venha tudo o que uma diva pop tem direito.

 

Mylène farmer - Je te dis tout (álbum Monkey me)

 

Mylène Farmer - Diabolique mon ange (edição do clip com imagens dos queconcertos da tourné Timeless)

 

 

 

Vou para não ficar (excerto VII)

14 de outubro
 
A água escorreu gargalo fora do garrafão de plástico, fluindo pelo alcatrão, indo ensopar-se na terra exposta, onde o lancil do passeio e calçada portuguesa tinham sido arrancados. Não há dia que não pense naqueles olhos que me fitaram por meia dúzia de segundos, do outro lado da estrada, antes do corpo, impulsionado por uma bala perdida que trespassou as costas, ter caído para a frente, de bruços. Era apenas uma criança. Aquele olhar castanho carregado de esperança e determinação, tudo coisas já perdidas para mim, palavras com um significado abstrato, arde dentro de mim e pela primeira vez desejei morrer só para poder esquecer, porque sei que por mais anos que viva, aquela será a primeira e última imagem que verei ao acordar e deitar. Uma criança de bruços, rosto colado ao chão, com as mãos a tocarem ao de leve num garrafão que se esvazia e eu, na minha passividade provocada pelo choque, observo do outro lado da estrada, gravo de forma definitiva, inapagável, cada detalhe, cada som, cada cheiro daqueles minutos para todo o sempre dentro de mim. 

Quando esquecer e morrer são os sonhos que impulsionam uma vida, algo de muito errado se passa neste mundo. 
 

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