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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Mente perversa

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Dou por mim a olhar para este brinquedo e a não resistir rir. Estarei a precisar de um psiquiatra, estará a minha mente torcida e retorcida ou este brinquedo é simplesmente… estranho?!

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Aperta-me, estica-me, bate-me, agita-me. Really??

 

(imagens do brinquedo retiradas do site da Fnac).

A evolução da edição literária de temática homossexual

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Não será novidade para ninguém o facto da censura e tabus vários condicionarem, desde sempre, a edição literária em qualquer parte do mundo. Na atualidade editorial, a censura, per se, não se apresenta diretamente como um fator de recusa de uma obra, mas sendo que esta atividade, como quase todas as outras, obedece cada vez mais às leis do mercado, toda a obra editada passará sempre por um crivo censor, mais não seja o crivo da vontade das massas.

 

Dito isto, olhando para os livros que aqui tinha em casa dentro da temática da homossexualidade, dei por mim a imaginar as diversas mudanças que este tipo de edição sofreu ao longo das décadas, as batalhas pessoais dos autores até verem (ou não) as suas obras nos escaparates das livrarias, as humilhações a que foram sujeitos à conta daquela obra específica, ou a chegada à banalização da temática.

 

Em 1914, E. M. Foster completou a obra Maurice, mas esta apenas «viu a luz do dia» em 1971, um ano após a morte do autor. A temática da obra condicionou a sua publicação durante décadas. O romance conta a história de Maurice, um jovem da alta burguesia inglesa, na descoberta e aceitação da sua homossexualidade. Movendo-se em meios sociais e familiares conservadores, o protagonista vive entre a opressão e a tentativa de consumação daquilo que é a sua natureza, confrontado com uma paixão esquiva que acaba frustrada. Apesar de algumas discrepâncias entre as biografias de Foster e o personagem Maurice, há quem creia que Maurice se apresenta como uma espécie de alter-ego do autor, uma personagem biográfica que reflete os dilemas do próprio escritor, embora com um final de história díspar da experiência pessoal de Foster.

Não tendo consultado nenhuma obra biográfica sobre Foster, li na Wikipédia (tendo isso a fiabilidade possível), que E. M. Foster acabaria por deixar de escrever (Maurice foi o seu penúltimo romance), por considerar impossível continuar a tecer tramas de casais heterossexuais nos seus romances, quando a sua vontade seria explorar temáticas com as quais sentisse maior identificação.

A edição que tenho desta obra de E. M. Foster é da Edições Cotovia, de 1989.

 

Avançando pelo século XX adentro, chegamos ao ano de 1955, ano em que o romance Os anjos maus de Éric Jourdan vai ao prelo. O autor, que tinha na altura da publicação apenas 16 anos, vê a obra ser imediatamente censurada após a publicação e vê-se confrontado com ameaças de morte e de prisão. A esta última só escapou por ser ainda menor na altura das acusações.

O romance, que descreve uma fulgurante paixão adolescente entre Pierre e Gerard, teve, durante anos, uma vida literária clandestina, pois a censura continuou a sua perseguição pelas décadas que se seguiram.

O que há de mais belo neste romance é o fulgor típico de um olhar adolescente. Pode-se olhar para esta obra e acusá-la de ter algumas limitações literárias, de ser excessiva, descomedida e algo histriónica, mas, paralelamente a essas «deficiências» literárias, têm um arrebatamento que apenas um cérebro adolescente poderia conceber. Um autor, por mais capaz que seja, vê-se sempre condicionado pelo passar do tempo, pelos balizamentos próprios de quem envelhece e se vê confrontado com uma certa normalização da maneira de se olhar o mundo. Este olhar jovem, púbere, tem uma força desmedida, brutal mesmo e é esse fulgor que trespassa cada palavra desta narrativa e a torna tão excecional. A minha edição é da editora Bico de Pena, de 2009.

 

Era o ano de 1996 quando dei de caras com o livro Não digas a ninguém, do escritor peruano Jaime Bayly, na livraria Bertrand em Lisboa. Tínhamos chegado à década onde já não havia vergonha de ter um livro daquele «género» exposto nas livrarias e com dezenas de exemplares para venda. Comprei e li. Não recordo especialmente a trama do livro, mas retenho em mente a sensação de uma leitura desinibida, divertida, mas simultaneamente a funcionar como um alerta de consciência. O livro retrata a vida de um jovem homossexual oriundo de um estrato social privilegiado e o seu sequente enredar no mundo da droga e prostituição.

Ao contrário dos livros anteriores que, em edições antigas ou mais atuais, aparecem como edições destinadas a um nicho específico e pequeno do mercado editorial, a edição deste último livro foi de uma editora de considerável dimensão na altura, e com expressão aceitável no que diz respeito à distribuição e representatividade nas livrarias. A editora da edição que tenho é a Editorial Notícias, edição de 1996.

 

Para finalizar, ressalvo o livro Acabar com Eddy Bellegueule, do autor francês Édouard Louis. O livro é autobiográfico e fala da vida de Eddy numa família disfuncional, num meio rural, onde a discriminação, a violência verbal e física eram parte integrante do dia a dia. O livro é o percurso de fuga de Eddy dessa realidade castradora para uma realidade onde se pudesse afirmar e ganhar distância sobre aquele nicho social e familiar onde não encaixava. Escrito aos 19 anos por Édouard Louis, o livro apresenta-se como uma espécie de encerrar de uma vida que ficou para trás e o início de uma nova etapa onde o autor pode viver a sua verdadeira identidade em plenitude.

Para além desse olhar pessoal, intimista sobre o percurso de vida de Eddy, é possível vislumbrar uma franja social francesa que passa despercebida ao público em geral, e que, apesar de certas conquistas sociais, culturais e económicas, ainda permanece submergida em certos valores conservadores, de extrema violência, penalizando fortemente quem se desvia das regras estabelecidas.

A edição desta obra é da Fumo editora, de 2014.

 

Como nota final, deixo apenas um pequeno apontamento. Os anos avançaram e no mundo ocidental não temos autores a serem acusados ou ameaçados de morte por escreverem e publicarem livros de teor homossexual. Facilmente será possível adquirir uma destas obras ou uma outra que se enquadre dentro desta temática. No entanto, com o advento da internet e de novos paradigmas da edição editorial, denoto que a maioria das obras publicadas em Portugal em que o personagem principal é homossexual ou em que a temática geral versa a homossexualidade continuam a ser edições de pequenas editoras ou editoras de nicho, editoras com edições em print-on-demand ou em eBook. As grandes casas editoriais não fazem da temática um assunto preferencial com interesse de mercado.

A aldeia

O regresso às origens foi um choque. Mudar-me para a aldeia foi um momento revestido de uma sensação de deslocamento, de não pertencer ao local ao qual supostamente deveria pertencer.

 

Desde cedo que fui estudar para fora da minha localidade e essa é uma das razões para que toda a dinâmica de viver aqui me escape. Não sei quem é filho ou irmão de quem, desconheço as histórias que fazem parte do passado da freguesia, do concelho. As pessoas reconhecem em mim os traços fisionómicos dos meus pais, sou identificada como membro deste clube, mas sou um membro trapalhão que não conhece as regras. A intimidade entre as pessoas, o conhecimento da história pessoal de cada um que aqui vive, esta familiaridade intrínseca, acho-a intimidante e estranha. Vivi em prédios, quando morava em Lisboa, onde não conhecia sequer os meus vizinhos e havia um certo conforto em vaguear na rua sendo para os outros uma perfeita desconhecida, uma abstração entre abstrações. Apesar de já aqui viver há mais de uma década, esta sensação de não pertencer (nem aqui nem a lado nenhum) permanece latente e latejante.

 

Mas a aldeia compensou-me o regresso com algo que ignorava quando vivia na capital. A comunhão com a natureza, os pássaros, as árvores, o vagar do vento, as mudanças cromáticas promovidas pelas estações do ano, cada pequeno detalhe tornou-se importante nesta minha nova vida na aldeia. E se me sinto uma apátrida entre as pessoas do meu local de nascimento, a paisagem circundante, a garça que me cumprimenta pela manhã, os melros palradores, as gralhas nos seus diálogos insistentes, as andorinhas bailarinas, o cheiro das árvores, das flores, o som do sino a anunciar as horas, lembram-me que pertenço aqui. Posso não encontrar um lugar de pertença entre as pessoas, mas esse lugar está lá, só para mim, na natureza.

 

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 Arco-iris num dia de outono. Praia fluvia de Paradela, Sever do Vouga

 

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Pássaros a postos para iniciar uma sinfonia. pessegueiro do Vouga

 

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Capela do Linheiro, Rocas do Vouga

 

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Rocas do Vouga ao anoitecer

Vou para não ficar (excerto VI)

Tomaram banho de água quente juntos, numa banheira cheia, quase a transbordar. Apesar de apenas terem dormido um par de horas, um mútuo desassossego interno impedia-os de caírem numa dormência proporcionada pela água cálida e pelo cansaço. Tocavam-se, deixavam-se estar envolvidos pelos braços um do outro. Por vezes beijavam-se devagar, de olhos fechados, sentindo no mais íntimo e recôndito lugar dentro dos seus seres a gravação daquele toque, daquele sentir, o calor do outro, o cheiro do outro. Estavam viciados na intimidade nunca antes experimentada.     

Com a água já tépida, quase fria, decidiram sair da banheira, salpicando o chão da casa de banho. Envolveram-se na mesma toalha, confrontados por instantes pela perscrutação do espelho da divisão, que refletia dois homens, como dois adolescentes, numa dança hipnótica. Estiraram-se ainda húmidos sobre uma das camas estreitas.

O dia começava a nascer e do exterior, através das cortinas finas, chegava uma claridade branca, baça. O silvo das sirenes dos bombeiros, a sirene do quartel mais próximo que clamava por ajuda, o som de um avião de pequeno porte, possivelmente um canadair que, com a chegada da aurora, viera ajudar no combate ao fogo, todos esses, ora fugazes ou persistentes sons passaram despercebidos entre os beijos e murmúrios daquele quarto, onde cada pedaço de pele foi tocado, cheirado, provado. Novos detalhes do corpo de cada um foram descobertos. Duas pequenas depressões perfeitas no fundo das costas, antes das nádegas, que Salvador tateou uma e outra vez, memorizando cada centímetro, o aroma do pescoço de Alexander, os músculos dos braços, firmes, sem serem excessivos ou ameaçadores, a ténue covinha que se formava no centro do seu queixo, os pés de dedos perfeitos, delicados, a pele, o aroma da sua pele morena, o aroma das axilas, cada um desses detalhes deixava Salvador ébrio.

Se Salvador usava todos os sentidos do seu corpo, Alexander fechou os olhos, sentindo o outro na ponta dos seus dedos, nas palmas das suas mãos, na sua boca. A depressão no centro das costas, formando uma via perfeita do pescoço às nádegas, as omoplatas salientes, o pescoço esguio, que cheirava a amêndoas, que fazia lembrar manhãs de inverno dentro da cama a ver chover lá fora, as cristas ilíacas protuberantes, o peito, o estômago liso, a boca de lábios finos, as orelhas pequenas, o arco do nariz, as pálpebras dos olhos. Alexander beijou-lhe as pálpebras dos olhos, as sobrancelhas, a testa alta.    

Quando fizeram amor pela primeira vez, depois de esgotarem a prospeção do corpo um do outro, domados por um sentimento que já não era de urgência mas de plenitude — uma declaração de amor depois de meses de paixão avassaladora que se transformara lentamente numa afeição que fazia sorrir só de se pensar nela — mesmo que desajeitados, atropelados pelas vontades rápidas dos próprios corpos, foi a confirmação de que estava certo, de que aquilo que eles eram, mesmo que contrariando vontades alheias, era o correto. Mais nada, nunca antes, nunca até àquele momento, tinha sido tão absolutamente perfeito. «Estás dentro de mim» — sussurrou Alexander ao ouvido de Salvador, — «estás dentro de mim».

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

 

 

 

Falhanços épicos

Tenho fama de ser um pouco desastrada e o epítome justifica-se. Sou aquela pessoa que derruba um copo de vinho tinto na ceia de Natal, pintando a tolha branca de rosáceas púrpuras, sou aquela que parte pratos e copos a lavar louça, sou aquela que espirra café que estava a beber sobre uma parede quando me contam uma piada que provoca um riso incontrolável.

 

Mas sinto-me um tanto ou quanto injustiçada com esta reputação que me precede, pois, selecionando todos os grandes falhanços familiares, os falhanços épicos foram todos cometidos pelo meu marido. Nunca cheguei sequer a poder competir com as obras de arte do desastre que o meu querido esposo tão garbosamente conseguiu elaborar.

 

Assim, para reposição da verdade no que ao falhanço diz respeito, aqui fica o top dos falhanços épicos do meu marido:

 

Karaté Kid

Certa vez, estava tudo preparado para fazermos uns crepes, quando a desgraça aconteceu.

A massa dos crepes repousava numa taça colocada em cima do fogão só à espera que a começássemos a verter em porções para uma frigideira para iniciarmos a feitura dos crepes. O meu querido marido, já não me recordo bem a que propósito, decidiu fazer um movimento exibicionista de karaté. Soergueu uma perna em riste e sem se dar conta, tocou com a ponta do pé na taça da massa dos crepes. Bem… a taça virou, a massa verteu para todos os cantos e recantos, ranhuras e fissuras daquele fogão. À frente, atrás, nos bicos e nos botões, tudo ficou inundado de massa de crepes. Passados meses ainda era possível encontrar massa ressequida na parte de trás do fogão. E o mais triste foi… nada de crepes para ninguém.

 

Experiências científicas

Era inverno, a lareira estava acesa. Nessa altura ainda tínhamos uma lareira aberta. Eu limpava o forno, de costas para a lareira, alheia às ideias mirabolantes que o meu marido estava a magicar. Enquanto eu limpava, ele resolveu descobrir o que aconteceria se colocasse uma garrafa de coca-cola vazia e fechada dentro da lareira acesa. Não me disse nada porque sabia, de antemão, que eu não acharia a menor graça à brincadeira. Fazia reciclagem e a ideia de queimar plástico na lareira era inconcebível. Assim, deixou-me permanecer na ignorância até ser tarde demais. A garrafa colocada nas chamas da lareira explodiu e o estrondo foi tal que julguei que tinha rebentado uma bilha de gás em casa. A onda de choque na lareira após a explosão fez com que as chamas se apagassem por completo e a cozinha ficou imersa em cinza expelida. Foi um sobressalto horrível. Garanto que como não morri do coração naquele dia, não precisarei nunca mais de fazer um eletrocardiograma na vida. O meu coração é de ferro.

 

Todas as posições são boas posições

O meu marido adora gelatina. Certa vez fiz uma gelatina de banana com pedaços de banana e ele não resistiu a levar a taça de gelatina para a cama para um petisco noturno. Já meio rendido à preguiça, ia comendo a gelatina meio deitado, só com a cabeça um pouco soerguida. Quando resolveu pousar a taça na mesinha de cabeceira, algo correu mal. Devido à posição em que encontrava, o movimento simples de pousar uma taça acabou em falhanço constrangedor. A taça escapou-lhe das mãos e caiu para o chão, por entre a cama e a mesa de cabeceira. Ficou o chão repleto de vidros e pedaços de banana e gelatina, salpicos gelatinosos na mesa de cabeceira e na parede, tudo sarapintado de amarelo gelatina.

 

Festa da espuma

Colocámos a louça na máquina de lavar depois do almoço. Já eu tinha colocado a pastilha para pôr a máquina a lavar quando ele teve a genial ideia de colocar um pouco de Fairy no interior da máquina, por cima dos pratos e talheres. Eu achei má ideia. Aquilo era muito concentrado e não havia necessidade de colocar mais nada porque já lá estava uma pastilha. Mas ele arguiu que, como estávamos a usar o programa rápido, um pouco de detergente de louça iria reforçar a limpeza. Pôs um pouco, depois, mesmo sob os meus protestos, decidiu colocar um pouco mais e toca a ligar a aparelho. Passados uns minutos da máquina estar a trabalhar, algo começou a correr mal. Via-se espuma a sair pelas frinchas laterais do aparelho. Inicialmente pensávamos que seria só um pouco, mas cada vez saía mais e mais. A espuma já escorria para o chão e ele lá acabou por desligar a máquina. À abertura da porta, nem se conseguia ver a louça com a quantidade de espuma que estava no interior. Um «pequeno» erro de cálculo fez com que passasse as horas seguintes a tirar lentamente espuma da máquina para o lava louça. Desde esse dia, nunca mais se atreveu a repetir a façanha.

Agora, quando me dizem que o detergente é concentrado e faz espuma com pouca quantidade, eu acredito. Nessa área, não tenho dúvidas.

 

Todas estas aventuras falhadas quando comparadas com os meus erros menores, os meus desastres medíocres, deveriam levar a que o título de desastre ambulante fosse reatribuído. O que é uma toalha suja de vinho quando comparada com uma festa da espuma na cozinha? Não lhe chego aos calcanhares nesta matéria, tenho de admitir.

Nick Drake — feliz descoberta

Desconhecia a existência da música de Nick Drake até há umas semanas. Numa referência num post de facebook a um álbum da mãe de Drake, Molly Drake, acabei por ir desaguar no rio musical do filho Nick. E só me pergunto como diabo não tinha dado, até agora, pela existência deste músico e compositor. Melodias límpidas, algo melancólicas, mas sem serem soturnas, uma voz frágil, mas perfeita na sua singularidade exatamente pelas sensações algo ambíguas que transmite.

 

Num impulso curioso, fui pesquisar um pouco sobre Nick Drake. O músico, compositor e cantor teve uma existência assombrada pela depressão. Nascido em 1948 e falecido em 1974, sucumbiu a uma overdose de medicamentos (intencional ou involuntária), deixando, apesar da curta vida, um já considerável legado musical.

 

Deixando o passado de Drake onde ele pertence, fico-me pela incansável e por agora obsessiva audição dos seus álbuns. Assim são os artistas — têm o poder de continuar a comunicar, a provocar exaltação em vidas mergulhadas no marasmo, mesmo longos anos após as suas mortes. No que a morte é, simbolicamente ou metaforicamente falando — o fim, o encerrar de uma existência, o irrevogável — nunca o chega verdadeiramente a ser para um artista. O artista não morre. E quando o faz, ressuscita a cada nova invocação da sua obra.

 

Nick Drake — Day is done (álbum: Five Leaves Left)

O circo chega à cidade

Fujo dos circos como o diabo foge da cruz. Acho as artes circenses interessantes, mas o uso de animais selvagens como fonte de atração sempre me pareceu despropositada e cruel. Mais do que ver os animais a desempenharem os seus números, aquilo que sempre me pareceu inadequado é a forma como aqueles animais são transportados e vivem o seu dia a dia. Jaulas minúsculas que não serviriam nem para acomodar um cão ou qualquer outro animal doméstico quanto mais um animal como um leão ou elefante. Ver um animal que deveria estar no seu habitat selvagem a desempenhar pequenos truques, acrobacias, não me causa qualquer júbilo ou espanto, consegue apenas causar-me uma imensa tristeza por perceber que aquele animal é um ser encarcerado, um prisioneiro obrigado a desempenhar uma performance para meu suposto bel-prazer.

 

Claro que este problema se encontra não só nos circos, mas também em zoológicos, em que os animais são expostos em pseudo-habitats reduzidos como forma de exploração comercial de um encarceramento. Há algum trabalho de conservação envolvido, mas o comércio e exploração animal ultrapassa largamente esse aspeto beneficente. Conseguimos perceber em alguns deles o stress de estarem confinados em tão pequeno espaço e de terem visitantes constantes a desorientá-los com as suas presenças.

 

O meu problema específico com o circo só o começou a ser depois do meu filho nascer. A cada cartaz colocado pela vila com a chegada do circo, ele pede veemente para irmos ver. Os amigos vão, os colegas vão, ele também quer ir. Mas a minha ética não me permite conceder-lhe este desejo. Não quero compactuar com a crueldade, com o que me parece ser uma exploração animal sem escrúpulos e sem fundamento. Até porque acho que o circo tem diversas artes performativas e acrobáticas que fariam de uma ida ao circo um espetáculo imperdível, mesmo sem a presença de animais. Por isso, qual a razão desta insistência em manter um espetáculo com características quase medievais?

 

Com a aproximação do Natal, são vários os cartazes de espetáculos de circo espalhados pelos sítios por onde passo e com eles começam as minhas manobras de fuga e distração infantil, as minhas explicações para o meu veto do circo. Em parte, ele percebe, mas não deixa de ficar triste com a minha recusa.

Ritos fúnebres

Fui a um funeral do pai de uma amiga na sexta-feira passada. A despedida de um pai, de uma mãe que falece prematuramente e de forma inesperada é sempre um momento de grande angústia e dor e este não foi diferente.

 

Entre o choro, preces religiosas, ramos de flores que iam e vinham, dei por mim a pensar nos ritos fúnebres, naquilo que fazemos, enquanto povo, como última despedida aos entes queridos. De país para país, temos variações da forma como ritos fúnebres são realizados e se algumas dessas diferenças serão mínimas entre certos países, noutras vezes são abismais, sendo que parte dessas diferenças, penso, serão motivadas essencialmente por questões religiosas.

 

De regresso àquele momento em que o corpo era velado na capela, à ambiência asfixiante, dei por mim a achar que a maneira como tudo por cá se processa é uma verdadeira provação, um massacre psicológico para a família enlutada. Se a pessoa é idosa e aquela morte era como um desfecho natural para uma longa vida, o rito talvez não se apresente como uma afronta, mas um encerrar ritual de uma vida. Quando a morte apanha a família e amigos desprevenidos, o ritual fúnebre assemelha-se a uma tortura a quem já está esgotado e rendido às circunstâncias da vida.

 

Um velório de dia e meio, em que o corpo morto do ente querido está ali, exposto no caixão, quase como um murro constante no estômago, um entra e sai constante de pessoas que vêm prestar as suas condolências, reacendendo constantemente aquela dor que começa a cair no conformismo, mas logo é obrigada a de lá sair. Daquelas horas intermináveis de confronto com a evidência da morte, poderei dizer que talvez aquela provação sirva para efetivar aquela perda quando ela ainda parece surpreendente. Tirando essa efetivação, aquilo que deveria servir de despedida, é apenas um flagelo interminável.

 

Depois chega a hora. O caixão é levado para a igreja e é realizada a missa de corpo presente. Sendo que a maioria da população é católica, por cá este ritual é bastante frequente e serão poucas as cerimónias fúnebres que não tenham uma missa realizada. Para mim, a cerimónia religiosa é impessoal, uma litania repetida ipsis verbis de funeral para funeral, onde apenas o nome do falecido muda. Para os crentes, talvez o ritual religioso lhes traga algum conforto e a cerimónia, apesar de impessoal, seja importante como garante de um desfecho daquela vida que cessou. Para mim, parece-me uma cerimónia oca, mas que marca um certo compasso entre o velório e o enterro. Uma espécie de antecâmara da ida do corpo para a terra, mas, enquanto cerimónia, muito aquém da homenagem, da despedida que aquela pessoa, ser humano único, mereceria.

 

No cemitério, chega o auge da provação. O caixão é novamente aberto, a família é confrontada com a evidência daquele ser o último vislumbre que terão do seu ente querido. Mas aquela última despedida, coisa pessoal, dor única, é modelada pelo fluxo de dezenas de pessoas que se vêm despedir do falecido e prestar condolências a familiares que estão já num extremo de agonia psicológica com expressão física. Mais umas quantas palavras impessoais do padre, o caixão é fechado e é levado para o túmulo, baixado à terra. E este será o auge da tormenta: a imagem do caixão a desaparecer no buraco.

 

A forma ritual como o pós-morte se processa serve apenas para amplificar a sensação de perda. No entanto, sendo que este ritual é repetido e conhecido desde a infância de todos nós, talvez os enlutados o vejam como uma provação necessária para o luto se consumar, a confirmação da perda se efetivar e a dor poder ser substituída pela saudade.

 

Quanto a mim, embora a morte seja o nada e pouco importe para aquele que morre a forma como o seu corpo é tratado e a forma como as despedidas são feitas, gostaria de algo diferente. Não quero esta agonia para aqueles que conheço e me amam. Até porque a morte, inevitavelmente, faz parte da condição de se estar vivo. Como tal, porque não transformar o ritual de índole dolorosa num ritual de despedida e memória? Um desfecho pessoal que exalte os bons momentos daquela vida que acabou ao invés de ser uma cerimónia de apologia à dor.  

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