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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A aldeia

O regresso às origens foi um choque. Mudar-me para a aldeia foi um momento revestido de uma sensação de deslocamento, de não pertencer ao local ao qual supostamente deveria pertencer.

 

Desde cedo que fui estudar para fora da minha localidade e essa é uma das razões para que toda a dinâmica de viver aqui me escape. Não sei quem é filho ou irmão de quem, desconheço as histórias que fazem parte do passado da freguesia, do concelho. As pessoas reconhecem em mim os traços fisionómicos dos meus pais, sou identificada como membro deste clube, mas sou um membro trapalhão que não conhece as regras. A intimidade entre as pessoas, o conhecimento da história pessoal de cada um que aqui vive, esta familiaridade intrínseca, acho-a intimidante e estranha. Vivi em prédios, quando morava em Lisboa, onde não conhecia sequer os meus vizinhos e havia um certo conforto em vaguear na rua sendo para os outros uma perfeita desconhecida, uma abstração entre abstrações. Apesar de já aqui viver há mais de uma década, esta sensação de não pertencer (nem aqui nem a lado nenhum) permanece latente e latejante.

 

Mas a aldeia compensou-me o regresso com algo que ignorava quando vivia na capital. A comunhão com a natureza, os pássaros, as árvores, o vagar do vento, as mudanças cromáticas promovidas pelas estações do ano, cada pequeno detalhe tornou-se importante nesta minha nova vida na aldeia. E se me sinto uma apátrida entre as pessoas do meu local de nascimento, a paisagem circundante, a garça que me cumprimenta pela manhã, os melros palradores, as gralhas nos seus diálogos insistentes, as andorinhas bailarinas, o cheiro das árvores, das flores, o som do sino a anunciar as horas, lembram-me que pertenço aqui. Posso não encontrar um lugar de pertença entre as pessoas, mas esse lugar está lá, só para mim, na natureza.

 

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 Arco-iris num dia de outono. Praia fluvia de Paradela, Sever do Vouga

 

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Pássaros a postos para iniciar uma sinfonia. pessegueiro do Vouga

 

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Capela do Linheiro, Rocas do Vouga

 

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Rocas do Vouga ao anoitecer

Vou para não ficar (excerto VI)

Tomaram banho de água quente juntos, numa banheira cheia, quase a transbordar. Apesar de apenas terem dormido um par de horas, um mútuo desassossego interno impedia-os de caírem numa dormência proporcionada pela água cálida e pelo cansaço. Tocavam-se, deixavam-se estar envolvidos pelos braços um do outro. Por vezes beijavam-se devagar, de olhos fechados, sentindo no mais íntimo e recôndito lugar dentro dos seus seres a gravação daquele toque, daquele sentir, o calor do outro, o cheiro do outro. Estavam viciados na intimidade nunca antes experimentada.     

Com a água já tépida, quase fria, decidiram sair da banheira, salpicando o chão da casa de banho. Envolveram-se na mesma toalha, confrontados por instantes pela perscrutação do espelho da divisão, que refletia dois homens, como dois adolescentes, numa dança hipnótica. Estiraram-se ainda húmidos sobre uma das camas estreitas.

O dia começava a nascer e do exterior, através das cortinas finas, chegava uma claridade branca, baça. O silvo das sirenes dos bombeiros, a sirene do quartel mais próximo que clamava por ajuda, o som de um avião de pequeno porte, possivelmente um canadair que, com a chegada da aurora, viera ajudar no combate ao fogo, todos esses, ora fugazes ou persistentes sons passaram despercebidos entre os beijos e murmúrios daquele quarto, onde cada pedaço de pele foi tocado, cheirado, provado. Novos detalhes do corpo de cada um foram descobertos. Duas pequenas depressões perfeitas no fundo das costas, antes das nádegas, que Salvador tateou uma e outra vez, memorizando cada centímetro, o aroma do pescoço de Alexander, os músculos dos braços, firmes, sem serem excessivos ou ameaçadores, a ténue covinha que se formava no centro do seu queixo, os pés de dedos perfeitos, delicados, a pele, o aroma da sua pele morena, o aroma das axilas, cada um desses detalhes deixava Salvador ébrio.

Se Salvador usava todos os sentidos do seu corpo, Alexander fechou os olhos, sentindo o outro na ponta dos seus dedos, nas palmas das suas mãos, na sua boca. A depressão no centro das costas, formando uma via perfeita do pescoço às nádegas, as omoplatas salientes, o pescoço esguio, que cheirava a amêndoas, que fazia lembrar manhãs de inverno dentro da cama a ver chover lá fora, as cristas ilíacas protuberantes, o peito, o estômago liso, a boca de lábios finos, as orelhas pequenas, o arco do nariz, as pálpebras dos olhos. Alexander beijou-lhe as pálpebras dos olhos, as sobrancelhas, a testa alta.    

Quando fizeram amor pela primeira vez, depois de esgotarem a prospeção do corpo um do outro, domados por um sentimento que já não era de urgência mas de plenitude — uma declaração de amor depois de meses de paixão avassaladora que se transformara lentamente numa afeição que fazia sorrir só de se pensar nela — mesmo que desajeitados, atropelados pelas vontades rápidas dos próprios corpos, foi a confirmação de que estava certo, de que aquilo que eles eram, mesmo que contrariando vontades alheias, era o correto. Mais nada, nunca antes, nunca até àquele momento, tinha sido tão absolutamente perfeito. «Estás dentro de mim» — sussurrou Alexander ao ouvido de Salvador, — «estás dentro de mim».

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

 

 

 

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