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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Do hedonismo

Nunca fui pessoa de ver na autoflagelação, na martirização, um objetivo de vida. Não acredito que o sofrimento purifique, que regenere, que seja um meio necessário para atingir um fim, uma qualquer superioridade moral, um qualquer enaltecimento da alma.

 

Claro que será impossível levar a vida sem encontrar pelo caminho momentos de sofrimento, de angústia bruta. Nenhum ser humano percorrerá os caminhos da sua existência sem se deparar com o lado negro de se sentir vivo, com a funesta vontade de acabar com aquela dor excruciante. E se esses momentos serão importantes em contraponto aos momentos positivos, não vejo a relevância de perseguir a tristeza, de sofrer desnecessariamente.

 

Um prólogo demasiado longo para chegar onde queria chegar. O prazer é, de certa forma, o meu mote de vida. Há um certo hedonismo na forma como encaro a vida, embora o prazer possa residir em situações peculiares ou elementos muito improváveis.

 

Com isto, um dos maiores desgostos que tenho na vida (o diabo do sofrimento está em todo o canto e esquina) é o de não conseguir cantar. Nunca tive quaisquer pretensões ou acalentei um desejo adolescente de seguir uma carreira nesse ramo, mas cantar é algo que me dá um prazer imenso. Todavia, este prazer está irremediavelmente maculado pelas muitas limitações da minha capacidade vocal. Tenho uma voz horrível, muito reduzida a nível de projeção e tonalidade. Se tento cantar uma qualquer música que ouço na rádio, ficarei estrangulada na tentativa de subir uma oitava ou de a descer.

 

Invejo as pessoas que, sem esforço aparente, fazem brotar de dentro de si melodias poderosas (e quando digo poderosas não quero dizer gritadas, como algum pessoal tanto gosta de fazer). E mesmo sem uma voz digna, não me abstenho de, nos momentos em que estou só, cantar, usando o fio de voz com que nasci.

 

Nunca recordo os sonhos bons. Quando acordo, os únicos sonhos que sobrevivem ao despertar são aqueles repletos de detalhes horríficos. Em anos, apenas um par de sonhos agradáveis chegaram à luz do dia. Um desses sonhos de puro deleito, de prazer em imagens e sons, foi um em que cantava. No cimo de uma encosta, tendo como vista um vale infinito, vestida com um sumptuoso vestido vermelho, abria a boca e cantava. Era uma melodia maravilhosa que sentia explodir-me no peito e jorrar sem dificuldade através das minhas cordas vocais. Todo aquele sonho era som, uma canção que envolvia tudo, se entranhava entre sono e vigília e o prazer que senti foi de uma intensidade tal que marcou os sonhos sonhados durante anos, perdurando em memória através dos tempos.

 

Hoje, colmatando a minha incapacidade vocal e a falta de novos sonhos de deleite cantado, sonho acordada. Sonho que, como Jessye Norman, uma voz bela, quase supernatural, dominada, mas simultaneamente indomada, me sai da boca inundando cada parte desta divisão com uma melodia de contornos divinos.

 

Remember me, Remember me,

But Ah, Forget my fate.

 

Dido & Aeneas, When I am laid in earth — Purcel

Interpretação de Jessye Norman

Eleições nos States — Um restaurante com apenas dois pratos

Imaginem ir a um restaurante que é considerado um dos melhores do mundo e chegados lá percebem que só existem dois pratos no menu: mioleira braseada em cama de tripa confitada e sandes de atum em pão com dois dia.

 

Quanto à primeira opção, fica-se logo nauseada só com o nome e aspeto que o mesmo nos sugere. No que diz respeito à segunda opção, uma pessoa até come uma coisa daquelas se estiver em casa e com pressa e não houver outra opção na dispensa, mas daí a deslocar-se a um restaurante para comer e pagar por aquilo já vai uma grande distância.

 

As eleições nos States são mais ou menos isto. Um restaurante com apenas dois pratos no menu. Um deles intragável e outro que parece não valer a pena pagar-se por ele.

A poesia do quotidiano

Einar Georg lê um poema da sua autoria. Um poema em islandês. Não compreendo uma única palavra. Percebo a sonoridade, a modelação das palavras, mas não a sua significância. Sei que que aquelas palavras falam de um rio, mas a minha compreensão do poema não passa disso. No entanto, aqueles segundos em que ele desfia as palavras compassadamente ao som da música que vai evoluindo, ganhando força, aquele minuto e tal em que aquela voz envelhecida me fala numa língua desconhecida, o que germina dentro da minha cabeça, do meu peito, é o que o meu entendimento, a minha capacidade intelectual entenderá por poesia.  

 

Independente da linguagem, das palavras numa ou noutra língua, permanece a essência da nossa existência e daquilo que nos rodeia. A minha vida, a vida dos outros, a natureza, a arte. A forma como percecionamos, nos percecionamos e àquilo que nos envolve, conjugada com um olhar despido de preconceito e de pressa, leva-nos a encontrar a poesia no dia-a-dia. Uma poesia sem palavras. Um melro que esvoaça entre árvores anunciando a sua presença com uma cantoria aparentemente estudada, um feixe de luz que atalhou caminho entre os galhos densos de uma árvore, o cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas de outono, o sabor de um diospiro maduro que nos transporta à infância, o alvoroço das chamas numa lareira acesa que nos envolve no seu calor convidativo, a cadência melancólica das notas numa música ouvida num dia de depressão, o entendimento fugaz daquilo que nos inquieta, mas que não conseguimos ou não nos atrevemos a traduzir em palavras.

 

A poesia estará num recanto de cada um nos nossos sentidos, a poesia será um filtro da nossa visão, da nossa audição, do nosso tato, do nosso olfato, do nosso paladar. E como tal, mesmo sem a significância das palavras, entendo perfeitamente o significado de cada palavra proferida por Einar. A sua voz calou-se, a música cessou, mas dentro de mim permanece um eco poético, um latejar acelerado que degenerou num desconcerto físico e mental. Acabou-se. Mas continua.

 

Ólafur Arnalds - Árbakkinn ft. Einar Georg

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