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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Fica!

Fica!

Não vês como é bela a natureza? Temos as montanhas, os pássaros, os rios e os lobos. Fica.

Lembra-te como são bonitos os pores do sol, as luas cheias, os cheiros da primavera, as árvores de cores incendiárias no outono. Fica.

 

Mas temos também a guerra, a morte estúpida, o sofrimento que causa indiferença, o viver para trabalhar, esta caminhada cega para o vazio.

 

Não digas isso. Fica! Temos pessoas que te amam, pessoas bondosas que precisam do teu amor, do teu carinho. E este mundo não para de evoluir, o que é hoje deixa de o ser amanhã. Temos inteligência palpitante, mentes brilhantes, seres humanos com capacidades extraordinárias. Fica…

 

Ficar? Para quê? Para esta repetição dos dias, esta ladainha sem fim, este sorrir sem nunca chegar a ter vontade de gargalhar, esta incapacidade de ser como deve ser?!

 

Ficas? Temos a comida, temos o vinho. Tu gostas. Fechas os olhos e deixas-te afundar naquele prazer que começa na boca e viaja até cada célula do teu corpo.

 

Pelo vinho? Ficar só pelo vinho?

 

Temos ainda a música e a literatura. Por este dois, pela soma de todas as partes, por este ramo de pequenos momentos que compõem um todo importante, ficas?

 

Só mais um dia. Só mais um dia de cada vez.

 

 

 

 

 

Apologia da imbecilidade

Na era pré internet a imbecilidade não era tão evidente. Ela estava lá, escondida dentro de cada um, mas a maioria das pessoas não sentia ganas de a escarrapachar na cara dos outros constantemente. Nessa era pré internet vivi numa espécie de paraíso, um Shangri la onde só existiam pessoas decentes ou em vias de se tornarem assim.

 

Claro que agora sei que todas aquelas emoções corrosivas, odiosas para com o próximo estavam lá, simplesmente não tinham o ambiente propício para serem demonstradas com sobranceria, para se expandirem e replicarem como um vírus.

 

Não seremos agora mais racistas, mas xenófobos, mais homofóbicos, mais machistas e misóginos do que éramos na década de oitenta ou noventa, mas quando agora alguém é uma destas coisas (ou todas) é-o de forma mais evidente do que no passado.

 

E embora não faça uma apologia da mentira, da ignorância, neste assunto específico acho que preferia viver em plena negação. Os comportamentos de ódio, de violência baseada em preconceitos injustificados são como veneno para mim. Abatem-me, causam-me uma descrença na humanidade que me faz ter vontade de desistir. Sinto vergonha por sermos assim. Sinto vergonha por alguns de nós odiarem alguém devido à quantidade de melanina presente na sua pele. Sinto vergonha por alguns de nós odiarem alguém por esse alguém amar uma pessoa do mesmo sexo. Sinto vergonha por alguns de nós odiarem alguém só porque essa pessoa vem de um determinado país ou pratica uma determinada religião. Sinto vergonha por alguns de nós rebaixarem alguém, humilharem, agredirem alguém só porque esse alguém é uma mulher.

 

Antigamente, muitos destes comentários agressivos desenrolavam-se certamente na esfera privada, alguns deles eram considerados tabu e pouco debatidos nos meios de comunicação social. Estava tudo lá, mas entre paredes, sussurrado ou então circunscrito a grupos identificados. Se hoje podemos ter conhecimento de quem pensa, faz ou agride, o conhecimento de onde provém a imbecilidade não tem nada de positivo, isto porque, a dada altura, ela parece vir de todo o lado, de todos os quadrantes e é impossível sobreviver neste fogo cruzado de verborreia mental.

 

Tudo isto a propósito de uma notícia infeliz que li em vários jornais. Apelidar Michelle Obama de «ape in heels» é mau, de uma baixeza que abarca várias dimensões que vai desde o racismo gritante ao machismo encapotado. Chamar um ser humano de macaco sempre foi o tipo de insulto básico usado para ofender alguém de raça negra. No entanto, era o tipo de insulto de caserna, de conversa de café. Nunca foi o tipo de coisa que alguém tivesse a lata de escarrapachar num jornal assinando por baixo. Porque, embora usado, era um insulto ignóbil mesmo nos lábios de um racista. Todavia, estamos numa época em que as pessoas se sentem à vontade para escrever este tipo de coisas nas suas redes sociais e assinar por baixo. Mesmo aquelas pessoas que, tendo algum cargo profissional de relevância, seria de supor que tivessem algum tento nas imbecilidades que proferem.

 

Para além da questão racista, há aqui ainda outra questão. Temos uma mulher negra, forte, inteligente, formada numa das melhores universidades do país, uma mulher que não vive à sombra do marido, mas sabe falar por si, expressar-se de forma independente. Uma mulher que, embora primeira-dama, subsiste para além dessa imagem de acessório presidencial. Depois temos uma outra mulher (o termo de comparação usado no post do insulto). Uma mulher bonita, que viveu e vive à conta dessa mesma beleza física, que se comporta como um acessório de humanização e embelezamento do marido.

 

Esta apologia da mulher bibelot, da dona de casa bonita e subserviente ao marido, mesmo que o mesmo seja um bronco de primeira, é como uma reminiscência infeliz do início do século XX. Perceber que milhares de pessoas, entre elas muitas mulheres, pretendem diminuir a mulher na sociedade a um papel secundário, a uma figuração ao invés de um desempenho de um papel principal, é tremendamente perturbador.

 

Seria de imaginar que as mentalidades estão num contínuo processo de evolução que, existindo um avanço, não há lugar ao retrocesso. Mas a cada passo para a frente, algumas pessoas cismam em andar às arrecuas para trás.

O bebé melro, um hóspede inesperado

Há uns dois anos atrás tivemos cá em casa um hóspede inesperado que ainda hoje recordo com grande carinho. Um pequeno bebé melro, sozinho, desprotegido. Talvez filho de uma mãe melro atropelada que descansava morta no passeio junto à minha casa, que o meu marido se sentiu impelido a enterrar na horta.

 

Esta ida à horta, este cortejo fúnebre privado permitiu intercetar os pios desesperados do bebé minúsculo. Aquele piar ainda conseguiu criar um certo desnorteamento no meu marido que, por momentos julgou que aquele animal morto que carregava tinha regressado à vida com aquele piar desconcertante. Mas procurando entre as ervas, guiado pelo som agudo, acabou por encontrar aquele pequeno pássaro. Depois de uma prospeção pelas laranjeiras da horta, não encontrou qualquer ninho de onde pudesse ter caído ou outro irmão que o tivesse acompanhado na fuga. Ficámos com ele.

 

Dei-lhe de comer e beber ao bico. Era um perfeito bebé que me acordava às 6 e pouco da manhã a piar com fome. Quando me via, escancarava o bico a exigir comida, a exigir que a sua mãe humana o atendesse nas suas necessidades.

 

Mas eis o dilema. Esta intervenção humana, esta alimentação comprada na loja, impediria aquele ser de se desenvencilhar sozinho quando, sabendo voar, o soltássemos? Algumas pessoas garantiam que sim, outras que não. Ele foi crescendo e o seu desespero por estar encerrado dentro de uma gaiola era evidente. Já voava, fazendo alguns voos curtos dentro de casa. Também o «obriguei» a começar a comer sozinho. Num mês, passara de um bebé quase sem penas, dependente, a um pássaro castanho e lustroso, que comia sozinho, esvoaçava pela casa ou saltaricava em brincadeiras curiosas.

 

Apetecia-me abrir-lhe a gaiola ou a janela de casa e deixá-lo ir. Mas seria a liberdade sinónima de morte anunciada? Não faltavam histórias de pessoas que fizeram o mesmo, deram liberdade a um pássaro que criaram, para logo o encontrarem morto passados poucos dias (à fome ou às garras de um gato caçador). Era a incerta a capacidade destes bebés criados por humanos conseguirem escapar a predadores e de se alimentarem sem ajuda.

 

Algumas pessoas conhecidas sugeriam que ficássemos com ele, numa gaiola maior, embora fosse proibido manter um pássaro daquela espécie em casa. Mas o seu cativeiro dava-me uma tristeza insuportável. Privar um ser daquilo que era a sua mais marcante característica, voar, começava a ser demais para mim.

 

Depois de alguns contactos (ICNF), consegui perceber que ele poderia ser reabilitado num centro próprio e devolvido à natureza de forma mais segura (Parque biológico de Gaia). Passaria um mês com animais da mesma espécie, num aviário de maiores dimensões, desenvolvendo as suas capacidades de voo e de alimentação. Quando voltei a contactar o parque com o número de registo, informaram-me que já o tinham soltado no parque biológico.

 

Despedir-me do meu melrinho foi uma mistura de sensações. Aquele pequeno pássaro tinha sido criado por mim nos seus primeiros dias de vida e senti-me triste por o deixar ir, mas, paradoxalmente, experimentei uma enorme felicidade por lhe poder dar a oportunidade de ser livre, independente. A oportunidade de pode ser pássaro.

 

 

Escritores e pasteleiros

Não há nada neste mundo que não possa ser explicado através de uma analogia culinária. Da política à ciência, da moda à literatura, a gastronomia terá dentro de si subtilezas suficientes para ser chamada como metáfora explicativa das maiores complexidades que se possam imaginar neste mundo.

 

Dito isto e como eu sou como aquele personagem do Herman, o José Severino — «eu é mais bolos» — vou meter no mesmo saco pasteleiro os bolos e a literatura.

 

São editados milhares de novos livros por ano em Portugal e de entre os novos escritores, alguns já de nome consolidado na praça literária nacional e aclamados não raras vezes pela crítica, denota-se em alguns deles uma situação um tudo ou nada irritante:

 

Temos um magnífico bolo de cake design com uma decoração intrincada que demorou horas a fazer. A pessoa até sente culpa de ir enfiar um garfo numa tal beleza, em desfazer à dentada algo que parece ter sido feito para ver e não para saborear. Quando uma fatia daquela peça de arte nos vem parar ao prato, logo na primeira garfada à boca a desilusão instala-se. O bolo, de uma beleza extrema, tem um sabor básico, seco de textura, não correspondendo à expectativa. Não há qualquer subtileza na feitura daquela massa. Sabe a açúcar e ovos, talvez pior que um bolo baratucho comprado no supermercado. Toda a atenção do artista ficou-se pelo aspeto visual descurando vergonhosamente o sabor.

 

Alguns escritores são assim. O manuseamento da língua é magnífico. Conseguem fazer dela o que quiserem e focam-se primariamente nessa brincadeira com a linguagem, muitas vezes usando a transgressão de normas (gramaticais, ortográficas) para inovarem, mas acabando com uma narrativa pobre, com um sabor básico, de uma única nota. Talvez o bolo precise de um pouco de baunilha para aromatizar, de manteiga para suavizar, de umas raspas de laranja para a fragrância se entranhar nos vários sentidos de quem prova, para que cada garfada seja uma viagem e não um frete que se presta ao artista.

 

Dentro dos novos escritores existe ainda uma diferente propensão artística. Provenientes de «editoras» que não têm um verdadeiro crivo editorial, mas que se prestam a publicar seja o que for a troco de uma determinada quantia (e isto não é propriamente uma crítica, é uma tendência editorial da nossa atualidade), aparecem nas livrarias, supermercados e livrarias online diversos livros daquele tipo de escritor que abusa seriamente no uso do açúcar. Se é bolo, deve ser doce, pensam, mas o sabor adocicado do bolo é tão excessivo que na boca fica apenas aquele sabor enjoativo que aniquila tudo o resto. Há quem goste. Há muito quem goste. Todavia, parece-me um uso primário e não estudado de um elemento que, embora essencial, não deve sobrepor-se aos restantes sabores do bolo. A nível visual, o design não tem o arrojo dos bolos com cake design, mas é no sabor que desgraça se instala. Não é um bolo seco, mas é um bolo que só uma garfada já provoca a náusea pela demasia do doce. Tudo passa a sensação do excesso açucarado desde a textura até aos grãos de açúcar que ficam a rilhar entre os dentes.

 

O uso estridente das emoções, sabendo que escrever sobre amor, sofrimento, desgraça da perda, paixões assolapadas, vai quase necessariamente atrair um interessante número de leitores, fez com que estas narrativas profusamente açucaradas proliferassem passando a ideia que não é necessário ter-se atenção às quantidades dos ingredientes que se colocam num bolo, bastando carregar-se nas porções de açúcar de forma a mascarar o desleixo, a falta de profissionalismo e de arte do pasteleiro.   

 

Claro está que há sempre aquele mestre pasteleiro que nos consegue surpreender conseguindo casar na perfeição o aspeto visual do bolo com um sabor com várias dimensões que conseguem exaltar-nos os sentidos e deixar-nos a matutar obsessivamente naquele momento em que levamos aquele pedaço de bolo à boca. Um sabor que perdura na boca e na memória passados dias daquela prova. Um pasteleiro com uma obra memorável.

Dentro da caixa

Choramos todos os mesmos mortos. RIP, RIP, gostava tanto de o ouvir, gostava tanto de a ler, que bom artista que era, o mundo não será o mesmo sem ele.

 

Falamos todos sobre as mesmas coisas. Temos uma opinião consolidada, a favor ou contra. Nunca a dúvida ou a desinformação pode ser assumida. Duvidar ou não saber é crime lesa-majestade. Se duvidas ou não sabes, escolhe um lado.

 

Escolhe um diabo de um lado o quanto antes.

 

Só assim te podes exasperar com diferentes opiniões, só assim podes insultar os do outro lado da barricada se estes partirem para o insulto. Podes ainda ser tu a começar a provocação e a ofensa. Porque não?!

 

Nós, cidadãos ocidentais, vivemos todos dentro de duas bolhas. A bolha nacional com as suas indignações diárias onde a política e o futebol aparecem no top de vendas dos assuntos que fazem rugir teclados, verter tinta para papel dos jornais abrir noticiários e que, não raras vezes, degeneram em pancadaria virtual; e a bolha internacional. Um cosmos densamente povoado, milhões de almas a respirarem dentro da mesma bolha, sem que, no entanto, a opinião do John nos E.U.A seja diferente da opinião do João do Brasil e sem que o François da França se sinta inibido de insultar com palavras feias o Francis do Reino Unido.

 

Acho que está na altura de arrumarmos na caixa a expressão «pensar fora da caixa».  Estamos todos enfiados dentro da mesma maldita caixa e acho que nos começamos a sentir confortáveis cá dentro. Encaixotamo-nos ou fomos encaixotados.

 ,

Parada e quieta

Parada, quieta.

A notícia da manhã já não é a notícia da tarde.

A indignação de hoje já não será a indignação de amanhã.

A urgência da aurora será o esquecimento do ocaso.

 

A velocidade que levam, todos vós, com as vossas labutas, os vossos empreendimentos, as vossas ideias,

é tal que mal vos vejo passar. Uma fração de segundo e já cá não estão. Fica-me apenas o eco da vossa presença.

Mas vão uns e logo vêm outros. Agora, logo, ininterruptamente.

E eu…

Parada e quieta.

Quando vos ouço, quando vos consigo ouvir, dizem-me:

Deverias ler isto,

deverias ouvir aquilo,

Deverias ver aqueloutro.

Deverias falar com este e nem te atrevas a falar com aquele.

Deverias fazer isto,

evita fazer aquilo.

Ainda não foste ali?

Nunca vás acolá!

Compra isto.

Não vás à rua vestida com aquilo!

Não tens isto?

Mas é isso mesmo o que pensas?

Como te atreves?

 

O que raio tens na cabeça?

— Eu? Nada. Estou apenas para aqui

Parada e quieta.

 

 

Sónia Pereira

From Iceland with art

Parando certo dia para analisar a minha seleção de música, aqueles compositores e músicos aos quais voltava repetidamente, se não diariamente pelo menos com grande assiduidade, percebi que a maioria dos responsáveis pelos meus delírios musicais eram quase todos islandeses. Vontade de dançar, melancolia, alegria, tristeza, reflexão, um rol vasto de emoções tornadas possíveis por uns quantos ilhéus de um país com pouco mais de 300 mil habitantes.

 

A minha primeira paixão assolapada por uns islandeses foi com os Sigur Rós. Ouvi-os exaustivamente durante anos e continuo a regressar às suas sonoridades com frequência. O trabalho a solo do vocalista Jonsi também é interessante e o seu timbre especial não perde magia com o avançar dos anos.

 

A minha segunda grande paixão islandesa aconteceu com a descoberta de Ólafur Arnalds. A diversidade do trabalho de um compositor ainda jovem (ainda nem 30 anos tem) é simplesmente espantosa. A colaboração com diversos instrumentistas e cantores traz para a sua obra uma sensação de experiência contínua e de se ter o privilégio de estar a assistir a algo único, irrepetível. Num dos últimos projetos, Arnalds viajou pela Islândia durante 7 semanas, gravando uma música por semana, sempre em colaboração com outros islandeses (uma organista, um coro, uma orquestra, uma cantora). E ouvir cada música deste projeto é como sorver um pouco da Islândia musical, porque aquilo que ali está, aquela música, aquela maneira específica de criar arte, não parece ser passível de ser replicada num outro país qualquer, por pessoas de uma outra nacionalidade.

 

kjartan sveinsson, antigo membro dos Sigur Rós, conseguiu levar-me às lágrimas com a sua composição clássica «Credo».  Sóley, uma descoberta mais recente, trouxe a complexidade vestida de uma simplicidade desarmante. Agent Fresco são também mais recentes na minha seleção, mas, através de uma colaboração de Arnór Dan, o volcalista, com Ólafur Arnalds, descobri-os e a voz de Dan não me cansa.

 

Li algures que 9 em cada 10 islandeses publicará um livro durante a sua vida. Pois algo de semelhante se deverá passar com os músicos. 9 em cada 10 islandeses terão, certamente, capacidades musicais seja para tocar um instrumento, cantar ou para a composição.

 

E é quase surreal como apenas três centenas de milhares de habitantes conseguem produzir tamanha quantidade de arte. Olhando deste nosso pedaço de terra, aquele território ganha contornos de fantasia e os seus habitantes serão seres com poderes especiais induzidos por paisagens agrestes, de beleza extrema.

 

Pode, por si sós, a insularidade e o meio envolvente serem geradores de uma natural predisposição para a arte? Talvez não. Talvez a explicação de tamanha intrínseca capacidade artística esteja em fatores mais complexos como o sistema de ensino adotado, fatores sociais como uma maior predisposição para a socialização através da arte. Não sei, mas uma coisa sei: os islandeses, através da música e da literatura, acompanham-me, fazem-me crescer e sentir-me viva, fazem-me ver mundos desconhecidos, sentir sensações inusuais, pressentir detalhes, pequenas nuances que até agora me tinham escapado.  E basta procurar um pouco, para novas revelações surgirem acrescentando densidade, diversidade à minha seleção atual.

 

 Sigur Rós - Dauðalogn (albúm Valtari)

 

Ólafur Arnalds - Particles ft. Nanna Bryndís Hilmarsdóttir (Island songs)

 

Sóley - I'll Drown (Live on KEXP)

   

 

 

Já chega de lamúrias

Vá, já chega de lamúrias. Vinte e quatro horas depois, temos de nos permitir ver o lado positivo desta eleição. Sim, porque há um lado positivo.

 

Não se poderia pedir melhor presidente para o pessoal poder fazer memes engraçados, GIFs de partir o coco a rir, videos hilariantes, montagens espetaculares na internet.

 

O homem é um poço humorístico sem fundo. É o cabelo tipo ninho, é o tom de pele alaranjado, são as expressões aterradoras, as frases inverosímeis e sem réstia de bom senso. O homem tem tudo o que precisamos para podermos passar os próximos quatro anos a rir.

 

É ou não um bom motivo para aguardarmos o futuro com uma doce expectativa?

 

Trump.jpg

 

Trump: uma lata de gasolina e um fósforo

Lido por aí: «Ela era corrupta, tem responsabilidades pela criação e financiamento do DAESH, ela e o seu partido têm culpa no cartório na guerra e no caos instalados em países como a Síria, Líbia e Iraque, ela é mais do mesmo; Votar nele é cortar com o sistema estabelecido, é uma forma do povo americano dar um puxão de orelhas ao poder corrupto em vigor; é um expressivo fuck the sistem. O senhor lidera companhias várias com milhares de empregados, é um caso de sucesso empresarial, quem melhor para liderar os destinos de um país do que alguém com tamanha capacidade de gestão, alguém que diz realmente o que pensa?!»

 

Tudo isto pode (e talvez seja) fundamentalmente verdade. Talvez o mundo não corra qualquer perigo com esta eleição surpreendente. Talvez o homem consiga to make America great again.

 

O que fica desta eleição não é a potencialidade de uma terceira guerra mundial, do uso de armas nucleares, mas algo de potencialmente mais perigoso, mais inflamável. O mundo estará a salvo, mas os estadunidenses estarão?

 

Quando alguém como Trump, com o discurso de Trump, com laivos racistas, xenófobos, machistas, homofóbicos, ganha as eleições, todo o seu discurso inflamatório acaba legitimado por aquela vitória.

 

O racismo, a xenofobia, a descriminação religiosa, a misoginia, saíram destas eleições como comportamentos aceitáveis.

 

Agora imaginem o que poderá acontecer quando este tipo de comportamentos se tornam admissíveis (pois se o presidente os tem, os proclama com orgulho), imaginem o que sucederá numa sociedade multicultural, multirracial, de extrema diversidade intelectual, supostamente evoluída no que à emancipação feminina diz respeito, às orientações sexuais dos seus cidadãos? Quais serão os reflexos sociais destes comportamentos agora legitimados?

 

Cisões. Conflitos. Agressões. Bastará um fósforo e uma lata de gasolina.

 

A religião e a educação

Ao inscrever o meu filho no primeiro ano do ensino básico, numa das folhas de inscrição apareciam as várias opções de Atividades de Enriquecimento Curricular, entre as quais, para grande surpresa minha, figurava a disciplina Educação Moral Religiosa e Católica.

 

Tinha conhecimento que a mesma disciplina era lecionada a partir do quinto ano, sendo facultativa a sua frequência, mas desconhecia que a mesma aparecesse como opção das AEC’s logo no primeiro ano do ensino básico.

 

Mesmo reconhecendo que uma maciça percentagem de portugueses tem como fé religiosa a religião católica e, praticantes ou não, esta se afigura como elemento presente e muitas vezes fundamental nas suas vidas, considero abusivo o ensinamento religioso numa escola de ensino público (mesmo este sendo de frequência facultativa).

 

A religião entra em confronto direto com os desígnios básicos associados à educação, como a curiosidade, o questionamento, a pesquisa, a evolução do conhecimento, o espírito crítico. Pegar em crianças que acabam de entrar no ensino básico, que estão ainda a experimentar os rudimentos da linguagem e da escrita, para, de certa forma, as catequisar numa religião específica, é, a meu ver, um abuso de confiança, uma violação das liberdades intelectuais de um ser humano facilmente moldável, uma formatação mental com a total conivência do Ministério da Educação.

 

Também a associação da moral à religião e ao catolicismo me parece forçada. Na realidade, talvez fizesse sentido uma disciplina ligada à moral, à ética e à cidadania. Sempre houve uma certa mania de ligar a moral à religião, mas a moral vive independentemente de uma qualquer religião. Um qualquer cidadão ateu poderá ser alguém que se rege por normas morais rígidas e inquebráveis e um cidadão católico não é necessariamente um defensor da moral e da ética.

 

Em suma, apesar da facultatividade da frequência desta disciplina, seja no primeiro ano do ensino básico ou em qualquer ano de ensino, parece-me que esta disciplina não tem lugar no ensino público num Estado que se diz laico. As opções religiosas de cada pessoa deverão ter um cariz privado, de opção pessoal e têm já lugar onde poderão ser expressas (igrejas, locais de culto, nas casas privadas de cada um). Se, por opção da família, uma criança pretende tomar um conhecimento mais aprofundado da religião católica, a catequese é a resposta óbvia e natural. A escola pública não tem de imiscuir-se nos assuntos ligados à religião. Não tem e não deve.

 

Pesquisando um pouco, percebo que esta opção do Ministério da Educação se afigure quase como uma obrigatoriedade associada a uma assinatura de uma concordata com a Igreja Católica e Romana. Uma assinatura feita há décadas atrás que continua a moldar um sistema de ensino em pleno século XXI.

 

Pois, para mim, mudando os tempos, há que se mudar as vontades.

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