Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Duzentos metros — excerto II

A banheira estava cheia. As manobras para me colocarem lá dentro já iam a meio. Eu estava sentado na beira já com os pés no interior, imersos na água. Ao erguer-me para me transportar para dentro da banheira, a minha mãe deixou-me cair. Tombei abruptamente na água, desamparado. Fiquei de cabeça submergida e as minhas mãos procuravam algo onde me agarrar para conseguir soerguer-me e respirar. Foram apenas segundos, mas na minha cabeça o novelo daquela cena é desenrolado devagar e cada segundo é vivenciado como uma via sacra de aflição. Vejo a minha mãe através do espelho de água, contornos faciais diluídos, debruçada sobre a banheira, sinto a sua mão no meu peito, uma mão pousada que nada faz para me socorrer, antes parece selar aquele encontro acidental com o fundo, com a falta de oxigênio. As minhas mãos esgravatam o ar como aranhas encurraladas, mas quanto mais estrebucho maior a dificuldade em me equilibrar e emergir da água.

 

(em Duzentos metros, Sónia Pereira)

Natal ateu

Apesar da minha educação cristã, de ter crescido e vivido no seio de uma família católica praticante, desde há quase duas décadas que me afastei da religião até ao ponto de me considerar ateia. Recordo o grande conflito que nessa altura residia em mim. O choque entre aquilo que defendia enquanto valores inalienáveis e os dogmas religiosos, o conflito entre a crença imposta e aprendida e a visão racional com que tendia a ver o mundo.

 

Tirei a religião da minha cabeça, mas é impossível remover por completo a religião da minha vida. Sendo os portugueses maioritariamente católicos no que à crença religiosa diz respeito, a religião está presente nas festividades e cerimónias que se celebram, nos cumprimentos que se trocam entre familiares e amigos, nas atividades escolares dos filhos, etc. Embora deva referir que esta religião entranhada no nosso dia a dia seja já uma religião degenerada, moldada aos tempos atuais de cariz mais consumista e festivaleiro.

 

Quando me confrontam com a minha hipocrisia em celebrar de alguma maneira o Natal quando me assumo como alguém que não tem qualquer religião, confesso que não sinto qualquer paradoxo nas minhas ações. Vivencio o Natal como uma festa da família, uma partilha de momentos entre pessoas que se amam, a tradição de passar o dia com a minha mãe a preparar receitas antigas de doces caseiros, o jantar galhofeiro com a família em que rimos, bebemos e contamos histórias já repetidas até à exaustão, mas que continuam a arrancar gargalhadas.

 

A minha falta de culpa tem a sua raiz nas vivências da generalidade dos portugueses e cidadãos ocidentais. Mesmo aqueles que se dizem católicos ou cristãos há muito que subverteram aquilo que a religião primariamente definiu que o Natal deveria ser. Esta quadra transformou-se num manancial de decorações coloridas, luzes brilhantes nas avenidas das grandes cidades, compras compulsivas de presentes (facilitadas por promoções típicas da época), num consumismo desenfreado mesmo a nível alimentar. Comprar muito, oferecer muito, comer muito, decorar muito.

 

A celebração familiar que faço, desprovida de qualquer estravagância, intimista e pouco consumista (só a criança da casa costuma ter direito a presentes), pode ser chamada de qualquer coisa, mas é o meu natal, um natal da família que pode ter no seu seio pessoas com diversas crenças e pontos de vista.

 

E como uma festa pagã na antiguidade foi lentamente transformada numa festa cristã, também o meu Natal católico da infância foi transformado numa festa de celebração da família que, para mim, já não tem qualquer susbtância religiosa.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub