Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Da inveja

É raro ceder à tentação de ler os comentários dos posts noticiosos dos vários jornais nacionais. A forma impulsiva como as pessoas comentam, a facilidade com que os comentários resvalam para a agressão verbal, fez com que, para bem da minha sanidade mental, deixasse de tentar descortinar a opinião das pessoas sobre determinada notícia ou assunto.

 

Todavia, quando me parece que a notícia não tem grande potencial «incendiário» e que nada poderá correr mal naquela caixa de comentário, dou por mim a bisbilhotar as opiniões alheias.

 

Uma das coisas que percebi, percorrendo uns quantos comentários de diferentes notícias, foi que um dos artifícios mais usados para rebater um comentário ou crítica construtiva era o uso da acusação da inveja. Numa das notícias, em que o novo livro de José Rodrigues dos Santos era apresentado, umas quantas pessoas questionavam de forma serena a qualidade literária do autor, a real capacidade de alguém conseguir escrever um livro de 600 páginas em meio ano, não faltando a estes comentários dezenas de respostas, sendo a grande maioria delas de acusação de inveja — inveja de não vender milhares de livros como o autor, inveja de não ter uma conta recheada à conta dos livros como o autor, inveja de não ser conhecido, uma figura pública como o autor.

 

Numa outra notícia sobre a eleição de Trump nos E.U.A., no meio dos comentários de apoio ao novo presidente surgiam uns quantos que questionavam em que situação estaria aquele país para um ser humano daqueles ter chegado a presidente. As respostas a estes comentários também se focavam maioritariamente na questão da inveja — inveja de não ser milionário como Trump, de não ter uma mulher «boa» como Trump, de não ser dono de um império como Trump.

 

O que me saltou à vista de todas estas acusações de inveja foi os alvos de inveja nomeados incidirem exclusivamente no dinheiro, no estatuto social ou na beleza. Nunca, em nenhum destes comentários, alguém respondeu algo como: «Tens inveja de não ser tão inteligente como ele/ela.»

 

Mais importante do que a capacidade intelectual de alguém para escrever um livro ou para governar um país, aquilo que realmente parece fascinar as pessoas, cativá-las para admirarem alguém, é o dinheiro que essa pessoa possui, o seu estatuto social ou a sua beleza física.

 

A intelectualidade, a inteligência, a capacidade de pensar por si, de usar o raciocínio lógico e criativo não tem potencial de causar inveja. E este facto só me consegue causar estranheza, pois a inteligência é aquilo que mais tendo a invejar nos outros. Perceber a forma brilhante como algumas pessoas expõem as suas ideias, a forma como parecem ser, sem esforço, naturalmente inteligentes e cultas, desperta em mim uma emoção que tento modelar para que seja positiva, para me fazer melhor, mas que nem sempre o é.

Vou para não ficar (excerto III)

Eu não sou eu. Quer dizer, eu sou eu, mas é como se este eu estivesse enfiado dentro de uma caixa terrivelmente apertada e danificada. Uma urna metálica amolgada. Esta caixa oprime, magoa e faz-me perder intermitentemente a consciência. O corpo já não é corpo, é caixa. Um homem na caixa. E só anseio libertar-me desta prisão.

 

Vê-la, ouvi-la, revolta-me. Não me consigo controlar. Sei ainda que a revolta é o caminho para a minha libertação. 

 

Ou… talvez não. Ocorre-me, quando a floresta fica iluminada durante segundos pelos faróis de um carro em movimento, que sempre me senti assim. Revoltado. E nem por isso fui um homem livre durante a minha curta vida. Quando ela, agora sentada aqui ao meu lado, absorta em pensamentos insondáveis, me agrediu, como uma onda gigante que me engolia vinda do nada, pela primeira vez senti o ténue cheiro da liberdade. Mas o corpo, esse, está num cárcere insuportável. Nunca antes senti nada assim. Como se em vez de um, eu fosse dois, como se lentamente me dividisse ao meio. Um que se sente preso e está capaz de fazer de tudo para se libertar e outro que nunca se sentiu tão livre até este momento.  

 
Não sei o que lhe passa pela cabeça. Carrega comigo, sempre calada. Transporta-me. Em mim, existe uma semente que germina. Queria pedir-lhe desculpa. Queria lamentar cada segundo que compartilhámos juntos. Queria pedir perdão por cada gesto, palavra e até pensamento, mas o que me sai da boca são apenas impropérios, mais do mesmo. Talvez eu seja isto, alguém primitivamente mau. E nesta contagem decrescente, não há tempo para reconstruir um novo edifício levantado sobre alicerces deficientes. Mais vale implodi-lo. 


Implode-o!

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)
 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub