Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A poesia do quotidiano

Einar Georg lê um poema da sua autoria. Um poema em islandês. Não compreendo uma única palavra. Percebo a sonoridade, a modelação das palavras, mas não a sua significância. Sei que que aquelas palavras falam de um rio, mas a minha compreensão do poema não passa disso. No entanto, aqueles segundos em que ele desfia as palavras compassadamente ao som da música que vai evoluindo, ganhando força, aquele minuto e tal em que aquela voz envelhecida me fala numa língua desconhecida, o que germina dentro da minha cabeça, do meu peito, é o que o meu entendimento, a minha capacidade intelectual entenderá por poesia.  

 

Independente da linguagem, das palavras numa ou noutra língua, permanece a essência da nossa existência e daquilo que nos rodeia. A minha vida, a vida dos outros, a natureza, a arte. A forma como percecionamos, nos percecionamos e àquilo que nos envolve, conjugada com um olhar despido de preconceito e de pressa, leva-nos a encontrar a poesia no dia-a-dia. Uma poesia sem palavras. Um melro que esvoaça entre árvores anunciando a sua presença com uma cantoria aparentemente estudada, um feixe de luz que atalhou caminho entre os galhos densos de uma árvore, o cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas de outono, o sabor de um diospiro maduro que nos transporta à infância, o alvoroço das chamas numa lareira acesa que nos envolve no seu calor convidativo, a cadência melancólica das notas numa música ouvida num dia de depressão, o entendimento fugaz daquilo que nos inquieta, mas que não conseguimos ou não nos atrevemos a traduzir em palavras.

 

A poesia estará num recanto de cada um nos nossos sentidos, a poesia será um filtro da nossa visão, da nossa audição, do nosso tato, do nosso olfato, do nosso paladar. E como tal, mesmo sem a significância das palavras, entendo perfeitamente o significado de cada palavra proferida por Einar. A sua voz calou-se, a música cessou, mas dentro de mim permanece um eco poético, um latejar acelerado que degenerou num desconcerto físico e mental. Acabou-se. Mas continua.

 

Ólafur Arnalds - Árbakkinn ft. Einar Georg

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub