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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Estranhas obsessões — vídeos de borbulhas

No outro dia lia um artigo num site de notícias internacional sobre um fenómeno crescente da internet — os vídeos sobre a extração de borbulhas, pontos negros, quistos e afins. Até àquele momento ainda não tinha visto nenhum desses vídeos que a notícia dizia pulular no Youtube. Uma das pessoas referidas na reportagem era a Dr.ª Sandra Lee, uma dermatologista estado-unidense que postava frequentemente vídeos desse teor no Youtube e Instagram, tendo já milhares de seguidores e milhões de visualizações.

 

Dei por mim com alguma curiosidade em bisbilhotar um desses vídeos. Nunca fui muito de andar a catar borbulhas nos outros, mas quando tinha alguma borbulha, verdade seja dita, não parava enquanto ela de lá não saísse.

 

Fui então ao Youtube procurar a tal Sandra Lee e… foi o fim da minha existência tal como a conhecia. Descobri uma faceta minha que ignorava e da qual, tenho de admitir, sinto uma certa vergonha. Por um qualquer motivo obscuro (talvez algum psiquiatra consiga explicar) eu gosto de ver aquilo. Apenas me apazigua um pouco o facto de não ser a única (pelo menos, os milhares de vídeos e de visualizações transmitem-me essa ideia), embora essa situação não diminua uma certa sordidez associada à observação deste tipo de coisa.

 

Qual será a razão do prazer associado a ver este tipo de vídeos? O que há de tão magnífico em ver um ponto negro, uma borbulha a sair da pele de alguém?

 

Com tantos estudos feitos (com maior ou menor credibilidade), espero que alguém se dedique a fundo a esta investigação de «extrema importância». Preciso de saber a razão desta estranha obsessão.

Os dislikes

O que me move são as coisas que me proporcionam prazer. Esse prazer não tem de ser elementar, pode ter um caráter reflexivo, pode ser melancólico, pode até levar-me às lágrimas pela tristeza que me causa. Assim, tento não gastar um segundo da minha vida a procurar aquilo que nada me diz, que nada de bom me pode proporcionar. E se, nas minhas buscas, tropeçar em algo assim, indiferente, insonso, passo adiante sem olhar para trás.

 

Dito isto, surpreendem-me sempre as pessoas que gastam tempo com aquilo que confessam não gostar. No Youtube veem um vídeo, fazem um comentário negativo, colocam um dislike. Alguns são meninos para fazer isso em todos os vídeos desse mesmo artista. Se um vídeo tiver um conteúdo censurável (racista, xenófobo, misógino, discriminatório, de tortura a pessoas ou animais) eu consigo compreender e louvo mesmo essa atitude. Na realidade trata-se uma forma de expressar uma censura pelo conteúdo apresentado e uma forma de alertar quem vier a seguir. Mas tratando-se de um vídeo de música, gatinhos a fazerem avarias ou algo de género, nunca percebi essa necessidade de expressar uma opinião tão inflamada sobre aquela partilha. Eu não gosto de quizomba e para mim a solução é muito simples: não procuro vídeos de quizomba para lá ir colocar dislikes. O meu não gostar de um género musical não significa achar que o género em questão é um género menor. Simplesmente não gosto, mas não me sinto o oráculo do mundo, aquela que define se um músico, um compositor tem qualidade ou não.

 

Hoje estava eu a ver o vídeo Lazarus de David Bowie e fiquei boquiaberta ao perceber que tinha 16 mil dislikes. Posso compreender que algumas pessoas não apreciem o género musical em questão, mas um dislike é como um certificado de má qualidade e se há coisa de que o Bowie não poderá ser acusado é disso. Neste exemplo específico, parece-me quase uma falta de respeito por uma canção que é um epílogo maravilhoso, sem precedentes, de uma vida também ela excepcional.

 

Assim, seríamos todos bem mais felizes (a nível pessoal e interpessoal) se procurássemos o prazer ao invés de gastarmos tempo com aquilo que nos irrita, que nos torna em seres agressivos, impulsivos, uns verdadeiros trolls da internet.

A depressão dos tops de vendas

Quando passo os olhos pelo top de vendas da FNAC e WOOK fico sempre com sintomas depressivos. Desta vez, nem a presença de Elena Ferrante e Mario Vargas Llosa atenuou esses sinais incómodos, pois aqueles três desgraçados pareciam rir-se na minha cara, em jeito de gozo e até me pareceu ouvi-los dizer: «Viemos para o top e é para ficar, minha cara. Habitua-te. Aguenta-te à bomboca».  

 

O JRS, num dos tops 10, tinha direito a dois livros e não deixa de haver alguma ironia no sucesso deste «escritor». Um homem que diz que escreve pois não há nenhum livro que gostasse de ler (nem um, centenas de anos de literatura e nada, aos olhos deste homem não se aproveita nadinha de nada), tem milhares de leitores que o compram e o leem. Só gostava que todos os seus leitores fossem como ele, mais adeptos da escrita do que da leitura.

 

Sobre JRS fica-me ainda uma dúvida: se não há nenhum livro que gostasse de ler, será que nunca leu nenhum livro na vida à exceção dos escritos por ele próprio? Ou tudo o que leu foi a contragosto? E como raio faz ele as tais «investigações» com resultados fascinantes, autênticas descobertas que revolucionam a história da humanidade sem ler absolutamente nada? Ou será que só lê os artigos manhosos da wikipédia? A dúvida não me deixará dormir.

 

Lá pelo meio estava o maior guru da auto-ajuda do nosso país. Um homem que diz sem rodeios que a culpa de alguém ser vítima de violência não é do agressor, do violador, mas… (wait for it) da própria vítima. Alguém que adora trocadilhos com as palavras, mas trocadilhos que são apenas parvos, carecendo de qualquer sentido — a mente chama-se mente porque nos mente. (Neste momento cheguei a sentir um pequenino impulso suicida. Inspira, expira. Já passou.)

 

Não deixa de me surpreender a correlação direta entre o aumento de baboseiras proferidas pelo Gustava Santos e o aumento de livros vendidos e o aumento de likes na sua página do Fecebook.

 

Para último, fica o eterno morador dos tops nacionais, o Pedro Frases Feitas (peço desculpa roubar este delicioso termo sem dar direitos de autor ao criador, mas não sei quem foi).

 

Tenho no entanto de dar a mão à palmatória. Ele é definitivamente mais honesto que a maioria das figuras públicas da nossa praça. O homem promete falhar e falha, ele promete perder e perde. Pedro Chagas Freitas é, para mim, um fenómeno, mas não literário. De marketing. O percurso dele deveria ser usado como caso de estudo na área da comunicação e marketing porque não deixa de ser fascinante a forma como conseguiu desbravar terreno até chegar onde chegou — morador dos tops de vendas, figura com mais frases e textos lamechas partilhados nas redes sociais, autor adorado por milhares de leitores.

 

Este artigo da revista Sábado ilustra bem o autor e o seu percurso e, se eu pudesse, fazia uma cópia e enviava-a a todos os leitores do Frases Feitas. Um presente do fundo do coração.

 

Com isto concluo que o melhor para mim é manter-me na ignorância, evitar consultar os tops de vendas das livrarias, pois a depressão sai cara e não me apetece gastar dinheiro em medicamentos.

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