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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Vou para não ficar (excerto II)

As mãos de Salvador, amornadas pelo sono, apertaram as de Alexander para o serenar. Não precisavam de falar. Aquele gesto simples, duas mãos que cingiam outras duas, fez desvanecer o cenário noturno de agressão e medo que povoara a cabeça do sargento e apenas a sensação morna de ser amparado subsistia. Aproximaram-se, sentindo a respiração um do outro. E num impulso simultâneo, beijaram-se. Primeiro devagar, num leve roçar de lábios, como se a escuridão pudesse dissimular a ação. Depois de forma sôfrega, urgente. Tatearam o rosto um do outro, sem que os lábios se distanciassem. Nariz, sobrancelhas, orelhas, olhos fechados. Tocaram o corpo um do outro. Pescoço, costas, peito, braços. Se o beijo que os unia era impaciente, a rasar a violência, a forma como se tocavam era suave, amedrontada pelo desconhecido, num contraste rítmico com o beijar acelerado. Pontas dos dedos que perscrutavam pequenos pedaços do corpo do outro.

Sentados na cama, de olhos fechados, dominados pelo ribombar cardíaco que os ensurdecia, que os agitava ao extremo da dor física, a vida, o querer alguma coisa, poder-se-ia resumir apenas àquilo. Lábios nos lábios, língua dentro da boca do outro, dedos a acariciarem um pescoço, a memorizarem a fisionomia de um nariz, um toque na nuca que faz estremecer, uma palma da mão pousada no peito que arranca um gemido ténue entre beijos, um suspiro causado por uma mão que afaga um rosto.

Vou para não ficar (excerto)

Alexander sentiu-se sumir por dentro. Estava ali, presente, e em todas as interpelações conseguiu articular respostas racionais, embora evasivas, mas o seu interior evaporava, exalando-se pelos poros, pelas expirações, pelos olhares vertiginosos que dedicava a cada canto e recanto dos espaços envolventes. Um homem que se diluía perante uma assistência desinteressada. Um homem que se transformava num recipiente oco. De metralhadora nas mãos, quando se preparava para a devolver ao depósito de armas, ouviu o som cavo, o eco grave do seu próprio corpo vazio. Podia, como um louco, descarregar a arma de forma aleatória naquelas pessoas que falavam, riam, relaxavam depois de um dia de trabalho. Provocar uma profusa matança, criar novos ecos, encher-se novamente, mostrar da forma mais dramática o significado da palavra morte àqueles que a usavam como artifício humorístico. Podia. Na imagem da arma, no toque da coronha e do cano entre mãos, conseguia antecipar a efervescência do momento, a vertigem sonora dos disparos. Podia. Todas as suas ações deslocadas seriam desculpa posterior daquele comportamento, mas também aviso prévio ignorado. Todavia, o seu corpo oco reagiu de forma automática como um sonâmbulo que sabe o caminho, conhece os detalhes arquitetónicos de uma casa às escuras. Entregou a arma no depósito.

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira

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