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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Jóhann Jóhannssonn – adeus melancólico

Faleceu a 9 de fevereiro deste ano, aos 48 anos, o compositor islandês Jóhann Jóhannssonn. E não haverá nada de mais paradoxal nesta vida do que o fim, a perenidade do corpo físico de alguém capaz de criar o intemporal, o imortal, o transcendente. O paradoxo entre a banalidade da existência humana e a unicidade de algumas das suas criações.

 

Como melancólica assumida, a morte deste compositor grita-me aos ouvidos como um último andamento de uma composição histriónica. Mas, a melancolia é também a capacidade de distanciamento, de observar em contemplação o caos, a beleza, a capacidade de sentir a vibração da vida em toda a sua potência. Assim, apesar da partida do homem, sento-me e ouço a sua criação. Sinto o eco da sua existência nas notas que se compõem em melodias que me chamam e que já foram mínimas, semínimas e colcheias escritas por aquela mão numa pauta em branco. E enquanto eu conseguir ouvir, enquanto eu sentir no corpo a vibração das suas criações, o homem não morrerá. E isso basta…

 

«The candlelight vigil», banda sonora do filme Prisoners, de Jóhann Jóhannssonn.

 

Fordlândia, de Jóhann Jóhannssonn.

 

Flight from the city, de Jóhann Jóhannssonn.

A diversão como moeda do século XXI

Há meia dúzia de dias, Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, veio dizer que os portugueses não queriam trabalhar. Há vagas de emprego por preencher, há desempregados, logo a conclusão «óbvia» para o homem é que «as pessoas não querem trabalhar». Não há direito a análise do tipo das ofertas de emprego (salário oferecido versus competências exigidas), condições laborais oferecidas pelos empregadores com dificuldade em contratar, análise dos desempregados que procuram emprego e suas ambições/competências e adequação às ofertas de vagas por preencher. Isso é análise a mais quando se pode simplesmente saltar para uma conclusão precipitada.

 

Não querendo aprofundar-me sobre este assunto, também vou na corrente e salto para uma conclusão, quiçá, precipitada: uma parte substancial dos empregadores parece acreditar, talvez embalados pela cultura dominante deste século XXI, que o emprego, em si, é uma benfeitoria que oferecem aos seus potenciais colaboradores. Ter um emprego aparece como uma regalia por si só e pedir um salário justo, adequado às competências exigidas, é uma espécie de afronta que é feita aos já muito caridosos empregadores. O «se não queres há mais quem queira» é o desenlace fatal para aqueles que ousam questionar.

 

De certa forma, caminhamos para uma espécie de escravatura dos tempos modernos. As grilhetas de hoje não são físicas, não estamos acorrentados contra a nossa vontade ou chicoteados por vis capatazes, mas somos agrilhoados pelas necessidades financeiras que se impõem sem dó nem piedade. Assim, há uma sujeição a empregos mal remunerados, a abusos laborais vários e a não sujeição a tal coisa é vista como preguiça, falta de vontade de trabalhar. 

 

Juntando a esta situação, aparece ainda a subversão de algo que nasceu com um intuito francamente positivo, mas que hoje é usado como uma espécie de eufemismo para trabalho não remunerado. O voluntariado agora é palavra usada a torto e a direito por organismos que promovem eventos que geram lucros tremendos e que, ainda assim, empregam centenas de pessoas a custo zero.

 

 

Trabalhar de graça no Rock in Rio, no Web Summit ou no próximo Festival Eurovisão da Canção 2018, a troco de «diversão e uma t-shirt», exigindo, ainda assim, aos candidatos competências várias, é uma afronta ao que  o voluntariado deveria ser. É ainda uma forma enviesada de transformar, na mente das pessoas, o trabalho e sua justa compensação, numa oferta de trabalho pelo simples gosto de trabalhar, sem necessidade acrescida de qualquer outra compensação.

 

A garantia de diversão transformou-se assim, numa espécie de moeda de pagamento do século XXI, a malga de comida do final da jornada de trabalho escravo dos tempos modernos. 

 

O patrão da Padaria Portuguesa exultava o espírito de equipa como algo mais importante do que um bom salário base. O novo voluntariado remunera os seus «voluntários» em diversão. Só é pena nem o espírito de equipa nem a diversão pagarem a conta da EDP e a renda de casa.

 

Entre estágios não remunerados ou promovidos pelo IEFP, salários desadequados à função e competências exigidas e o voluntariado degenerado, há que se trabalhar sob pena de sermos catalogados de preguiçosos e de só querermos boa vida.

«Comungar» com a natureza

Cá por casa, somos apreciadores de fazer uns passeios de fim de semana pelas belezas naturais da região. As serras que nos circundam têm muito para explorar e nunca deixam de surpreender a cada nova visita, pois cada estação do ano pinta a paisagem com diferentes cores, chegam-nos diferentes cheiros, como se cada visita fosse a primeira.

 

Neste último fim de semana, que para nós foi prolongado, aproveitamos o bom tempo de segunda-feira para ir explorar a Serra de S. Macário. Pertencente ao concelho de S. Pedro do Sul, esta serra é de uma enorme beleza natural, pelas suas características geológicas, pelas pequenas aldeias perdidas na serra, vazias ou na eminência disso.

 

Mas neste post não pretendo falar do passeio à serra. Amanhã logo aqui colocarei algumas fotografias em jeito de reportagem do passeio. Neste post, pretendo apenas referir o pequeno incidente de comunhão com a natureza. 

 

Parámos a caminho da topo da serra para apreciar as vistas. Há já um bom bocado que não nos cruzávamos com nenhum outro carro. A serra parecia só nossa. Já estávamos longe das últimas povoações antes da subida e não se via vivalma, não se ouvia qualquer barulho, a não ser o frenesim de alguns pássaros e as nossas conversas de família.

 

Comecei a ficar com uma vontade extrema de urinar. Parece que, quando temos a perceção que não há nenhuma casa de banho próxima, a situação ainda se agudiza mais. É uma mistura explosiva entre a necessidade física e a pressão psicológica. 

 

O meu marido logo me incentivou a urinar atrás de uns arbustos rasteiros na beira da estrada. Não havia mal nenhum, era só um xixi, e além disso não se via ninguém que pudesse assistir à minha triste figura de «comunhão com a natureza». Não sou grande amante de urinar na natureza. Nesse setor, sou uma perfeita comodista. Mas quando a vontade aperta e por perto não há salvação possível, lá tem de ser.

 

Baixei-me atrás do arbusto, mas muito mal camuflada, pois a vegetação era rasteira, e lá comecei a aliviar-me. 

 

Pois... bastaram umas quantas pinguitas, para logo começar a ouvir um carro em aproximação. Para ali fiquei, de cócoras, de calças baixas, a rir que nem uma perdida, entre a vergonha e o meu sentido de oportunidade (ou falta dele) que me causava gargalhadas. Era um carro cheio de gente, com cinco passageiros, todos eles testemunhas da minha comunhão com a natureza. E logo ali, de enfiada, depois de mais de meia hora sem um único veículo à vista, passaram mais dois ou três carros. 

 

À memória veio de imediato este sketch da série belga «E se?». Não encontrei com legendas, mas dá para perceber. Quando estamos de calças na mão, não faltam espectadores para a nossa «desgraça». :)

 

 

 

Piolhos psicológicos

A palavra piolho tem um estranho efeito psicossomático em que a ouve ou a lê. Umas quantas letrinhas, uma singela palavra, que inevitavelmente me levam as mãos à cabeça, a coçar freneticamente, numa tentativa de aplacar a comichão que por ali se instalou, mal a palavra foi ouvida ou as letras que a compõem lidas.

 

O meu filho, no início da semana, trazia um aviso escrito na caderneta escolar, que pedia aos educadores para verificarem as cabeças dos seus educandos. O efeito perverso do aviso é que a palavra piolho nem sequer por lá estava escrita, mas a presença dos bichinhos na cabeça de alguma criança da turma estava implícita. Mal li o aviso, comecei a coçar-me de imediato. Depois de verificar a cabeça do meu miúdo e perceber que por lá não andavam moradores indesejados, mesmo assim a minha comichão não desapareceu. Entretanto, já pus o meu marido à procura dos meus piolhos imaginários e nem o facto dele não ter caçado ou sequer detectado nem um pequenino, nem um desgraçado de um pequeno bebé piolho, me sossegou. Neste momento, sofro de piolhos psicológicos e não desejo desagradável maleita a ninguém.

 

 

menino com piolho.jpg

Imagem retirada daqui.

 

Nota: depois de uma longa ausência, os piolhos foram o mote do regresso ao meu blog. A comichão sempre serviu para alguma coisa. Desinquietar, destabilizar, meter a engrenagem a funcionar novamente. 

 

HHhH - Laurent Binet

O que aconteceu no passado, por lá ficou, calcinado, fossilizando na cadência do passar dos dias, das estações, dos anos, à espera que algum explorador, com meticulosas escavações arqueológicas, o traga novamente à luz do presente.


Mas nem sempre o passado adormece como uma criança despreocupada. Por vezes, estrebucha, luta na sua queda irremediável, lançando linhas de vida para o futuro. O seu aniquilamento, apesar de ser, em si, um fim, um ponto final, ecoará pelos tempos vindouros.


Lendo HHhH, quando estava a poucas páginas do final do livro, durante dias não consegui retomar a leitura que me levaria ao seu fim. O livro olhava-me da mesa de cabeceira e eu esquivava-me à sua interpelação. Eu sabia o que aquelas páginas retinham, a história que contavam, pois o livro fala de um episódio verídico, de pessoas reais, de momentos marcantes da nossa história recente que tiveram repercussões no nosso Agora.


Eu sabia, mas eu não queria ler, não queria ver a realidade ali escarrapachada. Certo dia, de livro na mão, como que desejei que a nossa história tivesse camadas de universos paralelos e que, ao virar da página, os dois paraquedistas checoslovacos, Cabčik e Kubiš, que em 1942 foram enviados em missão a Praga para matarem Heydrich, a besta loura, carniceiro do III Reich nazi, inventor da «solução final», conseguissem despachar o «carrasco de Praga», saindo incólumes, vivos e de saúde, sobrevivendo para nos contar pessoalmente os detalhes de tão arriscada operação.


Mas não foi isso que aconteceu. E se é certo que a nossa história está repleta de heróis que caíram de pé, alguns acabaram engolidos pelo esquecimento da rotina do tempo. Não esquecemos os vilões, os psicopatas, mas facilmente olvidamos os íntegros, aqueles que nos deram um presente.


O livro de Laurent Binet, HHhH (o cérebro de Himmler chama-se Heidrich), é uma espécie de homenagem aos heróis da operação Antropóide, que tinham como missão assassinar Reinhard Heydrich, figura proeminente nazi, considerado o homem mais perigoso do III Reich.


Numa escrita bastante original, o livro de Binet é também um ensaio sobre a literatura, sobre a abordagem literária aos factos históricos. Com a minha leitura terminada, o que sinto é que não foi um romance aquilo que li, mas sim algo híbrido entre a escrita literária, o ensaio sobre literatura, o diário de um autor atormentado e o relato histórico. As dúvidas do autor sobre como deve abordar as personagens, que na realidade não são personagens, mas pessoas reais, são explanadas durante o livro e o que chega ao leitor é esta vontade de não defraudar a memória daqueles que pereceram, contar a sua história sem falsificar a sua existência. Mas como passar ao leitor os medos, anseios, palavras ditas, frustrações sentidas por aqueles que já cá não estão para validar a veracidade de tais informações?!


Entre as batalhas pessoais do autor, as suas dúvidas e o anseio de uma homenagem à altura da importância das pessoas em questão, acho que conseguiu criar uma obra literária de valor, original, porque, acima de tudo, não é apenas um objeto literário, transborda em larga medida esse conceito.


Como apontamento final, ponto de resolução deste texto, deixo apenas umas quantas palavras que são um apanhado não só do livro, mas de cada minuto da nossa história e, assim, também da minha existência:


É surpreendente como o ser humano é capaz das coisas mais horrendas, dos atos mais inqualificáveis, de uma total ausência de empatia pelo próximo e, simultaneamente, dos atos de altruísmo mais inimagináveis, de resistir à tortura guardando em si a honra, a luta pelos valores irrevogáveis que o sustentam. A nossa história é isto, este puxar de corda entre uns e outros, entre seres monstruosos e seres de qualidades superiores, entre o prazer da dor infligida e o suportar estoico da dor sentida. Para os restantes de nós, resta o esquecimento, a rotina das horas que passam e se esgotam.

 

HHhH.jpg

HHhH, Laurent Binet, Sextante Editora.

Entre as brumas… das queimadas

Verões de fogo e outonos de fumarada. Em poucas palavras se pode resumir os vícios e vicissitudes de uma localidade. A minha. Não há povo que tanto vibre com uma caixa de fósforos na mão. Talvez as minhas palavras soem a exagero, mas há quase uma certa compulsão associada, algo de patológico, nesta vontade de fazer fogo.


Depois da destruição dos fogos nos últimos meses, depois da perda irreparável de vidas, seria de esperar um certo refreamento, mas não.
Sendo a proibição de fazer queimadas prolongada até dia 15 de novembro, ao sair de casa pela manhã no dia 16, toda a localidade cheirava a queimado, no ar pairava uma bruma de fumo que fazia lembrar nevoeiro invernal, mas a intoxicação das vias respiratórias não enganava: não havia nada de lírico nas brumas daquela manhã. Era uma massa de fumo compacta proveniente de dezenas de queimadas. Por entre a irritação, confesso que me ri sozinha no carro. Imaginei dezenas de pessoas de fósforo na mão, aguardando a meia noite, para poderem atear, qual drogado em ressaca, a sua fogueirinha na horta.


Mas triste foi esse dia para os ressacados da aldeia. Nesse final de tarde saiu a notícia do prolongamento da proibição até dia 23. Lá tiveram de guardar os fósforos na gaveta. Mais uma semana de puro sofrimento, para logo o cenário das brumas matinais se repetir dia 24.


Não se conseguia andar no exterior. No recreio da escola do meu filho, a massa de fumo pairava incomodativa e o miúdo queixava-se: mãe, cheira a queimado. Cheira mal.


O fumo deste tipo de queimadas acaba por, de certa forma, ser mais incomodativo do que o dos incêndios de verão. São fogueiras mais pequenas, o fumo circula mais baixo, envolvendo tudo e todos.


O dia de chuva de hoje acabou com a festa, mas sempre já tiveram uns quantos dias para se entreter.


Agora falando da origem das queimas: há muitos detritos provenientes dos quintais e hortas (folhas secas, galhos, ramos provenientes das podas, etc.) Eu também tenho um quintal e um terreno com árvores de fruto, também por aqui há muita vegetação que virou detrito. Mas não seria mais lógico reservar um pequeno espaço para colocar esses despojos, de forma a que estes se fossem deteriorando naturalmente? Uma pilha de detritos orgânicos acaba por se transformar em compostagem, em adubo orgânico. Todos os anos, na primavera, vou ao meu monte de detritos e da base, com uma enxada, vou puxando a terra que se foi formando e que funciona como adubo natural para as plantas. Para quê esta fúria pela queima, se a natureza trabalha tão eficientemente mesmo sem a nossa intervenção?


Talvez a motivação seja mais da ordem da tradição e do vício do que da praticabilidade e benefícios do ato em si.

O reality show de Karl Ove Knausgård

Prossigo a leitura do segundo volume de «A minha luta» de Karl Ove Knaurgård. Fenómeno editorial quando foi lançado, é fácil perceber o que causa esta atração por esta obra. Temos uma obra literária que se aproxima do leitor como se este, de certa forma, bisbilhotasse inadvertidamente e à socapa os diários de alguém que lhe é próximo. Karl Ove fala da sua vida, desde a infância à idade adulta, a morte do seu pai, a família, o nascimento dos filhos, a luta pela criação literária e a conciliação disso com a rotina de um homem casado com filhos.


Não se poderá chamar a este conjunto de quatro livros uma obra de ficção, mas também a classificação de autobiografia não lhe assenta com graciosidade. A obra é escrita como um desabafo, uma conversa com um Eu imaginário, e segue todos os preceitos de uma divagação sem normas, sem estrutura aparente, sem qualquer rigidez narrativa. Essa forma despojada de contar a sua história, faz com que ocorram todos aqueles tiques (propositados, certamente) de quando falamos com alguém muito próximo e lhe contamos alguma história — começamos a contar um qualquer episódio, mas facilmente nos perdemos em algum detalhe que nos transporta para um episódio totalmente diferente, até nos apercebermos que nos afastamos do nosso intento inicial e regressarmos.


A narrativa de Karl Ove está cheia disto, desta divagação que nos faz saltar da história de uma vizinha russa meia louca que ele encontra nas escadas do prédio para uma história passada há cinco anos. Este estratagema incute ao leitor a forte impressão de não estar a ler um livro, mas a ter uma conversa com o autor, transmite ainda a sensação da genuinidade daquilo que lhe é ali contado, como se ali nos estivesse a ser servido um Karl Ove que conseguimos espreitar, dissecar até ao âmago: conhecer fraquezas, taras, sonhos, frustrações, ambições. Tudo aquilo que nos torna humanos, mas que muitas vezes revestimos com uma grossa camada de verniz para melhor podermos viver em sociedade.

 

Havia apenas, por um lado, o pequeno personagem a que a auto-anulação me reduzia e, do outro lado, a minha extrema distância solitária. Entre estes dois pólos, decorria a minha vida de todos os dias. Talvez fosse por isso que se tornava para mim tão duro vivê-la. O dia-a-dia, com as suas obrigações e rotinas, era qualquer coisa que eu tinha de suportar, qualquer coisa que não me satisfazia, qualquer coisa que não tinha sentido para mim e não em fazia feliz. […] Portanto, a vida que eu vivia não era a minha própria vida. Tentava torná-la minha, era essa a minha luta, porque era sem dúvida isso que queria — mas fracassava, o desejo com que ansiava por outra coisa minava todos os meus esforços.
Página 68, A minha luta:2

 

No entanto, aquilo que é o mais atraente nesta obra, é também aquilo que ela tem de mais irritante. A verdade é que não estamos (falo de mim, enquanto leitora) totalmente preparados para ler, a cru, todo aquele tipo de pensamentos que também temos, mas que nunca, jamais, em tempo algum confessamos a alguém. E quando aquele que nos confessa os inconfessáveis é alguém real, um ser humano e não uma personagem de ficção, há um certo choque nessa leitura, um desconforto.


O facto de o autor confessar a atração sexual por várias mulheres quando empurra estrada abaixo o carrinho com a sua filha e tendo em casa a mulher à espera com a sua bebé, é desconcertante. Quando, estando descansado a ler um livro num café e apesar de ter passado muito da hora em que prometera voltar a casa, admite que não lhe apetece regressar para junto da família, é revoltante. E quando, perante um certo olhar recriminatório de uma empregada da caixa do supermercado (por não ter comprado um saco de compras) ele diz que não se importava com o que aquela pessoa pensava dele, porque ela era gorda, tudo em mim, como leitora, sofre um certo choque.


E, de resto, que me importava o que a empregada pudesse pensar de mim? Era tão gorda.
Página 102, A minha luta:2


Todos nós já tivemos pensamentos que surgem impulsionados por estereótipos e preconceitos vários. Antes de os confessarmos, esses pensamentos sofrem uma recriminação interna, porque os nossos códigos de ética e moral os refreiam. Jamais nos vemos a oralizar certas mediocridades que o nosso cérebro criou. Karl Ove fá-lo, como se tivéssemos um acesso privilegiado ao seu pensar antes de qualquer filtro ético atuar. E essa opção narrativa serve para expor as fragilidades, mas também as arrogâncias, os preconceitos. E se isso nos aproxima do autor como raramente nos aproximamos de alguém, sentimos ainda uma certa repulsa associada a essa aproximação. Ninguém é perfeito, sei-o, mas vê-lo escarrapachado assim, nas páginas de um livro, é desconfortável.

 

Se, por um lado, há originalidade na forma como Knaugård expõe a sua luta, por outro, por vezes sinto que seguimos um certo caminho de reality show, como se assistíssemos pacientemente a um personagem (que embora real, também tem muito de virtual) fechado dentro de uma casa, a viver a sua vida, com todas as grandezas e mesquinhices a que as vidas têm direito, tudo em frente aos nossos olhos.


E se essa sensação de exposição básica de reality show não vai aos extremos, é porque Karl Ove é hábil na sua criação literária. Consigo perceber o que ele pretende, consigo perceber o que ele me quer dizer, mas custa-me a aceitá-lo — «És como eu. Olha bem para ti. Não te esquives à observação. Não floreies o quadro com adereços desnecessários. Isto és tu e eu consigo vê-lo.»

 

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A minha luta:2, Um homem apaixonado — Karl Ove Knausgard, editora Relógio d'Água.

Tribunal da Relação do Porto e as viagens no tempo gratuitas

Quando há uns tempos, fiz uma investigação bibliográfica aprofundada para a minha tese de mestrado sobre os manuais de conduta para as mulheres (1900-1950) e deparei-me, como seria de esperar, com um sem fim de livros da época de cariz extremamente machista, contra a emancipação feminina, conservadores, embrulhados na infalível proteção religiosa, exultantes na sua fúria da defesa da «moral e bons costumes». A imagem da mulher, que exigia ser preservada a ferro e fogo, era a da mulher submissa, esposa dócil, dona de casa, um exemplo de virtudes e de subjugação, um ser que não ouve, não questiona, só obedece. Linhas e linhas disto, deste discurso repetido até à exaustão por certas personalidades da época que, vendo os avanços emancipatórios no exterior, temiam que tal coisa assolasse a bela pátria lusitana.


No entanto, a minha habituação a este discurso é de o ver escrito em livros antigos, com o acordo ortográfico de 1911, numa linguagem que me remetia ao passado. Um discurso ligado a páginas amarelecidas, livros de capa dura, palavras encerradas há décadas em estantes de bibliotecas. Tudo aquilo eram reminiscências de tempos idos que não tinham como nem porquê voltar.


Quando, este fim de semana, me deparo com um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, do juiz desembargador Neto de Moura, relativo a um caso de violência doméstica, todas aquelas palavras, frase por frase, tal e qual como se estivesse a olhar para um livro com cem anos, estavam lá escarrapachadas: a violência desculpada pelo adultério, a gravidade do adultério feminino, a ofensa à honra do homem, as constantes referências à bíblia, tudo aquilo era uma viagem ao passado, uma viagem no tempo de forma gratuita.


Julgava eu que a distopia era opção literária, afinal também é recurso judicial. Admirável mundo novo com cheiro insuportável a mofo…

Tribunal porto.jpg

Excerto do acordão de 11/10/2017, do Tribunal da Relação do Porto, escrito pelo Juiz Desembargador Neto de Moura e assinado também pela Juiza Maria Luísa Abrantes. O acordão pode ser consultado na sua totalidade aqui

De salientar que é possível encontrar argumentação semelhante usada pelo Juiz Neto de Moura noutros acordãos redigidos por ele.

Dunkirk — OST by Hans Zimmer

Ando sempre fora de tempo, atrasada nos meus textos sobre as novidades, as tendências, seja na música, na literatura, nas opiniões, no cinema.


Falar do filme Dunkirk em outubro, quando o mesmo saiu em julho ou agosto, é daquelas coisas que não devem interessar nem ao menino jesus. Mas apetece-me. E é quanto basta para eu escrever um texto. Na realidade, este post nem é uma crítica ou avaliação ao filme. A vontade de falar de Dunkirk nasceu da audição da banda sonora, da autoria do compositor Hans Zimmer. Confesso-me uma apreciadora das bandas sonoras de Zimmer e ainda mais daquelas em que ele teve colaboração de Lisa Gerrard, uma das minhas vozes preferidas (não é o caso deste filme). Não raras vezes ouço as bandas sonoras sem sequer conhecer o filme para o qual foram compostas.


Embora o trabalho de Zimmer seja sempre, em certo ponto, uma composição sem falhas, que «casa» bem com a imagem, nem todas as composições poderão ser chamadas de memoráveis, passíveis de serem perpetuadas na memória de quem as ouve/vê. Existem, no entanto, algumas que, mesmo passando os anos, mas mais depressa me lembro da banda sonora de Zimmer do que da história, do filme em si.


Quando fui ver Dunkirk — coisa rara, porque ultimamente não sou grande frequentadora de salas de cinema — o que de imediato se tornou evidente era a presença imposta, incómoda, da banda sonora. E quando digo incómoda, não é de todo uma crítica. Quando um filme retrata acontecimentos extremos, de enorme tensão, aquilo que o realizador, o argumentista, o compositor quer não é sentir indiferença por parte do público, é incomodá-lo, arrastá-lo para o pântano emocional daquela história, fazê-lo passar as mesmas amarguras que aqueles personagens, aterrorizá-lo, meter-lhe medo, tirá-lo da sua rotina. No entanto, somos constantemente bombardeados por emoções no nosso dia a dia, de tal forma que quase nos tornamos indiferentes, cada vez mais difíceis de perturbar, tornando a tarefa dos criativos, criadores cada vez mais difícil.


A banda sonora, nos filmes, sempre serviu para reforçar o tom emocional pretendido, gerir as emoções da narrativa cinematográfica. Um clímax nunca será um clímax «a seco», sem som; uma perseguição, o medo do perseguido, nunca chegará a medo sem a ambiência criada pela banda sonora (mais não seja, na gestão dos silêncios).


O que surpreende nesta banda sonora é que ela não aparece aqui e ali. Ela está sempre (serão, no total, um par de minutos, os momentos do filme em que a banda sonora desaparece). É uma presença tão esmagadora que não é apenas uma banda sonora, é uma personagem em si. E num filme com vários personagens, várias histórias paralelas, onde nenhum personagem é destacado, afirmado como personagem principal, poderei declarar sem exagero que a personagem principal deste filme é, sem sombra de dúvida, a composição sonora de Zimmer. 


Não direi que sem esta banda sonora o filme nada era, mas sem esta banda sonora, nenhum espetador teria saída das salas de cinema em profunda agitação, em lágrimas, aterrorizado, estupidificado com as contradições humanas.


Ouvindo «The mole» ou «supermarine», surge um quase apelo suicida, um desespero que, apanhando o ouvindo desatento, o fará necessariamente chorar. É esta subjugação, este saber-se manipulado pela emoção, transportado para fora do Agora, ou antes, inundado no Agora por um rol de emoções/pesadelos que não pertencem ali, que tornam esta banda sonora tão especial. Claro que há um uso sonoro de certos elementos que favorecem este descontrolo emocional. Sejam sons semelhantes a metralhadoras, um tic-tac de um relógio, um pulsar de um batimento cardíaco, a precursão acelerada que nos leva a um sentimento de urgência, perigo constante, que transportam o ouvinte a um ambiente acossado, de guerra, no limite da resistência humana.


Nolan e Zimmer tiveram um casamento perfeito com Dunkirk, mas como a composição de Zimmer vive plenamente sem o filme, como a música chama por mim sem necessitar do auxílio das imagens que a inspiraram, terei de bater palmas de pé a Zimmer.

 

OST Dunkirk — The mole, Hans Zimmer

 

 OST Dunkirk — Supermarine, Hans Zimmer

 

A escola, máquina corporativa

— Mãe, odeio a escola!

 

Estas palavras, mais um rol de outras tantas de semelhante sentido, são desfiadas todas as manhãs, como uma ladainha lamurienta de alguém que se sente acossado.
Esta aversão do meu filho à escola entranhou-se de tal forma, que o rendimento escolar dele é medíocre, frustrando-o ainda mais, causando uma revolta interna que leva a vómitos matinais, choro, um desalento generalizado.
Tentando ir à génese do desconforto, que já vem de anos anteriores, percebe-se que todo o sistema, a forma como a informação lhe é transmitida, é desinteressante, pouco motivadora, levando-o à distração e consequente mau desempenho.

 

— Mãe, a escola é uma seca. Ter de estar para lá parado, sentado, quieto a olhar para o quadro e para os livros…

 

Desde o primeiro ano do ensino básico que a meta pedagógica consiste em «despejar» uma determinada quantidade de informação para o aluno absorver. Um aluno padrão talvez consiga (consegue) processar essa informação, decorá-la, interioriza-la sem questionar. Outros tantos alunos, ainda crianças em idade de se perderem em brincadeiras, têm maior dificuldade em «engolir» tal quantidade informativa, sendo que muitas vezes essa incapacidade aparece não por dificuldades cognitivas, intelectuais, mas precisamente pelo oposto. O espírito crítico, inquisitivo do meu filho, leva-o a questionar-me, constantemente, do porquê. Qual a razão dele ter de aprender de rajada tanta coisa, por que motivo tem de ir à escola, por que motivo tem de estar quieto e parado, para que serve aquilo que lhe ensinam diariamente e ele teimosamente ignora.

 

— Mãe, parece que estou na prisão. O que eu que eu fiz para ter de estar nesta prisão?

 

Este meu desabafo não se enquadra, de maneira alguma, numa crítica à classe dos professores. Olhando para o exemplo da professora do meu filho, ela tem, numa mesma sala, à sua responsabilidade, duas turmas: uma de primeiro ano e outra de segundo ano (a do meu filho). A turma de primeiro ano é, obviamente, um desafio de grande exigência para qualquer professor. A turma de segundo ano, de alunos mais velhos, não ficará à deriva, mas apenas com orientações gerais, com menor apoio personalizado. Isto acontecerá em todas as turmas de anos mistos ou com maior número de alunos. Não há espaço para a personalização de apoio às necessidades educativas dos alunos, da perceção dos seus problemas, das suas angústias. Socialmente e até dentro do sistema, o aluno que não acompanha o ritmo estipulado pelo programa é um aluno problemático, distraído, desinteressado, burro.

 

Em casa, sozinha, pergunto-me como o poderei motivar, como poderei transformar a aversão em diversão, mas é difícil quando eu própria não acredito nesta forma de ensino. Um ensino que não se apoia de forma alguma na criatividade, no espírito inquisitivo, na demonstração prática, na individualidade, unicidade do aluno.

 

— Mãe, para quê tentar se vou falhar de qualquer das maneiras? Mais vale desistir…

 

Todo o apoio para o meu filho terá de ser (e está a ser) exterior à escola porque esta não está preparada para o ajudar, não está preparada para a exceção (que nem será tão exceção assim). A exceção encrava a engrenagem do sistema, não interessa a ninguém. Neste momento a escola funciona como uma grande máquina corporativa, burocrática, uma empresa onde os nossos filhos estão empregados a tempo inteiro. Alguns, tal como nós adultos, aguentam e superam a rotina, já formatados desde pequenos para o que há de vir. Outros, questionam, estrebucham, cismam em ser crianças.


Quanto a mim, gostava de lhe poder dizer que a escola é importante, mas talvez, em prol da sua saúde mental me deva focar em lhe mostrar que existe muito mais mundo para além da escola. Que se as perguntas dele, as suas dúvidas e inquietações, não têm resposta na escola, farei de tudo para encontrar essas respostas, essa imensidão de saber, de conhecimento interessante, cá fora, do portão da escola para fora.