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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

A arte frustrada dos pequenos fascistas

 

Grandes desgraças históricas teriam sido evitadas se o mundo da arte não fosse tão elitista e seletivo.

Hitler sonhava ser pintor, considerava-se, acima de tudo um artista. A pintura era o seu refúgio, o seu sonho de vida. Se o menino não tivesse sido recusado duas vezes na academia de belas artes de Viena, talvez agora a história do século XX fosse radicalmente diferente.
Veríamos uns quadros medíocres do menino nuns quantos museus, talvez o menino com o tempo até se aprimorasse (já vi pinturas piores) e o holocausto, a guerra, seriam coisas remetidas à ficção, porque um artista feliz reprime ou transforma o facínora que por lá também habita. Todo o lado sombrio seria transportado para pinceladas melancólicas numa tela, o descontentamento diluído em tinta.

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Adolf Hitler, 1912

E, verdade seja dita, aquele estilo, aquele cabelinho lambido para o lado e o bigode (não posso categorizar porque só me surgem comparações de estilismo pubiano), estão melhor para um artista do que para um ditador.

Maldito júri da academia, malditos elitistas armados em bons...

Depois, temos o nosso pequeno exemplo nacional. O sonho do Dr. Sapo de Loiça era ser romancista. Uns quantos livros editados, sem nunca conseguir chegar à pujança de vendas do Dan Brown lusitano (nem pouco mais ou menos).

Não fossemos nós leitores tão esquisitos (até nem somos, papamos quase tudo), não fossem as editoras tão elitista, remetendo o Dr. Sapo de Loiça para edições de segunda categoria, e também nós escreveríamos uma história diferente nos anais da história do ano 2021 português.

Caros eruditos que têm o poder de decisão nas mãos, lembrem-se: mais vale um artista de meia tigela (com tantos que os há, mais um menos um), do que um aspirante a ditador.

Deixai os meninos serem escritores, pintores, escultores, pianistas, compositores, bailarinos, realizadores. A mediocridade artística será de somenos importância quando comparada com o estilhaçar de uma sociedade, a morte da empatia, a frustração transformada em fúria.

 

Coisa de brincar

Um homem matou a sua companheira à facada, quando esta tentava terminar a relação de ambos. Matou-a à frente do próprio filho menor.

Uma notícia destas remete-me ao silêncio, à reflexão e parece incompatível com o estrondo de palavras obscenas que pululavam na caixa de comentários da notícia.

Já várias vezes me repreendi pelo mau hábito de ler os comentários das notícias. É um hábito mau para a saúde mental, embora necessário para tomar o pulso à mentalidade daqueles que, mesmo sem nos apercebermos, nos rodeiam. Embora as ofensas sejam ampliadas por contas falsas e bots, as pessoas que gostam de as pronunciar existem, são as ditas pessoas de bem desta sociedade.

Naqueles comentários, vociferava-se que as mulheres de «beiças» pintadas eram isto e aquilo e deviam era pintar as «beiças» pela violência doméstica, deviam era exigir a prisão perpétua, a morte aos assassinos, deviam era defender e não criticar o adorado líder que luta por valores tão essenciais para a sociedade, ao invés de se andarem a pavonear de «beiças» pintadas por coisa nenhuma. Comentário sim, comentário não, era isto, como se aquela mulher tivesse sido assassinada por um batalhão de mulheres de lábios pintados de vermelho e não às mãos do homem que supostamente a amava.

O que aquelas pessoas não percebem é, no entanto, de uma elementaridade atroz. Enquanto mulher, não me interessa que um homem passe dez ou vinte anos numa cadeia ou que seja condenado à morte pelo assassinato de uma mulher. Olhando para os exemplos de países onde as penas são mais pesadas, isso não parece desacelerar em nada a taxa de criminalidade. Se uma maior pena não demove o criminoso, então esta discussão é simplesmente inútil.

Enquanto mulher, o que eu quero é que os homens parem de nos matar. Castigar um assassino, matá-lo, não trará de volta as mulheres que lhe morreram às mãos.

E o que fará esta epidemia da violência contra as mulheres parar? Esta violência está assente em que alicerces, qual a mentalidade que a alimenta, que a fomenta?

A «coisificação» da mulher, tratar a mulher como um objeto que se agarra ou descarta, se agride e joga fora a bel-prazer, uma mulher subserviente, sem vontade própria, propriedade do marido/companheiro, essa mentalidade ainda dominante é o alimento da violência doméstica.

Quando um político, alguém com visibilidade suficiente para ter impacto nas massas que o seguem, se refere a uma mulher como «coisa de brincar», porque os seus lábios ostentam um batom vermelho, isso demonstra os valores que esse mesmo político defende. De nada vale apregoar a pena de morte para os assassinos de mulheres, a castração para os violadores, se por detrás desses pregões esse mesmo político dissemina valores que fomentam a «coisificação» da mulher, dissemina o machismo, a misoginia.

E quem o ouve, quem o segue cegamente, não se coíbe de apregoar esses mesmos valores degenerados - apelidar lábios de beiças, a já habitual retórica de chamar de puta a qualquer mulher que se emancipe, que seja uma figura com voz ativa, que não tenha medo de falar e pensar por si, tantas palavras envenenadas de ódio às mulheres

Não me interessa a morte de um assassino ou o seu apodrecimento numa prisão. Interessa-me o fim das mortes, o fim da violência, o fim de uma mentalidade tóxica e mortífera para as mulheres.

Menos do que isso, não chega!

Menino malcomportado

Não haverá nada de pior do que nos vermos refletidos, nos nossos piores aspetos, nos outros. E essa reflecção poderá ser física ou comportamental, ideológica ou anatómica.

Imaginem sentir repulsa por alguém que se nos apresenta à frente para, logo a seguir, num arrepio que nos percorre a espinha, perceber que aquilo que nos repulsa, também o temos em nós e automaticamente repulsará os outros. 

Os meus olhos são o meu calcanhar de Aquiles. Nasci com miopia acentuada. Nos meus primeiros anos, eram os óculos «fundo de garrafa» que me perturbavam. Pensava que, quando me pudesse ver livre dos óculos, seria o paraíso na terra. Automaticamente, viraria uma ninfa.

Aos doze anos esse dia chegou. Os óculos ficaram para trás, relegados para o conforto do lar, longe da vista do resto do mundo. Acho que só nessa altura percebi que o meu olho direito era praticamente cego, ambliope. Passei a usar uma lente de contacto no olho bom, o olho esquerdo, que ainda assim tem 9 dioptrias de miopia. A verdade é que, como nunca tinha visto melhor do que aquilo, nunca tinha dado muita importância ao problema em si, mas mais ao aspeto estético do uso dos óculos.

A euforia de não usar óculos fez-me esquecer por uns tempos aquele que veio a tornar-se o elemento perturbador da minha cara - o estrabismo do meu olho quase cego.

O meu olho cego divaga, conduz-se segundo a sua própria vontade, parte das vezes recusa-se a seguir o seu amigo. Quer ser independente, viver por si próprio. É cheio de manias e de astúcia. O oftalmologista reencaminhou-me para um optometrista há uns anos. Semanas de sessões quase diárias para observar o comportamento do menino, para perceber se a sua teimosia errática era operável ou não. Pois o que faz o menino quando o observam? Comporta-se impecavelmente.

O meu estrabismo não era suficientemente consistente para ser operável. Tinha dias em que estava mais estrábica, outros em que me apresentava normal, sem desvios. O meu olho destrambelhado exigia que o aturasse tal como ele era, que o amasse assim.

Dessa fase, passei para uma fase em que tomei medidas para domar o menino malcomportado. Sei onde me devo sentar se quero falar com alguém, sei que exercícios fazer para lhe exigir obediência quando ele acorda mais mal disposto.

E embora hoje em dia consiga brincar com o meu problema, há sempre situações que me confrontam com a estranheza ou mesmo repulsa que poderei estar a causar nos outros. Situações que me relembram, que não deixam o menino malcomportado cair no esquecimento.

Quando vejo alguém com estrabismo, sinto estranheza, dificuldade em olhar naturalmente essa pessoa, mesmo sabendo que com toda a certeza já fiz alguém sentir-se exactamente assim – desconfortável.

E por vezes não é sequer necessário ser confrontada com o estrabismo alheio. Alguém fará questão de me lembrar as minhas fraquezas. E ainda bem. No fim das contas, eu sou quem sou, comporto-me como me comporto, penso como penso, porque, para além de tudo o resto, sou também estrábica, domadora de um olho cismado e opinioso, mãe de um menino malcomportado.

Whats my drug of choice?

Em adolescente ouvia esta música e vibrava sem perceber o seu essencial sentido. A tormenta da voz chegava, mesmo sem o entendimento da tormenta da letra.

Alice in Chains - Junkhead (Dirt - 1992)

Estudei num meio artístico, de à vontade em experimentar coisas diferentes, mas a minha educação ou tão simplesmente a minha personalidade desajustada do meio onde estava inserida, tornara-me rígida, muito utópica na maneira de fruir as coisas. Lembro-me de dizer a um colega de faculdade que viver, amar, deveria ser experiência narcótica suficiente, que a vida tinha mecanismos para nos levar ao êxtase sem necessidade de adicionar qualquer substância extra. Esta lembrança faz-me sorrir e praguejar sozinha.

Assim, no meio de um louco, desgovernado e típico ambiente adolescente e pré-adulto, eu era uma exemplar exceção. Eu não bebia, não fumava e não fodia. Não frequentava as festas deles porque não há nada pior do que estar sóbrio no meio do delírio alcoólico ou narcótico. Honestamente, arrependo-me. Sempre fui de uma ingenuidade confrangedora.

Hoje, a caminho da meia idade, percebo que todos temos uma qualquer droga de eleição, por muito obscura e distorcida que ela possa ser. Mesmo quando a vemos com olhinhos inocentes e não a chamamos por droga e tal apelido nos afronta.

Nos tempos que correm, confinados em casa ou tentando seguir com uma rotina embrulhada em medos, onde ações básicas, de elementar necessidade, se tornam em manobras de risco dignas de um filme de ação, rimos dos memes da velhinha que pede vinho à janela num cartaz, rimos das piadas da quarentena, dos excessos cometidos para acalmar este desassossego e medo interior. Excesssos alimentares, excessos alcoólicos. O consumo de álcool tornou-se uma droga aceitável, o medicamento do apaziguamento do desconforto que ninguém criticará, tornou-se droga fashion e fotografável.

Não por estas características, mas pela minha mentalidade muito pouco transgressora, esta é a minha droga de escolha.

É como uma amarra que se solta, mas sem que nos tornemos completamente desamarrados, uma descompressão que se sente, sem que se deixe de estar sufocado. Claro está que beber será como o uso de qualquer outra droga. Os excessos levarão, inevitavelmente, a uma adição em que o prazer é substituido pela necessidade. 

Enquanto houver prazer, o mundo será, por um par de horas à noite, um sítio menos perigoso, haverá esperança, uma solução ao virar da esquina.

E entre gargalhadas, ideias malucas, mas surpreendentemente fantásticas, tomarão forma, ganharão vida e, com alguma sorte, haverá na sobriedade das restantes 22 horas, força suficiente para as colocar em prática. 

 

A distopia dos dias

Sozinha no escritório, a ouvir música, enquanto finalizo todos os procedimentos necessários para suspender por tempo indeterminado a actividade onde trabalho…

O mundo sitiado lá fora. Paredes de betão, portas de metal que não trazem o conforto de qualquer tipo de protecção. O mundo sitiado lá fora e cá dentro.

A música que ouço servira-me de mote a uma história distópica que escrevi há uns tempos. Como nunca antes, deixo a música fluir livremente, alta, quase aos berros, porque o espaço está vazio, as cadeiras da sala de espera estão vazias, a televisão (habitualmente tão adepta da Cristina) está desligada. O espaço geme pelas ausências.

A solidão e o medo que sinto neste momento são aterradores. Um medo motivado pela realidade atual, banhado em beleza pela música que já foi pano de fundo de medos literários.

Percebo o ridículo e rio-me sozinha entre papéis. Procurei sentir isto enquanto escrevia, enquanto lia: a exaltação emocional é fascinante. A fúria, o medo, a solidão, a raiva, o descontrolo, mas também a alegria, a paixão, a amizade, o amor e a obsessão. Procurei-os desde sempre. Chorava a ler, chorava a escrever. Ria e temia a ler, exaltava-me e tremia a escrever. Por momentos, aquelas realidades de papel que eu criara ou alguém o fizera para mim, acordavam dentro de mim uma sobrevivente, uma guerreira adormecida pela monotonia da rotina. A rotina que nem sempre era agradável, mas que qualquer ponto de fuga, mesmo que extremo e doloroso, servia para a ofuscar por momentos.

Mas aquela pessoa que se espreguiçava dentro de mim embrulhada em ficção não existe. Ou então existe, mas é apenas uma pequena viciada em risco controlado.

Quando a realidade se torna inverosímil, digna de uma novela distópica, o que sobra é apenas uma imensa e ridícula cobardia.

Só quero que isto acabe.

 

 

Jóhann Jóhannssonn – adeus melancólico

Faleceu a 9 de fevereiro deste ano, aos 48 anos, o compositor islandês Jóhann Jóhannssonn. E não haverá nada de mais paradoxal nesta vida do que o fim, a perenidade do corpo físico de alguém capaz de criar o intemporal, o imortal, o transcendente. O paradoxo entre a banalidade da existência humana e a unicidade de algumas das suas criações.

 

Como melancólica assumida, a morte deste compositor grita-me aos ouvidos como um último andamento de uma composição histriónica. Mas, a melancolia é também a capacidade de distanciamento, de observar em contemplação o caos, a beleza, a capacidade de sentir a vibração da vida em toda a sua potência. Assim, apesar da partida do homem, sento-me e ouço a sua criação. Sinto o eco da sua existência nas notas que se compõem em melodias que me chamam e que já foram mínimas, semínimas e colcheias escritas por aquela mão numa pauta em branco. E enquanto eu conseguir ouvir, enquanto eu sentir no corpo a vibração das suas criações, o homem não morrerá. E isso basta…

 

«The candlelight vigil», banda sonora do filme Prisoners, de Jóhann Jóhannssonn.

 

Fordlândia, de Jóhann Jóhannssonn.

 

Flight from the city, de Jóhann Jóhannssonn.

A diversão como moeda do século XXI

Há meia dúzia de dias, Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, veio dizer que os portugueses não queriam trabalhar. Há vagas de emprego por preencher, há desempregados, logo a conclusão «óbvia» para o homem é que «as pessoas não querem trabalhar». Não há direito a análise do tipo das ofertas de emprego (salário oferecido versus competências exigidas), condições laborais oferecidas pelos empregadores com dificuldade em contratar, análise dos desempregados que procuram emprego e suas ambições/competências e adequação às ofertas de vagas por preencher. Isso é análise a mais quando se pode simplesmente saltar para uma conclusão precipitada.

 

Não querendo aprofundar-me sobre este assunto, também vou na corrente e salto para uma conclusão, quiçá, precipitada: uma parte substancial dos empregadores parece acreditar, talvez embalados pela cultura dominante deste século XXI, que o emprego, em si, é uma benfeitoria que oferecem aos seus potenciais colaboradores. Ter um emprego aparece como uma regalia por si só e pedir um salário justo, adequado às competências exigidas, é uma espécie de afronta que é feita aos já muito caridosos empregadores. O «se não queres há mais quem queira» é o desenlace fatal para aqueles que ousam questionar.

 

De certa forma, caminhamos para uma espécie de escravatura dos tempos modernos. As grilhetas de hoje não são físicas, não estamos acorrentados contra a nossa vontade ou chicoteados por vis capatazes, mas somos agrilhoados pelas necessidades financeiras que se impõem sem dó nem piedade. Assim, há uma sujeição a empregos mal remunerados, a abusos laborais vários e a não sujeição a tal coisa é vista como preguiça, falta de vontade de trabalhar. 

 

Juntando a esta situação, aparece ainda a subversão de algo que nasceu com um intuito francamente positivo, mas que hoje é usado como uma espécie de eufemismo para trabalho não remunerado. O voluntariado agora é palavra usada a torto e a direito por organismos que promovem eventos que geram lucros tremendos e que, ainda assim, empregam centenas de pessoas a custo zero.

 

 

Trabalhar de graça no Rock in Rio, no Web Summit ou no próximo Festival Eurovisão da Canção 2018, a troco de «diversão e uma t-shirt», exigindo, ainda assim, aos candidatos competências várias, é uma afronta ao que  o voluntariado deveria ser. É ainda uma forma enviesada de transformar, na mente das pessoas, o trabalho e sua justa compensação, numa oferta de trabalho pelo simples gosto de trabalhar, sem necessidade acrescida de qualquer outra compensação.

 

A garantia de diversão transformou-se assim, numa espécie de moeda de pagamento do século XXI, a malga de comida do final da jornada de trabalho escravo dos tempos modernos. 

 

O patrão da Padaria Portuguesa exultava o espírito de equipa como algo mais importante do que um bom salário base. O novo voluntariado remunera os seus «voluntários» em diversão. Só é pena nem o espírito de equipa nem a diversão pagarem a conta da EDP e a renda de casa.

 

Entre estágios não remunerados ou promovidos pelo IEFP, salários desadequados à função e competências exigidas e o voluntariado degenerado, há que se trabalhar sob pena de sermos catalogados de preguiçosos e de só querermos boa vida.

«Comungar» com a natureza

Cá por casa, somos apreciadores de fazer uns passeios de fim de semana pelas belezas naturais da região. As serras que nos circundam têm muito para explorar e nunca deixam de surpreender a cada nova visita, pois cada estação do ano pinta a paisagem com diferentes cores, chegam-nos diferentes cheiros, como se cada visita fosse a primeira.

 

Neste último fim de semana, que para nós foi prolongado, aproveitamos o bom tempo de segunda-feira para ir explorar a Serra de S. Macário. Pertencente ao concelho de S. Pedro do Sul, esta serra é de uma enorme beleza natural, pelas suas características geológicas, pelas pequenas aldeias perdidas na serra, vazias ou na eminência disso.

 

Mas neste post não pretendo falar do passeio à serra. Amanhã logo aqui colocarei algumas fotografias em jeito de reportagem do passeio. Neste post, pretendo apenas referir o pequeno incidente de comunhão com a natureza. 

 

Parámos a caminho da topo da serra para apreciar as vistas. Há já um bom bocado que não nos cruzávamos com nenhum outro carro. A serra parecia só nossa. Já estávamos longe das últimas povoações antes da subida e não se via vivalma, não se ouvia qualquer barulho, a não ser o frenesim de alguns pássaros e as nossas conversas de família.

 

Comecei a ficar com uma vontade extrema de urinar. Parece que, quando temos a perceção que não há nenhuma casa de banho próxima, a situação ainda se agudiza mais. É uma mistura explosiva entre a necessidade física e a pressão psicológica. 

 

O meu marido logo me incentivou a urinar atrás de uns arbustos rasteiros na beira da estrada. Não havia mal nenhum, era só um xixi, e além disso não se via ninguém que pudesse assistir à minha triste figura de «comunhão com a natureza». Não sou grande amante de urinar na natureza. Nesse setor, sou uma perfeita comodista. Mas quando a vontade aperta e por perto não há salvação possível, lá tem de ser.

 

Baixei-me atrás do arbusto, mas muito mal camuflada, pois a vegetação era rasteira, e lá comecei a aliviar-me. 

 

Pois... bastaram umas quantas pinguitas, para logo começar a ouvir um carro em aproximação. Para ali fiquei, de cócoras, de calças baixas, a rir que nem uma perdida, entre a vergonha e o meu sentido de oportunidade (ou falta dele) que me causava gargalhadas. Era um carro cheio de gente, com cinco passageiros, todos eles testemunhas da minha comunhão com a natureza. E logo ali, de enfiada, depois de mais de meia hora sem um único veículo à vista, passaram mais dois ou três carros. 

 

À memória veio de imediato este sketch da série belga «E se?». Não encontrei com legendas, mas dá para perceber. Quando estamos de calças na mão, não faltam espectadores para a nossa «desgraça». :)

 

 

 

Piolhos psicológicos

A palavra piolho tem um estranho efeito psicossomático em que a ouve ou a lê. Umas quantas letrinhas, uma singela palavra, que inevitavelmente me levam as mãos à cabeça, a coçar freneticamente, numa tentativa de aplacar a comichão que por ali se instalou, mal a palavra foi ouvida ou as letras que a compõem lidas.

 

O meu filho, no início da semana, trazia um aviso escrito na caderneta escolar, que pedia aos educadores para verificarem as cabeças dos seus educandos. O efeito perverso do aviso é que a palavra piolho nem sequer por lá estava escrita, mas a presença dos bichinhos na cabeça de alguma criança da turma estava implícita. Mal li o aviso, comecei a coçar-me de imediato. Depois de verificar a cabeça do meu miúdo e perceber que por lá não andavam moradores indesejados, mesmo assim a minha comichão não desapareceu. Entretanto, já pus o meu marido à procura dos meus piolhos imaginários e nem o facto dele não ter caçado ou sequer detectado nem um pequenino, nem um desgraçado de um pequeno bebé piolho, me sossegou. Neste momento, sofro de piolhos psicológicos e não desejo desagradável maleita a ninguém.

 

 

menino com piolho.jpg

Imagem retirada daqui.

 

Nota: depois de uma longa ausência, os piolhos foram o mote do regresso ao meu blog. A comichão sempre serviu para alguma coisa. Desinquietar, destabilizar, meter a engrenagem a funcionar novamente. 

 

HHhH - Laurent Binet

O que aconteceu no passado, por lá ficou, calcinado, fossilizando na cadência do passar dos dias, das estações, dos anos, à espera que algum explorador, com meticulosas escavações arqueológicas, o traga novamente à luz do presente.


Mas nem sempre o passado adormece como uma criança despreocupada. Por vezes, estrebucha, luta na sua queda irremediável, lançando linhas de vida para o futuro. O seu aniquilamento, apesar de ser, em si, um fim, um ponto final, ecoará pelos tempos vindouros.


Lendo HHhH, quando estava a poucas páginas do final do livro, durante dias não consegui retomar a leitura que me levaria ao seu fim. O livro olhava-me da mesa de cabeceira e eu esquivava-me à sua interpelação. Eu sabia o que aquelas páginas retinham, a história que contavam, pois o livro fala de um episódio verídico, de pessoas reais, de momentos marcantes da nossa história recente que tiveram repercussões no nosso Agora.


Eu sabia, mas eu não queria ler, não queria ver a realidade ali escarrapachada. Certo dia, de livro na mão, como que desejei que a nossa história tivesse camadas de universos paralelos e que, ao virar da página, os dois paraquedistas checoslovacos, Cabčik e Kubiš, que em 1942 foram enviados em missão a Praga para matarem Heydrich, a besta loura, carniceiro do III Reich nazi, inventor da «solução final», conseguissem despachar o «carrasco de Praga», saindo incólumes, vivos e de saúde, sobrevivendo para nos contar pessoalmente os detalhes de tão arriscada operação.


Mas não foi isso que aconteceu. E se é certo que a nossa história está repleta de heróis que caíram de pé, alguns acabaram engolidos pelo esquecimento da rotina do tempo. Não esquecemos os vilões, os psicopatas, mas facilmente olvidamos os íntegros, aqueles que nos deram um presente.


O livro de Laurent Binet, HHhH (o cérebro de Himmler chama-se Heidrich), é uma espécie de homenagem aos heróis da operação Antropóide, que tinham como missão assassinar Reinhard Heydrich, figura proeminente nazi, considerado o homem mais perigoso do III Reich.


Numa escrita bastante original, o livro de Binet é também um ensaio sobre a literatura, sobre a abordagem literária aos factos históricos. Com a minha leitura terminada, o que sinto é que não foi um romance aquilo que li, mas sim algo híbrido entre a escrita literária, o ensaio sobre literatura, o diário de um autor atormentado e o relato histórico. As dúvidas do autor sobre como deve abordar as personagens, que na realidade não são personagens, mas pessoas reais, são explanadas durante o livro e o que chega ao leitor é esta vontade de não defraudar a memória daqueles que pereceram, contar a sua história sem falsificar a sua existência. Mas como passar ao leitor os medos, anseios, palavras ditas, frustrações sentidas por aqueles que já cá não estão para validar a veracidade de tais informações?!


Entre as batalhas pessoais do autor, as suas dúvidas e o anseio de uma homenagem à altura da importância das pessoas em questão, acho que conseguiu criar uma obra literária de valor, original, porque, acima de tudo, não é apenas um objeto literário, transborda em larga medida esse conceito.


Como apontamento final, ponto de resolução deste texto, deixo apenas umas quantas palavras que são um apanhado não só do livro, mas de cada minuto da nossa história e, assim, também da minha existência:


É surpreendente como o ser humano é capaz das coisas mais horrendas, dos atos mais inqualificáveis, de uma total ausência de empatia pelo próximo e, simultaneamente, dos atos de altruísmo mais inimagináveis, de resistir à tortura guardando em si a honra, a luta pelos valores irrevogáveis que o sustentam. A nossa história é isto, este puxar de corda entre uns e outros, entre seres monstruosos e seres de qualidades superiores, entre o prazer da dor infligida e o suportar estoico da dor sentida. Para os restantes de nós, resta o esquecimento, a rotina das horas que passam e se esgotam.

 

HHhH.jpg

HHhH, Laurent Binet, Sextante Editora.

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