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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Vou para não ficar (excerto VII)

14 de outubro
 
A água escorreu gargalo fora do garrafão de plástico, fluindo pelo alcatrão, indo ensopar-se na terra exposta, onde o lancil do passeio e calçada portuguesa tinham sido arrancados. Não há dia que não pense naqueles olhos que me fitaram por meia dúzia de segundos, do outro lado da estrada, antes do corpo, impulsionado por uma bala perdida que trespassou as costas, ter caído para a frente, de bruços. Era apenas uma criança. Aquele olhar castanho carregado de esperança e determinação, tudo coisas já perdidas para mim, palavras com um significado abstrato, arde dentro de mim e pela primeira vez desejei morrer só para poder esquecer, porque sei que por mais anos que viva, aquela será a primeira e última imagem que verei ao acordar e deitar. Uma criança de bruços, rosto colado ao chão, com as mãos a tocarem ao de leve num garrafão que se esvazia e eu, na minha passividade provocada pelo choque, observo do outro lado da estrada, gravo de forma definitiva, inapagável, cada detalhe, cada som, cada cheiro daqueles minutos para todo o sempre dentro de mim. 

Quando esquecer e morrer são os sonhos que impulsionam uma vida, algo de muito errado se passa neste mundo. 
 

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