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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Vou para não ficar (excerto IV)

Lembro-me perfeitamente dela. Enquanto corro atabalhoadamente por entre as árvores, mal vejo onde ponho os pés. Nos locais onde a erva ainda está molhada devido ao orvalho noturno, o solo parece manteiga e nem consigo perceber como, das duas vezes em que escorrego, acabo por me equilibrar e não cair. 

 

Ouço a minha respiração rápida, um grunhido descompassado que facilmente se destaca do ambiente praticamente estático da floresta. Corro e não sei se é devido ao som da minha própria respiração, aquele som que terrivelmente se assemelha ao arfar de uma fera acossada que foge do seu predador, começo a sentir medo. Até àquela altura, talvez devido à adrenalina, o desconforto do medo ainda não me tinha tocado. O medo, para além de desconfortável, desconcentra. A minha cabeça enche-se de imagens e corro por correr, conduzido por uma qualquer capacidade inconsciente, automática, pois não vejo o caminho, não tomo decisões.

 

Lanço um olhar para trás, sem parar de correr. Aquela figura de contornos claros em fundo castanho esverdeado desperta em mim, por segundos, uma pontada de erotismo. Não paro de correr e volto a olhar para a frente. Tronco caído, desvio-me. Umas quantas pinhas espalhadas, dou um salto. Durante esta prova de perícia, entre movimentos instintivos, ocorre-me o quão estranho é este aperto de peito que sinto. Medo embrulhado num fino papel de luxúria.

 

Lembro-me dela como se tivesse sido ontem. Ela não foi a única, mas, talvez por ter sido a primeira, ficou-me na mente. Recordo cada detalhe daquele dia. Um intenso odor a pólvora que se impregnara em mim, um zumbido constante de gritos e lamúrias, os guinchos agudos da mãe dela, a euforia, aquela doce sensação de invencibilidade, de se ser um pequeno e poderoso deus, o olhar de desafio do irmão, as minhas mãos enterradas na massa de cabelo dela, as coxas peganhentas e quentes… Não o recordo como uma memória pessoal, mas como se recordasse detalhes de uma vida alheia. Não que estes rasgos de psicologia barata me inocentem do que fiz. Eu sei o que fiz. Mesmo que agora, em retrospetiva, me pareçam atos de um louco, fui eu. Eu, que ia para a faculdade. Eu, que jogava futebol aos sábados à tarde. Eu, que ia acampar com os amigos nos festivais de música de verão. Eu, que adorava os almoços de domingo em família. Eu, o mesmo eu que agora corre, o mesmo eu daquela tarde que agora recordo em imagens gráficas. Eu.

 

Ouço um estrondo percorrer as árvores e ainda os pássaros não se puseram todos em debandada devido ao impacto sonoro, já aquele barulho tem uma repercussão dolorosa na minha coxa esquerda. Um tronco podre deitado no chão torna-se o acorde final desta minha fuga. Tropeço e caio de barriga para baixo. O cheiro da terra húmida faz-me fechar os olhos, pensar novamente nela. Ouço o ruído de folhagem e sei que cada feto afastado, cada caruma pisada, anuncia a sua chegada iminente. Sei que sou mais forte do que ela. Mesmo com uma bala numa perna. Ela está armada, mas mesmo assim poderia tentar subjugá-la. Sinto-a a poucos metros de mim, mas não movo um músculo. Não sei porquê. Limito-me a pensar nela. Cabelo castanho, medo nos olhos, cheiro a sabão, corpo quente.

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)