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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Vou para não ficar (excerto II)

As mãos de Salvador, amornadas pelo sono, apertaram as de Alexander para o serenar. Não precisavam de falar. Aquele gesto simples, duas mãos que cingiam outras duas, fez desvanecer o cenário noturno de agressão e medo que povoara a cabeça do sargento e apenas a sensação morna de ser amparado subsistia. Aproximaram-se, sentindo a respiração um do outro. E num impulso simultâneo, beijaram-se. Primeiro devagar, num leve roçar de lábios, como se a escuridão pudesse dissimular a ação. Depois de forma sôfrega, urgente. Tatearam o rosto um do outro, sem que os lábios se distanciassem. Nariz, sobrancelhas, orelhas, olhos fechados. Tocaram o corpo um do outro. Pescoço, costas, peito, braços. Se o beijo que os unia era impaciente, a rasar a violência, a forma como se tocavam era suave, amedrontada pelo desconhecido, num contraste rítmico com o beijar acelerado. Pontas dos dedos que perscrutavam pequenos pedaços do corpo do outro.

Sentados na cama, de olhos fechados, dominados pelo ribombar cardíaco que os ensurdecia, que os agitava ao extremo da dor física, a vida, o querer alguma coisa, poder-se-ia resumir apenas àquilo. Lábios nos lábios, língua dentro da boca do outro, dedos a acariciarem um pescoço, a memorizarem a fisionomia de um nariz, um toque na nuca que faz estremecer, uma palma da mão pousada no peito que arranca um gemido ténue entre beijos, um suspiro causado por uma mão que afaga um rosto.

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