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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Vou para não ficar (excerto)

Alexander sentiu-se sumir por dentro. Estava ali, presente, e em todas as interpelações conseguiu articular respostas racionais, embora evasivas, mas o seu interior evaporava, exalando-se pelos poros, pelas expirações, pelos olhares vertiginosos que dedicava a cada canto e recanto dos espaços envolventes. Um homem que se diluía perante uma assistência desinteressada. Um homem que se transformava num recipiente oco. De metralhadora nas mãos, quando se preparava para a devolver ao depósito de armas, ouviu o som cavo, o eco grave do seu próprio corpo vazio. Podia, como um louco, descarregar a arma de forma aleatória naquelas pessoas que falavam, riam, relaxavam depois de um dia de trabalho. Provocar uma profusa matança, criar novos ecos, encher-se novamente, mostrar da forma mais dramática o significado da palavra morte àqueles que a usavam como artifício humorístico. Podia. Na imagem da arma, no toque da coronha e do cano entre mãos, conseguia antecipar a efervescência do momento, a vertigem sonora dos disparos. Podia. Todas as suas ações deslocadas seriam desculpa posterior daquele comportamento, mas também aviso prévio ignorado. Todavia, o seu corpo oco reagiu de forma automática como um sonâmbulo que sabe o caminho, conhece os detalhes arquitetónicos de uma casa às escuras. Entregou a arma no depósito.

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira