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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Vícios

Roo as unhas. Faço-o desde pequena. Recordo brincar no jardim lá de casa, roendo as unhas distraidamente e um vizinho, perante a minha imagem de roedora compulsiva, me dizer que tinha de parar de o fazer, garantindo que quando crescesse ia querer ter as unhas grandes para poder pintá-las. De forma desafiadora, garanti que isso nunca iria acontecer. Aquele meu hábito não se afigurava como um problema na altura e pensar a longo prazo, numa idade adulta ainda tão longínqua, era tarefa impossível.

 

A minha mãe experimentou técnicas que terminassem com o meu mau hábito, comprou vernizes que sabiam mal para me desincentivar à roedura. O sabor amargo do verniz deveria impedir-me de continuar a repetir a façanha, mas não o fez, até porque grande parte da destruição das minhas unhas não é feita pelos dentes. Uso as unhas para destruir unhas e só, em desespero, uso a dentição para ajudar à festa.

 

Chegou a adolescência e o vaticínio do vizinho começava a concretizar-se. As unhas desfiguradas nos meus dedos davam-me vergonha. Queria poder tê-las maiores, arranjá-las, pintá-las como a maioria das raparigas fazia.

 

Agora, adulta, consigo impor a minha vontade, mas só em pequenos períodos de tempo. Permito-me estar um par de meses sem roer as unhas, deixá-las crescer, pintá-las. Normalmente, no verão, a minha vaidade vence o vício e consigo ter as unhas com um aspeto apresentável. Mas é uma batalha diária, um constante contrariar de uma vontade primitiva de rasgar a unha, fazer sangrar a pele. Basta uma unha lascar um pouco para que um qualquer impulso interior me incite à destruição das restantes.

 

Há um certo consolo masoquista na dor de uma unha roída até ao sabugo. Aquela dor cortante, pequenas agulhas que parecem rasgar o dedo por dentro, acompanhada de um latejar que se torna o centro das atenções — dói, incomoda, mas é uma espécie de prova de vida. Uma dor que apazigua, um pequeno sofrimento físico que amaina uma qualquer ânsia que necessita de ser acalmada.

 

Pergunto-me se consigo trocar este pequeno prazer doloroso por uma contínua ânsia e por uma constante oposição a uma vontade interior intrínseca. Acho que não.

 

E o vício é isto. A cedência em troca de um prazer, mesmo que este seja considerado ilícito, incompreendido.

 

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