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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

The way the world goes round

Pela Europa cresce o medo fomentado por ataques terroristas dispersos. O medo procura um rosto que possa acusar, a que se posso aferroar com unhas e dentes. E facilmente o encontra. Mesmo os que se dizem vestidos pela capa da moral, da tolerância, sentem a doce tentação da generalização, da simplificação daquilo que é tremendamente complicado. Se foi engendrado por nós, humanos, tinha mesmo de o ser — complicado.

 

No entanto, temos de nos agarrar com força às evidências: a falta de empatia pelo próximo, a barbárie, a capacidade geradora de violência, não são coisas exclusivas de crentes de uma ou outra religião. O que de mais medíocre existe no ser humano, mesquinho, rude, é transversal aos crentes de todas as religiões, às pessoas de todas as raças, etnias, proveniências geográficas, género e orientação sexual. No meio de nós ou em nós, dentro de nós, existem psicopatas.

 

Após o ato tresloucado de um demente em Londres, surge a memória de outros dementes, outros seres humanos danificados. Corria o ano de 2011 quando veio a público os atos grotescos levado a cabo por soldados norte-americanos no Afeganistão. Morlock, um dos oficiais visados, resolveu «chibar-se» e denunciar os colegas envolvidos, de forma a reduzir a pena pelos atos inomináveis. E que fizeram eles, quais eram esses atos abomináveis: durante a campanha militar no Afeganistão mataram vários civis desarmados «por desporto». E estas palavras — «for sport» — foram usadas, não são minha invenção. Estes soldados escolhiam um alvo e matavam-no por desporto, usando de várias encenações e estratagemas para encobrir as motivações das mortes. Alguns chegaram a guardar partes dos corpos, incluindo um crânio, como recordação da diversão das suas práticas desportivas.

 

Diariamente, sob a cobertura da bênção de um rosto ocidental, de uma vida ocidental, de uma cultura ocidental, várias pessoas são sujeitas à tortura e morte por este mundo afora. Um psicopata não deixa de ser psicopata por ser cristão, branco e ocidental. O que urge banir não são os muçulmanos, o Islão, mas a doença que afeta alguns de nós. O que urge corrigir é a perceção errada dos atos sem consequências. Todos os atos têm consequência e os grandes atos (por grandes, falo na dimensão não na grandiosidade qualitativa) tendem a ter grandes consequências. E quando esses grandes atos são atabalhoados, desastrosos, é patético esperar deles consequências que não sejam também elas desastrosas.

 

E sem querer justificar, porque a barbárie não pode ter uma justificação, a violência elimina-se, não se justifica — o ato de um psicopata no médio-oriente, de uma coligação de psicopatas, de uma estratégia militar de psicopatas, pode ser gerador do ato de um psicopata ou grupo de psicopatas no ocidente. E se o olho por olho, dente por dente é expressão grotesca, primitiva, ela, queira-se ou não, serve como se feita à medida da ocasião.

 

E no fundo, nada disto nunca se tratou de religião, mesmo que o embrulho da prenda fosse esse. No fim, tratou-se e continuará a tratar-se, hoje e sempre, de poder e domínio que uns querem exercer sobre outros. Fora dos jogos de poder ficamos nós, tristes peões, mas nem por isso isentos de culpas.

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