Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Dunkirk — OST by Hans Zimmer

Ando sempre fora de tempo, atrasada nos meus textos sobre as novidades, as tendências, seja na música, na literatura, nas opiniões, no cinema.


Falar do filme Dunkirk em outubro, quando o mesmo saiu em julho ou agosto, é daquelas coisas que não devem interessar nem ao menino jesus. Mas apetece-me. E é quanto basta para eu escrever um texto. Na realidade, este post nem é uma crítica ou avaliação ao filme. A vontade de falar de Dunkirk nasceu da audição da banda sonora, da autoria do compositor Hans Zimmer. Confesso-me uma apreciadora das bandas sonoras de Zimmer e ainda mais daquelas em que ele teve colaboração de Lisa Gerrard, uma das minhas vozes preferidas (não é o caso deste filme). Não raras vezes ouço as bandas sonoras sem sequer conhecer o filme para o qual foram compostas.


Embora o trabalho de Zimmer seja sempre, em certo ponto, uma composição sem falhas, que «casa» bem com a imagem, nem todas as composições poderão ser chamadas de memoráveis, passíveis de serem perpetuadas na memória de quem as ouve/vê. Existem, no entanto, algumas que, mesmo passando os anos, mas mais depressa me lembro da banda sonora de Zimmer do que da história, do filme em si.


Quando fui ver Dunkirk — coisa rara, porque ultimamente não sou grande frequentadora de salas de cinema — o que de imediato se tornou evidente era a presença imposta, incómoda, da banda sonora. E quando digo incómoda, não é de todo uma crítica. Quando um filme retrata acontecimentos extremos, de enorme tensão, aquilo que o realizador, o argumentista, o compositor quer não é sentir indiferença por parte do público, é incomodá-lo, arrastá-lo para o pântano emocional daquela história, fazê-lo passar as mesmas amarguras que aqueles personagens, aterrorizá-lo, meter-lhe medo, tirá-lo da sua rotina. No entanto, somos constantemente bombardeados por emoções no nosso dia a dia, de tal forma que quase nos tornamos indiferentes, cada vez mais difíceis de perturbar, tornando a tarefa dos criativos, criadores cada vez mais difícil.


A banda sonora, nos filmes, sempre serviu para reforçar o tom emocional pretendido, gerir as emoções da narrativa cinematográfica. Um clímax nunca será um clímax «a seco», sem som; uma perseguição, o medo do perseguido, nunca chegará a medo sem a ambiência criada pela banda sonora (mais não seja, na gestão dos silêncios).


O que surpreende nesta banda sonora é que ela não aparece aqui e ali. Ela está sempre (serão, no total, um par de minutos, os momentos do filme em que a banda sonora desaparece). É uma presença tão esmagadora que não é apenas uma banda sonora, é uma personagem em si. E num filme com vários personagens, várias histórias paralelas, onde nenhum personagem é destacado, afirmado como personagem principal, poderei declarar sem exagero que a personagem principal deste filme é, sem sombra de dúvida, a composição sonora de Zimmer. 


Não direi que sem esta banda sonora o filme nada era, mas sem esta banda sonora, nenhum espetador teria saída das salas de cinema em profunda agitação, em lágrimas, aterrorizado, estupidificado com as contradições humanas.


Ouvindo «The mole» ou «supermarine», surge um quase apelo suicida, um desespero que, apanhando o ouvindo desatento, o fará necessariamente chorar. É esta subjugação, este saber-se manipulado pela emoção, transportado para fora do Agora, ou antes, inundado no Agora por um rol de emoções/pesadelos que não pertencem ali, que tornam esta banda sonora tão especial. Claro que há um uso sonoro de certos elementos que favorecem este descontrolo emocional. Sejam sons semelhantes a metralhadoras, um tic-tac de um relógio, um pulsar de um batimento cardíaco, a precursão acelerada que nos leva a um sentimento de urgência, perigo constante, que transportam o ouvinte a um ambiente acossado, de guerra, no limite da resistência humana.


Nolan e Zimmer tiveram um casamento perfeito com Dunkirk, mas como a composição de Zimmer vive plenamente sem o filme, como a música chama por mim sem necessitar do auxílio das imagens que a inspiraram, terei de bater palmas de pé a Zimmer.

 

OST Dunkirk — The mole, Hans Zimmer

 

 OST Dunkirk — Supermarine, Hans Zimmer

 

A escola, máquina corporativa

— Mãe, odeio a escola!

 

Estas palavras, mais um rol de outras tantas de semelhante sentido, são desfiadas todas as manhãs, como uma ladainha lamurienta de alguém que se sente acossado.
Esta aversão do meu filho à escola entranhou-se de tal forma, que o rendimento escolar dele é medíocre, frustrando-o ainda mais, causando uma revolta interna que leva a vómitos matinais, choro, um desalento generalizado.
Tentando ir à génese do desconforto, que já vem de anos anteriores, percebe-se que todo o sistema, a forma como a informação lhe é transmitida, é desinteressante, pouco motivadora, levando-o à distração e consequente mau desempenho.

 

— Mãe, a escola é uma seca. Ter de estar para lá parado, sentado, quieto a olhar para o quadro e para os livros…

 

Desde o primeiro ano do ensino básico que a meta pedagógica consiste em «despejar» uma determinada quantidade de informação para o aluno absorver. Um aluno padrão talvez consiga (consegue) processar essa informação, decorá-la, interioriza-la sem questionar. Outros tantos alunos, ainda crianças em idade de se perderem em brincadeiras, têm maior dificuldade em «engolir» tal quantidade informativa, sendo que muitas vezes essa incapacidade aparece não por dificuldades cognitivas, intelectuais, mas precisamente pelo oposto. O espírito crítico, inquisitivo do meu filho, leva-o a questionar-me, constantemente, do porquê. Qual a razão dele ter de aprender de rajada tanta coisa, por que motivo tem de ir à escola, por que motivo tem de estar quieto e parado, para que serve aquilo que lhe ensinam diariamente e ele teimosamente ignora.

 

— Mãe, parece que estou na prisão. O que eu que eu fiz para ter de estar nesta prisão?

 

Este meu desabafo não se enquadra, de maneira alguma, numa crítica à classe dos professores. Olhando para o exemplo da professora do meu filho, ela tem, numa mesma sala, à sua responsabilidade, duas turmas: uma de primeiro ano e outra de segundo ano (a do meu filho). A turma de primeiro ano é, obviamente, um desafio de grande exigência para qualquer professor. A turma de segundo ano, de alunos mais velhos, não ficará à deriva, mas apenas com orientações gerais, com menor apoio personalizado. Isto acontecerá em todas as turmas de anos mistos ou com maior número de alunos. Não há espaço para a personalização de apoio às necessidades educativas dos alunos, da perceção dos seus problemas, das suas angústias. Socialmente e até dentro do sistema, o aluno que não acompanha o ritmo estipulado pelo programa é um aluno problemático, distraído, desinteressado, burro.

 

Em casa, sozinha, pergunto-me como o poderei motivar, como poderei transformar a aversão em diversão, mas é difícil quando eu própria não acredito nesta forma de ensino. Um ensino que não se apoia de forma alguma na criatividade, no espírito inquisitivo, na demonstração prática, na individualidade, unicidade do aluno.

 

— Mãe, para quê tentar se vou falhar de qualquer das maneiras? Mais vale desistir…

 

Todo o apoio para o meu filho terá de ser (e está a ser) exterior à escola porque esta não está preparada para o ajudar, não está preparada para a exceção (que nem será tão exceção assim). A exceção encrava a engrenagem do sistema, não interessa a ninguém. Neste momento a escola funciona como uma grande máquina corporativa, burocrática, uma empresa onde os nossos filhos estão empregados a tempo inteiro. Alguns, tal como nós adultos, aguentam e superam a rotina, já formatados desde pequenos para o que há de vir. Outros, questionam, estrebucham, cismam em ser crianças.


Quanto a mim, gostava de lhe poder dizer que a escola é importante, mas talvez, em prol da sua saúde mental me deva focar em lhe mostrar que existe muito mais mundo para além da escola. Que se as perguntas dele, as suas dúvidas e inquietações, não têm resposta na escola, farei de tudo para encontrar essas respostas, essa imensidão de saber, de conhecimento interessante, cá fora, do portão da escola para fora.

A cura gay

Nesta última segunda-feira, o Brasil acolheu, com sentimentos contraditórios, a decisão judicial de um juiz que, através de uma liminar, veio considerar legal que psicólogos possam oferecer a clientes/pacientes terapias de reversão sexual. Até à data, esta prática, embora levada sub-repticiamente a cabo por alguns «especialistas» através do uso de pseudoterapias desconsideradas/censuradas pela comunidade médica, pela OMS e pelo Conselho Federal de Psicologia, era considerada ilegal podendo levar à cassação da licença por parte dos profissionais que tais práticas oferecessem aos seus pacientes.


Embora, em momento algum, o juiz que concedeu a liminar se refira à homossexualidade como uma doença, a verdade é que, de forma implícita isso é transmitido a quem lê o documento. Não é possível permitir a prática de um tratamento de cura para uma doença que não existe. Se essa cura é, pelos órgãos judiciais, considerada como válida, percebe-se nas entrelinhas que uma cura tem de ter na origem uma doença. A justificação usada pelo juiz apoia-se da liberdade de escolha (um pouco como: se alguém procura uma cura e alguém a oferece, não deve vir mal ao mundo por isso) ou ainda na questão científica (a proibição das terapias de certa forma, condiciona a liberdade científica nessa área).

 

Como referi, embora o juiz não considere inequivocamente a homossexualidade uma patologia, na sua liminar o juiz, contraditoriamente, determina:

  […] que o órgão [OMS] altere a interpretação de suas normas de forma a não impedir os profissionais "de promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada, pertinente à (re)orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena liberdade científica acerca da matéria, sem qualquer censura ou necessidade de licença prévia".
Juiz Waldemar de Carvalho, em El País Brasil, retirado daqui.

 

Refiro ainda que esta decisão judicial vem em consequência de uma ação movida por Rosangela Justino. Esta psicóloga e missionária, viu em 2009 a sua licença de psicóloga cassada precisamente por aplicação da chamada cura gay em pacientes e decidiu mover uma ação contra o Conselho federal de Psicologia pedindo a suspensão das regras que proibiam a aplicação de tais terapias.


" […] o movimento pró-homossexualismo tem feito alianças com conselhos de psicologia e quer implantar a ditadura gay no país". Por fim admitiu: "Tenho minha experiência religiosa que eu não nego. Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais".
Rosangela Alves Justino, em El País Brasil, retirado daqui.

 

Rosangela, que usa a psicologia e a religião como práticas paralelas e coadunáveis na sua conduta profissional, é um reflexo de um Brasil cada vez mais dominado, em todos os quadrantes que deveriam ser imparciais, pilares essenciais para um país livre, por uma cada vez mais poderosa presença religiosa, neste caso, evangélica.


Embora se possa considerar de somenos importância tal decisão, ela planta na mente de uma parte da sociedade suscetível a manipulações, a crença da doença, da prática condenável e vergonhosa e isto, por si, basta para a propagação da descriminação e, em último caso, da violência.


E se, por toda a internet surgiram brincadeiras que ridicularizavam a decisão judicial, paralelamente apareceram também pessoas e grupos que viram assim a sua descriminação, a sua caça às bruxas legitimada pelo sistema de maior importância numa sociedade: o sistema judicial.

atestado.jpg

Brincadeiras dos internautas relativamente à «cura gay». Imagem retirada daqui

 

Resta-nos sorrir da interpretação humorística (já com uns anos) da visão da cura gay, por parte da trupe da Porta dos Fundos:

 

 

 

 

Campos semeados de cartazes eleitorais

Aqui na minha rua, os últimos meses foram de obras: limpeza e pinturas de muros de proteção e pintura da sinalização no asfalto. Depois de meses (anos) em que tal obra já merecia (urgia) ser feita, pensei para mim que as eleições sempre serviam para alguma coisa. Para bem da terra, era bom era haver eleições de ano a ano, mais não fosse para que estas pequenas coisas não fossem guardadas para serem feitas dois meses antes das eleições. Era garantido que as obras andavam sempre a bom ritmo.


Mas depois lembrei-me dos cartazes. Não!! Não aguentaria tal suplício anual. É coisa normal haver cartazes eleitorais semeados por todo o lado em alturas de eleições, mas este ano, na minha santa terrinha, isto atingiu níveis endémicos. O raio dos cartazes parece que se reproduzem durante a noite, criam metáteses em locais improváveis. Se um dos partidos parece contido, apostando numa quantidade de cartazes aproximada à das eleições anteriores, outros dois partidos estão «on fire». De tanto ver as caras dos candidatos a fitarem-me a cada esquina, em cada rua, em cada beco, temo ter pesadelos com eles durante a noite. Como alívio desta tormenta visual (claramente excessiva e perturbadora da paisagem), chegam as alcunhas engraçadas que o meu filho arranjou para cada um daqueles rostos sorridentes e profissionais que nos perseguem diariamente no percurso para a escola (cara de fraldinha, cara de bebé, por exemplo).


É que se ao menos por aqui houvesse uns cartazes cómicos, estranhos, com frases deslocadas, ainda dava para uma pessoa se divertir, mas nada. Pelas minhas bandas ficaram-se pelas fotografias insípidas do costume e pelas frases feitas sem nada de memorável.


Resta-me largar umas gargalhadas com alguns dos exemplos que apanhei pela net de cartazes autárquicos deste nosso Portugal. É que há de tudo: falta de noção, erros ortográficos, piadas com os nomes das localidades que saem completamente ao lado e coisas de tão estranhas, chegam a roçar o assustador.

 

Piadas com um inexplicável teor fálico/sexual:

Autárquicas_1.jpg

Autárquicas_14.jpg

Autárquicas_17.jpg

 

Erros ortográficos grosseiros:

 

Autárquicas_2.jpg

Autárquicas_11.png

Autárquicas_18.jpg

 

Jogos de palavras parvos:

 

Autárquicas_8.jpg.png

Autarquicas_4.png

 

Cartazes em que o nome da terra ou do candidato (advertida ou inadvertidamente) atrapalha:

Autárquicas_3.jpg

Autárquicas_5.jpg

 

Autárquicas_7.jpg

Autárquicas_10.jpg.png

Autárquicas_9.png 

Autárquicas_16.jpg

 

E aqueles cartazes em que passa a sensação que o pessoal devia estar a fumar umas cenas estranhas quando achou que aquilo seria uma boa ideia. São os chamados cartazes WTF. 

 

Autárquicas_13jpg.jpg

Autárquicas_19.jpg

Dois dos muitos cartazes do «podes chamar-me Salomé». 

Autárquicas_15.jpg

???

Autárquicas_12.png.jpg

Um político que não deixa cair o estereótipo de político em saco roto. Começa a quebrar as promessas de campanha logo na campanha eleitoral. Assim dá gosto ver.

 

Autárquicas_psd_lx.jpg

Não é um cartaz, mas é uma ação de campanha. Fiquei entre o riso e o choro. :)

 

Autárquicas_6.jpg

 

Faço minhas as palavras do Olimpo. Tanto cartaz?! Chiça, porra que é demais.

Festa de aniversário

Na véspera, roí as unhas. Há meses que a minha compulsão estava controlada, mas na véspera não me contive e destruí-as todas à dentada e ao rasgão. Assim, o dia de aniversário começou com dores agudas, pontadas de dor nos dedos mutilados na véspera.


Nunca achei grande graça aos festejos de aniversário. São como uma espécie de aviso à passagem do tempo de uma vida que segue à deriva, sem obedecer às ordens e projetos do navegador. Relembrar o naufrágio em curso nunca me pareceu grande motivo de festa.


Este ano não foi diferente. O meu dia de anos passou com um certo travo depressivo, uma inação motivada por uma antecipada crise dos quarenta, uma espécie de olhar de cima, de forma indolente e impotente, para o caos generalizado em terra.


Mas não há mágoa que uns belos copos de espumante não afoguem e de dedos doridos segurando o copo cheio, último suspiro de uma garrafa já vazia, pensei, numa tirada pouco poética, ordinária, mas altamente sincera: que se foda!

 

 

 

A música, essa, é um desvaneio pouco meu, mas viciante. A velhice dá-me para isto.

Mind the gap

Foi uma longa ausência, eu sei. Uma ausência imposta e, simultaneamente, autoinfligida. Se por um lado os meus deveres maternais me deixaram pouco tempo para a blogosfera, por outro lado a questão da relevância disto, deste espaço, também me pressionou à reflexão, ao afastamento.

 

Durante estes meses de verão nos quais raramente por aqui passei estive um mês com um reduzidíssimo acesso à internet. Férias na praia sem redes sociais, sem notícias online, sem email, sem tudo aquilo que hoje em dia se tornou indispensável para qualquer ser humano «normal». Nos primeiros dias dou por mim a pegar incessantemente no telemóvel, como uma drogadita em abstinência, a deslizar o dedo e a sentir um baque por perceber que aqueles eram movimentos inúteis. A imensidão cibernética estava-me vedada. Mas na mala esperavam os passatempos antiquados, mas que teriam de servir: uma generosa pilha de livros.

 

De entre outros, li dois livros de Svetlana Alexievich — Vozes de Chernobyl e A guerra não tem rosto de mulher (escreverei amanhã um outro texto sobre estas duas obras da autora bielorussa). Se hoje falei deles neste texto de regresso, não foi por pretender dissecar o conteúdo dos mesmos, mas pelo impacto destas leituras a seco. Com o mar a murmurejar em pano de fundo, com a areia entre os dedos dos pés ou deitada na cama à noite, nunca uma leitura me pareceu tão pura, tão clarividente como as leituras destas férias. O afastamento do caos informativo, dos casos diários que geram revolta e logo caiem no esquecimento, das opiniões diversas contraditórias, os dramas políticos nacionais e internacionais, deixou em mim um tremendo espaço vazio que permitiu fluir a leitura com uma profundidade nunca antes conseguida.

 

Lia os testemunhos de mulheres que combateram na segunda guerra mundial, as atrocidades contadas na primeira pessoa, o entusiasmo em poder ajudar a nação, emoção que não raras vezes redundava em morte ou dano permanente, e esta experiencia não foi apenas uma leitura, foi uma conversa com pessoas de um passado coletivo, uma conversa de uma lucidez atroz, mas poderosa, bela. Parava, olhava o mar, e tudo à minha volta confluía para aquelas palavras encerradas no livro, um movimento cósmico, universal, em direção à clarividência daquelas linhas, daqueles testemunhos.

 

Quando regressei à civilização, quando a internet surgiu como o copo de vinho cheio frente ao bêbedo em ressaca, dei por mim a questionar-me, a dissertar sobre a experiência de abstinência informativa: a informação é preciosa. Nunca me ouvirão fazer uma apologia da ignorância (embora haja uma quase inerente felicidade a ela associada). No entanto, será que haverá um ponto em que aquilo que consumimos deixa de ser informativo e passa a ser apenas mais do mesmo, redundância constante, um encher de chouriços que em nada contribuiu para o esclarecimento, mas antes entorpece, anestesia pela repetição, torna-nos trôpegos perante a realidade?

 

O meu filho via um qualquer programa infantil na televisão e veio contar-me que os dodôs, já extintos, engoliam pedras (na goela) para ajudar à digestão. Daí nasceu este paralelismo básico, uma metáfora elementar, mas ainda assim válida: teremos nós de engolir tamanha quantidade de pedras para conseguirmos «comer», pelo meio, alguma informação de jeito? E não estará tal quantidade de pedregulhos a pesar-nos em demasia, a atrofiar a forma como passamos a fruir a informação, novas leituras, o mundo que nos rodeia num geral?

 

Talvez uns passos atrás, um ligeiro afastamento nos permita ver esta nossa realidade de agora com maior nitidez, inserida num todo e não excluída e vendida como única, pertinente, exclusiva.

 

Amanhã regressarei com Svetlana. Estes dois livros merecem mais do que uma pequena referência fugaz num post de regresso à blogosfera.

Memórias de mar e areia — apetite humano para a destruição

 

Depois de uns dias (semanas) de retiro da blogosfera, aqui estou de regresso. Neste interregno, tempo houve para uns dias de férias em família, idas à praia, leituras relaxadas com grãos de areia a invadirem as páginas de livros, gelados saboreados e outros pequenos prazeres.

 

Destes dias de praia, um momento impeliu-me de regresso à escrita. Na minha cabeça, ainda o momento estava a ser vivenciado e já o texto ganhava formas, mas esta ânsia de fazer brotar em letras as interrogações de um momento veio logo acompanhada da constatação: «Sónia, vives numa eterna lamúria, levas o tempo a queixar-te do mundo, mesmo das pequenas ninharias. Isto é um nada de importância e aqui estás tu, prontinha, para verter letras sobre este nada.»

 

Estando este texto aqui, podeis perceber que a minha auto admoestação de nada valeu. Em jeito de desculpa, digo que as minhas eternas lamúrias se devem à minha interminável fé na capacidade humana. Sabendo-nos capazes de tão belas e inacreditáveis coisas, custa-me perceber como por vezes nos perdemos em coisas tão feias, tão destrutivas.

 

De volta ao mote do texto, estava na praia, a maré baixava lentamente, aumentando o areal e deixando expostas rochas que momentos antes estavam submersas. Em família, caminhámos até aos rochedos expostos, na perspetiva de mostrar ao meu filho a diversidade de animais e plantas que por ali viviam. Pequenos caranguejos, lapas, peixinhos presos em piscinas formadas entre as rochas, minúsculas estrelas do mar, camarões. Todos estes animais tentavam prosseguir a sua vida na maré baixa, alheios aos veraneantes, mas a sua rotina, a cada mudança da maré, era abruptamente cancelada pela chegada do que parecia, ao longe, um quase ataque zombie. Uma horda de crianças e adultos corria para os rochedos de baldes, sacos de plástico e pequenas redes de forma a capturar todo o espécime vivo que por ali andasse. Os baldes e sacos iam-se enchendo de minúsculos caranguejos, de pequenos peixinhos, de camarões quase transparentes e em todos os recantos de rochas e charcos, pais ajudavam os filhos a escarafunchar qualquer pequeno recanto onde «os malandros» dos bichos se pudessem estar a esconder.

 

Eu, o meu marido e o meu filho ficámos de pé a observar aquele frenesim destrutivo. Para nós, sem utensílios de captura, a observação da natureza passou a ser feita em silêncio. Vimos uma pequena estrela do mar, mas entre nós trocamos murmúrios não fosse os zombies das redes nos darem um solavanco de forma a levar a estrelinha para o cativeiro de um balde de brincar.

 

Para a grande maioria das pessoas que estavam naquela praia e em todas as praias onde isto acontece, a captura de pequenos peixes mal nenhum trará ao mundo. E talvez o meu choque pelo comportamento algo predatório das pessoas seja realmente coisa de uma sensibilidade nada ajustada à realidade. Muitos dirão que as crianças querem ver de perto os pequenos animais marinhos e depois de umas horas imersos em água salgada num balde de praia, as próprias crianças devolverão ao mar os animais aprisionados na maré baixa. Tudo isto será porventura verdade. O tamanho dos animais não justifica a captura para fins alimentares, a captura justifica-se meramente pela curiosidade das crianças.

 

Mas será que observar não chega? O meu choque pelos peixes cativos em baldes deveu-se, essencialmente, à constatação da nossa (seres humanos) necessidade de ter, de ver em tudo uma propriedade, de achar que tudo pode ser sujeitado à nossa vontade. Uma relação de fruição, observação, enleio com o meio envolvente não parece chegar, não basta às nossas necessidades. E isso é triste. Triste é também perceber que esse sentimento de posse parece quase intrínseco, natural. Crianças de três ou quatro anos escarafunchavam nas rochas, exigindo o seu troféu marinho. Observar o animal a mover-se no seu habitat era, para aquelas pessoas, insatisfatório. A fugacidade tinha de ser trocada pela permanência, pela posse.

 

Somos capazes de ir à lua, mas temos dificuldades em controlar este nosso apetite de destruição. Somos assim...

Presságios do inferno na terra

Apesar de ser ainda manhã, a claridade da luz do sol filtrada por nuvens altas de fumo projeta sombras oblíquas fazendo crer que o crepúsculo chegou, que a luz do dia terminará em breve. A ambiência alaranjada, os trovões que soam ao longe, os fiapos de cinza que voam no ar como uma neve estival como que formam a descrição inicial de um romance de horror, uma história fantástica descrita pelos hábeis dedos de Allan Poe. A luz, as sombras deste dia, são como um prenúncio do mal que há de vir, porque a idade, as dezenas de verões vividos nesta terra, ensinaram-me que esta luz, esta claridade, é irremediavelmente um presságio, um inferno em aproximação. Não há vento forte acompanhado de calor que não degenere, não há verão que não cheire a queimado.

 

Este terror que este fim de semana chegou a todos os cantos do país, que extravasou fronteiras, que gerou comoção sem igual, é na realidade um pão nosso de cada verão para quem vive em localidades densamente florestadas. Isto que vos assusta, esta aparente novidade da morte pelas chamas, é para mim, tristemente, um sinónimo de verão. As lembranças deste medo, deste cheiro a fumo, das folhas carbonizadas de eucalipto a bailarem no ar, tudo isto me acompanha desde a infância. Recordo, ainda catraia, sair para o quintal num dia muito quente. O céu estava tão carregado de fumo, que o sol podia ser olhado de frente, sob o filtro negro e lá estava aquele disco alaranjado, como uma lua cor de laranja em plena canícula. Ao longe via-se a linha de fogo comer as árvores pela serra acima. Recordo ainda um dia em que a sirene dos bombeiros gemeu, em lamento, durante toda uma tarde. 16 bombeiros tinham perdido a vida a combater um fogo numa localidade próxima e aquele lamento sonoro foi como o choro coletivo. Aquele som das sirenes continua a gemer dentro de mim, a cada dia quente, a cada rajada de vento estival, a cada pequeno indício de fumo que me chegue ao nariz e aquele dia de há três décadas permanece vivo, viaja até à atualidade a cada novo incêndio.

 

Nada disto é novo, nada disto é culpa exclusiva de uns ou de outros, nada disto é sequer de fácil resolução. Somos dos países do sul da Europa com menor densidade florestal e, em contraste, com maior área ardida e ignições de incêndios. A questão prende-se com várias razões e só uma solução drástica poderá mudar que o verão seja sinónimo de cheiro a queimado. No entanto, mesmo a mais drástica das soluções só trará efeitos práticos visíveis a longo prazo. O meu lado realista diz-me que este inferno na terra, que me acompanha desde a infância, será coisa a que terei de me habituar e que me acompanhará até morrer e talvez com um crescendo de gravidade, dado as alterações climáticas potenciarem esta fúria do fogo.

 

Temos uma área florestal quase totalmente na mão de privados, muito parcelada, propriedade de  diversas pessoas diferentes. Recordo que os meus bisavós e avós consideravam que comprar pinhais (que por esta altura são eucaliptais) era uma forma de aplicar dinheiro e de mostrar ter-se posses. Uma herança por estas bandas inclui sempre uma bela quantidade de área florestal dividida em retalhos por zonas diferentes. Para quem herda este tipo de terrenos, é muitas vezes difícil sequer encontrar as extremas do seu próprio pinhal e os dividendos que dali pode tirar são tão escassos que não pagam sequer a limpeza do terreno. Depois, temos o forte lobby da celulose que, ao longo dos anos, transformou a diversidade florestal numa quase monocultura do eucalipto, árvore fósforo, espécie não autóctone. Por estes lados, junto ao rio, aparece também em abundância a acácia-austrália, árvore de bela floração, que pinta as margens de amarelo, mas também ela não autóctone, invasora. Em suma, não havendo qualquer ordenamento florestal, estando a floresta muito parcelada e em mãos privadas, apostando-se na monocultura e não se olhando à prevenção através da cultura de árvores «corta-fogo», e não havendo limpeza de mato, nem mesmo nas cercanias das habitações, o que temos junto às nossas casas é um barril de pólvora. Como li ontem numa rede social, viver junto a uma floresta é como ir dormir a sesta num paiol onde os trabalhadores fumam uns cigarritos e atiram as beatas para o chão.  Um verão sem catástrofe florestal é pura sorte, não é normalidade. Normal, normal, tendo em conta as características da nossa floresta, é isto. Se a este paiol se juntar as ações da natureza (trovoadas, ventos fortes), a mão criminosa e o desleixo, a explosão é inevitável, recorrente, tornando-se normalidade.

 

Quando entro em zonas densamente florestadas, quando passeio pelo meu concelho e a estrada é ladeada por eucaliptais a perder de vista, esta comunhão com a natureza deveria carregar consigo uma sensação de liberdade, mas é precisamente o inverso. A vivência nesta terra mudou significados, transmutou sentimentos básicos e a comunhão com a natureza, o cheiro das árvores, o vislumbre da mata a perder de vista, é opressiva, faz germinar o pânico, potencia o medo. E este sentido enviesado das coisas é, mais do que tudo o resto, profundamente triste.

Existencialismo primaveril

Ataques terroristas um pouco por todo o lado, manipulações informativas, jogos geopolíticos no médio-oriente, alegadas obstruções à justiça do presidente dos E.U.A., eleições no Reino Unido… Um tanto esmagador a acontecer que se transforma num nada. Um tsunami de acontecimentos que já me parece uma localidade varrida pela água, onde nada sobra, nada resta.

 

Olho para as 150 páginas que compõem a totalidade dos meus escritos para este blog e pergunto-me qual a relevância, a razão de ser destas palavras, o que acrescentaram, o que questionaram e a resposta não chega. Instala-se o vazio, a vontade esvai-se e todos os possíveis temas anotados no caderninho sabem a pouco, tudo aquilo que gostaria de dissecar parece carecer de substância. Mais vale estar quieta, não acrescentar ruído, observar e ouvir ao invés de matraquear.

 

Deixo-vos apenas dois pequenos fragmentos daquilo que ainda interessa. A natureza que não falha, alheia aos excessos humanos.

 

Andorinhas.jpg

Andorinhas a descansar no fio, preparando-se para novos voos acrobáticos.

 

Melro.jpg

Um melro fêmea a prescrutar a curiosidade dos seus observadores. No quintal, um som forte e repetitivo fez-nos imaginar que um pica-pau nos teria vindo visitar. Afinal, era apenas a senhora melra a bater com algo no muro. Supomos que fosse algum tipo de fruto, mas ainda é cedo para as nozes, fruto de casca rija que justificaria tal alarido. O que quer que fosse que ela tentava partir, arremesando contra o muro repetidamente, conseguiu. A seguir por ali ficou a refastelar-se com o seu repasto.

 

Nota: fotografais da autoria do meu marido, Pedro Neno.

Filmagens Quixotescas

A propósito da rodagem do filme «Quem matou D. Quixote» de Terry Gilliam no Convento de Cristo em Tomar e dos supostos danos causados durante as filmagens, ocorreu-me uma história que circulava quando, há uns valentes anos, trabalhava na área do cinema.

 

É certo e sabido que as aspirações de um realizador nem sempre se coadunam com o espaço «real» escolhido para a rodagem, daí muitas vezes ser preferível usar-se um cenário em estúdio a comprometer-se um espaço arquitetónico existente. Esta seleção dos espaços é uma dança a três: um realizador com imagens bem definidas na cabeça e que nem sempre mede as implicações da aplicação prática do seu projeto, a equipa de produção que sabe bem o aparato que uma rodagem envolve e todas as consequências (legais, por exemplo) de quebrar um contrato de cedência de espaço por danos causados e, por último, a instituição, empresa, particular, que cedeu o espaço sem ter, na maioria das vezes, bem consciência daquilo que está envolvido numa filmagem. Recordo, dos meus tempos cinematográficos, de haver uma completa estupefação por parte de quem alugava ou cedia espaços para filmagem, quando uma equipa lá aterrava carregada de material. Na cabeça de algumas pessoas, a filmagem envolveria uma ou duas pessoas com umas câmaras debaixo do braço e uns quantos atores. Quando o material começava a sair das carrinhas e camiões era ver os queixos caídos e os pensamentos a inundarem aquelas cabeças: «vão-me esfrangalhar o espaço com esta cangalhada toda.» Na realidade, é quase impossível tamanha quantidade de material e pessoas não implicar algum tipo de dano. Por muito cuidado que haja, é sempre «normal» alguma coisa partir, o chão ficar riscado, a pintura ressentida, algum vidro partido.

 

Mas de regresso à tal história, quando se falava em filmar em monumentos históricos, vinha sempre à baila uma história engraçada que nunca consegui aferir se era verdadeira ou apenas um daqueles mitos da profissão. Contava-se que um dos grandes realizadores da nossa praça (já falecido, mas um ícone cinematográfico) estava num palácio onde iria fazer uma filmagem, a explicar ao diretor de fotografia como queria filmar uma determinada cena. Na sala onde estava, explicava o movimento de câmara pretendido, enquanto ia andando para trás, imitando o movimento de um travelling (movimento de câmara sobre carris), até chegar a uma das paredes da divisão: a câmara vem, vem, esta parede é para sair, continuas a filmar, continuas.

 

Na altura, ríamos da tarefa que aquela equipa de produção tivera para explicar ao afamado realizador que «aquela parede» não podia sair. Na cabeça dele, a imagem perfeita não conhecia barreiras arquitetónicas, não poderia ser parada por uma parede. No mundo real, uma parede de um palácio centenário não poderia ser metida a baixo.

 

De regresso à notícia, a produtora portuguesa envolvida na rodagem do filme de Gilliam reconhece que a filmagem causou pequenos danos, que foram contabilizados. Algumas árvores foram cortadas com a devida autorização (supostamente não eram árvores autóctones e podiam ser retiradas e depois substituídas), algumas telhas foram partidas, algumas pedras foram danificadas e uma fogueira de grandes proporções foi feita com a presença dos bombeiros e devidamente autorizada em contrato.

 

Não duvido que, dentro do que foi contratado e daquilo que é o «normal» desenvolvimento de uma filmagem, a rodagem em questão tenha corrido dentro dos conformes. A questão aqui é outra: até que ponto é legitimo dar-se autorização (o organismo competente para tal) para uma filmagem desta grandeza dentro de um monumento património universal da Unesco?

 

Houve ingenuidade do organismo responsável que não compreendeu os reais meios envolvidos? Não houve ingenuidade, mas apenas displicência motivada pelo valor remuneratório generoso envolvido?

 

Um monumento destes não pode ser substituído se danos graves lhe forem infligidos e talvez a cautela devesse ser a filosofia a seguir no que à autorizações de filmagens e eventos neste tipo de espaços diz respeito. Havendo dinheiro, qualquer monumento poderá ser parcialmente replicado em estúdio. Já o original, se for gravemente danificado, só uma viagem no tempo o poderá reparar dentro das conformidades da época.

 

Covento de cirsto.jpg

Convento de Cristo em Tomar. imagem retirada daqui.