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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Memórias de mar e areia — apetite humano para a destruição

 

Depois de uns dias (semanas) de retiro da blogosfera, aqui estou de regresso. Neste interregno, tempo houve para uns dias de férias em família, idas à praia, leituras relaxadas com grãos de areia a invadirem as páginas de livros, gelados saboreados e outros pequenos prazeres.

 

Destes dias de praia, um momento impeliu-me de regresso à escrita. Na minha cabeça, ainda o momento estava a ser vivenciado e já o texto ganhava formas, mas esta ânsia de fazer brotar em letras as interrogações de um momento veio logo acompanhada da constatação: «Sónia, vives numa eterna lamúria, levas o tempo a queixar-te do mundo, mesmo das pequenas ninharias. Isto é um nada de importância e aqui estás tu, prontinha, para verter letras sobre este nada.»

 

Estando este texto aqui, podeis perceber que a minha auto admoestação de nada valeu. Em jeito de desculpa, digo que as minhas eternas lamúrias se devem à minha interminável fé na capacidade humana. Sabendo-nos capazes de tão belas e inacreditáveis coisas, custa-me perceber como por vezes nos perdemos em coisas tão feias, tão destrutivas.

 

De volta ao mote do texto, estava na praia, a maré baixava lentamente, aumentando o areal e deixando expostas rochas que momentos antes estavam submersas. Em família, caminhámos até aos rochedos expostos, na perspetiva de mostrar ao meu filho a diversidade de animais e plantas que por ali viviam. Pequenos caranguejos, lapas, peixinhos presos em piscinas formadas entre as rochas, minúsculas estrelas do mar, camarões. Todos estes animais tentavam prosseguir a sua vida na maré baixa, alheios aos veraneantes, mas a sua rotina, a cada mudança da maré, era abruptamente cancelada pela chegada do que parecia, ao longe, um quase ataque zombie. Uma horda de crianças e adultos corria para os rochedos de baldes, sacos de plástico e pequenas redes de forma a capturar todo o espécime vivo que por ali andasse. Os baldes e sacos iam-se enchendo de minúsculos caranguejos, de pequenos peixinhos, de camarões quase transparentes e em todos os recantos de rochas e charcos, pais ajudavam os filhos a escarafunchar qualquer pequeno recanto onde «os malandros» dos bichos se pudessem estar a esconder.

 

Eu, o meu marido e o meu filho ficámos de pé a observar aquele frenesim destrutivo. Para nós, sem utensílios de captura, a observação da natureza passou a ser feita em silêncio. Vimos uma pequena estrela do mar, mas entre nós trocamos murmúrios não fosse os zombies das redes nos darem um solavanco de forma a levar a estrelinha para o cativeiro de um balde de brincar.

 

Para a grande maioria das pessoas que estavam naquela praia e em todas as praias onde isto acontece, a captura de pequenos peixes mal nenhum trará ao mundo. E talvez o meu choque pelo comportamento algo predatório das pessoas seja realmente coisa de uma sensibilidade nada ajustada à realidade. Muitos dirão que as crianças querem ver de perto os pequenos animais marinhos e depois de umas horas imersos em água salgada num balde de praia, as próprias crianças devolverão ao mar os animais aprisionados na maré baixa. Tudo isto será porventura verdade. O tamanho dos animais não justifica a captura para fins alimentares, a captura justifica-se meramente pela curiosidade das crianças.

 

Mas será que observar não chega? O meu choque pelos peixes cativos em baldes deveu-se, essencialmente, à constatação da nossa (seres humanos) necessidade de ter, de ver em tudo uma propriedade, de achar que tudo pode ser sujeitado à nossa vontade. Uma relação de fruição, observação, enleio com o meio envolvente não parece chegar, não basta às nossas necessidades. E isso é triste. Triste é também perceber que esse sentimento de posse parece quase intrínseco, natural. Crianças de três ou quatro anos escarafunchavam nas rochas, exigindo o seu troféu marinho. Observar o animal a mover-se no seu habitat era, para aquelas pessoas, insatisfatório. A fugacidade tinha de ser trocada pela permanência, pela posse.

 

Somos capazes de ir à lua, mas temos dificuldades em controlar este nosso apetite de destruição. Somos assim...

Presságios do inferno na terra

Apesar de ser ainda manhã, a claridade da luz do sol filtrada por nuvens altas de fumo projeta sombras oblíquas fazendo crer que o crepúsculo chegou, que a luz do dia terminará em breve. A ambiência alaranjada, os trovões que soam ao longe, os fiapos de cinza que voam no ar como uma neve estival como que formam a descrição inicial de um romance de horror, uma história fantástica descrita pelos hábeis dedos de Allan Poe. A luz, as sombras deste dia, são como um prenúncio do mal que há de vir, porque a idade, as dezenas de verões vividos nesta terra, ensinaram-me que esta luz, esta claridade, é irremediavelmente um presságio, um inferno em aproximação. Não há vento forte acompanhado de calor que não degenere, não há verão que não cheire a queimado.

 

Este terror que este fim de semana chegou a todos os cantos do país, que extravasou fronteiras, que gerou comoção sem igual, é na realidade um pão nosso de cada verão para quem vive em localidades densamente florestadas. Isto que vos assusta, esta aparente novidade da morte pelas chamas, é para mim, tristemente, um sinónimo de verão. As lembranças deste medo, deste cheiro a fumo, das folhas carbonizadas de eucalipto a bailarem no ar, tudo isto me acompanha desde a infância. Recordo, ainda catraia, sair para o quintal num dia muito quente. O céu estava tão carregado de fumo, que o sol podia ser olhado de frente, sob o filtro negro e lá estava aquele disco alaranjado, como uma lua cor de laranja em plena canícula. Ao longe via-se a linha de fogo comer as árvores pela serra acima. Recordo ainda um dia em que a sirene dos bombeiros gemeu, em lamento, durante toda uma tarde. 16 bombeiros tinham perdido a vida a combater um fogo numa localidade próxima e aquele lamento sonoro foi como o choro coletivo. Aquele som das sirenes continua a gemer dentro de mim, a cada dia quente, a cada rajada de vento estival, a cada pequeno indício de fumo que me chegue ao nariz e aquele dia de há três décadas permanece vivo, viaja até à atualidade a cada novo incêndio.

 

Nada disto é novo, nada disto é culpa exclusiva de uns ou de outros, nada disto é sequer de fácil resolução. Somos dos países do sul da Europa com menor densidade florestal e, em contraste, com maior área ardida e ignições de incêndios. A questão prende-se com várias razões e só uma solução drástica poderá mudar que o verão seja sinónimo de cheiro a queimado. No entanto, mesmo a mais drástica das soluções só trará efeitos práticos visíveis a longo prazo. O meu lado realista diz-me que este inferno na terra, que me acompanha desde a infância, será coisa a que terei de me habituar e que me acompanhará até morrer e talvez com um crescendo de gravidade, dado as alterações climáticas potenciarem esta fúria do fogo.

 

Temos uma área florestal quase totalmente na mão de privados, muito parcelada, propriedade de  diversas pessoas diferentes. Recordo que os meus bisavós e avós consideravam que comprar pinhais (que por esta altura são eucaliptais) era uma forma de aplicar dinheiro e de mostrar ter-se posses. Uma herança por estas bandas inclui sempre uma bela quantidade de área florestal dividida em retalhos por zonas diferentes. Para quem herda este tipo de terrenos, é muitas vezes difícil sequer encontrar as extremas do seu próprio pinhal e os dividendos que dali pode tirar são tão escassos que não pagam sequer a limpeza do terreno. Depois, temos o forte lobby da celulose que, ao longo dos anos, transformou a diversidade florestal numa quase monocultura do eucalipto, árvore fósforo, espécie não autóctone. Por estes lados, junto ao rio, aparece também em abundância a acácia-austrália, árvore de bela floração, que pinta as margens de amarelo, mas também ela não autóctone, invasora. Em suma, não havendo qualquer ordenamento florestal, estando a floresta muito parcelada e em mãos privadas, apostando-se na monocultura e não se olhando à prevenção através da cultura de árvores «corta-fogo», e não havendo limpeza de mato, nem mesmo nas cercanias das habitações, o que temos junto às nossas casas é um barril de pólvora. Como li ontem numa rede social, viver junto a uma floresta é como ir dormir a sesta num paiol onde os trabalhadores fumam uns cigarritos e atiram as beatas para o chão.  Um verão sem catástrofe florestal é pura sorte, não é normalidade. Normal, normal, tendo em conta as características da nossa floresta, é isto. Se a este paiol se juntar as ações da natureza (trovoadas, ventos fortes), a mão criminosa e o desleixo, a explosão é inevitável, recorrente, tornando-se normalidade.

 

Quando entro em zonas densamente florestadas, quando passeio pelo meu concelho e a estrada é ladeada por eucaliptais a perder de vista, esta comunhão com a natureza deveria carregar consigo uma sensação de liberdade, mas é precisamente o inverso. A vivência nesta terra mudou significados, transmutou sentimentos básicos e a comunhão com a natureza, o cheiro das árvores, o vislumbre da mata a perder de vista, é opressiva, faz germinar o pânico, potencia o medo. E este sentido enviesado das coisas é, mais do que tudo o resto, profundamente triste.

Existencialismo primaveril

Ataques terroristas um pouco por todo o lado, manipulações informativas, jogos geopolíticos no médio-oriente, alegadas obstruções à justiça do presidente dos E.U.A., eleições no Reino Unido… Um tanto esmagador a acontecer que se transforma num nada. Um tsunami de acontecimentos que já me parece uma localidade varrida pela água, onde nada sobra, nada resta.

 

Olho para as 150 páginas que compõem a totalidade dos meus escritos para este blog e pergunto-me qual a relevância, a razão de ser destas palavras, o que acrescentaram, o que questionaram e a resposta não chega. Instala-se o vazio, a vontade esvai-se e todos os possíveis temas anotados no caderninho sabem a pouco, tudo aquilo que gostaria de dissecar parece carecer de substância. Mais vale estar quieta, não acrescentar ruído, observar e ouvir ao invés de matraquear.

 

Deixo-vos apenas dois pequenos fragmentos daquilo que ainda interessa. A natureza que não falha, alheia aos excessos humanos.

 

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Andorinhas a descansar no fio, preparando-se para novos voos acrobáticos.

 

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Um melro fêmea a prescrutar a curiosidade dos seus observadores. No quintal, um som forte e repetitivo fez-nos imaginar que um pica-pau nos teria vindo visitar. Afinal, era apenas a senhora melra a bater com algo no muro. Supomos que fosse algum tipo de fruto, mas ainda é cedo para as nozes, fruto de casca rija que justificaria tal alarido. O que quer que fosse que ela tentava partir, arremesando contra o muro repetidamente, conseguiu. A seguir por ali ficou a refastelar-se com o seu repasto.

 

Nota: fotografais da autoria do meu marido, Pedro Neno.

A ponte do passado

Quando se faz parte de um sítio, a paisagem envolvente torna-se ar que se respira. Não deslumbra, não espanta, está lá, é familiar, intrínseca ao espaço e aos seus habitantes.

Sentia isso com a minha terra, mas com o passar dos anos, o que era familiar passou a deslumbrar, o que era tido como adquirido, passou a causar espanto. Quanto mais conhecia do mundo, mais os pequenos detalhes do meu recanto ganhavam importância.

Vivo numa pequena localidade, Sever do Vouga, numa pequena freguesia, Pessegueiro do Vouga, que têm como cartão de visita principal uma ponte ferroviária. A minha terra não será a minha terra sem aquela ponte. É o que a caracteriza, a imagem simbólica deste local. Construída em 1913 (início da construção), por lá passaram comboios a vapor, depois automotoras, até à extinção completa da linha em 1990. Da minha infância, recordo uma única viagem que fiz na automotora. Fui com a minha tia a uma cidade próxima. De toda a viagem, da totalidade do percurso, na minha mente permaneceu apenas a passagem da composição em cima da ponte de pedra. O meu fascínio revestido de medo, a vista do rio ao fundo sob o meu olhar de 6 ou 7 anos.

 

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Primeira imagem é do arquivo de João Pereira, segunda imagem retirada de https://www.flickr.com/photos/ccdrc/5869628278/in/photostream/.

 

Na década seguinte, o troço ferroviário mergulhou na decadência. A estação, o percurso da linha e a fábrica que ficava em frente à estação, uma das maiores unidades fabris da zona há 50 anos (uma fábrica de massas alimentares que chegou a ter centenas de funcionários) e que posteriormente entrou em declínio, faliu, tornaram-se em espaços decadentes, um esgar retorcido do que tinham sido no passado. De entre os escombros da passagem do tempo, apenas a ponte brilhava entre as margens do rio Vouga, ainda bela e imponente.

Mais recentemente, a forma como a gestão destes espaços decadentes era feita mudou radicalmente. A linha do comboio foi transformada numa ecopista para caminhadas e percursos de bicicleta. Primeiro, da estação de Paradela até ao fim do concelho, na zona da Foz e, posteriormente, no sentido inverso, de Paradela até ao apeadeiro seguinte, na freguesia de Cedrim. Depois, a estação de Paradela foi recuperada das ruinas e transformada no que é hoje o Paradela Eco café, um espaço com valência de cafetaria, aluguer de bicicletas, uma pequena biblioteca e zonas para exposições e workshops.

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Primeira imagem retirada de http://os-caminhos-de-ferro.blogspot.pt/2012/03/linha-do-vouga-ramal-de-viseu-um-pouco.html, segunda imagem, fonte própria.  

 

Também a antiga fábrica, cujo o edifício acabou por ser comprado pela autarquia, foi recuperado e transformado num grande edifício com várias valências: escola profissional (com cerca de 500 alunos), incubadora de empresas (com mais de uma dezena de empresas lá sediadas) e uma clínica médica.

Todo um espaço, que décadas atrás era uma zona movimentada, de grande frenesim, renasceu dos escombros e trouxe um sopro de vida a uma localidade entristecida pela decadência que a rodeava.

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Imagens prórpias.

 

Agora, quando caminho pelo percurso onde antes passava o comboio, quando passo pelos tuneis enegrecidos pelo carvão das composições a vapor, vejo o passado a espreitar de cara lavada por entre a paisagem verdejante envolvente e quando me sento na esplanada do café da estação, consigo sentir a animação das vozes do passado transfiguradas nas conversas púberes dos estudantes da escola.

No fundo, quero apenas acreditar que Lavoisier tinha razão: nada se perde, tudo se transforma. E que essa transformação não seja feita de esquecimento, mas de renascimento e renovação.

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Imagens invernosas da ecopista. Imagens próprias.

 

 

Bichos do meu quintal — terapia da abstração

Numa tentativa de abstração da «realidade lá fora», penso na natureza e nas suas mutações cíclicas, na ingenuidade das estações sobre os atos dos homens e suas repercussões, na simplicidade de ser pássaro ou ser planta.

 

Vivo numa zona rural, junto ao rio, o que gera uma convivência, mesmo que imposta, com toda a espécie de bicho. O pavor de insetos ou repteis, que algumas pessoas têm como fobia, seria coisa difícil de gerir no local onde vivo. No meu quintal e mesmo dentro de casa, estaciona todo o tipo de animal. Aranhas (algumas com um tamanho respeitável/assustador), centopeias (bicho que cisma que dentro de casa se está melhor do que lá fora), grilos, gafanhotos, caracóis, lesmas (no inverno, são mais que as mães), libelinhas, louva-a-deus, bicho-pau, pirilampos, lagartixas (muitas, centenas), lagartos, sapos e cobras.

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Pelo ar, esvoaçam melros palradores, gaios, gralhas chatas nas suas conversas estridentes, corvos, pardais, guarda-rios e, usando os galhos das árvores da beira do rio como pouso, duas garças. Estas últimas, chegam pela manhã, fazendo um voo baixo junto à água, fazendo-se anunciar com uns quantos grasnados. Finjo que me cumprimentam e respondo-lhes às saudações matutinas.

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Um dos habituais residentes do meu quintal era um sapo imponente. Viveu por aqui durante anos até ao verão passado. Desapareceu misteriosamente depois da visita de uma longa cobra de pele exuberante. Ter-lhe-á servido de refeição? Só a visitante fugidia poderá confirmar, mas é possível.

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A exuberância da natureza nas suas diversas expressões ofusca por instantes a urgência do «caos lá fora». E só assim será possível conservar uma réstia de sanidade, coisa boa de se ter por esta altura.

 

Nota: Todas as fotografias são minhas.

A aldeia

O regresso às origens foi um choque. Mudar-me para a aldeia foi um momento revestido de uma sensação de deslocamento, de não pertencer ao local ao qual supostamente deveria pertencer.

 

Desde cedo que fui estudar para fora da minha localidade e essa é uma das razões para que toda a dinâmica de viver aqui me escape. Não sei quem é filho ou irmão de quem, desconheço as histórias que fazem parte do passado da freguesia, do concelho. As pessoas reconhecem em mim os traços fisionómicos dos meus pais, sou identificada como membro deste clube, mas sou um membro trapalhão que não conhece as regras. A intimidade entre as pessoas, o conhecimento da história pessoal de cada um que aqui vive, esta familiaridade intrínseca, acho-a intimidante e estranha. Vivi em prédios, quando morava em Lisboa, onde não conhecia sequer os meus vizinhos e havia um certo conforto em vaguear na rua sendo para os outros uma perfeita desconhecida, uma abstração entre abstrações. Apesar de já aqui viver há mais de uma década, esta sensação de não pertencer (nem aqui nem a lado nenhum) permanece latente e latejante.

 

Mas a aldeia compensou-me o regresso com algo que ignorava quando vivia na capital. A comunhão com a natureza, os pássaros, as árvores, o vagar do vento, as mudanças cromáticas promovidas pelas estações do ano, cada pequeno detalhe tornou-se importante nesta minha nova vida na aldeia. E se me sinto uma apátrida entre as pessoas do meu local de nascimento, a paisagem circundante, a garça que me cumprimenta pela manhã, os melros palradores, as gralhas nos seus diálogos insistentes, as andorinhas bailarinas, o cheiro das árvores, das flores, o som do sino a anunciar as horas, lembram-me que pertenço aqui. Posso não encontrar um lugar de pertença entre as pessoas, mas esse lugar está lá, só para mim, na natureza.

 

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 Arco-iris num dia de outono. Praia fluvia de Paradela, Sever do Vouga

 

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Pássaros a postos para iniciar uma sinfonia. pessegueiro do Vouga

 

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Capela do Linheiro, Rocas do Vouga

 

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Rocas do Vouga ao anoitecer

O circo chega à cidade

Fujo dos circos como o diabo foge da cruz. Acho as artes circenses interessantes, mas o uso de animais selvagens como fonte de atração sempre me pareceu despropositada e cruel. Mais do que ver os animais a desempenharem os seus números, aquilo que sempre me pareceu inadequado é a forma como aqueles animais são transportados e vivem o seu dia a dia. Jaulas minúsculas que não serviriam nem para acomodar um cão ou qualquer outro animal doméstico quanto mais um animal como um leão ou elefante. Ver um animal que deveria estar no seu habitat selvagem a desempenhar pequenos truques, acrobacias, não me causa qualquer júbilo ou espanto, consegue apenas causar-me uma imensa tristeza por perceber que aquele animal é um ser encarcerado, um prisioneiro obrigado a desempenhar uma performance para meu suposto bel-prazer.

 

Claro que este problema se encontra não só nos circos, mas também em zoológicos, em que os animais são expostos em pseudo-habitats reduzidos como forma de exploração comercial de um encarceramento. Há algum trabalho de conservação envolvido, mas o comércio e exploração animal ultrapassa largamente esse aspeto beneficente. Conseguimos perceber em alguns deles o stress de estarem confinados em tão pequeno espaço e de terem visitantes constantes a desorientá-los com as suas presenças.

 

O meu problema específico com o circo só o começou a ser depois do meu filho nascer. A cada cartaz colocado pela vila com a chegada do circo, ele pede veemente para irmos ver. Os amigos vão, os colegas vão, ele também quer ir. Mas a minha ética não me permite conceder-lhe este desejo. Não quero compactuar com a crueldade, com o que me parece ser uma exploração animal sem escrúpulos e sem fundamento. Até porque acho que o circo tem diversas artes performativas e acrobáticas que fariam de uma ida ao circo um espetáculo imperdível, mesmo sem a presença de animais. Por isso, qual a razão desta insistência em manter um espetáculo com características quase medievais?

 

Com a aproximação do Natal, são vários os cartazes de espetáculos de circo espalhados pelos sítios por onde passo e com eles começam as minhas manobras de fuga e distração infantil, as minhas explicações para o meu veto do circo. Em parte, ele percebe, mas não deixa de ficar triste com a minha recusa.

O bebé melro, um hóspede inesperado

Há uns dois anos atrás tivemos cá em casa um hóspede inesperado que ainda hoje recordo com grande carinho. Um pequeno bebé melro, sozinho, desprotegido. Talvez filho de uma mãe melro atropelada que descansava morta no passeio junto à minha casa, que o meu marido se sentiu impelido a enterrar na horta.

 

Esta ida à horta, este cortejo fúnebre privado permitiu intercetar os pios desesperados do bebé minúsculo. Aquele piar ainda conseguiu criar um certo desnorteamento no meu marido que, por momentos julgou que aquele animal morto que carregava tinha regressado à vida com aquele piar desconcertante. Mas procurando entre as ervas, guiado pelo som agudo, acabou por encontrar aquele pequeno pássaro. Depois de uma prospeção pelas laranjeiras da horta, não encontrou qualquer ninho de onde pudesse ter caído ou outro irmão que o tivesse acompanhado na fuga. Ficámos com ele.

 

Dei-lhe de comer e beber ao bico. Era um perfeito bebé que me acordava às 6 e pouco da manhã a piar com fome. Quando me via, escancarava o bico a exigir comida, a exigir que a sua mãe humana o atendesse nas suas necessidades.

 

Mas eis o dilema. Esta intervenção humana, esta alimentação comprada na loja, impediria aquele ser de se desenvencilhar sozinho quando, sabendo voar, o soltássemos? Algumas pessoas garantiam que sim, outras que não. Ele foi crescendo e o seu desespero por estar encerrado dentro de uma gaiola era evidente. Já voava, fazendo alguns voos curtos dentro de casa. Também o «obriguei» a começar a comer sozinho. Num mês, passara de um bebé quase sem penas, dependente, a um pássaro castanho e lustroso, que comia sozinho, esvoaçava pela casa ou saltaricava em brincadeiras curiosas.

 

Apetecia-me abrir-lhe a gaiola ou a janela de casa e deixá-lo ir. Mas seria a liberdade sinónima de morte anunciada? Não faltavam histórias de pessoas que fizeram o mesmo, deram liberdade a um pássaro que criaram, para logo o encontrarem morto passados poucos dias (à fome ou às garras de um gato caçador). Era a incerta a capacidade destes bebés criados por humanos conseguirem escapar a predadores e de se alimentarem sem ajuda.

 

Algumas pessoas conhecidas sugeriam que ficássemos com ele, numa gaiola maior, embora fosse proibido manter um pássaro daquela espécie em casa. Mas o seu cativeiro dava-me uma tristeza insuportável. Privar um ser daquilo que era a sua mais marcante característica, voar, começava a ser demais para mim.

 

Depois de alguns contactos (ICNF), consegui perceber que ele poderia ser reabilitado num centro próprio e devolvido à natureza de forma mais segura (Parque biológico de Gaia). Passaria um mês com animais da mesma espécie, num aviário de maiores dimensões, desenvolvendo as suas capacidades de voo e de alimentação. Quando voltei a contactar o parque com o número de registo, informaram-me que já o tinham soltado no parque biológico.

 

Despedir-me do meu melrinho foi uma mistura de sensações. Aquele pequeno pássaro tinha sido criado por mim nos seus primeiros dias de vida e senti-me triste por o deixar ir, mas, paradoxalmente, experimentei uma enorme felicidade por lhe poder dar a oportunidade de ser livre, independente. A oportunidade de pode ser pássaro.