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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Tribunal da Relação do Porto e as viagens no tempo gratuitas

Quando há uns tempos, fiz uma investigação bibliográfica aprofundada para a minha tese de mestrado sobre os manuais de conduta para as mulheres (1900-1950) e deparei-me, como seria de esperar, com um sem fim de livros da época de cariz extremamente machista, contra a emancipação feminina, conservadores, embrulhados na infalível proteção religiosa, exultantes na sua fúria da defesa da «moral e bons costumes». A imagem da mulher, que exigia ser preservada a ferro e fogo, era a da mulher submissa, esposa dócil, dona de casa, um exemplo de virtudes e de subjugação, um ser que não ouve, não questiona, só obedece. Linhas e linhas disto, deste discurso repetido até à exaustão por certas personalidades da época que, vendo os avanços emancipatórios no exterior, temiam que tal coisa assolasse a bela pátria lusitana.


No entanto, a minha habituação a este discurso é de o ver escrito em livros antigos, com o acordo ortográfico de 1911, numa linguagem que me remetia ao passado. Um discurso ligado a páginas amarelecidas, livros de capa dura, palavras encerradas há décadas em estantes de bibliotecas. Tudo aquilo eram reminiscências de tempos idos que não tinham como nem porquê voltar.


Quando, este fim de semana, me deparo com um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, do juiz desembargador Neto de Moura, relativo a um caso de violência doméstica, todas aquelas palavras, frase por frase, tal e qual como se estivesse a olhar para um livro com cem anos, estavam lá escarrapachadas: a violência desculpada pelo adultério, a gravidade do adultério feminino, a ofensa à honra do homem, as constantes referências à bíblia, tudo aquilo era uma viagem ao passado, uma viagem no tempo de forma gratuita.


Julgava eu que a distopia era opção literária, afinal também é recurso judicial. Admirável mundo novo com cheiro insuportável a mofo…

Tribunal porto.jpg

Excerto do acordão de 11/10/2017, do Tribunal da Relação do Porto, escrito pelo Juiz Desembargador Neto de Moura e assinado também pela Juiza Maria Luísa Abrantes. O acordão pode ser consultado na sua totalidade aqui

De salientar que é possível encontrar argumentação semelhante usada pelo Juiz Neto de Moura noutros acordãos redigidos por ele.

Feminismos

Já há uns tempos que queria escrever um texto sobre o feminismo, embora já várias vezes tenha-me focado no tema, direta ou indiretamente, noutros posts. Decidi que seria hoje devido a um texto que li ontem.

 

Pegando na definição da palavra feminismo — Movimento ideológico que preconiza a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem (dicionário Priberam) — parece-me lógico que qualquer pessoa na nossa sociedade ocidental, seja homem ou mulher, se possa considerar feminista. Aquilo que está em causa é a igualdade de direitos entre homens e mulheres, direitos e deveres semelhantes em todas as áreas. No entanto, o termo feminismo parece ter ganhado (talvez mesmo desde o início da sua aplicação) uma conotação pejorativa, ligada a um certo extremismo de palavras e ações, o que em nada favorece aquilo que deveria ser a verdadeira luta feminista.

 

Ora bem, ontem lia um texto de um amigo que alertava para um outro texto numa plataforma de divulgação feminista (capazes.pt). Esta plataforma é conhecida pela divulgação de informação de carácter feminista, mas lá pelo meio, volta e não volta, aparecem uns textos que, ao invés de promoverem aquilo que o feminismo realmente é, optam pela via dos extremos, a via da superiorização feminina. É de salientar que esta proclamação da superioridade feminina não se encaixa no conceito de feminismo. Para essa superiorização nasceu uma nova palavra há uns anos — femismo — que entra em oposição ao machismo (superiorização masculina).

 

Assim, no texto de Suellen Menezes «Feminismo é outra palavra para justiça», a autora refere a necessidade de suspensão, através da via democrática, do poder de voto do homem branco, sendo essa a única maneira de trazer, em poucos anos, a tão ansiada igualdade de géneros. Numa visão distópica, a autora encontra na proibição, numa conceção algo fascista, eugénica, a forma de chegar a um equilíbrio social entre homens e mulheres.

 

O voto dos homens brancos reforça o sistema que confere todos os privilégios aos homens brancos. Quem se surpreende que isso aconteça? E quem considera isso “justo”?

A suspensão temporária do poder do voto dos homens brancos é a única chance de produzir uma real alteração no mundo no espaço de apenas uma geração.

Excerto do texto «feminismo é outra palavra para justiça» de Suellen Menezes, retirado do site capazes.pt.

 

Não referindo sequer a grave falha argumentativa (se são os homens brancos que «mandam nisto tudo», como raio conseguiriam as mulheres impor de forma democrática um sistema eleitoral que os excluísse?!), o texto, tido e proclamado como feminista, é em tudo perigoso para o próprio movimento feminista. Não é isto que eu quero, enquanto feminista, que achem que eu defendo. Nunca uma sociedade igualitária poderia nascer de a desigualdade social de se expressar opiniões (através do voto, por exemplo), nunca a equidade poderá brotar do rebaixamento, da submissão de um género a outro. Se, pela frente, ainda estarão anos de batalha por uma sociedade justa para ambos os sexos, que essa batalha seja sempre feita com dignidade, em moldes racionais, democráticos e que nunca nos passe pela cabeça fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós.

 

Como em todos os movimentos ideológicos existem excessos, extremismos que prejudicam o conceito base ideológico (não faltam exemplos, mesmo cá em Portugal, de manifestações extremistas que apenas serviram para ridicularizar o movimento e o conceito de feminismo).

 

Neste caso, dentro do próprio movimento, as próprias mulheres têm de se distanciar deste tipo de fundamentalismos, de uma certa misandria manifestada por algumas mulheres, excluir o que não dignifica, mas ridiculariza, mostrar que há uma clara diferença entre feminismo e femismo.

Rythm 0

Como já por aqui referi antes, uma das questões que mais interesse me desperta é a da natureza boa/má do ser humano. Obviamente, esta visão maniqueísta, esta divisão entre bom e mau, é tremendamente redutora e aquilo que somos, o nosso relacionamento com os nossos semelhantes, com a natureza, não pode ser categorizado apenas por estes dois polos extremados: bom e mau. Mas a questão é: somos, de forma primitiva, intrinsecamente propensos à violência, ao egoísmo, à subjugação do outro através do poder, ou esses traços vieram como uma assimilação cultural, danos colaterais da nossa evolução em sociedade?

 

Sobre isto, sobre a preponderância para o mal, muito poderá ser dito e algumas coisas fora do âmbito da natureza intrínseca, mas ligadas à anatomia, à morfologia do cérebro: certas alterações neurológicas podem levar a uma maior impulsividade, agressividade e falta de empatia, por exemplo. É possível, na prática, intervir cirurgicamente e tentar, com isso, modelar comportamentos. Mas no que diz respeito a este assunto, escreverei num outro post, pois também é tema que me deixa intrigada e com dúvidas de ordem ética.

 

De regresso à nossa natureza, dei de caras há umas semanas com um vídeo da artista Marina Abramović (The Artist is Present) e recordei uma das suas mais famosas performances, que ainda hoje, passados mais de 40 anos, permanece como uma das apresentações mais emblemáticas de Marina. Corria o ano de 1974 e a artista apresentou em Nápoles a performance Rythm 0. Numa mesa estavam dispostos 72 objetos, parte deles ligados a uma aceção de prazer e outros quantos ligados inequivocamente a uma aceção de dor. No centro da sala estava Marina, parada, à espera da interação do público. Durante seis horas, a artista teria de permanecer ali e subjugar-se às vontades dos visitantes, ao uso que estes fariam dos objetos. Inicialmente, as pessoas pareciam dominadas por uma certa timidez, mas não demorou muito até que alguns se soltassem das amarras da inibição e ousassem uma aproximação. Tocar, mexer, experimentar objetos numa pessoa que se apresentava subjugada, sem reação, levou a que em menos de nada a agressividade tomasse lugar naquela performance. A roupa de Marina foi rasgada, ela foi despida, amarrada, mudada de lugar, picada, cortada, o seu sangue lambido por um dos visitantes. A dada altura, uma das pessoas presentes pegou numa arma, um dos objetos expostos, e carregou-a com uma bala (também exposta) e apontou-a à artista. Um outro visitante interveio, nesse momento e afastou a arma.

 

Marina Abramovic.png

 Imagem retirada daqui.

 

A atitude de Marina, durante as seis horas, foi sempre de passividade e essa passividade, essa subjugação, levou a um uso quase exclusivo, por parte dos visitantes, dos objetos relacionados com o inflição de dor. Quando as seis horas acabaram, quando se chegou ao fim do tempo delimitado para a performance, a artista abandonou o espaço, seminua, a sangrar, de lágrimas nos olhos.

 

O interessante da performance não terá sido apenas, ou essencialmente, a agressão ao sujeito passivo, a falta de empatia e a crueldade das interações, a escolha pela dor ao invés da escolha por proporcionar prazer, mas a reação final dos visitantes à pessoa que, antes passiva, começou a caminhar e olhou os seus agressores nos olhos. A confrontação com a agressão, com a «vítima», deixou a audiência desconfortável, sem saber para onde olhar, apanhada na evidência do próprio erro. A passividade tinha sido como um livre passe para a agressão e quando essa passividade acabou, as pessoas viram-se «ao mesmo nível» do sujeito agredido, a sensação de poder esvaiu-se, ficou apenas a vergonha, o acanhamento.

 

Como é óbvio, não é possível extrapolar os resultados de uma performance nos anos 70 para definir todo o comportamento humano face à passividade, à fragilidade do seu semelhante. Embora não possamos concluir que, face a alguém que se demonstra numa atitude de submissão, o mais certo é haver lugar à subjugação, ainda assim uma pequena performance de seis horas funciona como um sistema de alerta para esta nossa, aparentemente intrínseca, necessidade de dominação. E esta dominação, esta ânsia de poder, de subjugação, vem embrulhada numa (temporária ou não) falta de empatia, de capacidade de ver o sujeito dominado como alguém igual, semelhante, senciente. Havendo a possibilidade de escolha entre proporcionar o bem-estar ou a agressão, agredir aparece como escolha aparentemente «natural».

 

De uma forma ingénua, penso que, se lá pudesse ter estado, em Nápoles, naquele dia, perante uma mulher jovem, inteligente, bonita, como Marina era (e ainda é), gostaria de lhe ter tocado, acariciado, olhado nos olhos, tentando uma aproximação aos seus pensamentos, expetativas e medos. A agressão nunca me passaria pela cabeça perante alguém que, de forma despojada, decidiu «dar-se» aos seus visitantes. No entanto, serei diferente ou, quando inserida num grupo, faria exatamente o mesmo que aquelas pessoas fizeram — experimentar como seria magoar alguém, infligir dor a alguém, fazer chorar alguém… ?

 

Estará esta ânsia de subjugação, domínio, fome pelo poder enraizada dentro de nós e a empatia é coisa aprendida e não natural?

 

Artigos relacionados com a performance Rythm 0 de Marina Abramović:

http://www.tate.org.uk/art/artworks/abramovic-rhythm-0-l03651

http://johndopp.com/reality-0-marina-abramovic/

 

 

Feminazi

Tinha pensado em escrever sobre Marina Abramović e sobre uma das suas performances mais emblemáticas, mas uma mensagem no blog mudou o rumo da escrita de hoje. Marina ficará para amanhã.

 

Escrevi no sábado um texto sobre o jornalismo numa associação a um artigo do Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. O texto era uma denúncia da forma enviesada, sexista, como Brigitte era referida, funcionando como demonstração da maneira como as mulheres ainda são vistas na sociedade, como, apesar de mudanças várias, a mulher ainda é referida como certo acessório masculino. Não acho que tenha sido o meu mais brilhante texto, longe disso. Estava irritada com o artigo (a irritação nunca é grande conselheira), o meu filho questionava-me sobre coisas várias enquanto eu tentava escrever, em suma, pouca concentração, alguma irritação, e nasceu um texto. Penso que tenha sido esse mesmo texto o causador da mensagem que recebi de um qualquer anónimo, que me apelidou de feminazi — tenho de dar créditos humorísticos à designação. É genial, embora tenha perdido certa graça devido à repetição exaustiva:

 

porque será que se fala na primeira profissão do mundo com a mulher como fornecedora de servico? a culpa é sempre do homem.....faltam espelhos em casa? ou já não suporta olhar para eles? talvez haja uma coincidencia e alguma identificacao na menopausa...mais uma feminazi.....

 

Toda a mudança de uma hierarquia instituída vem sempre acompanhada de medo, de uma certa inquietação relativa à disrupção iminente. Quando o esclavagismo chegou ao fim, a integração dos antigos escravos trouxe inquietação à raça que dominava, quando uma religião começa a ganhar crentes numa determinada região, isso traz uma inquietação que pode levar à revolta, à violência, dos crentes que antes viam a sua religião como dominante naquele local, quando as mulheres entraram em força no mercado de trabalho, isso trouxe uma insegurança aos homens, que antes dominavam sem questionamento esse mesmo mercado. E a história está cheia de disrupções e consequentes medos.

 

Dito isto, não sinto choque por ter homens à minha volta que se dirijam a mim da forma como este anónimo fez. As mudanças recentes em alguns países no que aos direitos da mulher diz respeito trazem, inevitavelmente, mudanças numa hierarquia, numa organização social que dura há séculos e, como qualquer mudança, esta também é geradora de inquietações. Ver o domínio ameaçado, uma ordem instituída que parecia garantida ser abanada pelas bases, fragiliza sempre e, quanto menor a capacidade de refletir, tentar ver o mundo pelos olhos do outro, tentar perscrutar o futuro sob a lupa da mudança, menor a tolerância para essa mudança e maior a revolta.

 

Há um século atrás, quando as mulheres se começaram a afirmar, entraram na universidade, se juntaram em grupos de reflexão, escreveram livros sobre a sua condição de mulheres, saíram ao prelo milhares de livros de ataque à mulher escritos por homens, livros que a tentavam reduzir à esfera doméstica, a uma submissão ao homem, a uma condição de muleta do homem ditada por deus. Na altura, um dos argumentos esgrimido por alguns era a inferior intelectualidade, a menor inteligência da mulher. Um século passado, esse argumento já não resulta, foi descartado e, faltando algo de mais sólido, retrocede-se. Como se vê pelo comentário deste anónimo, volta-se ao básico: uma sugestão da minha pouca beleza, da minha insatisfação pelo o que o espelho reflete, da minha frustração por estar na menopausa (lá chegarei, se, entretanto, não bater a caçoleta).

 

Quando lia o livro de Yuval Noah Harari chamado Sapiens, onde o autor escreve sobre a evolução do ser humano ao longo dos tempos, a dada altura a questão da sociedade patriarcal é discutida. A pergunta que continua a persistir no ramo da antropologia é: porque é que, talvez desde os primórdios da evolução do homo sapiens, sempre se viveu numa hierarquia, numa sociedade patriarcal e uma organização matriarcal num foi opção? A opinião dos antropólogos segue em diversas vertentes: alguns julgam que a força muscular, geralmente maior nos homens, ditou esta organização; outros acham que não foi tanto a força, mas a agressividade. O homem sempre teve, de forma geral, um temperamento mais agressivo, o que poderá ter condicionado de forma primitiva a organização social; outros antropólogos referem ainda um possível gene patriarcal, algo intrínseco ao ser humano, que nos leva irremediavelmente a uma organização patriarcal.

 

Na realidade, não há um consenso, não há uma resposta clara que justifique o nosso caminho de milénios que nos trouxe, enquanto seres humanos, até ao dia de hoje, nesta organização social tal como a conhecemos. No entanto, tudo o que conseguirmos fazer, mudar, revolucionar, será parte integrante do que somos, natural, parte da nossa evolução. Dito isto, esta luta das mulheres pela equidade de direitos, por um olhar de igual para igual, pode trazer ansiedade àqueles que, numa organização hierárquica, não estavam habituados a um olhar olhos nos olhos, mas antes a uma olhar submisso, mas apesar desse medo e inquietação, é um movimento natural evolutivo.

Jornalismo papel higiênico

Se há coisa que me faz soltar umas imprecações, uns quantos palavrões sentidos, é quando o jornalismo, arma essencial numa sociedade moderna e democrata, se tenta armar aos cucos, mandando por água a baixo a sua credibilidade, transformando o que deveria ser uma poderosa arma informativa, num mero rolo de papel higiénico.

 

No meio das notícias que lia, aparece-me à frente uma notícia do jornal Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. Começo por questionar qual o interesse de escrever um artigo sobre a esposa de um candidato às eleições francesas, mas, ainda assim, embora pouco relevante e de cariz fofoqueiro e não informativo, grande mal não viria ao mundo. No entanto, o título, o grande sacana do título, quase me provocou uma apoplexia.

 

Observador.jpg

 

Há algo de absolutamente sexista, misógino neste título, mas o que ainda me enfurece mais é a cobardia implícita pelo uso das aspas. O jornal Observador usou a expressão «barbie com menopausa» para designar Brigitte e, um pouco em jeito de «não fui eu que disse, foram outros senhores», usou as aspas como desculpa pelo abuso. Na realidade, é irrelevante quem usou primeiro a expressão, a repetição de um absurdo não é desculpável pela antecedência desse absurdo. Não é por vários jornais se terem apropriado de uma expressão sexista e redutora de uma mulher que é admissível e desculpável a persistência do uso dessa expressão.

 

Quanto à expressão em si, por mais voltas que o mundo dê, a mulher continua a ter um tratamento diferenciado do do homem, tratamento esse fortemente ligado a uma certa objetivação, ao aspeto físico, a uma certa ideia de família tradicional. Não há escândalo algum em Melania ser uma catrefada de anos mais novo do que Trump, não há drama algum em Marcela ser quase quarenta anos mais jovem do que Temer. A eles, gabam-lhes a capacidade de terem arranjado tão bonitas e jovens esposas, a elas gabam-lhes a juventude e a beleza.

 

Mas o diabo do Macron, grande cromo, foi arranjar uma esposa vinte e picos anos mais velha. É o apocalipse. A ela, apesar de não lhe negarem uma suposta beleza, esfregam-lhe na cara a evidência do envelhecimento, da sexualidade decadente implícita, o uso do «com menopausa» como se de uma doença maligna se tratasse,  a ele chamam-lhe de menino da mamã e tentam arranjar desculpas para tão bizarra escolha: é gay, o casamento é uma fachada.

 

Em suma, tanto num exemplo como noutro, a mulher fica-se pela única dimensão do aspeto físico e apenas essa dimensão é explorada. Sem grande interesse, no caso da juventude (é comum homens poderosos e ricos casados com mulheres mais novas), mas em tom de escândalo quando o oposto acontece: homem jovem casado com mulher mais velha. A nós, mulheres, para estes jornaleiros da atualidade, resta-nos o papel de bibelot, acompanhante de luxo dos senhores políticos, ícone de beleza.

 

Pois é… tanto tempo perdido, tanto computador ligado a gastar energia, e gastam os jornais tempo nestas irrelevâncias constrangedoras e perpetuadoras de estereótipos tristes e ultrapassados.

 

Sabem, o que eu gostaria mesmo de saber é quem é Macron, qual o seu passado político, qual as suas propostas em cima da mesa para o futuro da França, quais as contradições do seu discurso político, quais as soluções e a sua viabilidade, qual a capacidade que demonstra para enfrentar a França pelos cornos. Só isso, nada mais do que isso.

Monty Python’s world

O funcionamento do mundo está cheio de detalhes bizarros camuflados, na maioria das vezes, pelas vestes da normalidade, da banalidade. Mas há certas bizarrias que, por mais maquiagem que se lhes ponha em cima, permanecem absurdamente bizarras aos olhos de quem as quiser ver. Dou por mim a murmurar palavrões ao ler certas notícias, a questionar a verosimilhança da realidade onde me insiro, a verdade deste meu agora.

 

Neste último domingo, a Arábia Saudita foi eleita para a Comissão para os Direitos das Mulheres da ONU. A eleição deste país para esta comissão é de tal forma aberrante que roça o absurdo, a comédia hilariante. É um pouco como eleger um pedófilo para a comissão dos direitos das crianças ou um traficante de droga para a comissão da luta contra o tráfico de estupefacientes. Arábia Saudita e Direitos das mulheres são um paradoxo, a antítese um do outro, o que torna esta eleição uma aberração pública, uma anedota.

 

Num país onde as mulheres são consideradas um subproduto humano, um ser subserviente do homem, onde não podem conduzir, onde não podem estudar, trabalhar e viajar sem autorização de um homem, votar em todas as eleições, a escolha deste país para uma comissão que pretende acabar exatamente com esse tipo de abominações no que concerne os direitos das mulheres é, acima de tudo, uma autêntica descredibilização da ONU, transformando um organismo que deveria ser de relevância, numa anedota.

 

Relembro ainda que este mesmo país foi reeleito no ano passado, em outubro de 2016, para o conselho de direitos humanos da ONU. O poder de determinadas nações (poder económico, estratégico, político) acaba por ter mais peso, ser mais relevante do que qualquer facto, do que a evidência das atrocidades cometidas. Num país onde os ateus são considerados terroristas (com penas equivalente àqueles que praticam terrorismo na verdadeira aceção do termo), os direitos humanos são como um tapete onde a Arábia Saudita limpa os pés.

 

Quando vemos as urgências do mundo e quando percebemos as estratégias adotadas por organismos que deveriam zelar pela resolução eficaz dessas urgências, percebemos que isto está tudo mesmo fodido (pardon my french).

 

No fundo, estamos todos metidos dentro de um filme dos Monty Python. Que o absurdo nos possa, pelo menos, parecer comédia. Se rirmos, não dói tanto.

 

 Monty Python - A vida de Brian (stoning scene)

Jantaradas, unhas de gel e Laura Pergolizzi

No Dia Internacional da Mulher podia falar na descarada subversão que é feita da data pelos agentes comerciais, transformando um dia que assinala a luta pelos direitos das mulheres, num dia de florzinhas, prendinhas catitas, jantaradas animadas entre amigas, um dia de celebração do ser-se mulher, quando essa celebração deve ser diária e não coisa marcada em calendário.

 

No Dia Internacional da Mulher podia falar nos penteados, zumba, unhas de gel e massagens oferecidos pela Câmara Municipal de Coimbra como forma de celebração da data, reduzindo a mulher ao estereótipo da futilidade do costume. Não que as mulheres (algumas) não apreciem unhas de gel e zumba (not me), mas assinalar uma data que promove a luta pela igualdade, a equidade de género, apelando aos estereótipos femininos enraizados é só um bocadinho parvo.

 

No entanto, não me apetece desenvolver nada disto. Não em apetece chafurdar nas polémicas do costume. No Dia Internacional da Mulher, apetece-me falar de uma mulher.

 

Normalmente não sou grande ouvinte de música pop, mas dei de caras com esta belezura há umas semanas. Laura Pergolizzi, conhecido por LP, cantora, compositora, letrista, faz umas músicas à maneira. Depois, a parte estética acaba por completar o meu recente fascínio. Longe da imagem dos ícones pop que fazem da exposição do corpo parte do pacote musical (não há música pop sem nádegas firmes a badalar, mamocas a espreitar, roupinhas reduzidas a deixar muito pouco à imaginação), LP distancia-se desse tipo de diva pop. Lésbica assumida, o seu aspeto físico deixa a dúvida se estamos a olhar para um homem ou uma mulher. Magra, vestida até às orelhas, sobra apenas a música, a voz, as letras. A androgenia casa de forma perfeita com a voz forte, feminina e combativa. E os videoclipes, apesar de sensuais, são de uma sensualidade feminina, um olhar feminino sobre a mulher, nada foleiro, nada chunga. A mulher pode estar seminua ou mesmo nua sem que se passe a imagem de que se olha um objeto, um ser sexualizado indutor de prazer (dou por mim a pensar, depois destas palavras, que hoje estou um bocadinho lésbica).

 

No Dia Internacional da Mulher, a música de uma mulher como banda sonora para o dia que marca uma luta que ainda não acabou.

 

LP, Other people

 

LP, Tokyo Sunrise

 

LP, Lost on you

Violência consentida

Não posso extrapolar do que se passa em minha casa, aquilo que eu considero ser o normal ambiente conjugal, para o que se passa na casa dos outros, dos limites e fronteiras estabelecidas pelos outros casais para os seus relacionamentos afetivos. No entanto, excluindo a questão dos fetiches (com regras próprias pré-estabelecidas), a violência não pode, em hipótese alguma, integrar o que alguém designa como normalidade familiar.

 

Por isso, é sempre com espanto que leio certas notícias relativas a decisões judiciais, em que os agressores não sofrem qualquer punição jurídica, e onde certos comportamentos, a meu ver desajustados, são vistos de forma benevolente pelo juiz ou coletivo de juízes.

 

A notícia de que falo refere-se a um arguido acusado de violência doméstica, de apertar o pescoço à companheira como reação às supostas traições, de empurrões e de agressões que, segundo os relatórios médicos referidos no acórdão «apontam que a vítima sofreu um traumatismo abdominal e dores na região supra mamária, resultado das ofensas físicas».

 

No entanto, o indivíduo em questão foi absolvido, podendo ler-se neste excerto do acórdão “não é, pois, do mero facto de o arguido consumir bebidas alcoólicas, ou de tomar uma ou outra atitude incorreta para com a ofendida (por exemplo, ir “tirar dinheiro” da carteira desta), ou de, numa ocasião, após um insulto da ofendida, ter agarrado o pescoço desta com uma mão (…), que podemos concluir pela existência de um maltrato da vítima, no sentido tipificado no preceito incriminador da violência doméstica”.

 

Segundo a notícia no site da TSF e Jornal Económico, o indivíduo de que falo já tinha sido condenado por violência doméstica, mas teve a sua pena suspensa por ter aceitado fazer um tratamento para o alcoolismo.

 

O meu espanto não é fruto somente desta decisão judicial, mas é também um espanto com memória. A memória das dezenas de mulheres que morrem anualmente às mãos de companheiros ou ex-companheiros, homens alcoólicos, homens que não aceitam o fim de uma relação, homens movidos pelo ciúme doentio, homens que têm nas mulheres um objeto que lhes pertence, homens que sentem que podem vingar uma qualquer honra perdida pela traição (ou suposta traição), homens egocêntricos sem empatia por outro ser humano.

 

O coletivo de juízes, composto por Maria Filomena Soares e João Amaro, referiu que para o crime se considerar de violência doméstica é necessário que exista um grau superior de consequências que afete a dignidade pessoal da vítima, não bastando uma série de crimes cometidos durante uma relação afetiva para que maus-tratos passem ao crime de violência doméstica. (fonte: Jornal Económico)

 

Quando um tribunal, estância de salvaguarda máxima da segurança de um cidadão, considera que há tau-taus e tau-taus, que a violência, dentro de certos parâmetros, é admissível no seio familiar (mesmo onde coabitam crianças, como é o caso referido acima), esse tribunal está a dar um sinal inequívoco de tolerância a comportamentos desadequados futuros, está ainda a silenciar as vítimas, a justificar as mortes.

Manuais de conduta para mulheres (repost)

Em 1909 começam a ser editadas em Portugal as traduções da tetralogia de Paul Combes, com o título geral de Os quatro livros da mulher e durante quase cinquenta anos os quatro livros que compõem esta obra são reeditados por diversas editoras portuguesas. O livro da esposa, O livro da mãe, O livro da Educadora e O livro da dona-de-casa são obras que pretendem modelar a mulher nas únicas quatro facetas que lhe estavam socialmente disponíveis — esposa, mãe, educadora (dos próprios filhos) e dona-de-casa.

 

Se noutros países da Europa e além Atlântico, nos E.U.A., a luta pela emancipação feminina era já um fenómeno expressivo desde o início do século XX e que tinha eco nas publicações editoriais dirigidas às mulheres, por cá, em Portugal, alguns livros de carácter emancipatório tiveram ainda a oportunidade de chegar ao prelo, mas após a constituição do Estado Novo, em 1933, as publicações dirigidas às mulheres resumiam-se a edições redundantes de carácter formativo, que tentavam colocar a mulher no local que Estado e sociedade da época lhe achavam devido — o lar, como dona de casa, esposa e mãe.

 

Assim, apesar de Paul Combes ter escrito uma obra em finais do século XIX, inícios do século XX, que poderia ser considerada desatualizada, fundamentalista e sexista, chegando aos anos de 1950, esta obra ainda era publicada no nosso país, formatando as mulheres da época, reduzindo-as a um papel secundário, subalterno e subordinado ao papel masculino na sociedade da época. Mas Combes não estava sozinho, foram centenas os livros publicados, com diversas reedições, maioritariamente de autoras portuguesas, que funcionavam como manuais de boa conduta, gestão doméstica e educação feminina.

 

Pelos anos de 40 e 50 do século XX, no que diz respeito à publicação de autores estrangeiros nesta área específica da edição dirigida a leitoras do sexo feminino, os que permaneciam reeditados eram aqueles cujas obras tinham edição original mais antiga (edições originais entre 1890 e 1910). Com as mudanças que surgiam internacionalmente, eram escassas as novas obras de índole conservadora publicadas por autores estrangeiros. Orgulhosamente sós, as edições dirigidas às mulheres tentavam a todo o custo manter a mulher portuguesa refugiada num passado conservador, tradicional, onde o lar tinha de chegar para cumprir os seus sonhos e expetativas de vida.

 

Livro da esposa.jpgLivro da educadora.jpgLivro da mãe.jpglivro da dona de casa.jpg

Os Quatro Livros da Mulher, Paul Combes, Editora Educação Nacional

 

 

Mais do que nunca chegou a hora de as educadoras cristãs velarem pelos seus filhos, reagindo contra as modernas tendências tão funestas.

Pág. 125, Paul Combes – O livro da Educadora. Editora Educação Nacional, 1948, 4ª Edição

 

É que o dever – que chamaremos essência – da dona de casa não é trabalhando na vida exterior, por mais nobres e louváveis que apreçam as obras. O seu primeiro dever é a organização, a direção do lar familiar.

Pág. 129 O livro da dona de Casa – Paul Combes, 1934, 4ª edição

 

O mérito da mulher é governar a sua casa, fazer feliz o seu marido, consolá-lo, alentá-lo, e educar os seus filhos, isto é, fazer deles homens.

Pág. 10, Paul Combes, O livro da mãe

 

As leis gerais da natureza – confirmadas pelas leis divinas, por meio da Revelação, e pelas leis humanas – assinalam à mulher a missão de companheira do homem.

Pág. 2, O livro da esposa, Paul Combes

 

 

Libertem as mamas!

Como já referi noutros posts, não sou grande frequentadora das redes sociais. Uso apenas o Facebook, embora seja uma utilizadora esporádica. Assim, basta estar uns dias sem dar grande atenção àquilo para começar uma guerra cibernética e eu não saber de nada. E foi mais ou menos isso que aconteceu na semana passada. Entro eu no Facebook quando me deparo com um fenómeno de guerrilha, de protestos, de estratégias de retalização em preparação e uns quantos «amigos» com as contas bloqueadas temporariamente ou amuados depois de um ralhete do Zuckerberg.

 

E tudo começou de forma inocente. Após a morte de Mário Soares, um ou outro utilizador do Facebook postou uma foto de Soares com a sua esposa, na praia, cumprimentando uma turista holandesa em topless. A imagem tinha uma carga implícita que, a meu ver, era interessante. A foto era antiga e demonstrava um país que saía do jugo do conservadorismo da ditadura e entrava numa nova etapa que tornava possível uma fotografia daquelas.

Soares.jpg

(Fotografia retirada do site do Diário de Notícias)

 

Mas o Facebook não suporta mamas. Mais concretamente, o Facebook não suporta mamilos femininos. Basta uma denúncia de algum frustrado, um polícia dos costumes da atualidade, para logo o utilizador que se atreveu a mostrar tal coisa estar em muito maus lençóis.

 

E esta abominação às mamas estende-se a qualquer representação de seios femininos: uma imagem de uma pintura, de uma escultura, uma fotografia de um povo indígena meio despido ou uma singela fotografia de uma mãe a amamentar, tudo se enquadra dentro dos critérios de pornografia da rede social.

 

Mas esta censura ao mamilo é dual. Se o mamilo for masculino não há problema, mas qualquer nesga de um mamilo feminino gera censura garantida. O engraçado é que a mama em si, por maior que seja, por mais exposta que possa estar, não é um problema em si. Apenas aquele pedaço de pele — o mamilo — provoca tal estado de alvoroço aos senhores que controlam as redes sociais.

 

Disto, deixo apenas uns quantos apontamentos:

 

— A forma como o corpo feminino é observado, apesar do avanço dos tempos, ainda está muito ligada a certos dogmas religiosos. As principais religiões monoteístas, de origem patriarcal, sempre difundiram a imagem da mulher, do corpo feminino, ligada ao pecado, à sujidade. Por trás da forma como o corpo feminino é representado e observado na atualidade estão séculos de atribuições pejorativas à mulher (e de submissão ao homem);

 

— Mulheres heterossexuais e homens homossexuais também sentem atração por um peitoral exposto masculino, mas nem por isso essas imagens erotizas de peitorais masculinas são censuradas;

 

— É certo que a imagem da mulher é muito erotizada, mas não será a do homem também? No fim, todos os seres humanos têm um corpo, nascem despidos e, antes de qualquer erotização, o corpo é o que de mais natural existe em nós. É justificável esta censura a um pedaço de pele?

 

— Os seios femininos, antes de qualquer coisa, servem para alimentar recém-nascidos e isso, alimentar uma criança, não tem nada de erótico ou pornográfico;

 

— Há uma clara diferença entre anatomia, erotização e pornografia que deveria ser ressalvada;

 

— Há uma diferença entre os valores europeus e os valores estadunidenses. Talvez se justificasse uma rede social fundada na Europa, alicerçada em valores europeus, sem traços de conservadorismo barato;

 

— Numa época em que o corpo feminino é objetivado, é usado como promotor publicitário, em que serve para impulsionar vendas ou enaltecer a imagem a quem a ele se associa, não deixa de ser hilariante esta censura a uns quantos milímetros de pele.

 

Por isso, que se libertem as mamas —  seios, mamas, ( )  ( ), que os seios arejem, que os mamilos vejam a luz do dia. No final, é apenas um pequeno pedaço de pele, característica de todos os seres humanos (homens e mulheres).

 

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Amadeo Modigliani