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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Feminazi

Tinha pensado em escrever sobre Marina Abramović e sobre uma das suas performances mais emblemáticas, mas uma mensagem no blog mudou o rumo da escrita de hoje. Marina ficará para amanhã.

 

Escrevi no sábado um texto sobre o jornalismo numa associação a um artigo do Observador sobre a esposa de Macron, Brigitte Trogneux. O texto era uma denúncia da forma enviesada, sexista, como Brigitte era referida, funcionando como demonstração da maneira como as mulheres ainda são vistas na sociedade, como, apesar de mudanças várias, a mulher ainda é referida como certo acessório masculino. Não acho que tenha sido o meu mais brilhante texto, longe disso. Estava irritada com o artigo (a irritação nunca é grande conselheira), o meu filho questionava-me sobre coisas várias enquanto eu tentava escrever, em suma, pouca concentração, alguma irritação, e nasceu um texto. Penso que tenha sido esse mesmo texto o causador da mensagem que recebi de um qualquer anónimo, que me apelidou de feminazi — tenho de dar créditos humorísticos à designação. É genial, embora tenha perdido certa graça devido à repetição exaustiva:

 

porque será que se fala na primeira profissão do mundo com a mulher como fornecedora de servico? a culpa é sempre do homem.....faltam espelhos em casa? ou já não suporta olhar para eles? talvez haja uma coincidencia e alguma identificacao na menopausa...mais uma feminazi.....

 

Toda a mudança de uma hierarquia instituída vem sempre acompanhada de medo, de uma certa inquietação relativa à disrupção iminente. Quando o esclavagismo chegou ao fim, a integração dos antigos escravos trouxe inquietação à raça que dominava, quando uma religião começa a ganhar crentes numa determinada região, isso traz uma inquietação que pode levar à revolta, à violência, dos crentes que antes viam a sua religião como dominante naquele local, quando as mulheres entraram em força no mercado de trabalho, isso trouxe uma insegurança aos homens, que antes dominavam sem questionamento esse mesmo mercado. E a história está cheia de disrupções e consequentes medos.

 

Dito isto, não sinto choque por ter homens à minha volta que se dirijam a mim da forma como este anónimo fez. As mudanças recentes em alguns países no que aos direitos da mulher diz respeito trazem, inevitavelmente, mudanças numa hierarquia, numa organização social que dura há séculos e, como qualquer mudança, esta também é geradora de inquietações. Ver o domínio ameaçado, uma ordem instituída que parecia garantida ser abanada pelas bases, fragiliza sempre e, quanto menor a capacidade de refletir, tentar ver o mundo pelos olhos do outro, tentar perscrutar o futuro sob a lupa da mudança, menor a tolerância para essa mudança e maior a revolta.

 

Há um século atrás, quando as mulheres se começaram a afirmar, entraram na universidade, se juntaram em grupos de reflexão, escreveram livros sobre a sua condição de mulheres, saíram ao prelo milhares de livros de ataque à mulher escritos por homens, livros que a tentavam reduzir à esfera doméstica, a uma submissão ao homem, a uma condição de muleta do homem ditada por deus. Na altura, um dos argumentos esgrimido por alguns era a inferior intelectualidade, a menor inteligência da mulher. Um século passado, esse argumento já não resulta, foi descartado e, faltando algo de mais sólido, retrocede-se. Como se vê pelo comentário deste anónimo, volta-se ao básico: uma sugestão da minha pouca beleza, da minha insatisfação pelo o que o espelho reflete, da minha frustração por estar na menopausa (lá chegarei, se, entretanto, não bater a caçoleta).

 

Quando lia o livro de Yuval Noah Harari chamado Sapiens, onde o autor escreve sobre a evolução do ser humano ao longo dos tempos, a dada altura a questão da sociedade patriarcal é discutida. A pergunta que continua a persistir no ramo da antropologia é: porque é que, talvez desde os primórdios da evolução do homo sapiens, sempre se viveu numa hierarquia, numa sociedade patriarcal e uma organização matriarcal num foi opção? A opinião dos antropólogos segue em diversas vertentes: alguns julgam que a força muscular, geralmente maior nos homens, ditou esta organização; outros acham que não foi tanto a força, mas a agressividade. O homem sempre teve, de forma geral, um temperamento mais agressivo, o que poderá ter condicionado de forma primitiva a organização social; outros antropólogos referem ainda um possível gene patriarcal, algo intrínseco ao ser humano, que nos leva irremediavelmente a uma organização patriarcal.

 

Na realidade, não há um consenso, não há uma resposta clara que justifique o nosso caminho de milénios que nos trouxe, enquanto seres humanos, até ao dia de hoje, nesta organização social tal como a conhecemos. No entanto, tudo o que conseguirmos fazer, mudar, revolucionar, será parte integrante do que somos, natural, parte da nossa evolução. Dito isto, esta luta das mulheres pela equidade de direitos, por um olhar de igual para igual, pode trazer ansiedade àqueles que, numa organização hierárquica, não estavam habituados a um olhar olhos nos olhos, mas antes a uma olhar submisso, mas apesar desse medo e inquietação, é um movimento natural evolutivo.

Memórias históricas reprimidas — o massacre dos judeus em Lisboa em 1506

511 anos separam o dia de uma matança brutal na capital portuguesa, uma nódoa histórica difícil de enxaguar, do dia de hoje. Uma enormidade de tempo, mas, paradoxalmente, não o tempo suficiente para que as gerações que devieram aprendessem a não alimentar o ódio com os seus medos.

 

A seca, a fome e, não bastando, a praga da peste, assolavam Portugal em 1506. Alguns anos antes dessa data, entraram no país, expulsos de Espanha, dezenas de milhares de judeus, ao abrigo da tolerância do monarca português para com a comunidade judaica. A pressão exercida pelos nuestros hermanos levou, no entanto, a que os recém-chegados fossem obrigados posteriormente a converter-se ao cristianismo. Seria isso o suficiente para que a comunidade local os olhasse de igual para igual?

 

No convento de S. Domingos em Lisboa, no dia 19 de abril de 1506, rezava-se pelo fim dos tormentos que assolavam o país, rezava-se pelo fim da peste, pela chegada da abundância que matasse a fome. Um reflexo, uma alucinação momentânea, um qualquer efeito luminoso, levou alguém a exclamar ter visto o rosto de Cristo iluminado no altar. Um sinal divino de misericórdia, um milagre, portanto. No meio de uma atmosfera de devoção alguém ousou, na sua inocência, questionar aquele assombro luminoso. Um cristão novo tentou explicar que aquele suposto milagre nada mais seria do que um reflexo promovido por uma das fontes de luz no local. E naquele momento, naquele local, iniciou-se um dos episódios mais negros da nossa história. Aquele que ousou questionar foi espancado ali mesmo até à morte e, aquela multidão enraivecida, movida pelo ódio, contagiou toda a cidade que, nos dias seguintes, perseguiu, torturou, espancou, matou milhares de judeus, estando o número total de mortos estimado, por alguns historiadores, em 4000.

 

A ausência do rei, que teria ido a Beja visitar a mãe, a incitação dos dominicanos, que viam nos judeus o bode expiatório perfeito para a causa da fome e da peste, as suas promessas de absolvição dos pecados para aqueles que matassem os hereges, o ódio recalcada da própria população que via nos judeus, aqueles que não pertenciam, que eram exteriores ao grupo, a causa da desgraça que assolava as suas vidas, todos estes grandes pormenores serviram de acendalha à histeria assassina dos três dias de matança. Perseguições, espancamentos, fogueiras improvisadas no Rossio, onde pessoas foram queimadas à moda da inquisição (que ainda estava para vir), todo um cenário dantesco impossível de ser detido pelas autoridades locais, que só acabou quando a fúria chegou ao ponto de saciedade.

 

Olhando para a atualidade, sente-se este estranho déjà vu histórico. Há uma espécie de atração fatal pela culpabilização dos recém-chegados, daqueles que supostamente não pertencem ao grupo, à tribo e todos os males do mundo lhes podem ser atribuídos, desde aqueles que poderão ter algum tipo de relação causa/efeito, àqueles completamente aleatórios ou de ordem mais mística e abstrata.

 

Entre 1506 e hoje, nada mudou. Não queimamos pessoas em praças públicas, mas somos hábeis em «queimá-las» em lume brando, numa sopa de ódio, acusações, medo, humilhações e exclusão.

 

E talvez doa olhar para trás e perceber que somos descendentes de uma horda de assassinos, de facínoras sanguinários, de pessoas cujos medos alimentaram um ódio tal que as levou a ações irracionais de grande violência. Mas é essa a realidade. A única maneira de impedir a repetição dos erros é ter uma plena consciência desses mesmos erros, interiorizar as falhas, olhar abertamente ao espelho o eu social, histórico, cultural destruidor. Enquanto povo, perseguimos, massacrámos, matámos, fomos dominados por um ódio cego infundado. Não esquecer, reavivar a memória, serve como um alerta constante para o que há de vir.

 

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 Lisboa, 19 de Abril de 1506 - O massacre dos Judeus, de Susana Bastos Mateus e Paulo Mendes Pinto, Alêtheia Editores

 

Tão natural como a água

O meu filho perguntou-me há uns tempos, mal entrou no carro quando o fui buscar à escola, se um homem podia casar com um homem. Alguma conversa na escola lhe tinha exacerbado a curiosidade. Respondi que sim. Um homem podia namorar e casar com um homem e uma mulher podia namorar e casar com uma mulher. A resposta não lhe causou surpresa e bastou-lhe. Não fez mais perguntas.

 

Na semana passada fomos à biblioteca buscar uns quantos livros para lermos em casa. Quando líamos à noite um desses livros que trouxéramos da biblioteca, a meio da história e levado pelos acontecimentos da narrativa, o meu filho sugere: esta princesa vai-se casar com a menina que a salvou. Eu, já com dezenas de livros infantis lidos ao longo da vida, supus que a dada altura aparecesse por ali um príncipe, um cavaleiro e acabasse a casar, como de costume, com a princesa. Disse ao meu filho: acho que não. A história ainda não acabou.

 

O certo é que as duas, princesa e menina salvadora, tal como supôs o meu filho, acabaram mesmo por se casar. O meu filho exultou de contentamento por ter acertado nas suas previsões e eu exultei, silenciosamente, por um livro infantil me ter conseguido surpreender. Embora na minha exultação houvesse uma pequena recriminação. Porque é que não considerei aquela opção, a do casamento entre as duas meninas?

 

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Titiritesa, de Xerardo Quintiá e Maurizio A.C. Quarello, OQO Editora

 

Em suma, todos os nossos constrangimentos no que diz respeito à orientação sexual dos outros seres humanos, à forma como as crianças lidam com isso, são fruto da nossa cabeça preconceituosa. Para uma criança, uma pequena explicação basta, não há dilemas dominados por dogmas religiosos, preconceitos enraizados, há apenas um campo fértil à espera de ser semeado da melhor maneira.

Para as crianças, o amor, seja ele como for, é tão natural como a água.

O crânio da gruta da Aroeira — murmúrios ancestrais

Decorria o ano de 2014 quando uma equipa do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa descobriu um crânio numa gruta da Aroeira onde estavam a trabalhar. Uma ferramenta que escavava a rocha perfurou o que, surpreendentemente, se descobriria ser o mais antigo fóssil humano encontrado na Península Ibérica e um dos mais antigos encontrados no continente europeu. Fossilizado num bloco de pedra, foram precisos dois anos até ser possível completar a extração do crânio. Com a datação feita, com a análise dos vários utensílios e restos fossilizados de animais que ali se encontravam, estima-se assim que o achado tenha entre 395.000 a 430.000 anos. Esta descoberta arqueológica vem, assim, acrescentar mais uma peça ao puzzle que é a evolução humana e a evolução dos vários hominídeos ao longo da história. Mas este puzzle evolutivo, com cada nova descoberta, não ganha clareza, antes expande-se, ganha complexidade e traz novas questões.

 

A forma simplista como se classificava os achados arqueológicos, associando determinadas características morfológicas a restos humanos com determinada datação, atribuindo-lhes uma espécie, tem vindo a cair por terra a cada nova descoberta. No crânio humano da gruta da Aroeira é possível encontrar características morfológicas que estão ligadas aos neandertais arcaicos, mas também a outros achados fósseis classificados de diferente maneira e ainda características completamente novas, exclusivas deste fóssil humano.

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Crânio humano encontrado na gruta da Aroeira.

 

É de referir que esta descoberta surpreendente não foi a primeira descoberta impactante liderada pelo arqueólogo João Zilhão. Em 1998, foi descoberto no vale do Lapedo, perto de Leiria, o esqueleto de uma criança com cerca de quatro anos que viveu naquele local há 25.000 anos. Também esta descoberta deixou o mundo da arqueologia em polvorosa devido às características morfológicas únicas daquele achado. Havia traços morfológicos homo sapiens, mas também traços característicos neandertais, levantando a questão de uma possível miscigenação entre as duas espécies. Esta questão, descartada até à época, é atualmente aceite e comprovável. Embora, na altura, tenha levado a acesos debates académicos e tenha feito correr muita tinta em publicações científicas. Sobre este tema, aconselho o livro «Lapedo — uma criança no vale» do falecido escritor João Aguiar. É um olhar exterior ao mundo académico da arqueologia (João Aguiar era escritor e jornalista), acessível a curiosos sem formação na área.

 

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Lapedo, uma criança no vale, de João Aguiar, Edições ASA, uma obra de bastante interesse sobre as descobertas no vale do Lapedo em 1998.

 

Para mim, uma completa leiga na matéria, mas alguém movida pela curiosidade, estes achados arqueológicos revestem-se de grande interesse. Não me interessa particularmente saber se nós, homo sapiens, temos herança genética deste ou daquele hominídeo, mas é um pouco como se procurasse no passado remoto a génese do nosso comportamento atual. O que terá feito de nós, homo sapiens modernos, a espécie triunfante sobre outras espécies humanas, quais as razões que alavancaram o nosso sucesso e o porquê do aniquilamento, em vários locais distintos do globo, das outras espécies humanas (como por exemplos os neandertais na Europa)? A resposta a todas estas questões são o início da nossa caracterização enquanto humanos, porque inevitavelmente seremos hoje um eco nítido dos nossos ancestrais, um produto da nossa evolução.

 

Em outubro deste ano teremos em exposição no Museu Nacional de Arqueologia esta descoberta da gruta da Aroeira, assim como também a criança do Lapedo. Será uma exposição a não perder. Deixo ainda aqui o link dos artigos do jornal Público e do site da Universidade de Lisboa, que fornecem mais detalhes sobre a surpreendente descoberta da gruta da Aroeira.

Jo Nesbø — a arte dos excessos

Spoiler alert

 

Quanto pode aguentar um homem, um personagem, para que as ocorrências da sua vida possam ser consideradas excessivas, inverosímeis?

 

Enquanto leitores, nomeadamente de livros policiais, somos, página após página, manipulados a ultrapassar a barreira da verosimilhança através da mestria do escritor que elaborou aquela trama.

 

Não me causa transtorno ler um policial de Yrsa Sigurdardóttir e Arnaldur Indridason, ambos escritores islandeses, apesar de conhecer a estatística de assassinatos na Islândia e perceber que qualquer história sobre um atarefado detetive de homicídios em Reykjavík será pura fantasia (0 a 2 homicídios no país por ano não será motivo para tanta canseira). Não custa engolir que um pacato país como a Noruega tenha o azar de levar com dois ou três assassinos em série num curto período de tempo. A forma como a mentira se torna verosímil é, em si, prova da capacidade do autor que me guia pelas páginas daquele policial.

 

Mas será que haverá um ponto de rutura, um momento em que o excesso, as provações de um personagem alcançam o ponto da inverosimilhança?

 

Acabei de ler o livro Polícia, de Jo Nesbø, o último livro traduzido em Portugal da saga do detetive Harry Hole, que já conta com 10 livros. Confesso que ansiava com alguma expetativa esta leitura. O último livro deixara a forte impressão, se não mesmo evidência, que o casmurro Hole tinha morrido às mãos do seu enteado, sendo aquelas as últimas páginas do personagem.

 

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Polícia, de Jo Nesbø, Editora D. Quixote

 

Ao décimo primeiro livro de Nesbø já não me posso escudar em desculpas do não conhecimento sobre a quase obscena manipulação que o escritor faz dos leitores. Eu sei como ele funciona e, embora mergulhada numa certa vergonha, eu gosto. Todo o livro é montado como um gigantesco puzzle onde cada peça tem de encaixar na perfeição, mas onde certas peças foram desenhadas para iludir, criar falsas impressões, causar suspeições infundadas. Com isto, o leitor passa a quase totalidade do livro «com o coração nas mãos», num estado de pura exaltação, emoções que ajudam a esconder os detalhes importantes por trás da pirotecnia da manipulação e, mais fundamental ainda, prendem o leitor ao livro, tornando-se impossível deixar aquele calhamaço abandonado a meio. A leitura já não é propriamente prazerosa, é quase doentia, compulsiva, mas talvez estes atributos sejam, de alguma forma, intrínsecos à leitura de romances policiais.

 

No entanto, quando ontem acabei o livro, depois de uma semana de leitura frenética e depois de uma década de leitura de Nesbø e dos livros de Harry Hole, fiquei mergulhada numa espécie de irritação. Como se falasse com Nesbø, murmurava-lhe: «raios, permito-te a manipulação, permito-te que me enganes consecutivamente, mas não achas que enough is enough

 

Harry Hole, ao longo da dezena de livros, já foi diversas vezes baleado, esfaqueado, sovado, sobreviveu a uma bomba, a uma dilaceração gravíssima do rosto e no meio de tanta catástrofe física, Harry continua vivo, embora bastante escaqueirado. Além das provações físicas, vários colegas próximos de Harry foram assassinados, personagens que, na altura, julgávamos impossível o autor ter coragem de «matar», dado a proximidade ao personagem principal. Também a sua família mais próxima (namorada e enteado) já sofreram às mãos de assassinos, ficando a um piscar de olhos de uma morte horrível.

 

E se durante a leitura, devido ao ritmo narrativo acelerado e à habilidade do autor, todos estes terrores excessivos passam no crivo da verosimilhança, ontem, quando acabei a leitura, senti que Nesbø tinha ultrapassado a linha do excesso. Suporto que, naquelas páginas, alguém cometa os mais atrozes crimes, mas já me custa a engolir que um detetive esteja à beira da morte certa de cem em cem páginas, que aquela vida esteja tão cheia de provações, algumas delas aparentemente impossíveis de ultrapassar, mas que, ainda assim, aquele personagem sobreviva (apesar de baleado, esfaqueado, sovado, explodido) e, mesmo que bêbedo ou drogado, prossiga com a sua vida.

 

E, embrulhada num sentimento algo ambíguo, desejei que Hole tivesse morrido, que Nesbø tivesse tido a coragem de o matar. Mas Hole sobreviveu a mais um livro e apanhou os maus da fita.

 

Já eu, leitora, não tenho bem a certeza se desta vez sobrevivi a Nesbø.

Manuais de conduta para mulheres (repost)

Em 1909 começam a ser editadas em Portugal as traduções da tetralogia de Paul Combes, com o título geral de Os quatro livros da mulher e durante quase cinquenta anos os quatro livros que compõem esta obra são reeditados por diversas editoras portuguesas. O livro da esposa, O livro da mãe, O livro da Educadora e O livro da dona-de-casa são obras que pretendem modelar a mulher nas únicas quatro facetas que lhe estavam socialmente disponíveis — esposa, mãe, educadora (dos próprios filhos) e dona-de-casa.

 

Se noutros países da Europa e além Atlântico, nos E.U.A., a luta pela emancipação feminina era já um fenómeno expressivo desde o início do século XX e que tinha eco nas publicações editoriais dirigidas às mulheres, por cá, em Portugal, alguns livros de carácter emancipatório tiveram ainda a oportunidade de chegar ao prelo, mas após a constituição do Estado Novo, em 1933, as publicações dirigidas às mulheres resumiam-se a edições redundantes de carácter formativo, que tentavam colocar a mulher no local que Estado e sociedade da época lhe achavam devido — o lar, como dona de casa, esposa e mãe.

 

Assim, apesar de Paul Combes ter escrito uma obra em finais do século XIX, inícios do século XX, que poderia ser considerada desatualizada, fundamentalista e sexista, chegando aos anos de 1950, esta obra ainda era publicada no nosso país, formatando as mulheres da época, reduzindo-as a um papel secundário, subalterno e subordinado ao papel masculino na sociedade da época. Mas Combes não estava sozinho, foram centenas os livros publicados, com diversas reedições, maioritariamente de autoras portuguesas, que funcionavam como manuais de boa conduta, gestão doméstica e educação feminina.

 

Pelos anos de 40 e 50 do século XX, no que diz respeito à publicação de autores estrangeiros nesta área específica da edição dirigida a leitoras do sexo feminino, os que permaneciam reeditados eram aqueles cujas obras tinham edição original mais antiga (edições originais entre 1890 e 1910). Com as mudanças que surgiam internacionalmente, eram escassas as novas obras de índole conservadora publicadas por autores estrangeiros. Orgulhosamente sós, as edições dirigidas às mulheres tentavam a todo o custo manter a mulher portuguesa refugiada num passado conservador, tradicional, onde o lar tinha de chegar para cumprir os seus sonhos e expetativas de vida.

 

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Os Quatro Livros da Mulher, Paul Combes, Editora Educação Nacional

 

 

Mais do que nunca chegou a hora de as educadoras cristãs velarem pelos seus filhos, reagindo contra as modernas tendências tão funestas.

Pág. 125, Paul Combes – O livro da Educadora. Editora Educação Nacional, 1948, 4ª Edição

 

É que o dever – que chamaremos essência – da dona de casa não é trabalhando na vida exterior, por mais nobres e louváveis que apreçam as obras. O seu primeiro dever é a organização, a direção do lar familiar.

Pág. 129 O livro da dona de Casa – Paul Combes, 1934, 4ª edição

 

O mérito da mulher é governar a sua casa, fazer feliz o seu marido, consolá-lo, alentá-lo, e educar os seus filhos, isto é, fazer deles homens.

Pág. 10, Paul Combes, O livro da mãe

 

As leis gerais da natureza – confirmadas pelas leis divinas, por meio da Revelação, e pelas leis humanas – assinalam à mulher a missão de companheira do homem.

Pág. 2, O livro da esposa, Paul Combes

 

 

Grandes e pequenos — livros

O tempo que se leva a ler um livro não está diretamente ligado à quantidade de páginas que o mesmo tenha. Não raras vezes devoro, de forma glutona, pecadora, um livro de quase 1000 páginas em pouco mais de uma semana, para logo depois andar à luta quase um mês com um livro com pouco mais de 100 páginas. O nível da linguagem usada, o tema, a fluência narrativa, tudo contribui para o tempo que leva uma leitura.

 

Hoje vou pegar aqui em dois exemplos que ilustram exatamente o que referi no parágrafo acima.

 

O Pintassilgo, da escritora estado-unidense Donna Tartt, vencedora do prémio Pulitzer com este mesmo romance, teve a sua tradução publicada em Portugal no último trimestre de 2014. Tenho ideia de que o comprei no início de 2015 e o comecei logo a ler. Apesar das quase 900 páginas do livro, demorei pouco mais de uma semana a chegar à última página e a terminar a leitura. Foi uma leitura obsessiva, que me levava a carregar o livro para todo lado, a aproveitar cada segundo para me embrenhar naquela trama. Este livro será o melhor exemplo para o que o termo anglo-saxónico page-turner quer definir. Quando me afastei do livro, permiti-me perceber que muito do que ali se passava facilmente poderia ser considerado inverosímil, quando aplicado à vida real (pode tanta desgraça, alterações drásticas de vida acontecer a uma única pessoa?). Mas a perícia de Tartt obriga-nos a entrar naquele mundo sem direito a olhares para trás e mais nada interessa para além de podermos acompanhar Theo na sua odisseia.

 

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O Pintassilgo, de Donna Tartt, Editorial Presença

 

 

Curiosamente, li um artigo que dizia respeito aos dispositivos de leitura de ebooks da Amazon. Estes leitores têm a capacidade de recolher informação e difundir essa mesma informação para a Amazon: qual a taxa de sucesso de leitura ou desistência de cada livro, que temas cativam mais os leitores. Contra todas as minhas expetativas, O Pintassilgo era o ebook lido em dispositivos da Amazon com a maior taxa de desistência de leitura. Mas como? Como raio alguém conseguiu deixar aquele livro a meio? Pegai já nele e leiam! Terão sido as 900 páginas um número instigador da desistência?

 

Em suma, Donna Tartt passa períodos muito longos de tempo sem publicar escrita de ficção, mas quando o faz, a leitura tem um poder quase sinistro de embrenhar o leitor numa bruma de obsessão. O trabalho que faz é meticuloso, demorado, com pesquisa associada e sem ponta de amadorismo.

 

Numa cadência de leitura oposta, dou o exemplo de um livro que acabei de ler há pouco. Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Escrito em 1902, é considerado um clássico da literatura, de leitura obrigatória. O livro fala de uma viagem ao Congo, país colonizado e explorado pelos seus colonizadores, que o foram estripando das suas riquezas como por exemplo o marfim, marginalizando e abusando dos habitantes nativos. Conrad baseia esta obra na sua experiência pessoal, pois também ele viajou por essa região anotando as suas observações num diário. O livro é mais denso do que conseguirei transpor neste texto. Para além das trevas de um país ainda emergido na «não civilização» (do ponto de vista ocidental), fala das trevas em que os seres humanos submergem quando se deixam levar pela embriaguez do poder, quando ficam entregues a si próprios num mundo primitivo.

 

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Coração das Trevas, de Joseph Conrad, Nova Vega Editora

 

É impossível ler a prosa de Conrad com os olhos e preceitos da atualidade. É sempre imperativo perceber que se trata de um texto de 1902. O olhar sobre os outros, os indígenas, os seres considerados primitivos, selvagens, facilmente provocará o choque por, aos olhos de hoje, ser extremamente racista, inumano. No entanto, paradoxalmente, os relatos de Conrad são também uma espécie de murro no estômago que nos alerta para prepotência dos agentes coloniais e para o próprio racismo.

 

O livro exige uma leitura mais concentrada e mais refletida. A obra em questão tem 140 páginas, mas 24 delas são um prefácio de Isabel Fernandes. Considero ainda que as notas colocadas no texto acabam por ser excessivas, distraindo o leitor do corpo do texto para as notas de rodapé, que nem sempre são imprescindíveis e muitas vezes acrescentam pouco ou nada à leitura.

 

Comecei a ler o livro em novembro do ano passado. Parei a meio e li outro livro durante essa paragem. Retomei a leitura no início deste ano para a acabar no final da semana passada. As expetativas que tinha relativamente a esta leitura eram elevadas e acabaram por sair um pouco goradas. É um livro interessante, um ponto de vista sobre o colonialismo e os seus agentes, no entanto, ainda assim senti uma certa incompletude com esta leitura.

 

Grandes ou pequenos, numa leitura compulsiva ou refletida, os livros são parte essencial da minha vida. Alguns serão ainda peças de joalharia literária, artística únicas.

 

O Evangelho Segundo Lázaro (Richard Zimler) — «Respondi-te no lugar onde se esconde o trovão».

Para se fazer uma crítica, para se avaliar o trabalho de alguém, será sempre necessário um olhar objetivo, despido de preconceito, focado na essência e não na circunstância. Não posso dizer que tenha capacidade para fazer uma crítica objetiva seja do que for. O meu julgamento está constantemente toldado pela emoção, contaminado pela subjetividade do meu olhar (a minha experiência de vida, aquilo que sou, faz-me fruir as coisas de maneira diversa de qualquer outra pessoa). O meu olhar não é despido, imparcial, ele é a soma de todas as partes e aquilo que nasce, evoluiu à minha frente sob o desígnio de uma determinada leitura, é necessariamente único, só eu o posso ver, sentir, resguardar-me sob a égide da sua força, sofrer os seus tumultos.

 

Por isso, se quero falar sobre o último livro de Richard Zimler, o que aqui vos escreverei não será uma crítica. Deixo-vos o Evangelho Segundo Lázaro, segundo Sónia Pereira.

 

As religiões, para mim, sempre se encerraram numa espécie de câmara de fascínios e horrores. Desde cedo me autoproclamei imune ao toque religioso, mas uma infância totalmente evangelizada, uma meia vida vivida sob a presença constante do catolicismo teve, inequivocamente, efeitos sobre mim. Sinto repulsa pela religião, mas uma tremenda atração pela crença. Daí, quando percebi que a última obra de Richard teria como personagens centrais Lázaro (Eliezer) e Jesus (Yeshua), a vontade de ter aquele livro na mão ganhou um contorno quase místico. A antevisão do que ali estaria, de até onde Richard conseguiria levar aqueles personagens e, consequentemente, levar-me a mim, puxava-me para aquelas páginas com uma força algo sobrenatural.

 

O narrador é Lázaro e aquilo que temos pela frente é o testemunho que este vai desfiando, página após página, ao seu neto Yaphiel. Fala da sua ressurreição, um retorno da terra dos mortos promovido por Jesus, dos efeitos perversos do seu regresso à vida, das dúvidas que aquele retorno despoletou, da forte união que tinha com Jesus, que começou ainda eram os dois crianças, na perseguição e morte do amigo, no desespero da perda, na impotência implícita, mas no laço (imaginado, real?) que se manteve além-vida e na reflexão de como, cada segundo, cada milímetro da vida dos dois, Lázaro e Jesus, poderá ter-se desenrolado para alcançar um determinado fim. Nada aconteceu em vão, nenhum sussurro foi um desperdício, nenhuma dor caiu no vazio.

 

Como ponto inicial, refiro a grandeza da contextualização história. Não raras vezes, sou confrontada com romances históricos que o são de forma medíocre. Não basta referir que a história se passa em tal sítio e em tal data para o autor conseguir transportar os leitores até àqueles tempos idos. Um romance histórico exige uma enorme investigação, uma total contextualização à época, aos personagens, da mensagem que o escritor pretende passar. Este romance de Zimler é magistral nesse sector. Para além de nos trazer dois personagens que necessariamente serão familiares a quase toda a gente, esses personagens estão magnificamente envolvidos numa época, com linguagem própria, com lendas próprias, com maneiras muito específicas de se viver e ver o mundo em redor. E Zimler teve o condão de trazer aqueles cheiros, aqueles sons, aquele rebuliço de uma época, de uma região, e encerrá-los dentro das páginas deste livro.

 

Conseguiu ainda erigir uma obra que facilmente poderia decair numa visão alternativa sobre textos sagrados existentes, um novo evangelho entre outros, um olhar sobre a vida de Jesus do ponto de vista de Lázaro, transmutando-a numa história que vai muito além da religião, da crença, da existência daquele ser humano especial que terá sido Yeshua. Na minha frente, cresceu um louvor a uma amizade extrema, a uma união entre dois seres humanos que ultrapassa a união física (embora também o seja), para ser uma união metafísica, espiritual, uma missão de vida (e para além da vida) conjunta, una.

 

Refiro ainda algo que é transversal a todos os romances do autor — a capacidade de transmitir o aconchego físico, o toque. Em mim reside um conflito interno sobre o toque humano. Quero-o, mas, paradoxalmente, tenho uma certa reserva em o aceitar. Talvez por isso, desde sempre percebi, com um certo fascínio, a relação do autor com a transmissão do aconchego físico, da afeição traduzida em gestos, sem reservas. Seres que não se inibem de se tocarem, de exprimirem afeto pelo toque, sejam homens, mulheres, crianças e até animais. O calor dessa afeição transmitida transpira por entre letras e páginas e chega até mim, leitora. E é reconfortante, de uma forma primária, mas superiorizada.

 

Numa crítica no jornal Público, Helena Vasconcelos considerava esta obra de Zimler o seu romance mais completo e magistral. E realmente é-o. Sou leitora de Zimler há anos, mas ler este livro foi como a subida a uma torre mágica, altaneira, de onde se consegue vislumbrar até aos confins da terra. E se vos digo que escrevo estas linhas num certo estado de exaltação, embalada numa mística que só os melhores autores conseguem criar, não vos estou a mentir. Ainda lá estou, em Betânia, em Jerusalém,  a ouvi-los, a pressentir a grandeza encerrada em cada palavra e gesto.

 

«Pede e o teu desejo será concedido. Procura e encontrarás. Bate à porta e ela abrir-se-á para ti.» Yeshua bem Yosef

(página 15 )

 

Respondi-te no lugar onde se esconde o trovão. (página 436)

 

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Evangelho segundo Lázaro, Richard Zimler, Porto Editora

 

A evolução da edição literária de temática homossexual

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Não será novidade para ninguém o facto da censura e tabus vários condicionarem, desde sempre, a edição literária em qualquer parte do mundo. Na atualidade editorial, a censura, per se, não se apresenta diretamente como um fator de recusa de uma obra, mas sendo que esta atividade, como quase todas as outras, obedece cada vez mais às leis do mercado, toda a obra editada passará sempre por um crivo censor, mais não seja o crivo da vontade das massas.

 

Dito isto, olhando para os livros que aqui tinha em casa dentro da temática da homossexualidade, dei por mim a imaginar as diversas mudanças que este tipo de edição sofreu ao longo das décadas, as batalhas pessoais dos autores até verem (ou não) as suas obras nos escaparates das livrarias, as humilhações a que foram sujeitos à conta daquela obra específica, ou a chegada à banalização da temática.

 

Em 1914, E. M. Foster completou a obra Maurice, mas esta apenas «viu a luz do dia» em 1971, um ano após a morte do autor. A temática da obra condicionou a sua publicação durante décadas. O romance conta a história de Maurice, um jovem da alta burguesia inglesa, na descoberta e aceitação da sua homossexualidade. Movendo-se em meios sociais e familiares conservadores, o protagonista vive entre a opressão e a tentativa de consumação daquilo que é a sua natureza, confrontado com uma paixão esquiva que acaba frustrada. Apesar de algumas discrepâncias entre as biografias de Foster e o personagem Maurice, há quem creia que Maurice se apresenta como uma espécie de alter-ego do autor, uma personagem biográfica que reflete os dilemas do próprio escritor, embora com um final de história díspar da experiência pessoal de Foster.

Não tendo consultado nenhuma obra biográfica sobre Foster, li na Wikipédia (tendo isso a fiabilidade possível), que E. M. Foster acabaria por deixar de escrever (Maurice foi o seu penúltimo romance), por considerar impossível continuar a tecer tramas de casais heterossexuais nos seus romances, quando a sua vontade seria explorar temáticas com as quais sentisse maior identificação.

A edição que tenho desta obra de E. M. Foster é da Edições Cotovia, de 1989.

 

Avançando pelo século XX adentro, chegamos ao ano de 1955, ano em que o romance Os anjos maus de Éric Jourdan vai ao prelo. O autor, que tinha na altura da publicação apenas 16 anos, vê a obra ser imediatamente censurada após a publicação e vê-se confrontado com ameaças de morte e de prisão. A esta última só escapou por ser ainda menor na altura das acusações.

O romance, que descreve uma fulgurante paixão adolescente entre Pierre e Gerard, teve, durante anos, uma vida literária clandestina, pois a censura continuou a sua perseguição pelas décadas que se seguiram.

O que há de mais belo neste romance é o fulgor típico de um olhar adolescente. Pode-se olhar para esta obra e acusá-la de ter algumas limitações literárias, de ser excessiva, descomedida e algo histriónica, mas, paralelamente a essas «deficiências» literárias, têm um arrebatamento que apenas um cérebro adolescente poderia conceber. Um autor, por mais capaz que seja, vê-se sempre condicionado pelo passar do tempo, pelos balizamentos próprios de quem envelhece e se vê confrontado com uma certa normalização da maneira de se olhar o mundo. Este olhar jovem, púbere, tem uma força desmedida, brutal mesmo e é esse fulgor que trespassa cada palavra desta narrativa e a torna tão excecional. A minha edição é da editora Bico de Pena, de 2009.

 

Era o ano de 1996 quando dei de caras com o livro Não digas a ninguém, do escritor peruano Jaime Bayly, na livraria Bertrand em Lisboa. Tínhamos chegado à década onde já não havia vergonha de ter um livro daquele «género» exposto nas livrarias e com dezenas de exemplares para venda. Comprei e li. Não recordo especialmente a trama do livro, mas retenho em mente a sensação de uma leitura desinibida, divertida, mas simultaneamente a funcionar como um alerta de consciência. O livro retrata a vida de um jovem homossexual oriundo de um estrato social privilegiado e o seu sequente enredar no mundo da droga e prostituição.

Ao contrário dos livros anteriores que, em edições antigas ou mais atuais, aparecem como edições destinadas a um nicho específico e pequeno do mercado editorial, a edição deste último livro foi de uma editora de considerável dimensão na altura, e com expressão aceitável no que diz respeito à distribuição e representatividade nas livrarias. A editora da edição que tenho é a Editorial Notícias, edição de 1996.

 

Para finalizar, ressalvo o livro Acabar com Eddy Bellegueule, do autor francês Édouard Louis. O livro é autobiográfico e fala da vida de Eddy numa família disfuncional, num meio rural, onde a discriminação, a violência verbal e física eram parte integrante do dia a dia. O livro é o percurso de fuga de Eddy dessa realidade castradora para uma realidade onde se pudesse afirmar e ganhar distância sobre aquele nicho social e familiar onde não encaixava. Escrito aos 19 anos por Édouard Louis, o livro apresenta-se como uma espécie de encerrar de uma vida que ficou para trás e o início de uma nova etapa onde o autor pode viver a sua verdadeira identidade em plenitude.

Para além desse olhar pessoal, intimista sobre o percurso de vida de Eddy, é possível vislumbrar uma franja social francesa que passa despercebida ao público em geral, e que, apesar de certas conquistas sociais, culturais e económicas, ainda permanece submergida em certos valores conservadores, de extrema violência, penalizando fortemente quem se desvia das regras estabelecidas.

A edição desta obra é da Fumo editora, de 2014.

 

Como nota final, deixo apenas um pequeno apontamento. Os anos avançaram e no mundo ocidental não temos autores a serem acusados ou ameaçados de morte por escreverem e publicarem livros de teor homossexual. Facilmente será possível adquirir uma destas obras ou uma outra que se enquadre dentro desta temática. No entanto, com o advento da internet e de novos paradigmas da edição editorial, denoto que a maioria das obras publicadas em Portugal em que o personagem principal é homossexual ou em que a temática geral versa a homossexualidade continuam a ser edições de pequenas editoras ou editoras de nicho, editoras com edições em print-on-demand ou em eBook. As grandes casas editoriais não fazem da temática um assunto preferencial com interesse de mercado.

O Evangelho segundo Lázaro — Richard Zimler

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O Evangelho segundo Lázaro, Richard Zimler, Porto Editora (fotografia retirada do site da Porto Ediora)

 

A propósito do lançamento do livro O Evangelho segundo Lázaro de Richard Zimler, decidi falar sobre o livro, apesar de ainda não o ter ligo. Alguns críticos talvez façam algo do género, lendo obliquamente a obra que pretendem criticar, cedendo à amizade ou proximidade com o autor ou fazendo uma suave concessão aos seus ódios de estimação. No entanto, o que farei não será uma crítica, mas um elogio ao autor do livro em questão. Irei revisitar as minhas leituras da sua obra, fazer uma pequena viagem à década em que me acompanhou com as suas palavras.

 

Há muitos anos (caminho para velha, é verdade), vi na televisão uma entrevista a Richard Zimler. Já tinha ouvido falar nele, mas ainda não tinha lido nenhum dos seus livros. Algo naquela entrevista intimista me impulsionou a procurar a sua obra numa ida futura à livraria. Na altura comprei o que era o romance mais conhecido do autor — O último cabalista de Lisboa. Depois desta leitura, Lisboa não voltou a ser a mesma. Sentia os fantasmas daqueles dias de horror gravados nas pedras dos edifícios, sentia uma atmosfera de medo, perseguição, a pairar no ar que respirava. Após esta experiência literária, comprei todos os livros que o autor tinha publicado em Portugal. Lembro-me de estar na praia a ler Meia-Noite ou o Princípio do mundo e, sentada na areia, sentir uma doce familiaridade com partes do texto e há algo de absolutamente ambíguo, assustador e feliz, quando descobrimos alguém que consegue ver o mundo com os nossos próprios óculos, quando alguém distante nos parece tão próximo e familiar.

 

Recordo ainda um domingo em que passei o dia todo a ler À procura de Sana até ao ponto da minha cabeça doer. Ao ler a última página e fechar o livro, estava mergulhada numa dor que era física, mas transbordava o corpo, submergindo-me numa melancolia que não me deixava abandonar aquele mundo que se encerrava naquelas páginas. Toda eu, matéria e pensamento, estava cativa naquele outro mundo e demorou dias a partir as grilhetas, soltar-me econseguir distanciar-me.

 

Naquela altura (tal como agora), Zimler afigurava-se como um dos autores que mais apreciava. Nunca fui muito de ter coisas preferidas (livro preferido, filme preferido, música preferida, comida preferida), mas ainda assim permitia-me colocar aquele escritor na minha galeria de prediletos, onde figuravam aqueles que não exigiam explicação sensata para a leitura de um seu novo livro.

 

Numa era pré redes sociais onde a distância entre escritores e leitores era sem dúvida maior do que na atualidade, cedi a um arrojamento qualquer e enviei um email a Richard Zimler. Era uma escritora de trazer por casa (ainda o sou) e resolvi pedir-lhe alguns conselhos, sugestões e também manifestar-lhe o meu apreço pela sua obra. Para grande surpresa minha (enviei o email sem realmente contar com uma resposta), Zimler respondeu-me com um texto longo e simpático onde me deu várias sugestões, falou sobre a sua experiência pessoal como escritor e todo o caminho até à publicação. Aquele gesto de consideração para com uma sua leitora contou muito para mim e destacou-o de uns certos comportamentos de altivez e distanciamento exibidos por alguns autores na altura.

 

Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente nos seus lançamentos de novos livros e pude disfrutar de um jantar com ele e mais uns quantos seus leitores. Tinha concorrido a um concurso da livraria Bertrand que dava direito aos vencedores de poderem jantar com um escritor de sua eleição. Quando me telefonaram a dizer que tinha sido selecionada, a minha reação de júbilo levou os meus colegas de escritório a pensarem que tinha ganhado um carro, uma viagem ou um prémio avultado em dinheiro.

 

E se a fruição de uma obra não tem de estar intimamente ligada à pessoa que a executou, perceber que Richard Zimler, para além de ótimo escritor, era também uma pessoa especial, um ser humano com qualidades (daquelas que se apreciam nas pessoas que nos são próximas, que queremos ter por perto), só contribuiu para que passasse a ler os seus livros com uma diferente devoção e carinho, para que tentasse ver para além das palavras impressas e conseguisse ver e compreender o homem que as escreveu.

 

Assim sendo, não sinto necessidade de fazer qualquer reflexão sobre a compra do seu novo livro. Está encomendado e é para ler mal chegue às minhas mãos, mesmo desconhecendo as críticas literárias que lhe foram feitas ou as opiniões de outros leitores que já o leram. Quando se tem um autor na nossa galeria de especiais, não há racionalidade que nos valha.

 

Prometo fazer uma verdadeira crítica quando acabar a leitura, embora seja péssima a fazer críticas. Deixo-me sempre levar pelas emoções e fico muito aquém na questão da objetividade e capacidade de síntese da obra. Mas ainda assim, tentarei.

 

Até lá, boas leituras.

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(Fotografia de Richard Zimler retirada do site www.wook.pt)