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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Tão natural como a água

O meu filho perguntou-me há uns tempos, mal entrou no carro quando o fui buscar à escola, se um homem podia casar com um homem. Alguma conversa na escola lhe tinha exacerbado a curiosidade. Respondi que sim. Um homem podia namorar e casar com um homem e uma mulher podia namorar e casar com uma mulher. A resposta não lhe causou surpresa e bastou-lhe. Não fez mais perguntas.

 

Na semana passada fomos à biblioteca buscar uns quantos livros para lermos em casa. Quando líamos à noite um desses livros que trouxéramos da biblioteca, a meio da história e levado pelos acontecimentos da narrativa, o meu filho sugere: esta princesa vai-se casar com a menina que a salvou. Eu, já com dezenas de livros infantis lidos ao longo da vida, supus que a dada altura aparecesse por ali um príncipe, um cavaleiro e acabasse a casar, como de costume, com a princesa. Disse ao meu filho: acho que não. A história ainda não acabou.

 

O certo é que as duas, princesa e menina salvadora, tal como supôs o meu filho, acabaram mesmo por se casar. O meu filho exultou de contentamento por ter acertado nas suas previsões e eu exultei, silenciosamente, por um livro infantil me ter conseguido surpreender. Embora na minha exultação houvesse uma pequena recriminação. Porque é que não considerei aquela opção, a do casamento entre as duas meninas?

 

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Titiritesa, de Xerardo Quintiá e Maurizio A.C. Quarello, OQO Editora

 

Em suma, todos os nossos constrangimentos no que diz respeito à orientação sexual dos outros seres humanos, à forma como as crianças lidam com isso, são fruto da nossa cabeça preconceituosa. Para uma criança, uma pequena explicação basta, não há dilemas dominados por dogmas religiosos, preconceitos enraizados, há apenas um campo fértil à espera de ser semeado da melhor maneira.

Para as crianças, o amor, seja ele como for, é tão natural como a água.

A evolução da edição literária de temática homossexual

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Não será novidade para ninguém o facto da censura e tabus vários condicionarem, desde sempre, a edição literária em qualquer parte do mundo. Na atualidade editorial, a censura, per se, não se apresenta diretamente como um fator de recusa de uma obra, mas sendo que esta atividade, como quase todas as outras, obedece cada vez mais às leis do mercado, toda a obra editada passará sempre por um crivo censor, mais não seja o crivo da vontade das massas.

 

Dito isto, olhando para os livros que aqui tinha em casa dentro da temática da homossexualidade, dei por mim a imaginar as diversas mudanças que este tipo de edição sofreu ao longo das décadas, as batalhas pessoais dos autores até verem (ou não) as suas obras nos escaparates das livrarias, as humilhações a que foram sujeitos à conta daquela obra específica, ou a chegada à banalização da temática.

 

Em 1914, E. M. Foster completou a obra Maurice, mas esta apenas «viu a luz do dia» em 1971, um ano após a morte do autor. A temática da obra condicionou a sua publicação durante décadas. O romance conta a história de Maurice, um jovem da alta burguesia inglesa, na descoberta e aceitação da sua homossexualidade. Movendo-se em meios sociais e familiares conservadores, o protagonista vive entre a opressão e a tentativa de consumação daquilo que é a sua natureza, confrontado com uma paixão esquiva que acaba frustrada. Apesar de algumas discrepâncias entre as biografias de Foster e o personagem Maurice, há quem creia que Maurice se apresenta como uma espécie de alter-ego do autor, uma personagem biográfica que reflete os dilemas do próprio escritor, embora com um final de história díspar da experiência pessoal de Foster.

Não tendo consultado nenhuma obra biográfica sobre Foster, li na Wikipédia (tendo isso a fiabilidade possível), que E. M. Foster acabaria por deixar de escrever (Maurice foi o seu penúltimo romance), por considerar impossível continuar a tecer tramas de casais heterossexuais nos seus romances, quando a sua vontade seria explorar temáticas com as quais sentisse maior identificação.

A edição que tenho desta obra de E. M. Foster é da Edições Cotovia, de 1989.

 

Avançando pelo século XX adentro, chegamos ao ano de 1955, ano em que o romance Os anjos maus de Éric Jourdan vai ao prelo. O autor, que tinha na altura da publicação apenas 16 anos, vê a obra ser imediatamente censurada após a publicação e vê-se confrontado com ameaças de morte e de prisão. A esta última só escapou por ser ainda menor na altura das acusações.

O romance, que descreve uma fulgurante paixão adolescente entre Pierre e Gerard, teve, durante anos, uma vida literária clandestina, pois a censura continuou a sua perseguição pelas décadas que se seguiram.

O que há de mais belo neste romance é o fulgor típico de um olhar adolescente. Pode-se olhar para esta obra e acusá-la de ter algumas limitações literárias, de ser excessiva, descomedida e algo histriónica, mas, paralelamente a essas «deficiências» literárias, têm um arrebatamento que apenas um cérebro adolescente poderia conceber. Um autor, por mais capaz que seja, vê-se sempre condicionado pelo passar do tempo, pelos balizamentos próprios de quem envelhece e se vê confrontado com uma certa normalização da maneira de se olhar o mundo. Este olhar jovem, púbere, tem uma força desmedida, brutal mesmo e é esse fulgor que trespassa cada palavra desta narrativa e a torna tão excecional. A minha edição é da editora Bico de Pena, de 2009.

 

Era o ano de 1996 quando dei de caras com o livro Não digas a ninguém, do escritor peruano Jaime Bayly, na livraria Bertrand em Lisboa. Tínhamos chegado à década onde já não havia vergonha de ter um livro daquele «género» exposto nas livrarias e com dezenas de exemplares para venda. Comprei e li. Não recordo especialmente a trama do livro, mas retenho em mente a sensação de uma leitura desinibida, divertida, mas simultaneamente a funcionar como um alerta de consciência. O livro retrata a vida de um jovem homossexual oriundo de um estrato social privilegiado e o seu sequente enredar no mundo da droga e prostituição.

Ao contrário dos livros anteriores que, em edições antigas ou mais atuais, aparecem como edições destinadas a um nicho específico e pequeno do mercado editorial, a edição deste último livro foi de uma editora de considerável dimensão na altura, e com expressão aceitável no que diz respeito à distribuição e representatividade nas livrarias. A editora da edição que tenho é a Editorial Notícias, edição de 1996.

 

Para finalizar, ressalvo o livro Acabar com Eddy Bellegueule, do autor francês Édouard Louis. O livro é autobiográfico e fala da vida de Eddy numa família disfuncional, num meio rural, onde a discriminação, a violência verbal e física eram parte integrante do dia a dia. O livro é o percurso de fuga de Eddy dessa realidade castradora para uma realidade onde se pudesse afirmar e ganhar distância sobre aquele nicho social e familiar onde não encaixava. Escrito aos 19 anos por Édouard Louis, o livro apresenta-se como uma espécie de encerrar de uma vida que ficou para trás e o início de uma nova etapa onde o autor pode viver a sua verdadeira identidade em plenitude.

Para além desse olhar pessoal, intimista sobre o percurso de vida de Eddy, é possível vislumbrar uma franja social francesa que passa despercebida ao público em geral, e que, apesar de certas conquistas sociais, culturais e económicas, ainda permanece submergida em certos valores conservadores, de extrema violência, penalizando fortemente quem se desvia das regras estabelecidas.

A edição desta obra é da Fumo editora, de 2014.

 

Como nota final, deixo apenas um pequeno apontamento. Os anos avançaram e no mundo ocidental não temos autores a serem acusados ou ameaçados de morte por escreverem e publicarem livros de teor homossexual. Facilmente será possível adquirir uma destas obras ou uma outra que se enquadre dentro desta temática. No entanto, com o advento da internet e de novos paradigmas da edição editorial, denoto que a maioria das obras publicadas em Portugal em que o personagem principal é homossexual ou em que a temática geral versa a homossexualidade continuam a ser edições de pequenas editoras ou editoras de nicho, editoras com edições em print-on-demand ou em eBook. As grandes casas editoriais não fazem da temática um assunto preferencial com interesse de mercado.

Vou para não ficar (excerto VI)

Tomaram banho de água quente juntos, numa banheira cheia, quase a transbordar. Apesar de apenas terem dormido um par de horas, um mútuo desassossego interno impedia-os de caírem numa dormência proporcionada pela água cálida e pelo cansaço. Tocavam-se, deixavam-se estar envolvidos pelos braços um do outro. Por vezes beijavam-se devagar, de olhos fechados, sentindo no mais íntimo e recôndito lugar dentro dos seus seres a gravação daquele toque, daquele sentir, o calor do outro, o cheiro do outro. Estavam viciados na intimidade nunca antes experimentada.     

Com a água já tépida, quase fria, decidiram sair da banheira, salpicando o chão da casa de banho. Envolveram-se na mesma toalha, confrontados por instantes pela perscrutação do espelho da divisão, que refletia dois homens, como dois adolescentes, numa dança hipnótica. Estiraram-se ainda húmidos sobre uma das camas estreitas.

O dia começava a nascer e do exterior, através das cortinas finas, chegava uma claridade branca, baça. O silvo das sirenes dos bombeiros, a sirene do quartel mais próximo que clamava por ajuda, o som de um avião de pequeno porte, possivelmente um canadair que, com a chegada da aurora, viera ajudar no combate ao fogo, todos esses, ora fugazes ou persistentes sons passaram despercebidos entre os beijos e murmúrios daquele quarto, onde cada pedaço de pele foi tocado, cheirado, provado. Novos detalhes do corpo de cada um foram descobertos. Duas pequenas depressões perfeitas no fundo das costas, antes das nádegas, que Salvador tateou uma e outra vez, memorizando cada centímetro, o aroma do pescoço de Alexander, os músculos dos braços, firmes, sem serem excessivos ou ameaçadores, a ténue covinha que se formava no centro do seu queixo, os pés de dedos perfeitos, delicados, a pele, o aroma da sua pele morena, o aroma das axilas, cada um desses detalhes deixava Salvador ébrio.

Se Salvador usava todos os sentidos do seu corpo, Alexander fechou os olhos, sentindo o outro na ponta dos seus dedos, nas palmas das suas mãos, na sua boca. A depressão no centro das costas, formando uma via perfeita do pescoço às nádegas, as omoplatas salientes, o pescoço esguio, que cheirava a amêndoas, que fazia lembrar manhãs de inverno dentro da cama a ver chover lá fora, as cristas ilíacas protuberantes, o peito, o estômago liso, a boca de lábios finos, as orelhas pequenas, o arco do nariz, as pálpebras dos olhos. Alexander beijou-lhe as pálpebras dos olhos, as sobrancelhas, a testa alta.    

Quando fizeram amor pela primeira vez, depois de esgotarem a prospeção do corpo um do outro, domados por um sentimento que já não era de urgência mas de plenitude — uma declaração de amor depois de meses de paixão avassaladora que se transformara lentamente numa afeição que fazia sorrir só de se pensar nela — mesmo que desajeitados, atropelados pelas vontades rápidas dos próprios corpos, foi a confirmação de que estava certo, de que aquilo que eles eram, mesmo que contrariando vontades alheias, era o correto. Mais nada, nunca antes, nunca até àquele momento, tinha sido tão absolutamente perfeito. «Estás dentro de mim» — sussurrou Alexander ao ouvido de Salvador, — «estás dentro de mim».

 

(em Vou para não ficar, Sónia Pereira)

 

 

 

A vulgarização da morte, do terror e da discriminação

O atirador de Orlando, o assassino que tirou a vida a mais de cinquenta pessoas, terá sido motivado pelo ódio gerado pela imagem de dois homens a beijarem-se frente a si e à sua família. Apesar do horrendo desta barbárie, não é de todo difícil encontrar comentários na net de apoio aos atos deste terrorista, mostrando que há fundamentalistas, pessoas intelectualmente inferiores/danificadas, em todo o lado, em todos os quadrantes, sejam essas pessoas religiosas ou não, muçulmanas ou não, católicas ou não, brancas ou negras, homens ou mulheres, jovens ou velhos.

 

Como é que uma imagem destas, para mim uma imagem de extrema beleza (pois tratando-se de amor, não o é sempre?), pode levar à morte, ao terror, ao querer acabar com as liberdades alheias, com o amor alheio, com a vida alheia?!

 

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(Fotografia de See-ming Lee)

Contra-natura é o amor gerar ódio

Estive a ver o episódio da SIC «E se fosse eu» que esta semana era sobre a homofobia.

 

No final, face a algumas recções/comentários, apenas me pergunto (uma questão que me faço desde há anos, porque a resposta teima em não aparecer) — como é que o amor, a atração entre dois seres humanos pode causar ódio, repulsa a alguém? Porque é que o amor dos outros desencadeia tais emoções em quem nada tem a ver com ele, com esse amor, essa atração?

 

Quando falam em contra-natura como justificação para emoções tão baixas e ignóbeis, digo que contra-natura é o amor gerar ódio, ofensas, injúrias, repulsa expressa.

 

 

 

 

Memórias de Adriano — Marguerite Yourcenar

Nem sempre a motivação que nos conduz a um livro é a mais nobre, a que gostamos de apresentar em conversa, mas algo de mais obscuro e de difícil explicação. Não foi a notoriedade de Marguerite Yourcenar, as suas reconhecidas capacidades literárias que me levaram até Memórias de Adriano.

 

Desde cedo tive uma certa apetência por literatura que explorasse diferentes formas de sexualidade, distintos relacionamentos interpessoais, literatura que fugisse ao cânone dominante das relações heterossexuais, do «man meet girl». Ainda adolescente, já esta motivação me fazia pegar em livros menos convencionais, me fazia pesquisar, procurar, correr a comprar.

 

Apesar da minha heterossexualidade, a temática homossexual sempre surtiu um determinado fascínio em mim e essa foi uma das razões de ter pegado neste livro para o ler. E ainda bem que o fiz, porque esta obra é bem mais do que isso, é bem mais do que a paixão do imperador Adriano pelo seu protegido Antínoo, é bem mais do que o dilaceramento de Adriano pela perda do seu amado, este livro é uma obra de arte.

 

Marguerite Yourcenar pesquisou durante anos para este livro e podemos encontrar, na edição da Ulisseia, alguns apontamentos que foram feitos pela autora ao longo dos anos no decorrer dos seus estudos sobre o Imperador Adriano e sobre o império romano. O que foi conseguido neste texto singular foi um olhar sobre uma época distante que pretende não estar maculado ou modelado pelo olhar contemporâneo (até onde isso é possível).

 

Muitos romances históricos pecam precisamente por colocar em personagens de outros tempos, outras épocas, costumes, maneiras de ser e pensar que não pertencem ali, naquele passado, transformando o romance histórico numa miscelânea de adereços de época com personagens, hábitos e costumes hodiernos.

 

Assim, este livro não detém em si apenas a emoção de uma história do passado, contém a possibilidade de vislumbrar uma época pelo olhar de um homem notável, como se Adriano, ele mesmo, tivesse deixado estas palavras escritas especialmente para nós, leitores do século XX em diante.

 

 

E confesso que a razão fica confundida perante o prodígio do amor, da estranha obsessão que faz esta mesma carne, que tão-pouco nos preocupa quando compõe o nosso próprio corpo, limitando-nos a lavá-la, alimentá-la e, se possível, a impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma individualidade diferente da nossa e porque representa certos lineamentos de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estão de acordo.

Pág. 20

 

Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação.

Pág. 109

 

O meu luto não era mais que uma forma de excesso, uma devassidão grosseira: eu continuava a ser aquele que aproveita, aquele que goza, aquele que experimenta: o bem-amado entregava-me a sua morte.

Pág. 188

 

 

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Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenas, Ulisseia

 

Vou para não ficar (excerto II)

As mãos de Salvador, amornadas pelo sono, apertaram as de Alexander para o serenar. Não precisavam de falar. Aquele gesto simples, duas mãos que cingiam outras duas, fez desvanecer o cenário noturno de agressão e medo que povoara a cabeça do sargento e apenas a sensação morna de ser amparado subsistia. Aproximaram-se, sentindo a respiração um do outro. E num impulso simultâneo, beijaram-se. Primeiro devagar, num leve roçar de lábios, como se a escuridão pudesse dissimular a ação. Depois de forma sôfrega, urgente. Tatearam o rosto um do outro, sem que os lábios se distanciassem. Nariz, sobrancelhas, orelhas, olhos fechados. Tocaram o corpo um do outro. Pescoço, costas, peito, braços. Se o beijo que os unia era impaciente, a rasar a violência, a forma como se tocavam era suave, amedrontada pelo desconhecido, num contraste rítmico com o beijar acelerado. Pontas dos dedos que perscrutavam pequenos pedaços do corpo do outro.

Sentados na cama, de olhos fechados, dominados pelo ribombar cardíaco que os ensurdecia, que os agitava ao extremo da dor física, a vida, o querer alguma coisa, poder-se-ia resumir apenas àquilo. Lábios nos lábios, língua dentro da boca do outro, dedos a acariciarem um pescoço, a memorizarem a fisionomia de um nariz, um toque na nuca que faz estremecer, uma palma da mão pousada no peito que arranca um gemido ténue entre beijos, um suspiro causado por uma mão que afaga um rosto.