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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Duzentos metros — excerto III

Na última vez em que coloquei aqui um excerto dos meus escritos de ficção, dei conta de que perdi um dos meus subscritores. A carga homoerótica deve ter ferido algumas susceptibilidades, embora não perceba bem porquê. Quanto a isso, não peço desculpa porque seria errado desculpar-me de uma coisa de que gosto e que não tem qualquer malícia. Hoje, para desenjoar, deixo um excerto de um outro escrito, completamente assexuado (não vá o diabo tecê-las).

 

 

Perdi o controlo do carro à saída de uma curva acentuada. Continuava a chover, embora o Outono ainda não tivesse oficialmente chegado. Era daquela chuva miudinha que me obrigara a ligar os limpa-para-brisas, mas que, não sendo intensa, os fazia derrapar contra o vidro da frente com um arrastar irritante. Ainda estava escuro, apesar da aproximação da manhã e o céu carregado de nuvens ocultava a presença de uma lua cheia. O rádio estava ligado numa estação que debitava, non stop, música eletrónica como prolongamento às horas que passáramos a dançar naquela madrugada. Quando se sai de uma discoteca, de um bar, depois de horas de injeção de álcool e de música de dança, é difícil fazer um corte abrupto e encarar o silêncio da noite e a nossa própria voz embriagada. O corpo continua a agitar-se apesar do cansaço, a pedir música até cair na cama e adormecer. Recordo que a rádio estava a passar um remix da música Four to the floor dos Starsailors, uma música já antiga. Ele cantou fora de tempo parte das letras do refrão, quase aos berros, de forma efusiva, saltando e gesticulando no banco, fazendo-me rir. A recordação perpetuou-se porque percebi que já tinha ouvido aquela música naquela mesma noite num dos bares onde tínhamos entrado, mas num diferente remix. Não faço ideia em qual dos locais foi, recordo apenas a música, as luzes, os corpos a dançarem, os copos cheios a balançarem num exercício tentado de equilíbrio para não se entornarem, batizando sapatos e chão com cerveja nacional.

 

Quando saí da curva, a derrapagem dos pneus fez-me perceber a inevitabilidade e não tive medo. Apesar de intuir o que advinha, concentrei os meus esforços no volante, na tentativa de controlo da viatura. No entanto, num erro de principiante, travei a fundo, causando um efeito perverso no carro. Perdeu a aderência, começou a rodopiar, capotou. Ao meu lado, ele olhou-me surpreendido. O Renato de sempre. O meu Renato. O meu querido, o meu adorado irmão Renato.

 

Lembro-me de ouvir a sua voz, de lhe ver os lábios mexer numa última mensagem, mas não recordo o que disse. Uma nova cambalhota, um novo capotamento e um embate frontal contra um poste de eletricidade de betão maciço, substituído duas semanas antes, de uma robustez inegável. De cabeça para baixo, vi o poste aproximar-se, como se o movimento fosse uma coreografia lenta, estudada. Tirei as mãos do volante. Fechei os olhos. Foi um estrondo horrível, um som que não parecia som, mas matéria a ser sugada por um gigantesco buraco negro, um trecho sinfónico do fim do mundo, de uma violência que me achocalhou como um brinquedo velho na mão de uma criança furiosa. Ouvi um grito abafado do meu irmão. Um grito que não foi um grito. Um suspiro que não foi um suspiro. Um estertor de morte.

Duzentos metros — excerto II

A banheira estava cheia. As manobras para me colocarem lá dentro já iam a meio. Eu estava sentado na beira já com os pés no interior, imersos na água. Ao erguer-me para me transportar para dentro da banheira, a minha mãe deixou-me cair. Tombei abruptamente na água, desamparado. Fiquei de cabeça submergida e as minhas mãos procuravam algo onde me agarrar para conseguir soerguer-me e respirar. Foram apenas segundos, mas na minha cabeça o novelo daquela cena é desenrolado devagar e cada segundo é vivenciado como uma via sacra de aflição. Vejo a minha mãe através do espelho de água, contornos faciais diluídos, debruçada sobre a banheira, sinto a sua mão no meu peito, uma mão pousada que nada faz para me socorrer, antes parece selar aquele encontro acidental com o fundo, com a falta de oxigênio. As minhas mãos esgravatam o ar como aranhas encurraladas, mas quanto mais estrebucho maior a dificuldade em me equilibrar e emergir da água.

 

(em Duzentos metros, Sónia Pereira)

Duzentos metros — excerto I

As idas à missa dominical eram rituais obrigatórios para a minha mãe quando criança. O padre da aldeia, personagem colorida pelos relatos natalícios destas sendas do passado, seria um fulano patusco, um estereótipo usado e abusado pelos programas de humor onde a personagem Padre da Aldeia é utilizada. Numa dessas missas de domingo, o padre, no seu sermão, recorda uma das ovelhas do seu rebanho que «partira» durante aquela semana. O bom do Sr. Manuel que um dia acordou morto fazendo a viagem para os braços do Senhor. A referência ao facto de um morto acordar morto divertiu parte das ovelhas do rebanho, outras tantas, embora fixando o padre como uns autómatos, não o ouviam, perdidas em pensamentos próprios, havia ainda aquelas que ouviam e não entendiam e as últimas que viam naquelas palavras uma bela metáfora (um acordar para uma nova vida, para uma existência celeste, o paraíso para o qual tanto tinham trabalhado). A minha mãezinha, apesar de jovem, seria uma menina perspicaz e aquela história de um morto acordar morto incutiu-lhe tamanha vontade de rir que, sentada no segundo banco corrido a contar do altar, teve de empreender grandes esforços para se controlar e não desatar à gargalhada. As cotoveladas da minha avó e o sibilar de ameaças ajudaram para que não perdesse a compostura por completo. «Põe-te quieta senão apanhas quando chegarmos a casa. Respeitinho pela casa do Senhor. Respeitinho pelo Sr. Manuel.» E a minha mãe, entre dentes, sussurrou-lhe em jeito de resposta: «Qual Sr. Manuel? Aquele que acordou morto?»

Se aquele comportamento valeu à minha mãe alguma achega com o cinto do avô ou a colher de pau da avó quando regressaram a casa não o sei, ela nunca o disse. Sempre preferiu a hilaridade da situação do Sr. Manuel às consequências do seu comportamento galhofeiro na missa. 

Esta história de encher chouriços em noites de festa vem a propósito da minha própria situação. Não a meti aqui a troco de nada. A minha cabeça, ou o que quer que seja que move neste momento o meu discurso, o meu pensar, foi recolhê-la aos despojos do meu próprio passado porque tem uma afinidade desconcertante comigo. Também eu acordei morto. Sem metáforas religiosas nem discursos toscos de padres da aldeia. Morri e acordei. Morto.

 

(em Duzentos Metros, Sónia Pereira)

Conhece-te a ti mesmo.

Conhece-te a ti mesmo.

Mas ninguém quer realmente conhecer-se a fundo. Só se lá vai escarafunchar quando a pessoa se sente obrigada ou foi lá parar por engano, seguindo um inocente trilho de pequenas migalhas. Há um pressentimento latente na ignorância diária de que o que lá está escondido, no nosso íntimo, aquilo que se desconhece, não trará felicidade, só inquietações desnecessárias.

E assim é.

 

(em Duzentos metros)

Sobre o suicídio

Não deixa de ser irónica a forma como percecionamos a morte infligida pelo próprio, vulgo, o suicídio. Milhares de pessoas morrem diariamente em mortes atrozes e evitáveis — guerras, subnutrição, falhas graves em sistemas de saúde subdesenvolvidos, acidentes provocados por erro humano, homicídios promovidos pelas mais mesquinhas razões, mortes que fazem notícia, pelo menos as mais ocidentalizadas, mas que esquecemos em segundos. Mortes que são números sem rosto e que conseguimos integrar na nossa rotina com uma facilidade alarmante.

Mas se a vizinha do quinto andar, num dia de sol (quem diabo se suicida num dia de sol, perguntam alguns estupefactos) se abeira da janela e resolve saltar para o vazio, caindo esparramada no passeio de calçada portuguesa, a imagem do corpo morto, torcido numa posição estranha, tira o sono a quem a conhecia e mesmo àqueles que, ouvindo a história contada por um vizinho atormentado, mesmo sem conhecerem a falecida, sentem uma qualquer familiaridade com a sua história de vida e miséria pessoal.

A imagem da vizinha voadora permanecerá naquela mente durante anos e mesmo décadas depois, aquela imagem irromperá inesperadamente, despoletada por algum som, odor ou semelhança com um qualquer acontecimento presente. Todos nós temos uma vizinha voadora arquivada na nossa mente. Uma vizinha voadora que pode ser um vizinho enforcado, uma conhecida comedora de veneno dos ratos, o padeiro que resolveu dispara contra os próprios miolos ou o mecânico saltador de pontes.

 

(em Duzentos metros, Sónia Pereira)