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Quimeras e Utopias

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Tabus: o suicídio

Falar de suicídio é falar de um assunto tabu. Olhando para a vida como um bem pessoal próprio, seria normal considerar que cada um poderia e deveria, a seu bel-prazer, dispor desse mesmo bem. No entanto, condicionantes várias fizeram evoluir (não necessariamente na aceção de melhorar), ao longo dos séculos, a forma como vemos essa disposição da própria vida por parte dos seres humanos, transformando o suicídio num tema sensível.

 

Antes de mais, penso que poderei dividir o suicídio em três categorias (divisão simples e talvez simplista): o suicídio motivado por razões passionais (uma dívida impagável, um amor não resolvido, uma traição, uma situação extrema de vida), o suicídio motivado por questões médicas (pessoas com determinadas perturbações psiquiátricas ou neurológicas terão, como sintoma próprio da doença, maior propensão para cometer suicídio) e o suicídio racionalizado ou de índole existencialista. Embora, em muitos casos, os suicídios possam estar fundeados em motivações que abranjam mais do que uma categoria.

 

Afastando-me dessa categorização, tento observar e compreender aquilo que nos leva a considerar a vida como um bem inalienável e como tal, a considerar o suicídio como um ato grotesco. A religião terá, certamente, um peso considerável na forma como vemos a morte infligida pelo próprio. Na religião católica, o dogma centra-se na questão da vida de cada um de nós pertencer a deus e não ao próprio e, como tal, só deus poderá tirar aquilo que nos deu. O suicídio afigura-se assim como um pecado porque a pessoa, de forma arrogante, substitui-se ao papel de deus (decide por si aquilo que não estará nas suas mãos decidir). Este dogma, embora religioso, entranhou-se em todas as fissuras sociais e culturais. É uma aceção quase generalizada de que a vida não é bem pessoal e como tal, não pode ser inalienável por quem a possuiu. E mesmo quando há um afastamento relativamente aos conceitos religiosos, ainda assim existe alguma resistência em se considerar a vida como algo de gestão pessoal, onde se possa delimitar contornos, inícios e fins.

 

Relembro um documentário que vi sobre uma das vítimas do atentado de 11 de setembro. Várias pessoas, num ato de aflição, cometeram suicídio naquele dia fatídico, saltando dos andares cimeiros das torres atingidas. Uma dessas pessoas ficou imortalizada através de uma poderosa fotografia. «The falling man», uma imagem de uma simplicidade dolorosa, mostra o encerrar de uma vida, um final motivado pelo medo, pelas chamas e o fumo em aproximação. Num documentário baseado numa investigação jornalística, tentaram chegar à identidade do homem em queda (ainda hoje desconhecida). Os jornalistas acreditaram ter descoberto o nome do suicida, mas esbarraram com uma total recusa da própria família em acreditar que aquele homem em queda era o seu ente querido. Para a família, extremamente religiosa, nada poderia levar o seu ente querido ao suicídio, nem mesmo a mais extrema das dores. A recusa em ligar o seu filho àquele ato considerado pecado, levou os pais a desconsiderar a investigação jornalística e a recusar liminarmente a identificação. Em suma, para alguns, o medo do pecado e a crença que as suas vidas estão nas mãos de deus terá sempre mais força do que qualquer situação extrema em que a vida os possa colocar.

The_Falling_Man.jpg

Fotografia de Richard Drew, Associated Press

 

No entanto, saindo dos terrenos dos dogmas e dos pecados, mesmo assim assumo que em nós, humanos, existe um qualquer dispositivo interno, talvez uma predisposição genética para a salvaguarda da vida. Talvez (e digo talvez porque discorro apenas baseada nas minhas ideias e sem qualquer suporte académico e científico para o fazer), o nosso ADN reserve o segredo desta abominação ao atentado à vida, uma forma de nós, seres humanos, podermos preservar e fazer vingar a nossa espécie. Mesmo auxiliados pelo nosso raciocínio, com a capacidade de ir além do óbvio, do material, de podermos seguir para o pensamento crítico e abstrato, temos em nós um instinto natural de preservação (nossa e dos outros). Se pudermos, impediremos um suicida de saltar de uma ponte e se não o conseguirmos, a imagem da sua morte perseguir-nos-á eternamente.

 

Para finalizar este tema, recordo um texto que li há uns bons anos. Quando lia o livro Atlas das Nuvens de David Mitchell, sublinhei esta passagem sobre o suicídio. É parte de uma carta que o personagem R.F. deixa a Sixsmith antes de cometer suicídio. Procurando o livro pelas estantes, lá o achei, assim como o meu sublinhado a lápis nas páginas 567 e 568. Acho que define de forma seca e sem arestas a decisão de um suicídio racionalizado, um ato pensado e pessoal.

 

Os amantes desprezados, os que choram por socorro, todos os lamurientos trágicos que dão mau nome ao suicídio são os idiotas que se precipitam, como condutores amadores. Um suicídio verdadeiro é uma convicção calma e disciplinada. As pessoas pontificam: «Suicídio é Egoísmo». Os eclesiásticos de carreira como o meu pai estão um passo mais à frente e chamam-lhe um cobarde atentado contra os vivos. Os imbecis questionam os suicidas por várias razões: para evitarem acusações de culpa; para impressionarem o seu público com a sua fibra mental; para expandir a raiva; ou simplesmente porque lhes falta a capacidade de sofrimento necessária para uma verdadeira compaixão. A cobardia não tem nada a ver — o suicídio implica uma dose considerável de coragem. Os japoneses é que têm a ideia certa. Não, egoísmo é exigir a alguém que aguente uma existência intolerável apenas para poupar às famílias, aos amigos e inimigos uns momentos de introspeção.

Atlas das Nuvens, David Mitchell, Dom Quixote (páginas 567 e 568)

 

Esta foi apenas uma pequena e singela introspeção sobre o tema suicídio, num novo tag que inauguro hoje — Tabus.

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