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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Sobre o suicídio

Não deixa de ser irónica a forma como percecionamos a morte infligida pelo próprio, vulgo, o suicídio. Milhares de pessoas morrem diariamente em mortes atrozes e evitáveis — guerras, subnutrição, falhas graves em sistemas de saúde subdesenvolvidos, acidentes provocados por erro humano, homicídios promovidos pelas mais mesquinhas razões, mortes que fazem notícia, pelo menos as mais ocidentalizadas, mas que esquecemos em segundos. Mortes que são números sem rosto e que conseguimos integrar na nossa rotina com uma facilidade alarmante.

Mas se a vizinha do quinto andar, num dia de sol (quem diabo se suicida num dia de sol, perguntam alguns estupefactos) se abeira da janela e resolve saltar para o vazio, caindo esparramada no passeio de calçada portuguesa, a imagem do corpo morto, torcido numa posição estranha, tira o sono a quem a conhecia e mesmo àqueles que, ouvindo a história contada por um vizinho atormentado, mesmo sem conhecerem a falecida, sentem uma qualquer familiaridade com a sua história de vida e miséria pessoal.

A imagem da vizinha voadora permanecerá naquela mente durante anos e mesmo décadas depois, aquela imagem irromperá inesperadamente, despoletada por algum som, odor ou semelhança com um qualquer acontecimento presente. Todos nós temos uma vizinha voadora arquivada na nossa mente. Uma vizinha voadora que pode ser um vizinho enforcado, uma conhecida comedora de veneno dos ratos, o padeiro que resolveu dispara contra os próprios miolos ou o mecânico saltador de pontes.

 

(em Duzentos metros, Sónia Pereira)

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