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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Sobre as religiões

Não consigo precisar em que ano e mês exactos da minha vida me questionei sobre «as verdades» que me foram impingidas desde que me conhecia como gente, em casa, na catequese, nas missas de domingo. Durante o início da minha adolescência ainda frequentava a igreja aos domingos e fiz o percurso normal que a grande maioria dos católicos faz — baptismo, primeira comunhão e profissão de fé (falhei o crisma). No entanto, durante a adolescência comecei a questionar a minha crença. Inicialmente, apenas os rituais, que considerava enfadonhos, deslocados e sem qualquer interesse (para mim ir à missa era apenas uma obrigação e passava a eucaristia a ansiar pelo fim da mesma ou de olho num rapazinho por quem a dada altura tive um fraquinho), e posteriormente passei a questionar também a ideologia, censurando-me por ter acreditado, por ter seguido uma crença que ia contra aspectos que eu considerava fundamentais, inquestionáveis. E foi assim, que ano após ano me tornei num ser ateu.

Confesso que neste percurso me tornei numa pessoa com pouca tolerância para as religiões, embora respeite a crença e até sinta uma espécie de fascínio por ela. Religiões e crenças são algo absolutamente diferenciado, que nada têm a ver, embora pareçam brotar da mesma coisa — da necessidade de orientação no caos (será esse caos tão-somente a natureza, a aleatoriedade que envolve todos os elementos da vida?).

Vejo as religiões como uma espécie de instituição, um organismo burocrata, que recebe os clientes com simpatia, mas com muito pouca predisposição para perguntas incómodas. O que mais me incomoda talvez seja o carácter castrador que a maioria parece ter em relação ao espírito crítico. São instituições de verdades absolutas, inquestionáveis e esse absolutismo cria um espaço para o fundamentalismo, para a discórdia.

Quanto à crença, todos nós seguimos algum tipo de crença, mais não seja a crença na humanidade como entidade capaz da criação das mais belas coisas através da criatividade, e capaz também dos actos mais altruístas e desprendidos, como oferecer a vida por alguém. A minha crença leva-me a viagens espirituais idênticas às sentidas por um católico quando entra numa igreja ou um muçulmano quando se ajoelha em direcção a Meca, bastando-me para isso ouvir música, ler um livro, ouvir as palavras sábias de alguém, ou até mesmo ver um bando de pássaros a voar em sincronia numa tarde de verão. Toda eu me elevo num fervor provocado pela maravilha que é a criatividade, a arte, o engenho humano, a natureza.

Toda esta conversa vem na sequência da islamofobia que parece crescer em proporção idêntica aos crentes na própria religião islâmica. Depois dos ataques de sexta-feira em Paris, é fácil encontrar nas redes sociais, nos comentários às notícias, opiniões que classificam a totalidade dos muçulmanos como um bando de assassinos encapotados, qualificando a religião islâmica como uma religião de apelo à violência, fundamentalista. O irónico destes comentários talvez seja alguns deles terminarem com um «valha-nos Deus, que Deus nos ajude, que vão todos arder no inferno, que deus os castigue». As piadas referindo as 72 virgens, que supostamente os mártires terão à espera depois da morte, também são recorrentes, como se todas as religiões não tivessem estas parábolas surreais, de pura fantasia (mulheres grávidas e virgens, por exemplo), e a religião islâmica fosse o cúmulo da extravagância religiosa.

Como sempre, o que mais parece faltar pelo mundo é reflexão, a capacidade de parar, olhar para dentro de si próprio, sem pressões, sem orientações exteriores, observar, escutar e, por fim, ver. Se um católico, judeu ou muçulmano reflectir sobre as suas próprias crenças, perceberá que, observando alguém de uma outra religião, se vê, inexoravelmente, ao espelho. As batalhas de «o meu é melhor de que o teu» são ridículas e talvez seja altura das pessoas verem as crenças exactamente como elas são — uma necessidade intrínseca de se ser guiado, algo que as ajuda a ultrapassar, a aguentar a vida quando esta parece não seguir a nossa lógica, a lógica que nós, humanos, inventámos e que nos tem como seres individuais, especiais, no centro do universo. Talvez seja altura das pessoas perceberem que o que as fará ser especiais, individuais, não é a crença per se, mas as acções individuais, especiais que poderão levar a cabo (por si, pelos outros, pela humanidade, pela natureza).

 

A religião convenceu efectivamente as pessoas de que existe um homem invisível que vive no céu e que vê tudo o que fazemos, a cada minuto do dia. E o homem invisível tem uma lista de dez coisas que não quer que façamos. E se fizermos alguma dessas coisas, ele tem um lugar especial, repleto de fogo e fumo e calor e abrasamento e dor, para onde nos manda viver e sofrer e arder e sufocar e gritar e chorar para todo o sempre, até ao fim dos tempos… Mas ele ama-nos!

George Carlin in A desilusão de Deus, de Richard Dawkins, página 335

 

Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, de antemão, que nada os demoverá da sua crença. A verdade contida no livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. O livro é verdadeiro e, mesmo quando toda a evidência o parece contradizer, é esta que deve ser rejeitada, não o livro. Em contraste com isto, se eu enquanto cientista acredito em alguma coisa (a evolução, por exemplo), acredito não por ter lido num livro sagrado, mas por ter estudado as provas. Trata-se, de facto, de uma questão bastante diferente. Não é por serem sagrados que se acredita nos livros sobre a evolução. Acredita-se neles porque apresentam quantidades avassaladoras de provas que se escoram umas nas outras. Em princípio, qualquer leitor poderá examinar as provas. Quando um livro científico contém erros, estes acabam por ser detectados e corrigidos nas edições seguintes. Manifestamente, isso não acontece com os livros sagrados.

A desilusão de Deus, de Richard Dawkins, página 337

 

 

 

A desilusão de deus.jpg

 

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