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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Sobre a escrita, funesta doença

O mundo literário há vinte e cinco anos atrás era, sob o escrutínio do meu olhar adolescente, restrito, tal como um clube de elite onde só os melhores podiam entrar. Escrever umas coisas e dizer que se queria ser escritora roçava, a meu ver, a blasfémia. Como poderia eu, uma fulaneca qualquer, aspirar a tal coisa? Como me atrevia a pensar que algum dia chegaria aos calcanhares dos autores que me tiravam o sono, que me proporcionavam horas de leitura, a minha salvação do martírio que era a minha adolescência?

A imagem que retinha da minha pessoa, do meu ser adolescente, condicionou escolhas fulcrais, levou-me por caminhos que fizeram de mim o que sou hoje, o que, sob determinados aspectos, não é lá grande coisa. Mas apesar das escolhas divergentes, que supostamente me levariam para caminhos distantes dos da escrita, a doença persistiu. É já uma enfermidade crónica, que ultimamente se tem vindo a agudizar, entranhando-se em todos os quadrantes da minha vida, castrando a possibilidade de me comportar como uma pessoa «normal», de ter uma vida «normal». E esta realidade descrita pela palavra NORMAL é algo que anseio, mas da qual, paradoxalmente, fujo. Sonho com um emprego (que já tive) das nove às seis, num escritório, uma família padronizada, viagens de férias, idas a restaurantes, jantares com amigos e conhecidos, conversas sobre a actualidade política, futebolística, televisiva. Todavia, é como se algo em mim estivesse irremediavelmente danificado.

A par destes anseios de normalidade, está esta obsessão que deturpa a maneira como vivo o dia-a-dia, semeando histórias na minha cabeça, impulsionando-me a leituras compulsivas, muitas vezes glutonas, a horas desperdiçadas em frente ao computador debitando alarvidades para páginas em branco. Paro e percebo que sou uma mãe incompleta, uma desempregada de meia tigela (pois não serão os meus esforços de busca de um novo trabalho bastante limitados?), uma filha decepcionante, uma esposa a meio-gás, um ser humano frustrado, porque não me consigo proteger daquilo que quero. E o que quero é transformar esta corrente de observações interiores, diferentes formas de vida que se desenrolam dentro de mim, desconfortos, palpitações, medos e risos, transformar esta vida paralela em palavras tecidas com a mestria de um hábil artesão, em arte. E como conseguir coadunar o que se quer com a incapacidade, com a incompetência?

A escrita é um processo solitário e de solidão, mesmo quando se está rodeado de gente. E quando falo de escrita, não me refiro apenas ao processo de alinhar palavras num caderno ou num documento Word no computador. Para mim, a escrita, na sua vertente efectiva, da construção de frases, do processo artesanal de tecer uma página de palavras, é apenas uma quota-parte do que considero ser a ESCRITA. No meu caso, grande parte do processo desenrola-se na minha cabeça durante dias, semanas, como se, embora fisicamente presente neste mundo físico, vivesse em mundos paralelos, pudesse vivenciar vidas alheias, tomadas de decisões que não são minhas, medos e pânicos que nada me dizem na vida real.

Também a observação do que me rodeia é essencial para o processo de escrita. Há mais de um ano vi, de relance, numa feira popular, uma pessoa, um homem. Certos detalhes que condicionavam (e, de certa forma, caracterizavam aos olhos do comum observador) aquela pessoa, aquele ser humano específico, ficaram a martelar-me na cabeça. Da observação, passei para a criação mental de uma vida alternativa para aquele ser imaginado, que do ser real apenas mantinha o aspecto físico e a intuição de uma vida. Demorei semanas, talvez até meses, até escrever alguma coisa sobre o que resultou daquela observação e das primeiras frases escritas já muito mudou no rumo que inicialmente pré-estabelecera para aquela história. Isto porque, pré-estabelecer é condicionar, é uma certa arrogância de acharmos que controlamos, que temos aquela história, aquelas personagens na mão. Mas, tal como nós não estagnamos num momento específico da nossa vida, continuamos a viver, observar, ler, escrever, também as personagens, as suas vidas, são mutáveis, surpreendendo-nos muitas vezes com atitudes caprichosas, acções inexplicáveis.

E quantas vezes, na fila de supermercado, falando com alguma pessoa conhecida que me interpelou, os meus pensamentos, ao invés de irem para o preço da castanha ou do meu filho que não pára quieto, que está tão crescido, vão para a descoberta de uma faceta desconhecida de uma personagem, para o vislumbre de uma possibilidade negligenciada até àquela altura. E, aquele momento, aquela troca de palavras, soa, quando a descrevo, a uma farsa, elevando a quase totalidade da minha vivência a esse mesmo estatuto.

Quanto ao processo efectivo de escrita, sentar-me frente ao computador e começar a dedilhar letras no teclado, é um misto de dois sentimentos oposto. Uma sensação ambivalente que esbarra na parede do medo do fracasso, da incompetência, balançando violentamente de encontro à parede oposta, a de uma certa languidez, de um prazer reservado só para mim, que me inunda de ondas de satisfação, como se poucas coisas na vida me dessem tanta alegria como aquele momento específico — o aparecimento de cada letra, cada palavra, cada frase, mesmo que posteriormente apagados ou rectificados.

Falar sobre aspectos tão íntimos, sobre a doença em forma de tormento interno, poderá sempre provocar um certo riso sarcástico em quem me lê, mas a fatalidade é a fatalidade e falar sobre ela sempre dá um certo alento ao desgraçado afectado, mesmo que a conversa inclua risadas à mistura.