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Quimeras e Utopias

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Praxes — o aniquilamento do espírito crítico

Esta semana saiu uma notícia sobre um vídeo polémico de praxes numa universidade portuguesa. O assunto das praxes, com vídeos ou sem vídeos controversos, é, em si mesmo, um assunto polémico. Uns defendem-nas, outros atacam-nas, uns acham-nas uma boa maneira de integração, outros vêm-nas como fonte de humilhação.

 

No que a mim diz respeito, quando ainda era adolescente, recordo passar mos centros de certas cidades e assistir a rituais de praxe (alunos com caras pintadas, com penicos na cabeça, cobertos de farinha, com cartazes ofensivos ao peito, sem alguma peça de roupa, a cantar melodias com letras parvas), que mesmo sob o meu olhar jovem eu considerava aparvalhados e humilhantes. Anos antes de ingressar no ensino superior, já tinha a convicção de que jamais me submeteria a algo assim, mesmo que aquilo fosse a chave para a integração (também nunca senti grande vontade de me integrar ou de pertencer a um grupo só porque sim, sem que algo de substancial me unisse a essas pessoas).

 

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Foto Paulete Matos, retirada daqui.

 

Desde sempre senti uma aversão à submissão e à obediência e, para mim, as praxes tratam disso — de uma integração que é feita através da submissão, subserviência e obediência cega. Embora possamos olhar para todo o ritual como uma brincadeira que pretende integrar aqueles que chegam, a verdade é que a união que se cria entre os novos alunos tem como base a humilhação. Estão todos juntos na humilhação e aquilo que os une não são traços de carácter ou interesses comuns, mas serem todos vítimas de uma circunstância, de um ritual.

 

Quando finalmente entrei para o ensino superior, felizmente ingressei numa escola com alergia crónica a todos esses aspetos carnavalescos da vida académica. Não houve praxes, não houve trajes, não houve semana académica, fitinhas coloridas e sei lá mais o quê. Entrei naquele estabelecimento sendo eu, a Sónia, e não como membro de um rebanho de vítimas.

 

Olhando para a praxe como um fenómeno já enraizado na vida académica do nosso país, sinto uma espécie de revolta: a chegada à idade adulta, que pode culminar com a ida para a universidade, o afastamento de casa e das figuras paternais, a chegada de uma liberdade nova, deveria ter o seu início marcado, deveria ter o seu ritual de iniciação assinalado pela subversão, pela exploração daquele mundo novo. No entanto, num paradoxo, fica marcado exatamente pelo inverso: pela submissão, subserviência e obediência.

 

Se pensar em qual será a verdadeira essência da experiência académica, esta deveria estar fundeada no questionamento. Toda a aprendizagem deveria ter como alicerce o questionamento, o espírito crítico. No entanto, aquilo que marca o início de uma nova etapa de aprendizagem renega por completo o questionamento e sanciona quem ouse questionar.

 

Aquele que não quiser ou questionar um ritual de praxe é ameaçado com a exclusão da vida académica, a proibição do uso do traje ou a não participação em atividades ou festas que lhe estejam associadas.

 

Se esta ameaça para mim seria digna de causar riso (é que nem obrigada me enfiavam uma capinha de Batman), para muitos jovens e até as suas famílias, o uso do traje, a participação no desfile, a ida a festas, são marcos importantes para a caracterização do seu percurso académico. E é o conhecimento deste facto que está na base da chantagem. O querer pertencer, o querer fazer parte, o estar incluído no que se assemelha a uma etapa normal da vida académica leva muitos alunos a submeterem-se a coisas que, em muitos casos, vão contra as suas convicções. E em muitos outros casos, talvez nem existam convicções próprias sobre o assunto, mas também não há questionamento — se é suposto fazer, eu faço, se é assim que funciona, eu alinho.

 

Pensando ainda na praxe como um fenómeno e tentando perceber o seu impacto, o uso que é feito do poder e a sequente submissão a esse poder é, de uma forma interessante, passível de se verificar na engrenagem social do nosso país. Quem tem poder, usa-o muitas vezes de forma abusiva e com total impunidade e aqueles que se submetem, fazem-no acreditando que também um dia poderão usar de poder semelhante, submetendo outros à fúria desse poder. A hierarquia funciona não através do mérito, mas do uso de um poder que não pode ser questionado e que, não raras vezes, está alicerçado na corrupção.

 

Não poderei culpar as praxes pela nossa imensa tolerância à corrupção e até o desejo secreto de poder de alguma forma beneficiar dela. Talvez a praxe seja um efeito e não a causa. No entanto, através dela, de uma drástica mudança daquilo que a praxe é atualmente, poder-se-ia recuperar aquilo que deveria ser a semente do conhecimento, a chave para uma engrenagem social de sucesso — o espírito crítico.

 

Assim, urge um movimento paralelo universitário. É urgente que aqueles que não se identificam com estes rituais de «inclusão», se unam e criem um movimento de boas vindas e integração com uma diferente índole, cuja base seja a exploração daquele mundo novo e a não a humilhação como traço de união.

2 comentários

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    Sónia Pereira 17.02.2017 15:27

    E no fundo, se o propósito das praxes é a questão da integração, de certeza que haverá melhores opções para integrar os novos alunos, fazê-los sentir bem vindos naquela nova etapa, do que as praxes e a forma como são feitas.
    É como dizes: podem não fazer mal, mas são inúteis. E qualquer atividade que tem como base a obediência, a humilhação, não é uma atividade que se possa relacionar com a universidade, com o conhecimento. É a antítese dos valores universitários.
    Acho que as universidades, ao invés de se escudarem alegando que os excessos nas praxes acontecerem no exterior do recinto universitário, deviam dar um sinal inequívoco de que tais comportamentos são inadmissíveis e que que condenam aquela forma de integração.
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