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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Paul Auster e o meu plágio inadvertido

Sete mil milhões de pessoas. Na busca das minhas singularidades, da minha unicidade, digo-me, como se me cantasse uma canção de embalar, uma lengalenga hipnótica para me acalmar, me justificar: somos sete mil milhões unidos pela nossa diversidade, uma massa una pelas nossas diferenças, um ninho gigante pulsante de mentes diferentes, pois ninguém pensa de maneira igual. Mas… e há sempre um advérbio maluco que vem estragar tudo, abafar o som da minha litania, mas sendo nós diferentes, talvez o não sejamos assim tanto. Somos, muitos de nós, fruto da mesma experiência educacional, cultural, social, económica. Lemos os mesmos livros, ouvimos a mesma música, vemos os mesmos filmes, estudamos a mesma matéria na escola. Só a nossa experiência pessoal de vida, a turbulência própria de cada vivência pode apimentar e salgar a nossa maneira de percepcionar o mundo, diferenciando-o dos demais.

 

Há dez anos comecei a escrevinhar uma história. Durante anos fui redesenhando inícios, escrevendo episódios soltos que se abrigavam sob uma ideia geral, sob uma história com um mote simples. Nos últimos três anos obriguei-me a escolher uma estrutura, obriguei-me a meter aqueles personagens na ordem, aquela narrativa nos eixos. Uma frase de uma professora numa aula provocou a escolha de estrutura narrativa, uma viagem levou-me a desenvolver de determinada forma um personagem, um anseio, um medo permanente levou-me a definir a ambiência da história, atrevimentos aparentemente espontâneos dos personagens definiram o caminho, a foz onde aquela história desaguaria. Quando acabei, depois de diversas revisões, de cortes, alterações, correcções de gralhas, de parágrafos inteiros que viram traçado o seu destino como lixo electrónico, de novos parágrafos que brotaram quase como se se escrevessem sozinhos, cheguei ao ponto de considerar o meu livro acabado. Todavia, um livro é coisa que parece nunca ter fim. De cada vez que se lhe mete os olhos em cima alguma gralha pulula provocatória à nossa frente, algum aspecto afronta-nos, acusando-nos de grande pobreza mental por lá ter sido escarrapachado, novas alterações surgem forçosamente.

 

Com todo este corte e costura literário, mesmo conhecendo as limitações das minhas competências literárias, mesmo duvidando do meu domínio exímio da língua portuguesa, o que escrevi afigurava-se como algo único, uma ideia que apenas eu poderia ter, uma teia que apenas eu poderia ter tecido, um verdadeiro admirável mundo novo.

 

Deste fulgor da criação à decepção vai um nada; desta exaltação, deste amor pelo filho que se concebeu com tanto esforço, um filho no qual se pensa compulsivamente, negligenciando os seus defeitos em detrimento das suas características que são um reflexo de nós próprios (daí a atracção), desta obsessão à evidência da repetição, da vulgaridade vão apenas segundos de desconforto, segundos de um vulcão interior em erupção que solta lava e arrasa tudo à passagem.

 

Comprei um livro de Auster. Uma vida não chega para se ler tudo o que se quer ler. Se ao menos parassem de escrever, se ao menos mais nenhum livro fosse escrito talvez me julgasse capaz de ler os essenciais literários, caso a duração da minha vida, visão e clareza mental mo permitissem. Auster já andava há uns tempos na lista dos próximos, mas outros tinham-lhe passado descaradamente à frente na fila. Este verão decidi fazer-lhe justiça e decidi começar por um livro que poderei classificar de memórias. Um autor é a sua obra e não a sua vida, a sua personalidade, a sua maneira de fazer as coisas, mas há um certo conforto na confirmação de que aquela pessoa, aquele ser humano que escreve, se faz presente na vida de milhares de pessoas através das suas palavras, é também um ser humano razoável, com fraquezas, medos, ambições e frustrações, um pouco um reflexo de nós próprios nas nossas qualidades e defeitos. Há sempre um choque na descoberta de que um determinado autor que nos deleitou, que nos acompanhou durante anos é na realidade um facínora, um troglodita sem princípios ou um arrivista ambicioso que não olha a meios para alcançar o topo da sua montanha. Embora, nestes casos, a obra não perca qualidades, a luz à qual a vemos, a observamos, esmorece, perde intensidade, levando as trevas ao que parecia tão luminoso.

 

Após esta primeira leitura de Auster, consultando os resumos de outros livros do mesmo autor para futuras aquisições bibliográficas, descubro lá no meio o foco das minhas angústias. Um livro que desconhecia, mas cujo mote, cujo ponto de partida narrativo era semelhante ao da minha história. A mesma ambiência distópica, o mesmo ponto de partida narrativo e, em parte, até a mesma escolha estrutural.

 

Como poderia eu ter plagiado uma ideia de Auster sem a conhecer e, esquecendo o plágio (que não o houve), como pude eu ter uma ideia irmã da de Auster, como a acendalha que explodiu numa história pôde ser tão semelhante à de Auster, um autor cuja obra me era desconhecida até à data?!

 

Em conclusão, não sou assim tão diferente de todos os outros sete mil milhões nem as minhas ideias são assim tão originais. A forma como apimento e salgo a minha história, essa, terá alguns traços apenas meus, mas mesmo essa forma de temperar a narrativa sofrerá grandes influências da minha vivência banal, das minhas leituras estereotipadas, tornando o produto da minha criatividade pouco ou nada criativo.

 

Agora, num depósito, num qualquer armazém de uma editora repousa o exemplar daquele livro de Auster que quero ler, mas simultaneamente tenho medo, adiando a sua compra, procrastinando o encontro com a evidência do meu plágio inadvertido.