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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Os filhos

Há algo de socialmente condenável na admissão de que os filhos não são tudo, o centro do universo de uma mãe, a razão do seu acordar todas as manhãs. Embora admitir tal coisa não seja sinónimo de falta de amor pela prole, socialmente é isso que parece ser apreendido com tais palavras. Ao homem, é-lhe permitido esse desgaste causado pela existência dos filhos, essa necessidade de afastamento e preenchimento da vida com algo mais. Para a mulher, é quase como se a nossa natureza implicasse, irremediavelmente, uma devoção incondicional aos filhos, uma cegueira para tudo o resto que nos rodeia. Assim, se quisermos dizer, num lamento cansado — «Estou cansada, farta do meu filho/filha.» —, que o façamos num sussurro, sozinhas numa divisão fechada à chave, para que ninguém nos ouça.

Algumas mulheres seguem esta devoção aos filhos à risca ou porque a sua natureza assim lhes impõe ou porque não se dão sequer espaço para uma interrogação sobre aquilo que realmente sentem, optando pela via do que pensam ser esperado delas.

Ontem lia as palavras de Karl Ove Knausgård sobre os filhos e esse pequeno parágrafo ilustra essa admissão pública de que uma vida tem diversas nuances e que nem todas têm como figura principal o filho/os filhos.

Faço tudo o que tenho de fazer pela família; esse é o meu dever. A única coisa que aprendi com a vida foi a suportá-la, a nunca a pôr em dúvida, e a destruir toda a angústia através da escrita. Não faço ideia de onde surgiu este ideal e, ao vê-lo diante de mim, de modo claro, quase parece perverso: porquê o dever antes da felicidade? A questão da felicidade é banal, mas não a que se lhe segue, a questão do sentido. Quando olho para um quadro bonito comovo-me, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois amo-os com todo o meu coração, significa apenas que a importância que têm não é suficiente para dar sentido a uma vida. Pelo menos à minha.

Karl Ove Knausgård, A minha luta:1, A morte do pai, Relógio D’Água — página 36

 

a minha luta 1 a morte do pai.jpg

E, fechada numa divisão, sozinha, sorrio e aceno afirmativamente, em jeito de concordância, mas em voz alta, sentindo já a pressão de me justificar perante tal comportamento, proclamo: «Não fui eu que disse tal coisa. Foi o Karl Ove.»

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