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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

O medo — arma de destruição maciça

É difícil fazer uma análise lógica dos acontecimentos da última sexta-feira sem incorrer em extremismos, dado a emoção causada por tais eventos ainda estar muito presente, pulsar com força no peito de todos nós. As redes sociais e meios de comunicação social acabam por contribuir para esta desorientação, para este abandono que nos deixa como animais perdidos no meio de uma estrada movimentada.

A razão para tais actos serem perpetrados por seres humanos «normais», o peso de uma certa religião nas motivações por detrás dos ataques, a responsabilidade ou falta dela das vagas migratórias, o gladiar entre facções que apoiam ou condenam as demonstrações públicas de apoio às vítimas através da colocação da bandeira francesa como imagem de fundo nas redes sociais (porque outras desgraças acontecem no mundo sem que ninguém se digne a meter e tirar bandeiras), todos estes assuntos revolvem num turbilhão as horas sequentes aos lastimáveis ataques em Paris.

Na suposta segurança da minha sala de estar, consigo captar alguns aspectos importantes que estarão seguramente ligados ao que aconteceu na sexta-feira passada. O mundo é um local violento; talvez não estejamos habituados a que o mundo ocidental o seja, mas a violência não pára e todos os dias morrem pessoas às mãos assassinas de outras sob o estandarte de alguma ideologia ou crença; não será possível olhar para aqueles actos em particular sem recuar no tempo, analisar coisas como a génese da Síria como país, os conflitos mais recentes no país e todos os seus intervenientes e analisar ainda os conflitos na região e como todos estes factores contribuíram para o aparecimento do gang do autoproclamado estado islâmico; talvez o mundo ocidental, tão pouco habituado a conflitos no seu território, tenha ajudado, patrocinado, conflitos em território alheio e, através de jogos de poder e interesse, tenha contribuído para o aparecimento de tais extremistas.

Todas estas análises deverão ser feitas e só depois delas, uma acção deve ser delineada por quem de direito.

O nosso medo impele-nos a exigir estratégias mais simples — acabar com a vaga migratória, com a entrada de refugiados em solo europeu, exigir dos estados medidas drásticas de protecção que, quase seguramente, passarão pela diminuição de liberdades e de conquistas recentes, ordenar a altos berros que as forças militares os bombardeiem a todos, àqueles assassinos, como se não houvesse amanhã, impele-nos ainda a desconfiar, mesmo que não ostensivamente, de todos os cidadãos muçulmanos e da religião islâmica como um todo.

No entanto, o nosso medo, mesmo que legitimado pelos recentes acontecimentos, não deve subjugar-nos. Mesmo que ele nos corroa de alto a baixo, devemos conseguir reflectir e fazer esse medo ajoelhar-se aos nossos pés, pois a união dos nossos medos é a mais poderosa arma que esta quadrilha (e não somente esta, mas qualquer quadrilha criminosa) poderá usar contra nós, é uma verdadeira arma de destruição maciça com resultados devastadores imprevisíveis.