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Quimeras e Utopias

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O filho único — pecado social

Quando se tem apenas um filho, a sugestão/imposição de se ter mais um descendente tornou-se um verdadeiro desbloqueador de conversas entre amigos e conhecidos. Essa sugestão surge em todos os diálogos, mesmo quando mal conhecemos os nossos interlocutores e estamos a ter apenas uma conversa de circunstância.

 

Aquelas frases tão simples — Agora vem uma menina, para ficarem com um casalinho; só um não pode ser, têm de dar um irmãozinho ou uma irmãzinha ao menino —, esbarram de frente com as convicções pessoais dos pais, como se a minha opinião, as minhas opções de vida, a minha situação financeira, a maneira como eu e o meu marido vemos o mundo e daí extrapolamos para as decisões das nossas vidas, como se tudo isso fosse irrelevante perante o crime social de ter apenas um filho.

 

Quando, sem querer ferir suscetibilidades, mostro a minha renitência em voltar a ser mãe, logo se perfilam à minha frente os argumentos pró-procriação que supostamente me farão mudar inevitavelmente de ideia:

 

— É um egoísmo ter só um filho. Seria muito bom para a criança ter um irmão ou irmã;

— O filho único será extremamente mimado, não saberá partilhar, será pouco sociável;

— Se lhe acontecer alguma coisa (que deus assim não o queira), fica-se sem filho nenhum, o que seria um grande desgosto;

— Deve-se ter pelo menos dois filhos para a contribuição futura para a segurança social ser equivalente à do casal na atualidade;

— Cada vez há menos crianças, o país está envelhecido, por este andar os portugueses ficarão reduzidos a meia dúzia;

— Se o casal tiver um só filho, ou mesmo nenhum, quem cuidará deles quando forem velhos? Um maior número de filhos, uma maior probabilidade de se ser amparado na velhice por um ou vários deles;

— Com mais ou menos dinheiro eles criam-se. Antigamente os pais tinham uma meia dúzia de filhos e criavam-se todos.

 

Ser pai e ser mãe, apesar de ser algo de acesso transversal a todos os seres humanos quando encaixados dentro de certas circunstâncias, não deve ser encarado de forma tão leviana, ato resultante de uma equação primária ou opção tomada de forma impulsiva. A forma como eu vejo o mundo, as minhas análises, as minhas opções têm de ter mais valor do que todos os argumentos que me apresentam, porque no final, quem será mãe e pai não serão aqueles que me expõem as suas sugestões de procriação, mas eu e o meu marido.

 

Sobre este assunto, muito poderia desfiar acerca das minhas convicções e as do meu cônjuge, pensamentos de ordem mais filosófica sobre a engrenagem do mundo, das sociedades, mas desta vez cinjo-me apenas a este constrangimento de me sentir uma pecadora social por ser mãe de apenas um filho.

 

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