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Quimeras e Utopias

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O Evangelho segundo Lázaro — Richard Zimler

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O Evangelho segundo Lázaro, Richard Zimler, Porto Editora (fotografia retirada do site da Porto Ediora)

 

A propósito do lançamento do livro O Evangelho segundo Lázaro de Richard Zimler, decidi falar sobre o livro, apesar de ainda não o ter ligo. Alguns críticos talvez façam algo do género, lendo obliquamente a obra que pretendem criticar, cedendo à amizade ou proximidade com o autor ou fazendo uma suave concessão aos seus ódios de estimação. No entanto, o que farei não será uma crítica, mas um elogio ao autor do livro em questão. Irei revisitar as minhas leituras da sua obra, fazer uma pequena viagem à década em que me acompanhou com as suas palavras.

 

Há muitos anos (caminho para velha, é verdade), vi na televisão uma entrevista a Richard Zimler. Já tinha ouvido falar nele, mas ainda não tinha lido nenhum dos seus livros. Algo naquela entrevista intimista me impulsionou a procurar a sua obra numa ida futura à livraria. Na altura comprei o que era o romance mais conhecido do autor — O último cabalista de Lisboa. Depois desta leitura, Lisboa não voltou a ser a mesma. Sentia os fantasmas daqueles dias de horror gravados nas pedras dos edifícios, sentia uma atmosfera de medo, perseguição, a pairar no ar que respirava. Após esta experiência literária, comprei todos os livros que o autor tinha publicado em Portugal. Lembro-me de estar na praia a ler Meia-Noite ou o Princípio do mundo e, sentada na areia, sentir uma doce familiaridade com partes do texto e há algo de absolutamente ambíguo, assustador e feliz, quando descobrimos alguém que consegue ver o mundo com os nossos próprios óculos, quando alguém distante nos parece tão próximo e familiar.

 

Recordo ainda um domingo em que passei o dia todo a ler À procura de Sana até ao ponto da minha cabeça doer. Ao ler a última página e fechar o livro, estava mergulhada numa dor que era física, mas transbordava o corpo, submergindo-me numa melancolia que não me deixava abandonar aquele mundo que se encerrava naquelas páginas. Toda eu, matéria e pensamento, estava cativa naquele outro mundo e demorou dias a partir as grilhetas, soltar-me econseguir distanciar-me.

 

Naquela altura (tal como agora), Zimler afigurava-se como um dos autores que mais apreciava. Nunca fui muito de ter coisas preferidas (livro preferido, filme preferido, música preferida, comida preferida), mas ainda assim permitia-me colocar aquele escritor na minha galeria de prediletos, onde figuravam aqueles que não exigiam explicação sensata para a leitura de um seu novo livro.

 

Numa era pré redes sociais onde a distância entre escritores e leitores era sem dúvida maior do que na atualidade, cedi a um arrojamento qualquer e enviei um email a Richard Zimler. Era uma escritora de trazer por casa (ainda o sou) e resolvi pedir-lhe alguns conselhos, sugestões e também manifestar-lhe o meu apreço pela sua obra. Para grande surpresa minha (enviei o email sem realmente contar com uma resposta), Zimler respondeu-me com um texto longo e simpático onde me deu várias sugestões, falou sobre a sua experiência pessoal como escritor e todo o caminho até à publicação. Aquele gesto de consideração para com uma sua leitora contou muito para mim e destacou-o de uns certos comportamentos de altivez e distanciamento exibidos por alguns autores na altura.

 

Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente nos seus lançamentos de novos livros e pude disfrutar de um jantar com ele e mais uns quantos seus leitores. Tinha concorrido a um concurso da livraria Bertrand que dava direito aos vencedores de poderem jantar com um escritor de sua eleição. Quando me telefonaram a dizer que tinha sido selecionada, a minha reação de júbilo levou os meus colegas de escritório a pensarem que tinha ganhado um carro, uma viagem ou um prémio avultado em dinheiro.

 

E se a fruição de uma obra não tem de estar intimamente ligada à pessoa que a executou, perceber que Richard Zimler, para além de ótimo escritor, era também uma pessoa especial, um ser humano com qualidades (daquelas que se apreciam nas pessoas que nos são próximas, que queremos ter por perto), só contribuiu para que passasse a ler os seus livros com uma diferente devoção e carinho, para que tentasse ver para além das palavras impressas e conseguisse ver e compreender o homem que as escreveu.

 

Assim sendo, não sinto necessidade de fazer qualquer reflexão sobre a compra do seu novo livro. Está encomendado e é para ler mal chegue às minhas mãos, mesmo desconhecendo as críticas literárias que lhe foram feitas ou as opiniões de outros leitores que já o leram. Quando se tem um autor na nossa galeria de especiais, não há racionalidade que nos valha.

 

Prometo fazer uma verdadeira crítica quando acabar a leitura, embora seja péssima a fazer críticas. Deixo-me sempre levar pelas emoções e fico muito aquém na questão da objetividade e capacidade de síntese da obra. Mas ainda assim, tentarei.

 

Até lá, boas leituras.

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(Fotografia de Richard Zimler retirada do site www.wook.pt)

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