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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

O cheiro a verão queimado

A minha terra é uma pequena localidade rodeada de floresta. Algumas freguesias mais densamente povoadas por pinheiros, carvalhos e eucaliptos, outras mais povoadas por pessoas, mas todas elas com a floresta bem presente em cada vislumbre pela paisagem circundante. Com a chegada do verão, a subida das temperaturas conjugada com o característico vento estival são um prenúncio fatal de um incêndio próximo. E quando, a meio da noite, ouço o lamento incansável da sirene dos bombeiros, sinto no peito aquele aperto de desgraça cumprida. Sempre foi assim e parece que sempre há de ser. Um verão manchado, mascarrado pelo fogo. Um cheiro a queimado no ar, as nuvens de fumo que filtram o sol e transformam as sombras da manhã em sombras do ocaso, as cinzas e pequenas folhas queimadas que bailam no ar, trazidas pelo vento, aterrando no meu quintal. E parece que o verão, o calor, a brisa que corta a canícula não podem ser sinónimo de férias, ócio, prazer, têm forçosamente de se transmutar nisto, em terra queimada.

 

Desde pequena que o fogo marcou a ideia que tenho da minha terra e desde pequena que fui elaborando pensamentos sobre castigos, motivações, quando me parecia que a origem do incêndio era notoriamente criminosa. Quando os fogos começam no meio de uma mata ao meio da noite não restam grandes dúvidas sobre o assunto. Com o tempo comecei a afirmar que um crime de fogo posto deveria ser equiparado a um crime de terrorismo. O que arde é muito mais do que árvores: arde a fonte de sustento ou ajuda ao sustento de famílias, ardem árvores que nos ajudam a respirar, a viver, arde o habitat de centenas e diversos animais, muitas vezes ardem casas de habitação, currais com animais dentro, ardem árvores, algumas delas centenárias, que demoram anos até atingirem um tamanho considerável, a sua idade adulta, sendo muitas vezes substituídas após o incêndio por árvores de mais rápido crescimento, como por exemplo o eucalipto. Com tudo isto, chega não raras vezes o medo que a população sente pelo aproximar das chamas, pela ameaça que lhes coloca em risco a vida, os pertences, em suma, tudo. Depois, é a paisagem chamuscada, a terra queimada, a lembrança que tarda em desvanecer tatuada à força nas encostas, nas serras, nos vales. Um fogo não dura apenas os dias em que consome o mato como um monstro esfomeado. Um fogo dura anos até a floresta se recompor, os habitats se restabelecerem, os animais voltarem, as árvores crescerem.

 

Com tudo isto, sempre dirigi uma espécie de ódio às pessoas anónimas que tinham a crueldade de, a meio de uma noite de verão, provocarem um incêndio. Mas agora percebo que é um ódio oco, sem sentido, ainda mais quando, olhando para outras localidades, para outras detenções de incendiários, se percebe quem são aquelas pessoas, aqueles que aos meus olhos eram autênticos terroristas — alcoólicos, pessoas que vivem à margem da sociedade, em famílias disfuncionais, com graves problemas económicos, pessoas que muitas vezes apenas querem chamar a atenção, trazer até si o circo mediático dos bombeiros, das televisões, das aberturas dos telejornais, pessoas infelizes na sua falta de educação e cultura, pessoas que observam o que as rodeia de forma abruptamente diferente da minha, pessoas que não têm uma ideia real do impacto dos seus atos, piromaníacos na aceção real da palavra, pessoas com perturbações mentais não diagnosticadas.

 

E a desgraça parece maior quando não temos um alvo nítido, válido a quem atirar as culpas. Se a prevenção dos incêndios passa pela limpeza das matas, por atitudes que evitem negligência grosseira que acabe em fogo (evitar as queimadas, os churrascos na floresta, atirar beatas, etc.), passa também por uma prevenção mais geral, a longo prazo, pela transformação da sociedade através da educação, através do acompanhamento e apoio de pessoas que sentem dificuldades várias (económicas, de saúde, de integração, de educação). O rosto da culpa está em cada incendiário, mas está também um pouco em todos nós e nas evoluções sociais, educacionais que deveríamos, enquanto sociedade, exigir a quem nos governa. Só assim os fogos de origem criminosa poderão diminuir, só assim o verão poderá ser novamente verão e não verão com cheiro a queimado e mascarrado de negro.

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