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Quimeras e Utopias

Quimeras e Utopias

Nós e os outros

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Nunca me senti a salvo de qualquer mal, nunca me senti protegida por um qualquer desígnio divino, uma proteção especial para alguém não tão especial quanto isso. Quando via e vejo imagens de guerra, de conflitos, o que ali está representado não me afeta apenas como um conceito que conheço, mas que me é alheio, afeta-me como se lá estivesse. Pior, afecta-me como se aquilo, lá longe, pudesse ser aqui, cá perto. E vivo neste medo constante. Não há nada que me faça acreditar que estou protegida e que o estarei durante toda a minha vida, assim como não há nada que me faça acreditar que sou especial, a escolhida, e que eles, os das fotografias, são os outros, aqueles a quem lhes calhou a «sorte» de nascer no lugar errado à hora errada.

 

Este medo passou para aquilo que escrevo. Há uns tempos escrevi um livro que tinha como cenário um Portugal atual em guerra. Não descrevi aquele país como um cenário apocalíptico, uma realidade distópica, mas como uma possibilidade, um espelho de realidades em guerra que também já foram realidades em paz. De uma das editoras, recebi gentilmente um comentário ao manuscrito, uma justificação para a não publicação. O «gentilmente» não é sarcástico. As editoras, não sendo consultoras editoriais, nunca comentam as razões das não publicações com os autores. Neste caso, penso que me foi útil perceber o que poderia melhorar e perceber ainda as diferentes formas como os outros veem aquilo que escrevo.

 

Uma das críticas prendia-se precisamente com a cenário apocalíptico, a fazer lembrar algumas sagas literárias de fantasia, um cenário que não poderia ter nada em comum com o país que conhecemos. Embora esta não tenha sido, com toda a certeza, a principal razão da não publicação do livro (a minha inabilidade não pode ser desculpada com detalhes), fez-me ficar a pensar que a forma como eu vejo o sofrimento, a guerra, encurtando distâncias, trazendo tudo aquilo até mim, até ao hoje e ao agora, não é semelhante à das outras pessoas (ou à de algumas delas, pelo menos).

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Para certas pessoas, a imagem é apenas imagem. Este homem, rodeado de caos, caos que aos meus ouvidos grita guerra, fome, sofrimento, dor, morte, perda, é visto pelos outros como uma imagem de beleza catastrófica, uma apoteose bélica que retrata uma etnicidade que não é a nossa, que nos pode puxar ao sentimento, à compaixão pelo próximo, mas que permite que essa emoção seja desligada em segundos, substituída em menos de nada pela indiferença.

 

Secretamente, gostava de ser assim. Gostava de não sentir o cheiro a munições, a putrefação, a lixo, gostava de não conseguir antever naquele olhar o medo, a incerteza, o sobressalto contínuo. Gostava de olhar e não perceber ou relativizar, gostava de os ver como os Outros e não como os Nós, gostava de acreditar que aquela terra é a terra Deles e não a Nossa terra. Gostava. Tudo isso seria preferível à sensação de injustiça perpétua, à procura constante do sentido da vida, quando esta não parece ter qualquer sentido, obedecer a qualquer lógica. Tudo isso seria preferível ao medo.